MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SOBRE O DINHEIRO DIGITAL, DE NOVO

Eu já falei sobre o dinheiro digital antes. Veja clicando aqui e também aqui. Não imaginei que gente do governo fosse entregar a rapadura tão cedo e admitir o que pretendem fazer.

Estou falando das declarações do coordenador dos trabalhos do real digital no Banco Central, Fábio Araújo, na última quinta-feira. Em um evento sobre o real digital, ele disse as seguintes frases:

“Uma Prefeitura poderá dar um voucher para comprar leite que pode ser digital e estar na carteira digital do cidadão, e ter todas as características de dinheiro, mas, na hora do pagamento, ele só vai se prestar para aquela finalidade.”

“Em um caso extremo, um voucher entregue como dinheiro poderia proibir o consumo de refrigerante com açúcar em meio a uma eventual epidemia de obesidade. “

“Tem um grau de influência na vida das pessoas quando você começa a pensar nesses mecanismos, que vão muito além do que se deveria fazer com essa tecnologia.”

Note o tempo verbal na última frase: “do que se deveria fazer”. É bem diferente de “não será feito”. E é bem diferente justamente porque este é o objetivo principal do projeto: controlar o uso do dinheiro. Ou alguém acha que nossos políticos, ao terem esse poder nas mãos, não vão usá-lo?

A população já está sendo condicionada a aceitar esse controle faz algum tempo. Bloquear bens de “suspeitos” sem julgamento já é trivial. O controle cada vez maior do governo sobre o que as pessoas fazem com seu dinheiro é sempre justificado com expressões vagas como “combater a sonegação”, “combater o crime organizado” ou “combater a lavagem de dinheiro” – é bom lembrar que quem diz o que é “sonegação”, “crime organizado” ou “lavagem de dinheiro” é o governo, e qualquer coisa que ele não goste pode ser encaixada nessas definições.

O PIX vem cumprindo sua função de acostumar as pessoas à presença do governo como intermediário em cada pequena compra do dia-a-dia. Pouca gente parece preocupada em pensar que em um futuro próximo, comprar comida no mercado ou pão na padaria só será possível com a participação (e a anuência) do Banco Central e da Vivo, Claro ou TIM.

No momento em que o dinheiro físico deixar de existir (e isso acontecerá em poucos anos), cada pessoa passará a ser prisioneira do governo de seu país. Só poderá trocar seu dinheiro por outra moeda, ou por ouro, ou por bitcoins, se o governo deixar. Os impostos poderão ser cobrados diretamente da conta, na quantidade que o governo desejar. Os políticos estarão livres para implantar as “políticas públicas” que muita gente pede, já que poderão controlar em que cada pessoa poderá gastar seu próprio dinheiro, como o funcionário do BC exemplificou aí acima. E muita gente irá apoiar e aplaudir, porque está desde criancinha escutando que “o governo só quer o nosso bem”.

Um último e importante aviso: hoje, quando um governo começa a fabricar moeda além do razoável, as pessoas correm para o dólar, o ouro ou o bitcoin. No momento em que as pessoas não puderem mais levar seu dinheiro para fora do sistema, o governo ficará livre para inflacionar a moeda o quanto desejar.

Você está pensando em se mudar para fugir disso? As opções não são muitas: EUA e União Européia estão tão animados quanto o Brasil para implementar o dólar e o euro digitais. No momento, os refúgios que me vêm à mente são Suíça, Cingapura e Nova Zelândia, e não confio muito nessa última.

Segundo o BC, o real digital entrará em fase de teste piloto neste mês de março. A versão final tem previsão de lançamento para 2024.

