MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Eu já falei bastante sobre dinheiro em outros pitacos. Tem o dinheiro de verdade, aquele em que todo mundo confia, e tem o dinheiro de mentira, que é aquele que o governo fabrica, e as pessoas são obrigadas a usar.

Existem muitos casos na história em que o governo “perdeu a mão” na hora de fabricar dinheiro, e caiu em um círculo vicioso de hiperinflação: A França do Luís XV (contada aqui na minha coluna do JBF de 21/Set/2020), a Alemanha dos anos 1920, o Zimbábue dos anos 1990, a Argentina quase o tempo todo desde o Perón. Todas estas crises tiveram muitas coisas parecidas: começam quando o governo se desespera por não conseguir pagar as contas. A inflação, ou fabricação de dinheiro, fica grande demais, e a população perde a confiança neste dinheiro.

A primeira consequência é a paralisação do comércio: quem têm um produto qualquer nas mãos, não vai querer trocá-lo por um papel pintado que pode não valer nada daqui a alguns dias. Melhor guardar o produto, que não vai perder o valor. À medida em que os produtos somem das prateleiras, as pessoas começam a correr para trocar o dinheiro por alguma coisa que tenha valor: os preferidos são ouro e prata ou então moedas estrangeiras. Quando isso começa a acontecer, o governo em geral proíbe. E aí geralmente a coisa desanda, porque as pessoas vêem isso como o governo confessando que sua moeda é uma porcaria.

Nos dias de hoje, a fabricação do dinheiro é escondida do povo por um complexo sistema financeiro, bastante difícil de entender. Muita imaginação e muito trabalho foram investidos para ajudar o governo a disfarçar o que ele faz. Mas os fundamentos básicos continuam lá: quando a inflação começa a sair de controle, as pessoas correm para se livrar daquele dinheiro fajuto. Na Islândia, durante a crise de 2008, o medo da desvalorização da moeda fez a população comprar relógios Rolex aos milhares; era algo fácil de comprar e de guardar, que pode ser revendido em qualquer lugar do mundo, e bastante improvável de perder o valor. Na Argentina, o dólar é uma segunda moeda usada por todos, apesar dos patéticos esforços do governo para proibir.

Conseguir acabar de vez com essa “fuga” para outras moedas é o sonho dourado de todo governo. E agora, graças à tecnologia, ele está perto de conseguir. Como? Transformando a moeda em digital.

Em um país onde tudo que é feito pelo governo atrasa e não funciona direito, é até estranho constatar a velocidade e a eficiência com que o PIX, o novo sistema de pagamentos, foi implantado. Mas é que aqui não se trata do interesse da população, e sim do interesse do governo: todos os países “ricos” estão em marcha acelerada para colocar todo o dinheiro das pessoas sob o seu controle, nos computadores dos bancos. Sistemas como o PIX são uma etapa desse processo: serve de um lado para acostumar as pessoas com a idéia, e de outro para implantar e testar a tecnologia.

Hoje em dia, existem duas realidades econômicas que caminham lado a lado e se misturam. A primeira é a “oficial”, que funciona através dos bancos. Nas empresas em geral, quase 100% das suas operações são assim, porque a receita federal têm o poder de investigar cada real que uma empresa recebe ou dá a alguém. Pessoas com emprego registrado também recebem o salário pelo banco, e através do próprio banco pagam a maioria das contas. Isso significa que boa parte da economia já está “digitalizada”.

Mas ainda existe a parte que não está: muita coisa ainda é negociada em dinheiro vivo, como a maioria dos serviços prestados por autônomos e as vendas de pequeno valor. No comércio com endereço fixo, a opção foi a de incentivar o uso de cartões, mas o dinheiro ainda é usado para pagar jardineiros, encanadores e empregadas domésticas, por exemplo. Claro que o governo adoraria ter todas estas pessoas usando cartões ou pix, porquê ao passar pelo sistema bancário o dinheiro deixa rastros e permite ao governo cobrar impostos. Mas essa não é a razão principal.

A grande razão é que, enquanto existir o dinheiro físico, as pessoas poderão, se necessário, trocá-lo por ouro, ou dólares, ou bitcoins. Depois que as notas foram sacadas do banco, não há como o governo controlar o que as pessoas farão com ele. E quanto mais o governo tenta proibir ou controlar essas coisas, mais a população percebe que elas são necessárias, porque é sinal de que as coisas vão piorar.

Mas no momento em que o dinheiro em papel deixar de existir, TODOS os negócios serão feitos através dos computadores dos bancos, e portanto controláveis pelo governo. Se antes uma lei proibindo a compra de ouro ou dólar era apenas letra morta, agora é algo sem escapatória: mesmo que exista alguém que receba os reais eletrônicos em troca de ouro, isso será instantaneamente detectado pelos computadores. Uma vez que o governo tenha esse poder, ele não precisa ter medo de confessar suas intenções: ele pode simplesmente bloquear as operações que quiser, e ainda explicar ao povo que está fazendo isso para “proteger nossa soberania”, “evitar a sonegação e a lavagem de dinheiro” ou “combater a especulação financeira”. Sempre haverá quem acredite.

Em toda a história conhecida, nenhuma hiperinflação durou mais de dois anos. Chega uma hora em que o governo desiste de fabricar dinheiro e permite que as pessoas usem outras moedas. É isso o que vem permitindo à Venezuela se manter viva: o governo está simplesmente fingindo que não vê as pessoas usando dólares, e isso permite que a economia continue funcionando.

O dinheiro digital levará a economia para terreno desconhecido. Não há precedentes na história que nos indiquem o que pode acontecer. No limite, podemos imaginar países completamente fechados para o exterior, com a população obrigada a usar uma moeda sem valor que o governo fabrica na quantidade que quiser. A única alternativa que uma pessoa terá será fugir do país deixando para trás tudo que têm: não adiantará vender seus bens se não há como levar o dinheiro com ela.

A teoria econômica sugere que uma sociedade forçada a uma situação dessas regredirá para a economia do escambo. Sem uma referência de preço para comprar e vender, retornaremos ao tempo que se trocava três pães por uma galinha e cinco galinhas por um par de sapatos. Dólares, euros ou qualquer outra moeda serão extremamente valorizados, mas e se chegarmos a um mundo onde notas de dólar ou euro também não existam mais?

Os mais ousados estão sugerindo que em breve teremos países com duas sociedades convivendo em separado: uma sob o controle do governo, usando a moeda digital imposta por ele; outra, operando clandestinamente com moedas de outros países (os que não seguiram o mesmo caminho) e com moedas virtuais como o bitcoin.

De minha parte, só posso dizer que entre agosto de 2019 (quando publiquei um pitaco sobre ele) e hoje, a cotação do bitcoin subiu 400%. Isso quer dizer alguma coisa.

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