J.R. GUZZO

O PAÍS DOS LIMITES

É realmente curioso, para um país tão obcecado com a salvação da democracia como é o Brasil de hoje, que não se consiga mais usar a palavra “liberdade” sem, na mesma hora, usar junto a palavra “limite”. Temos, com o barulho de um vulcão ativo, até um inquérito perpétuo para descobrir, processar e punir “atos antidemocráticos”; seus gestores, no Supremo Tribunal Federal, querem tornar o Brasil seguro para a democracia, e para executar sua missão se deram o direito de passar por cima de qualquer lei em vigor no País. Mas a liberdade não está na alma da democracia que tanto se quer salvar? Está e não está. A defesa das “instituições” tem de ficar acima de tudo – inclusive dos direitos individuais indispensáveis para haver cidadãos livres. Ficamos assim, então: para salvar a democracia, temos de liquidar a liberdade.

A má vontade com a ideia geral de liberdade fica evidente na tendência, cada vez mais agressiva, de explicar que ninguém deve ser realmente livre. Não se usa mais isso hoje em dia, dizem o STF e o sistema judiciário, as classes intelectuais e o mundo político, a elite e a mídia em geral; liberdade tem de ter limites. É mesmo? E quem está dizendo o contrário? A liberdade, desde sempre, é limitada pela lei; até pelo Código Penal, no caso específico da liberdade de expressão. A questão não está aí, nesta suposta necessidade de combater a anarquia. O que se quer, no Brasil de hoje, é deixar as pessoas com menos liberdade – tanto que se fala cada vez mais em “limites” e cada vez menos em liberdade. O resto é hipocrisia.

Os vigilantes da democracia estão querendo, no mundo das realidades, liquidar direitos das pessoas. O deputado Daniel Silveira, após nove meses de prisão ilegal, não pode falar à imprensa, por ordem do ministro Alexandre de Moraes; segundo ele, o direito de dar entrevistas tem “limites”. Uma emissora de televisão foi condenada recentemente por passar dos “limites” ao levar ao ar uma reportagem em que todos os fatos estavam corretos, mas em que havia, segundo o juiz, “abuso no direito de informação”.

O jornalista Allan dos Santos, nos Estados Unidos, está com um pedido de extradição nas costas por ter ultrapassado, segundo o STF, os “limites” da liberdade de expressão. Há gente na cadeia, como o ex-deputado Roberto Jefferson, pelas mesmas razões. “Limites” – eis a palavra mágica que justifica hoje todas as agressões à lei e à liberdade praticadas pela autoridade pública e pela polícia nacional de repressão ao “racismo”, à “homofobia” e ao direito de abrir a boca.

GUSTAVO GAYER

ANA PAULA HENKEL

AS LIÇÕES DO MURO DE BERLIM

No último 9 de novembro, celebramos os 32 anos da queda do Muro de Berlim. Foram 28 anos de histórias inspiradoras e devastadoras de pessoas tentando atravessar a fronteira entre o capitalismo e o socialismo, entre liberdade e encarceramento. Já passamos mais tempo sem o muro do que sua própria existência. Mesmo assim, o fantasma do mal que o ergueu sempre ronda a história contemporânea com uma nova roupagem, e as lições de sua presença permanecem.

Nesta semana, em virtude da importante data para amantes da história, postei algumas fotos sem legenda da queda do muro, em 1989, em meu Instagram. Apenas imagens. Para minha enorme surpresa, confesso, não esperava a quantidade de mensagens de jovens que não faziam a menor ideia do que eram aquelas imagens. O que está acontecendo? Não estamos ensinando mais nossos alunos sobre o nefasto período da Guerra Fria? Quem, em sã consciência, não mostraria os terríveis detalhes de uma ideologia que mente, segrega, maltrata e mata pessoas? Diante do que vi em uma pequena amostra nas minhas redes sociais, não custa revisitarmos a história, na esperança de que possamos dar uma pequena contribuição a alguns jovens para que, de alguma maneira, comecem a traçar o quebra-cabeça de que quem compreende o passado protege o futuro.

Depois da derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o país foi dividido em quatro zonas de ocupação, e Berlim também foi dividida em território leste e oeste. Os Estados Unidos, a França e Grã-Bretanha ficaram com a Alemanha Ocidental e com os setores ocidentais de Berlim. A zona soviética ficou entre a Alemanha Oriental e Berlim Oriental. O lado ocidental tornou-se uma democracia, enquanto o oriental era um país comunista alinhado com a União Soviética.

