PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

NO DIA DO NORDESTINO, DOIS GRANDES REPENTISTAS DA TERRA

Valdir Teles e João Paraibano glosando o mote:

Deus pintou o sertão de poesia
Meu orgulho é ser filho do sertão

* * *

Valdir Teles (1956-2020) e João Paraibano (1953-2014)

* * *

IMPROVISOS DE JOÃO PARAIBANO E VALDIR TELES

João Paraibano

Eu fiz meu verso da grota
Que secava no verão,
Da cera que eu colocava
Na ponteira do pião,
No baião da lata seca
Nas pedras do cacimbão.

Valdir Teles

Minha mulher já brigou
Com minha própria cunhada,
Chamou a irmã safada
Porque me cumprimentou.
Inda ontem perguntou
Por que é que essa cadela,
Só vem na minha janela
Quando você se apresenta?
Eita mulher ciumenta
Essa que casei com ela!…

João Paraibano

A cabra abana as orelhas
para espantar o mosquito,
e se acocora lambendo
os cabelos do cabrito,
depois vai olhar de longe
pra ver se ficou bonito!

Valdir Teles

Pra quem vive encarcerado
Uma hora vale três
Um dia vale a semana
A semana dura um mês
Trinta dias dura um ano
E um século de desengano
Pra quem vive no xadrez

João Paraibano

Vê-se a serra cachimbando…
Na teia, a aranha borda;
O xexéu canta um poema;
Depois que o dia se acorda,
Deus coloca um batom roxo
Na flor do feijão de corda.

Valdir Teles

Meio-dia o sol é quente
Mas de maneira adversa
A luz que encandecia
A tarde raia dispersa
O sol vira mar de ouro
E o céu um tapete persa.

João Paraibano

Do nevoeiro pra o chão
a nuvem faz passarela;
o sapo pinota n’água,
entra na lama e se mela;
faz uma cama de espuma
pra cantar em cima dela.

Valdir Teles
(Quando da morte de Pinto do Monteiro)

No momento em que Pinto faleceu
As violas pararam de tocar
Deus mandou o Nordeste se enlutar
Respeitando o valor do nome seu
Pernambuco ao saber entristeceu
Paraíba até hoje está doente
Só tem galo cantando atualmente
Porque Pinto mudou-se do poleiro
Com a morte de Pinto do Monteiro
Abalou-se o império do repente.

João Paraibano

Sempre vejo a mão divina
no botão de flor se abrindo,
no berço em que uma criança
sonha com Jesus sorrindo;
a mão caçando a chupeta
que a boca perdeu dormindo.

Valdir Teles

Pai vinha de São José
Com uma bolsa na mão
Minha mãe abria a bolsa
Me dava a banda de um pão
Porque se desse o pão todo
Faltava pro meu irmão

João Paraibano

Cai a chuva no telhado,
a dona pega e coloca
uma lata na goteira,
onde a água faz barroca:
cada pingo é um baião
que o fundo da lata toca.

Valdir Teles

Aprendi a cantar vendo um chiqueiro
Entupido de bode e de marrã,
Um vaqueiro ordenhando de manhã,
Um suíno fuçando no terreiro,
Vinte ou trinta galinhas no poleiro,
Um bichano dormindo num fogão,
Um jumento espojando no oitão
E um cachorro debaixo de uma mesa
Aprendi a cantar a natureza
Pesquisando a história do sertão.

João Paraibano

Quando esbalda o nevoeiro,
rasga-se a nuvem, a água rola,
um sapo vomita espuma;
onde o boi passa se atola,
e a fartura esconde o saco
que a fome pedia esmola.

Valdir Teles

No sertão a fartura as vezes dobra
Quando a máquina da chuva funciona,
Milho verde, jerimum, feijão, mamona,
Toda casa do sítio tem de sobra.
Quando o tejo é mordido pela cobra,
Mete o dente no tronco de um pinhão,
Recebe o leite que serve de injeção
Contra o líquido que a cobra tem na presa
Aprendi a cantar a natureza
Pesquisando a história do sertão.

João Paraibano

O que mais me admira
É ver o sapo inocente
Que gosta de lama fria
Mas detesta a terra quente
Vendo da cobra o pescoço
Pinota dentro do poço
Pra se livrar da serpente.

Valdir Teles

Em lagoa, riacho, rio e poço
A traíra constrói sua morada
Se a quentura do sol não lhe agrada
O porão do açude é um colosso
É o peba um trator de carne e osso
Faz alavanca da unha e cava o chão
Pra fazer sua própria construção
Sem gastar um centavo de despesa
Aprendi a cantar a natureza
Pesquisando a história do sertão.