DEU NO JORNAL

O “EXÉRCITO” ESTÁ DE VOLTA

Editorial Gazeta do Povo

O “exército” está de volta

“Eu quero paz e democracia, mas, se eles não querem, nós sabemos brigar também. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele do nosso lado”, disse Lula em fevereiro de 2015 durante evento na Associação Brasileira de Imprensa que também contava com a presença de João Pedro Stédile, chefão do MST. A parte sobre “paz e democracia”, todos sabemos, era mentira – até porque naquele exato momento militantes petistas espancavam manifestantes, incluindo funcionários da Petrobras, que protestavam pacificamente do lado de fora da ABI contra o saque da estatal promovido pelo PT e que vinha sendo escancarado pela Operação Lava Jato. Mas a parte do “exército de Stédile”, essa, sim, era bastante verdadeira. E quem duvidaria do retorno das “tropas” assim que Lula subisse a rampa para seu terceiro mandato, após um período de relativa paz no campo? Pois elas estão de volta, fazendo o que sabem fazer de melhor: destruir e violar a lei contando com a omissão cúmplice de governos de esquerda.

No fim de fevereiro, os sem-terra invadiram três fazendas da Suzano localizadas nos municípios baianos de Teixeira de Freitas, Mucuri e Caravelas – o estado é governado pelo PT desde 2007. As terras estão muito longe de serem improdutivas: são usadas para o cultivo de eucaliptos, matéria prima para a produção de papel e celulose. Entre as justificativas para a invasão, o MST não teve o menor pudor de incluir o fato de as terras serem usadas em uma monocultura, como se estivesse dizendo que a ação seria legítima porque “ninguém come papel” – só faltou explicar isso para as 27 mil pessoas que tiram seu sustento da atividade: 7 mil empregos diretos e outros 20 mil indiretos, criados graças à presença da Suzano na área.

O caráter criminoso da invasão é tão evidente que não deveria haver outra resposta a não ser a reintegração de posse imediata e a condenação imediata do ato por parte das autoridades. Lula, no entanto, está calado. Já o ministro do Desenvolvimento Agrário (pasta criada por Lula, em um desmembramento do Ministério da Agricultura), Paulo Teixeira, parece acreditar que apenas com boas maneiras será capaz de conter o “exército”: “liguei para o MST e pedi para que saia de lá”, disse, acrescentando que “vamos tentar resolver pelo diálogo”, como se as duas partes envolvidas fossem moralmente equivalentes. Evidentemente ninguém deseja um massacre de sem-terra em uma reintegração de posse, mas é preciso deixar muito claro que o MST é o agressor e a Suzano, a vítima; e que o direito de propriedade, garantido no caput do artigo 5.º da Constituição, foi violado. Não há como colocar no mesmo plano invasores e invadidos.

Mas tal condescendência, como aliás quase tudo que ronda este início de novo governo Lula, não surpreende, pois repete o padrão histórico do petismo. Se em fevereiro de 2014, depois de 15 mil sem-terra tentarem invadir o Supremo (forçando até a interrupção de uma sessão) e o Planalto, ferindo dezenas de policiais, o MST foi premiado com um encontro com a então presidente Dilma Rousseff, quem imaginaria que agora seria diferente? MST e PT têm uma ligação íntima, que está acima de eventuais críticas como a feita recentemente pelo coordenador nacional do MST, João Paulo Rodrigues, sobre a demora para a indicação do novo presidente do Incra. Os sem-terra, claro, queriam a chave do órgão para reverter a orientação dada a ele durante a gestão Jair Bolsonaro. Entre 2019 e 2022, foram entregues mais títulos definitivos de propriedade que nos 14 anos da primeira passagem pelo petismo no poder. Essa modalidade liberta o agricultor de sua dependência do MST; o movimento prefere um outro tipo de instrumento, pelo qual a terra segue pertencendo ao Estado, mas pode ser explorada pelos assentados, sob a “administração” do MST. Em uma demonstração de que os sem-terra não passam de massa de manobra, líderes do MST e políticos aliados chegavam a recomendar que as pessoas não aceitassem os títulos que fariam delas donas de um pedaço de terra.