Foi em 13 de agosto de 1961 que o governo comunista da República Democrática Alemã (GDR ou Alemanha Oriental) começou a construir um muro de arame farpado e concreto chamado de “Antifascistischer Schutzwall”, ou “muro antifascista”, entre Berlim Oriental e Ocidental. O propósito oficial da divisão era impedir que os chamados “fascistas” ocidentais entrassem na Alemanha Oriental e minassem o Estado socialista, mas serviu principalmente ao objetivo de conter as deserções em massa do leste para o oeste.

A existência de Berlim Ocidental, uma cidade visivelmente capitalista no interior da Alemanha Oriental comunista, “ficou presa como um osso na garganta soviética”, como disse Nikita Khrushchev. Os russos começaram a manobrar para expulsar os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França da cidade para sempre. Em 1948, um bloqueio soviético a Berlim Ocidental teve como objetivo expulsar os aliados ocidentais da cidade pela fome. Em vez de recuar, entretanto, os Estados Unidos e seus aliados abasteceram seus setores da cidade pelo ar. Esse esforço, conhecido como Berlin Airlift, durou mais de um ano e entregou mais de 2,3 milhões de toneladas de alimentos, combustível e outros bens para Berlim Ocidental. Os soviéticos cancelaram o bloqueio em 1949.

Depois de uma década de relativa calma, as tensões explodiram novamente em 1958. Pelos próximos três anos, os soviéticos, encorajados pelo lançamento bem-sucedido do satélite Sputnik no ano anterior durante a Corrida Espacial e constrangidos pelo fluxo aparentemente interminável de refugiados de leste a oeste – quase 3 milhões desde o fim do bloqueio -, ameaçavam jovens trabalhadores qualificados, como médicos, professores e engenheiros, que fugiam em massa, enquanto os aliados resistiam. Cúpulas, conferências e outras negociações iam e vinham sem resolução. Enquanto isso, a inundação de refugiados continuou. Em junho de 1961, cerca de 19.000 pessoas deixaram a Alemanha Oriental através de Berlim. No mês seguinte, 30.000 fugiram. Nos primeiros 11 dias de agosto, 16.000 alemães orientais cruzaram a fronteira com Berlim Ocidental. Em 12 de agosto, cerca de 2.400 pessoas fugiram das garras soviéticas, o maior número de desertores a deixar a Alemanha Oriental em um único dia. Naquela noite, o primeiro-ministro Khrushchev deu permissão ao governo da Alemanha Oriental para interromper o fluxo de imigrantes fechando sua fronteira para sempre. Em apenas duas semanas, o Exército da Alemanha Oriental, a força policial e os trabalhadores “voluntários” da construção haviam concluído um muro improvisado de arame farpado e blocos de concreto – o Muro de Berlim – que dividia um lado da cidade do outro.

Quase 200 alemães foram mortos no muro tentando escapar da Alemanha Oriental. Personalidades importantes se manifestaram, como o presidente americano John F. Kennedy no discurso de 1963, “I am a Berliner” (Sou um Berlinense), e Ronald Reagan, no histórico evento no Portão de Brandemburgo em 1987, quando bradou a Mikhail Gorbachev que derrubasse o muro. Pessoas vieram de todo o mundo para protestar contra essa divisão, e o muro tornou-se um símbolo da democracia versus o comunismo.

Silhuetas de berlinenses ocidentais acenando para parentes no lado oriental do muro, em dezembro de 1962

O Muro de Berlim durou até 9 de novembro de 1989, quando o chefe do Partido Comunista da Alemanha Oriental anunciou que os cidadãos do leste poderiam cruzar a fronteira quando quisessem. Naquela noite, multidões em êxtase invadiram as ruas de Berlim e muitos cruzaram livremente para Berlim Ocidental. Outros trouxeram martelos e picaretas e começaram a cavar no próprio muro. Até hoje, o Muro de Berlim continua sendo um dos símbolos mais poderosos e duradouros da Guerra Fria.