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Valdir Teles

Sem ter nível, colher, prumo e escada
João de barro tornou-se um arquiteto
Aprendeu com Jesus fazer projeto
Pra depois construir sua morada.
Na beleza da pena desenhada
Outra ave não ganha do pavão
Foi pintada com tanta perfeição
Pra não ser superado na beleza
Aprendi a cantar a natureza
Pesquisando a história do sertão.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BAIANINHAS AVANÇADAS

Seu Magalhães, alto funcionário federal, foi transferido da cidade de Salvador para trabalhar em Maceió. Além da mudança trouxe a família. A mulher Luíza e as filhas, três moças bonitas: Betinha, Licinha e Lourdinha, três baianinhas modernas.

Magalhães alugou um sobrado nos arredores da Ladeira do Farol. Com pouco tempo ambientou-se com gente importante da cidade. Tornaram-se frequentadores assíduos de sua casa algumas figuras da política, do comércio e da justiça alagoana. Autoridades civis, militares e eclesiásticas, não perdiam a feijoada de sexta-feira na casa de Magalhães.

Graças à modernidade e o modo acolhedor de sua bonita esposa e filhas, Seu Magalhães, com pouco tempo morando na cidade, já era considerado o maior corno de Maceió.

Sua casa era uma festa. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados. Como também amigos que as meninas faziam na escola, na praia, na rua.

Dona Luíza e suas diletas filhas tinham um comportamento bem avançado para aquela época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Magalhães eram dadas às coisas muito mais avançadas. Elas inventaram a moda de “ficar”. Não tinham namorados fixos; o primeiro a chegar tinha direito de arrastar para onde fosse melhor passar algum tempo no xumbrego. Era namoro de alta rotatividade.

Os que tinham carro levavam vantagem. Mesmo assim, sobrava carinho para os mais jovens, os universitários, os jovens que faziam a alegria da cidade.

Eu havia chegado de férias em Maceió. Fardado de cadete do Exército da Academia Militar das Agulhas Negras tomei um ônibus na Avenida da Paz para me apresentar no 20º BC. Quando parou em um ponto na Rua do Sol entrou uma moça de pele rosada, cabelos castanhos cacheados, com um decote chamativo. Olhou para os passageiros do ônibus, sorriu, dirigiu-se e sentou-se a meu lado. Com um sorriso franco iniciamos uma alegre e interminável conversa. Assim fui convidado e passei a ser assíduo frequentador da casa de Seu Magalhães nas feijoadas das sextas-feiras. Era muito bem tratado.

Durante a semana, a casa era tranquila, a madame e as filhas arranjaram empregos na Assembleia Legislativa e no Tribunal. De qualquer forma às noites eram animadas.

Naquela época em Maceió havia o elegante Baile de Máscaras um mês antes do carnaval no Clube Fênix Alagoana, o mais aristocrático da cidade. Era um baile chique. Só entrava fantasiado ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite. Festa animada, bonita e tradicional.

Como era em benefício a um Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso apenas para sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa, todos podiam comprar. As fantasias também eram suntuosas.

Durante o Baile, eu notei que junto a mesa de minha família havia uma mesa com um grupo de odaliscas animadas comandada por um marajá. Falaram comigo animados, mas só descobri que era Seu Magalhães, a mulher e filhas, quando a Licinha passou por mim, me arrastou para o meio do salão, dançamos, nos divertimos com as marchinhas e frevos tocados pela Banda do Passinha. Eu, solteiro, dava volta nas beiradas do salão e a Licinha cumprimentava os figurões num aceno de mão. Eles ficaram intrigados tentando descobrir quem era aquela Odalisca de barriga tão bonita, a máscara sobre o rosto não dava para reconhecer. Quando deu meia noite, alguns foliões tiraram a máscara inclusive, o Magalhães e família.

À medida que os sócios do Clube Fênix que eram sócios também da casa do Magalhães perceberam a mesa animada das odaliscas, o harém, ficaram preocupados. Muitos eram casados, noivos, outros estavam com a namorada no baile. Foi um reboliço. Alguns senhores evitavam passar pela mesa das Odaliscas, região de provável conflito árabe.

Certo momento eu percebi que um dos diretores foi conversar com Seu Magalhães. Ele levantou-se, caminharam para um jardim discreto no lado de fora do ginásio. Passaram quase uma hora conversando, enquanto isso as baianinhas assanhadíssimas, sem máscaras, rodavam pelo salão, cumprimentavam os amigos, sem cerimônia, algumas esposas perguntaram quem era aquela sirigaita. .

Seu Magalhães retornou à mesa, confabularam. Em pouco tempo a família se retirou do clube sem chamar atenção. Praticamente expulsaram a família das baianas do clube. Contudo, Seu Magalhães nem estava aí, nem se sentiu humilhado, fez um cálculo do valor da mesa comprada, dos gastos com as fantasias, bebidas e pediu o triplo do gasto total para sair do clube. O dinheiro foi rapidamente arrecadado, um magnata do comércio de automóveis, não podia aparecer, completou o resto que faltava.

Quando Magalhães saiu, houve um alívio por parte dos senhores da alta roda. Dançaram despreocupados pelo resto da noite com suas madames. A família de Seu Magalhães foi para casa, feliz da vida, havia dançado por mais de três horas no Clube da Alta Burguesia e receberam o dinheiro que o pai dividiu para os cinco. Na sexta-feira seguinte, como se nada tivesse acontecido, todos estavam na feijoada do Magalhães, o maior corno da cidade.