O agronegócio, locomotiva da economia nacional, tem todos os motivos para estar preocupado. O ódio que o petismo tem pelo setor é notório, a ponto de o ainda candidato Lula, mesmo empenhado na construção de uma imagem de equilíbrio, ter se referido a parte dos empresários do ramo como “fascistas” em plena sabatina do Jornal Nacional. Não há absolutamente nada no discurso petista que nos permita acreditar que o MST será contido ao longo dos próximos quatro anos. O recrudescimento dos conflitos infelizmente deve se tornar a tônica no campo, sob o olhar complacente dos que se venderam como “moderados” e “democratas” na eleição, uma lorota que, tragicamente, foi comprada por boa parte dos brasileiros.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM CEARENSE DE VÁRIAS SABENÇAS

Dr. Manuel de Freitas Cavalcanti

Quando os convidados se reuniram diante do palco de uma Casa de Festas, na Torre, Dr. Manuel falou primeiro. Muito à vontade, sem as formalidades do vestuário de trabalho, disse que acolhia todos ali, em reunião de família, para comemorar seus 90 anos.

Um cenário de emoção. O ator principal traçou em linhas breves seu fluxograma de vida comercial e familiar. Despertou admirações ao mencionar partes de sua trajetória, pois muitos que ali estavam não conheciam.

Falou do seu tempo como aprendiz de trabalhador, quando aos 10 anos ajudava nos Serviços Gerais do Convento dos Capuchinhos, em Fortaleza, terra onde nasceu.

Quando conclui sua biografia, em março de 2020, vivi momentos de entusiasmo pela vida, diante de seu exemplo. Reaprendi e me estimulei a continuar lutando pelos ideais mais nobres, ao ver um homem de idade tão avançada, bravo, culto e dotado de bom humor incrível.

Fiz com ele cerca de 20 entrevistas além de outras muitas com pessoas a ele ligadas. Numa delas gravei em fita magnética algumas partes, quando ele me falou:

Ali com os capuchinhos aprendi a ser humilde, limpando o chão bruto com um vassourão pesado. Vi pessoas angustiadas buscando remédio espiritual para suas dificuldades. Como Porteiro de um monastério vivi as dificuldades de criaturas que iam chegando para curar seus males da alma. Sofri muito com elas, por suas angústias, absorvendo seus problemas mais pungentes que passaram a fazer parte do meu cotidiano.

Ampliei meu caráter – que alicerçado na casa paterna – me acompanharia pelo resto da vida. Deixo, aqui, uma recomendação: “Devemos louvar como se santos fossem as pessoas de caráter grandioso”, como disse o nosso sociólogo maior, Gilberto Freyre.

Estávamos diante de um cearense que se aclimatou no Recife, abriu veredas comerciais, criou empresas a partir de seus conhecimentos de Contador e Advogado. Fundador da Audiplan, formou um conglomerado de 10 empresas, espalhadas por vários estados. Agrupou os filhos, deu-lhes ensinamentos preciosos e o exemplo de companheiros de trabalho cotidiano.

Quando conclui sua biografia, em março de 2020, vivi momentos de entusiasmo pela vida, reaprendi e me estimulei a continuar a lutar pelos ideais mais nobres.

Estávamos diante de um cearense que se aclimatou no Recife, abriu veredas comerciais, criou empresas a partir de seus conhecimentos de Contador e Advogado. Fundador da Audiplan, formou um conglomerado de 10 empresas, espalhadas por vários estados. Agrupou os filhos, dando-lhes ensinamentos preciosos e o exemplo de trabalho cotidiano.

Dr. Manuel concretou seu patrimônio quando descobriu a vereda profissional mais importante: conquistar empresas às quais oferecia projetos para a obtenção de Incentivos Fiscais da Sudene. Vivia na “Ponte Aérea” entre Fortaleza e Recife. Fez fortuna.

Outro detalhe importante em sua atividade foram as oportunidades criadas pela Audiplan para os Estagiários de Direito, os quais, alguns, se tornaram seus sócios em vários empreendimentos.

Dr. Manuel, com Guilherme Lima, sogro de seu filho

Dr. Manuel conta hoje 93 anos e continua cativante, alegre, desprovido de vaidades. Os filhos lhe homenagearam com o nome do prédio recém-construído, no Espinheiro, onde funcionará a empresa que fundou. No jardim, seu busto, como imagem permanente de um homem singular. Um cearense de fibra, pernambucano adotivo e profissional de várias sabenças.

PENINHA - DICA MUSICAL