A crença da civilização ocidental, agora antiquada para muitos, no certo e no errado, junto com nossa disposição em agir de acordo com ela, agora enfurece grupos que jamais sonharam em ter tanta liberdade. E essa liberdade existe exatamente pelas mãos dos “demônios” que muitos desses grupos hoje tentam proibir de questionar, debater, servir, alertar e viver sob suas regras milenares. Morando nos EUA há mais de 12 anos, percebo que os americanos têm uma desconfiança arraigada na frouxidão moral disfarçada de “sofisticação”, como descrevi em meu artigo da semana passada sobre as eleições no Estado da Virgínia. Essa herança religiosa dissidente deixou os americanos confortáveis em fazer escolhas morais claras na política, as tais escolhas “simplistas”, como diz hoje a turba do bem que adora linchamentos.

Mesmo em todo o contexto da Guerra Fria, muitos países dentro da Cortina de Ferro sobreviveram porque conseguiram manter vivas suas tradições, sua soberania conservadora de que ninguém sabe mais do seu futuro e de sua família do que aqueles que estão próximos de nós. As decisões sobre o destino de muitos, na Hungria ou no interior da Polônia, caíram nas mãos de oficiais soviéticos em Moscou. Hoje, as vertentes desse Leviatã podem ser percebidas na sanha de burocratas, na própria União Europeia ou nas Nações Unidas, que querem decidir o que nós, no interior de Minas Gerais, na Bahia ou na Virgínia, podemos fazer.

A razão mais importante pela qual a Europa continental e a América estão se separando cultural e filosoficamente é a própria União Europeia, que de livre não tem nada. Os visionários europeus têm uma longa história de sonhar e buscar implementar utopias nacionalistas ou socialistas – esquemas condenados ao fracasso que pisotearam indivíduos sob as botas pesadas do Estado, sob o preço de criar um “novo homem” e um mundo perfeito. A fraternidade assassina da Revolução Francesa, o bonapartismo do século 19, o marxismo e o comunismo modernos, o fascismo italiano, o nazismo – todos esses programas coercitivos para refazer o mundo surgiram do que parece ser um impulso continental inerradicável. Ah… a história, seus ciclos, sua eterna camuflagem e sua capacidade de sempre apresentar uma roupagem novinha em folha para abrigar a genética do mal.

Há um pedaço do Muro de Berlim na Fundação Reagan aqui na Califórnia, um lugar espetacular para quem passar por Los Angeles. De um lado do pedaço enorme de concreto trazido de Berlim há figuras coloridas, frases sobre liberdade e muitos desenhos feitos com tinta em spray de muitas cores. Do outro, apenas a frieza do concreto cinza e marcas de tiros. O pedaço do muro exposto na Reagan Library vai além de mostrar um trecho da história. Ele mostra o bem e o mal concretizados e eternizados em peso, forma e cores.

Sobre as partes que montaram o quebra-cabeça da queda do Muro de Berlim, não é difícil nos fixarmos na frase mais famosa do discurso de Ronald Reagan em Berlim: “Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. No entanto, discursos épicos não se tornam imortais e atuais por uma frase apenas. Em tempos sombrios, medidos por reações tirânicas de governantes que, por controle social e poder, erguem divisões de todos os tipos, alimentando nas sociedades uma busca incontrolável por cancelamentos e segregações, palavras quase concretas em tenacidade precisam ser ascendidas ao único norte possível. Neste mesmo discurso de 1987, Reagan nos mostra que a soberania da verdade é incontestável, que ela atravessa o tempo e prevalecerá. “Este muro cairá, pois não pode resistir à fé, não pode resistir à verdade. Este muro não pode resistir à liberdade”, disse o 40º presidente norte-americano.

Que lembremos, principalmente diante dos dias quando o desânimo é quase palpável, que, assim como foi com um muro de concreto feito por homens malignos, será também para qualquer muro erguido entre homens de bem. Muros cairão, pois também não podem resistir à fé, e não podem resistir à verdade. Eles não podem resistir à liberdade.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FLÁVIA M. CORRÊA – NILÓPOLIS – NILÓPOLIS-RJ

Sr. Editor:

Ontem a militância esquerdinha fez muita badalação com o tal “Dia da Consciência Negra”.

Mas esqueceram de lembrar que o deputado mais votado do Brasil foi o Hélio Negão, do Rio de Janeiro, em quem eu votei.

O fato foi solenemente ignorado pela imprensa brasileira e pelos manifestantes.

Será porque, ao invés de mortadela, ele gosta mesmo é de comer um bom espetinho ao lado de boa companhia?

