JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

“Porque se derrubou a Bastilha, um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua, um telegrama; porque o Deputado F. esticou as canelas, um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que, em 1559, D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés”. Com observações assim o prefeito eleito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos, produzia relatórios ao Governador das Alagoas. O prazo de “3 meses para levar um tiro”, dado pelo populacho para que batesse as botas, não se cumpriria. Nenhuma espingarda funcionou. E a calma continuou a reinar, por ali.

São textos que falam dos “funcionários da administração anterior, que faziam política ou não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas”. Referem contas, minuciosamente anotadas, “724$000 foram-se para uniformizar as medidas pertencentes ao município, os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas, fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos políticos”; “2.886$180 foram gastos com instrução, mas não creio que os alunos aprendam ali grande coisa; obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos”.

Temos um mosaico que se vai formando, aos poucos, a geografia física e a geografia humana. “O caminho que vai a Quebrangulo tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e por lagartixa”. Ou “a iluminação que temos, pérfida, dissimula nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro”. Ou “uma senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andavam rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem braços, pernas, cabelos e outros órgãos apreciáveis”.

Só que os relatórios trazem, mais, o perfil desse grande escritor. Um crítico que respondia cumprimentos de “bom dia”, dizendo “por quê?” Um homem reto. De vida sem arranhões. Prefiro os Relatórios de Graciliano ao apresentado nessa quarta. Em que figuras muito conhecidas por seus passados controversos, réus por corrupção, se exibem como se fossem pessoas limpas. E se apresentam, agora, como se estivessem acima de qualquer suspeita. E não estão, esse o problema. De forma nenhuma estão.

4 pensou em “O RELATÓRIO

  1. Um país onde o surrealismo é vivenciado naTV e na vida real.
    A inversão de valores é pau que rola.
    Juízes de mentirinha não apenas usurpa o executivo, eles legislam ao sabor do absurdo. Prendem os incrédulos da sua divindade. Tá lá no parágrafo terceiro do artigo particular do estatuto da cachola deles.
    É um show prolongado, no circo da incoerência: senadores canalhas, mergulham no próprio lamaçal e, aos seus olhos, saem cristalinos, angelicais, limpos e puros.

    Neste teatro do absurdo, os atos da peça ” Acima do bem e do mal” são infindáveis. Um verdadeiro moto continuo.

    E o povo, tal como o sapo, na letargia da elevação da fervura da água… assiste, em banho-maria, a banda passar.

    Até quando, Catilinas…???

  2. Já não existem Prefeitos como Graciliano. Já não existem políticos como os de outrora. Ainda bem que ainda existem os que escrevem como José Paulo: leveza e conteúdo de mãos dadas.

  3. Mestre José Paulo

    nos revela o grande escritor Graciliano antes de sê-lo. É sabido que os “Relatórios do prefeito” fizeram o escritor. Mas nada sabíamos das perolas de seu conteúdo. Temos aqui bela coletânea de citações dizendo porque, como a escritura se deu na Literatura.

    O texto cheio de “leveza e conteúdo de mãos dadas”, conforme o poeta Xico Bizerra, faz também uma denúncia pública, com a autoridade de quem pode fazê-la

  4. Pingback: SAUDADES | JORNAL DA BESTA FUBANA

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