CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Seu Magalhães, alto funcionário federal, foi transferido da cidade de Salvador para trabalhar em Maceió. Além da mudança trouxe a família. A mulher Luíza e as filhas, três moças bonitas: Betinha, Licinha e Lourdinha, três baianinhas modernas.

Magalhães alugou um sobrado nos arredores da Ladeira do Farol. Com pouco tempo ambientou-se com gente importante da cidade. Tornaram-se frequentadores assíduos de sua casa algumas figuras da política, do comércio e da justiça alagoana. Autoridades civis, militares e eclesiásticas, não perdiam a feijoada de sexta-feira na casa de Magalhães.

Graças à modernidade e o modo acolhedor de sua bonita esposa e filhas, Seu Magalhães, com pouco tempo morando na cidade, já era considerado o maior corno de Maceió.

Sua casa era uma festa. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados. Como também amigos que as meninas faziam na escola, na praia, na rua.

Dona Luíza e suas diletas filhas tinham um comportamento bem avançado para aquela época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Magalhães eram dadas às coisas muito mais avançadas. Elas inventaram a moda de “ficar”. Não tinham namorados fixos; o primeiro a chegar tinha direito de arrastar para onde fosse melhor passar algum tempo no xumbrego. Era namoro de alta rotatividade.

Os que tinham carro levavam vantagem. Mesmo assim, sobrava carinho para os mais jovens, os universitários, os jovens que faziam a alegria da cidade.

Eu havia chegado de férias em Maceió. Fardado de cadete do Exército da Academia Militar das Agulhas Negras tomei um ônibus na Avenida da Paz para me apresentar no 20º BC. Quando parou em um ponto na Rua do Sol entrou uma moça de pele rosada, cabelos castanhos cacheados, com um decote chamativo. Olhou para os passageiros do ônibus, sorriu, dirigiu-se e sentou-se a meu lado. Com um sorriso franco iniciamos uma alegre e interminável conversa. Assim fui convidado e passei a ser assíduo frequentador da casa de Seu Magalhães nas feijoadas das sextas-feiras. Era muito bem tratado.

Durante a semana, a casa era tranquila, a madame e as filhas arranjaram empregos na Assembleia Legislativa e no Tribunal. De qualquer forma às noites eram animadas.

Naquela época em Maceió havia o elegante Baile de Máscaras um mês antes do carnaval no Clube Fênix Alagoana, o mais aristocrático da cidade. Era um baile chique. Só entrava fantasiado ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite. Festa animada, bonita e tradicional.

Como era em benefício a um Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso apenas para sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa, todos podiam comprar. As fantasias também eram suntuosas.

Durante o Baile, eu notei que junto a mesa de minha família havia uma mesa com um grupo de odaliscas animadas comandada por um marajá. Falaram comigo animados, mas só descobri que era Seu Magalhães, a mulher e filhas, quando a Licinha passou por mim, me arrastou para o meio do salão, dançamos, nos divertimos com as marchinhas e frevos tocados pela Banda do Passinha. Eu, solteiro, dava volta nas beiradas do salão e a Licinha cumprimentava os figurões num aceno de mão. Eles ficaram intrigados tentando descobrir quem era aquela Odalisca de barriga tão bonita, a máscara sobre o rosto não dava para reconhecer. Quando deu meia noite, alguns foliões tiraram a máscara inclusive, o Magalhães e família.

À medida que os sócios do Clube Fênix que eram sócios também da casa do Magalhães perceberam a mesa animada das odaliscas, o harém, ficaram preocupados. Muitos eram casados, noivos, outros estavam com a namorada no baile. Foi um reboliço. Alguns senhores evitavam passar pela mesa das Odaliscas, região de provável conflito árabe.

Certo momento eu percebi que um dos diretores foi conversar com Seu Magalhães. Ele levantou-se, caminharam para um jardim discreto no lado de fora do ginásio. Passaram quase uma hora conversando, enquanto isso as baianinhas assanhadíssimas, sem máscaras, rodavam pelo salão, cumprimentavam os amigos, sem cerimônia, algumas esposas perguntaram quem era aquela sirigaita. .

Seu Magalhães retornou à mesa, confabularam. Em pouco tempo a família se retirou do clube sem chamar atenção. Praticamente expulsaram a família das baianas do clube. Contudo, Seu Magalhães nem estava aí, nem se sentiu humilhado, fez um cálculo do valor da mesa comprada, dos gastos com as fantasias, bebidas e pediu o triplo do gasto total para sair do clube. O dinheiro foi rapidamente arrecadado, um magnata do comércio de automóveis, não podia aparecer, completou o resto que faltava.

Quando Magalhães saiu, houve um alívio por parte dos senhores da alta roda. Dançaram despreocupados pelo resto da noite com suas madames. A família de Seu Magalhães foi para casa, feliz da vida, havia dançado por mais de três horas no Clube da Alta Burguesia e receberam o dinheiro que o pai dividiu para os cinco. Na sexta-feira seguinte, como se nada tivesse acontecido, todos estavam na feijoada do Magalhães, o maior corno da cidade.

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