COMENTÁRIOS SELECIONADOS

DE OLHO NO FURICO DELE…

Comentário sobre a postagem É SÓ CONSOLIDAÇÃO

João Francisco:

Lulla considera muito pouco o que já é feito na prática.

Ele quer controlar os ainda poucos órgãos de imprensa realmente livres que existem.

Elle está de olho no JBF.

* * *

Enquanto ele está de olho nesta gazeta escrota, Polodoro está de olho no furico dele…

GUSTAVO GAYER

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CRIANÇA – O ALÇAPÃO – E OS PÁSSAROS

“Toda criança precisa ter contato com o chão, brincando descalça – para contrair as bactérias defensivas do corpo.” – Raimunda Buretama (minha Avó), uma analfabeta que nunca entrou numa escola.

Criança brincando na beirada do rio

Hoje vamos pegar o túnel do tempo, e “voltar para o futuro”. Relembrar as feridas dos “chaboques” feitos nos dedos dos pés jogando bola no piso duro do chão; tentando (e conseguindo) derrubar e roubar mangas e goiabas no pomar dos vizinhos; tocar a campainha na frente das casas e sair em disparada – práticas da infância que o tempo levou, e que nos fez “filhos que eram castigados pelos pais e mães” e os obedeciam e respeitavam.

Esses filhos que estão aí, hoje, não são nossos. São dos conselheiros tutelares – que nossos filhos abriram as portas de suas casas para eles entrarem e determinarem os hábitos, a educação e a alimentação.

Esses filhos que estão aí, hoje, só são nossos para pagarmos pensão alimentícia – e esperar a hora que, certamente, nos “depositarão” num asilo e continuarão a receber nossas aposentadorias.

Mas, jamais vamos dizer que nenhuma criança de antigamente fazia por merecer os castigos que recebia dos pais. Da mesa forma, também jamais diremos que criança fazia tudo certo ou, tudo de acordo com o atual “politicamente correto”.

Mas, era a nossa fórmula encontrada para sermos felizes. Para sermos crianças. Para sermos gente e parte de uma família difícil de ser destruída. Como acontece nos dias de hoje.

Também fazíamos coisas erradas. Hoje receberiam o rótulo de “politicamente incorretas”.

E uma dessas coisas erradas que fazíamos, era “criar passarinhos”. Pelo prazer inocente de ouvi-los cantar. Por ignorância, digamos.

Alçapão para pegar passarinhos

Durante as férias escolares, ou aos domingos e feriados, a rotina era a mesma: duas gaiolas-alçapão em cada mão, e lá íamos à caminho da Lagoa da Agronomia.

Ali, por conta da quantidade de água e pelo capim existente, era comum “pegarmos” passarinhos. As gaiolas eram armadas na cerca. Os passarinhos eram quase sempre o papa-capim, o bigodeiro, o gola (coleiro) e o caboclinho (caboclo lindo). Mas, de vez em quando aparecia um curió.

Papa-capim “virado”

Aquelas manhãs eram tomadas pela ansiedade de “pegar passarinhos”. Os passarinhos pegos, nem sempre eram aceitos. Quando pegávamos algum que não nos agradava, soltávamos para que ele fosse viver a vida em liberdade. Era assim, com o “tiziu”, um pequeno pássaro preto que se alimenta do mesmo capim preferido pelo papa-capim e pelo caboclinho.

O tiziu tem uma característica de vida e de canto. Ele canta, voa e “cai na vertical”. Esse não tem tanto a preferência dos “passarinheiros”. E isso se dá por conta da dificuldade para encontrar no comércio especializado algum tipo de ração para ele.

O tiziu é, digamos, um pássaro chato. Perturbador.

Tiziu “virado”

Hoje, muitos anos depois daquela maldade inocente, temos consciência que o melhor para as aves é a alegria de viverem soltas. Procurando e encontrando sua própria ração, praticando seus voos, reproduzindo no habitat que melhor lhe convier.

E, cantando para a nossa alegria.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

INCENSO – Gilka Machado

A Olavo Bilac

Quando, dentro de um templo, a corola de prata
do turíbulo oscila e todo o ambiente incensa,
fica pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.

Enquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata,
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai minha alma ganhando o rumo azul da crença.

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando
arde o incenso … Um rumor ondula, no ar se espalma,
sinto no meu olfato asas brancas roçando.

E, sempre que de um templo o largo umbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.

