

Roma, não! Vou à Gravatá.
Lá não tem Papa, mas tem bons papos.
O Francisco de lá é o Chico da Roberta
que nem argentino é e adora uma cerveja.
Tem também o Chicão, que cuida do jardim.
É lá que armo minha rede branquinha
de varandas da mesma cor.
E o melhor: não preciso de avião:
a estrada é no chão.
Não, não vou à Roma.
O Papa argentino que me perdoe.
Sou mais o friozinho do mais perto.
Aguardem-me as rãs, as flores e os passarinhos.
Nosso pé de manacá está lá, elegante,
Cortejado pela Pata-de-Elefante …
O vinho sempre está no ponto
a cada adeus do sol,
alegrando o arrebol.
A alegria vive por lá
(nem preciso convidá-la)
e a Paz mora ao lado.
O ipê já arroxeou suas flores
para me dar boas-vindas e adoçar minha chegada …
E o roxo dos ipês é muito mais bonito
que o vermelho da boina dos cardeais …
Gravatá é o meu Vaticano.
E é pra lá que eu vou.
Depois, se der tempo, eu vou a Roma …
Ou não!

* * *
Dia 1º de junho, terça-feira, 19 horas, na PASSADISCO, Rua da Hora, 385, Recife, lançamento de nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS, juntamente com o FOGO NA PELE, do Grupo CASCABULHO
* * *
Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@forroboxote.com.br. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. Visite nosso site: www.forroboxote.com.br
PROPAGANDA À MODA ANTIGA
Na cidade de Pau dos Ferros, RN, há um alto-falante montado sobre uma bicicleta que, rua acima rua abaixo, faz ressoar, de modo audível, a propaganda de uma farmácia denominada Menino Jesus. A propaganda anuncia, a preços módicos, a existência de medicamentos contra doenças diversas. Os nomes dessas doenças são enunciados sob os ditames do arcaísmo, a bem dizer, gritados os nomes arcaicos, sob o imperativo do vernaculismo regional.
Vejamos: antojo, espinhela caída, dor nos quartos, dor de viado, moleira mole, quebranto, frieira, cobrelo, lombriga, pereba, curuba, gastura, sovaqueira, impingem, piloura, pano branco, sânie, bicheira, bicho-de-pé, fastio, bucho quebrado, dente queiro, corpo reimoso, micuim, sete-couros, difruço, papeira, tísica, esporão-de-galo, íngua, solitária, estalecido, boqueira, calombo, resguardo entupido, menino preguiçoso, tosse de cachorro, pé desmentido, e por aí além.
A opção de enunciar os títulos arcaicos das enfermidades pode até não incrementar o faturamento da farmácia, mas, é preciso convir, revela uma maneira assaz industriosa, e evidentemente bem-humorada, de chamar a atenção da clientela para o estabelecimento, cujo nome, aliás, inspira a ideia de santidade e confiança. Cada qual engenha como acha que deve engenhar.
Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco…
E, meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco…
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro…
Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido
cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro…
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que meu peito assim blasfema,
É ter por escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.

Manoel Antônio Álvares de Azevedo, São Paulo (1831-1852)
O cineasta José Padilha, de “Tropa de Elite”, disse à revista Veja que votará em Lula, mas admite:
“Não tem como negar que, desde o mensalão até o fim dos governos do PT, houve uma corrupção institucionalizada gigante”.
* * *
O ilustre cineasta reconhece que houve a ladroagem na era PT.
E mesmo assim ele diz que vai votar no ladrão que promoveu o que ele mesmo chama de “corrupção institucionalizada gigante”.
Num é corrupção nem pequena, nem média, nem grande.
É gigante mesmo, segundo ele disse.
Isso é o retrato cagado e cuspido do fiel que frequenta e reza na igreja petralha.
É lama pra todo lado, mas o santinho merece ser carregado no andor.

A vida sempre é melhor sob os delírios da alma.
Sob a certeza de que nada é certo. Nem errado. Tampouco feio. Ou bonito.
Saber que no tudo há muitos nada. Que o nada muitas vezes é o tudo na vida.
Que a loucura nada mais é que um sobejo da lucidez. Um sopro do extraordinário.
E que a simplicidade é o limite mais próximo de uma vida feliz.
Nada melhor que sonhar que se vive o impossível. No pódio do inalcançável.
Nada mais fascinante que viver sem existir. Algo. Alguém. Tudo é como um conto bem escrito.
Às vezes…
A vida é um delírio fantástico das reticências. Bom é acreditar nela. Na vida. Com pontos finais. Com reticências.
…
Bom é acreditar que se é capaz. E ser.
E que o caos de vez em quando se organiza em nosso favor.