DEU NO X

FAZ PENA…

* * *

A coisa tá mesmo feia pra Globosta.

O maldoso do Bolsonaro cortou todos os peitinhos adonde a emissora mamava verbas públicas, e tá secando o caixa da Vênus Platinada.

Que ruindade do genocida, agora promovido a comentaristicida.

Acabei de enviar mensagem pro desolado Galvão oferecendo espaço aqui no JBF.

Ele pode assinar uma coluna especializada em futebol enquanto não aparece uma ocupação menos escrota que a nossa.

Já informei que ele terá uma audiência bem maior que os números da Globosta nos últimos tempos.

DEU NO JORNAL

VAGABUNDAGEM USPIANA

Na Universidade de São Paulo (USP), de gloriosas tradições, faculdades como o admirado curso de Direito do Largo de São Francisco, caíram na conversa mole de sindicalistas pelegos, avessos ao batente, e se recusam a retomar as atividades presenciais suspensas em março de 2020.

Uma portaria da USP determinou o retorno no início deste mês, um ano e cinco meses depois, mas foi ignorada, apesar do grave prejuízo à formação acadêmica no Estado onde a vacinação está muito avançada.

É a malandragem como um dos tristes legados da pandemia de covid.

Quem decide, além da USP, é a secretaria estadual de Educação, mas ninguém se mexe e a preguiça continua sendo remunerada.

Oito das 25 unidades da USP, como a Escola de Comunicações e Artes (ECA) e o Instituto de Psicologia (IP), optaram pela vida na maciota.

Outros cursos importantes estão prejudicados, como Economia, Filosofia, Ciências Matemáticas e Computação e Relações Internacionais.

* * *

Isso se resume numa única expressão:

Zisquerdismo uspiano vagabundal paulofreiriano.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

COMENTÁRIO DO LEITOR

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CIRCOS

O Gran Circo Hong Kong estava armado numa favela, em Serrambi-PE. Entrada baratinha, 5 pratas, com direito a tudo que se tem direito em circos que lembram os da nossa infância. Menos o picadeiro. Antes, pó-de-serra; hoje, só uma lona velha. Nesse, trabalhavam 6 pessoas. Antes da sessão, um cuidava da bilheteria, outro das entradas, os demais vendiam pipoca, bombom, algodão-doce. Trabalho solidário. A noitada começou com Roberto, o equilibrista do arame. Apesar da malha preta rasgada, e do sapato roto, não caiu. Aplausos. Depois, se transformou no palhaço Biribala. E ainda teve fôlego para se exibir, no fim da sessão, como domador de animais. Só que, estando o custo de vida pela hora da morte, um circo desses não iria conseguir mesmo pagar nem um pedaço da carne exigida por animais de grande porte ‒ como tigre ou leão. E o pobre Roberto, domador de tantos dotes, teve que se contentar em trabalhar com um mero bode. O bodinho Edmundo, como berrava entusiasmado o locutor.

Depois veio Mister Carlos, o homem de gelo. Que engolia fogo rebolando de um jeito que sei não. E soltava labaredas, com o auxílio do querosene que guardava em uma latinha de Skol. De vez em quando, um gole d’água para limpar a boca. Atrapalhou-se e, em vez de água, bebeu foi o próprio querosene. E quase morreu. Melhor fez o palhaço Espoleta, bem novinho, 6 anos (por aí). Tinha olhos tristes. Dia seguinte o vi brincando, na areia, com um carrinho de plástico azul. Difícil imaginá-lo distante desse ofício de criança que é o de brincar sem receios do futuro. Joseane, a mulher dos cabelos de aço, entrou correndo e foi logo se jogando para plainar sobre as cadeiras de plástico da plateia. Divina e majestosa. Só que o locutor (um certo França), e mais Mister Carlos (o tal homem do gelo), deveriam ter puxado a corda presa em seus cabelos, garantindo a decolagem. Mas estavam conversando e nem prestaram atenção em Joseane, coitada. Deu tudo errado. E a pobre acabou se esborrachando em meio ao distinto público. Por fim apareceu Gardênia, a indefectível vedete que sempre anima circos de interior. Dublando música de duplo sentido. Dublando, aqui para nós, é exagero. Abrindo a boca, seria uma descrição mais fiel do seu número. Pena só que o tempo já de muito havia passado, para Vovó Gardênia.

Comparo tal circo aos que agora se exibem, no Planalto Central. Diferentes, embora. Que, num, gente humilde tenta sobreviver com seu trabalho digno. Enquanto, nos outros, sobra só a sanha de se exibir, a qualquer custo, nas TVs. A esperança de prescrição dos seus processos, no Supremo. A preocupação em proteger parceiros, acusados de corrupção, nos estados e municípios. E um exagero do sabe com quem estão falando? Sabemos, senhores. Sabemos.