Gilka da Costa de Melo Machado, Rio de Janeiro-RJ (1893-1980)

DEU NO JORNAL

UM CABRA BOM E UM CABRA SAFADO

O ministro do Turismo, Gilson Machado, teceu críticas, na manhã deste sábado (20), à viagem do ex-presidente Lula (PT) à Europa, e afirmou que o governo Bolsonaro tem se esforçado para “reconstruir” a imagem do Brasil após a gestão petista.

– Estamos dando nosso sangue para reconstruir a imagem do Brasil, arrasado por anos de corrupção. Conseguimos! Os números são cristalinos. Aí vem um cabra safado, ex-presidiário e cachaceiro, lamber bota de Europeu e difamar nossa nação – publicou em seu Twitter.

* * *

Quando li esta notícia, achei arretado o uso da expressão “cabra safado”.

Uma expressão autenticamente nordestina e que resume tudo quando a gente se refere a um sujeito escroto, canalha e sem valor algum.

É o oposto de “cabra bom”, que a gente resume com “cababom”

Gilson Machado é pernambucano, nascido aqui no Recife.

E isso explica tudo.

Além do mais, o ministro é formado em Veterinária.

Ou seja: tem mesmo todas as credenciais pra falar sobre um quadrúpede do porte de Lula.

E, pra fechar a postagem, uma curiosidade músico-ministerial:

O ministro Gilson Machado tocando sanfona durante entrevista num programa de TV.

E interpretando Pink Floyd num ritmo nordestinado!!!

Como dizia meu saudoso amigo Orlando Tejo, desmantelo só presta grande!

AUGUSTO NUNES

LULA INVENTOU O IMPOSTOUR

Que Datafolha, que nada. A única fórmula confiável para descobrir-se como está no retrato algum candidato é o Teste da Paulista. No dia e na hora escolhidos por ele próprio, e ignorados pelo resto do mundo, o alvo da avaliação aparece sozinho numa esquina e começa a caminhar pela principal avenida da maior cidade do país. A reação física da plateia ao identificar a figura, a contagem em decibéis de apupos ou aplausos e a distância que o candidato conseguir percorrer sem gritar por socorro dirão o que o povo acha do candidato. É ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo? Tem chances de vencer a próxima eleição ou é melhor aposentar-se enquanto goza de boa saúde? Esse método tão singelo quanto infalível ocorreu-me em 1989 e nasceu com o nome de Teste do Viaduto do Chá. Fernando Collor foi o único que aceitou a sugestão. Nas eleições seguintes, nenhum candidato respondeu ao convite. Agora, Jair Bolsonaro já avisou que topa. Lula, como sempre, faz de conta que não é com ele.

Caso fosse submetido ao Teste da Paulista, como se sairia o homem que o PT promoveu a maior líder popular surgido no País do Carnaval desde a chegada das primeiras caravelas? Lula não conversa com jornalistas independentes desde novembro de 2005, quando protagonizou um fiasco de bom tamanho no programa Roda Viva, em que foi interpelado por alguns entrevistadores sobre a história muito mal contada do escandaloso Mensalão. Ele passou a discursar apenas para plateias amestradas em julho de 2007, depois que a lendária vaia do Maracanã o impediu de fazer o discurso de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio. (Deveria ter dito, como Nelson Rodrigues, que o Maracanã vaia até minuto de silêncio. Aturdido, preferiu imaginar que tudo fora orquestrado pelo prefeito César Maia.) E deixou de dar as caras na rua sem esquema de segurança desde a devassa, consumada pela Operação Lava Jato, do colosso de bandalheiras que o transformou no primeiro presidente da República condenado em duas instâncias pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Descrito pela imprensa velha, o giro pela Europa do candidato a uma terceira temporada no Planalto informa que o país que esquece a cada 15 anos o que ocorreu nos 15 anos anteriores já esqueceu tudo isso. Não há motivos, portanto, para a vida de ermitão que o mantém enfurnado no apartamento em São Bernardo, ou escondido no Instituto Lula, ou cochichando com devotos em hotéis de Brasília. Quem leu as primeiras páginas de jornais agonizantes pode acreditar que a viagem internacional do ex-presidente foi um sucesso. Recepcionado como estadista por governantes de fina linhagem, todos democraticamente eleitos, Lula teria escancarado o isolamento do atual chefe de governo, obrigado a conformar-se com audiências concedidas por déspotas de filme de horror na visita aos Emirados Árabes. Haja cinismo, constata quem examina a agenda de Lula e sua comitiva, formada pela companheira Janja, pelo senador Humberto Costa (codinome Drácula na lista da Odebrecht), pelo ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (codinome Grisalho), pelo ex-ministro Aloizio Mercadante (codinome Aracaju) e pelo ex-chanceler Celso Amorim, um dos parteiros da política externa da canalhice. Ao lado do quinteto, e com a indispensável contribuição do jornalismo de cócoras, o farsante patológico acabou de inventar o impostour.

Lula e Humberto Costa, em Bruxelas

A excursão que começou na Alemanha registrou na Bélgica a mais vistosa tapeação. LULA APLAUDIDO DE PÉ NO PARLAMENTO EUROPEU, mentiram em coro as primeiras páginas. Se assassinato da verdade desse cadeia, os editores estariam dividindo uma cela por noticiário fraudulento. Na escala em Bruxelas, o viajante desempregado foi aplaudido, sim. E de pé, é verdade. Mas não pelo Parlamento Europeu, e sim por integrantes de uma certa Conferência de Alto Nível da América Latina, que promoveu na sede do Parlamento Europeu um encontro denominado “Juntos durante a crise para uma nova agenda progressista”. Mais de 95% da agenda foi consumida em jogar conversa fora com personagens da série B. “Dia intenso de muito diálogo”, tuitou em Paris. “Me despedi da França com um reencontro com meu querido companheiro Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa.” Os únicos chefes de governo em exercício que o receberam foram o francês Emmanuel Macron, sempre disposto a confraternizar com qualquer transeunte que grite “Fora, Bolsonaro” ao passar diante do Champs Élysées, e o companheiro espanhol Pedro Sánchez.

Lula e Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa

Esses encontros invariavelmente precederam discurseiras delirantes. Numa delas, Lula explicou que reivindica um terceiro inquilinato no Palácio da Alvorada para acabar com a fome que até agora jurava ter erradicado em 2007, no segundo mandato, quando enxergou na descoberta do pré-sal a iminente nomeação do Brasil para a presidência de honra da OPEP. Noutro palavrório, garantiu que sempre manteve uma relação de “profundo respeito” com o ex-governador tucano Geraldo Alckmin, que qualificou de “corrupto” na campanha eleitoral de 2006. O ofendido revidou com a instalação de Lula no comando supremo da quadrilha do Mensalão. Felizes com o sucesso imaginário do giro, seguidores da seita que tem num larápio condenado seu único deus resolveram berrar que, enquanto isso, Bolsonaro só visitava ditadores. Má ideia, mostrou o troco imediato: adversários do inventor do impostour evocaram algumas das incontáveis demonstrações de admiração, simpatia, amizade incondicional ou amor profundo que homenagearam genocidas de verdade.

Da esquerda para a direita, começando por cima: Lula ao lado de Yasser Arafat, Muammar Kadafi, Bashar al-Assad‎, Teodoro Obiang, Nicolás Maduro, Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez, Cristina Kirchner e Evo Morales

Depois de uma visita ao Gabão, por exemplo, o palanque ambulante informou que circulara pelo país africano para aprender como se faz para desfrutar do poder por 37 anos consecutivos – e ainda por cima candidatar-se a outra reeleição. Numa reunião de governantes africanos, Lula caprichou na melosa saudação ao tirano líbio Muammar Kadafi: “Meu amigo, meu irmão, meu líder”. Naqueles tempos, o Datafolha e o Ibope atribuíam ao presidente índices de aprovação que ameaçavam chegar a 100% (ou 103%, se a margem de erro oscilasse para cima). Excitado com as façanhas sucessivas, Lula considerou-se capaz de pacificar o Oriente Médio e reaproximar dos Estados Unidos o Irã dos aiatolás atômicos. De lá para cá, as coisas mudaram. Confrontado com a ladroagem do Petrolão, por exemplo, Barack Obama rebaixou O Cara a delinquente comum. E mesmo os institutos de pesquisa andam evitando incursões pela estratosfera.

Pensando bem, Lula prova que não perdeu de todo o juízo ao rejeitar o Teste da Paulista. É improvável que consiga caminhar 5 metros sem começar a ouvir a reprise miniaturizada da vaia do Maracanã.