MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O assunto do meu último pitaco está tão na moda que resolvi continuar, mostrando outros enfoques desse “troço” chamado inflação. Mas para começar, é necessário que você leitor esteja de acordo comigo em uma afirmação. Sem isso, nada do que vem depois fará sentido. É o seguinte:

DINHEIRO NÃO É RIQUEZA

Se você instintivamente pensou “como assim? que absurdo?”, raciocine comigo: você conhece alguém que tenha um monte de dinheiro e não gaste absolutamente nada? Você conhece alguém cujo sonho seja ter muito dinheiro mas não usá-lo para comprar coisas? Você se acharia rico fosse largado no meio do mato, sem casa, sem roupa, sem comida, mas com um saco cheio de notas do lobo-guará?

Antes de inventarem o dinheiro já existia riqueza; havia pessoas que tinham casas, roupas e objetos melhores que os outros. Na medida em que qualquer sociedade evolui (através do acúmulo de bens de capital e do progresso tecnológico, sempre é bom lembrar), é natural a substituição do sistema de escambo, ou troca, pelo uso de um “símbolo de valor” ou moeda. A característica da moeda é que ela não tem utilidade por si só, mas serve para ser trocada por outras coisas. Ou seja, não é riqueza, é um meio para que a riqueza seja comprada, vendida e mensurada.

Que características deve ter uma moeda? Instintivamente, as pessoas tendem a achar que uma moeda deve ser:

– Duradoura, ou seja, não-perecível (bananas não são boa idéia, apodrecem rápido)

– Resistente (vidro também não é boa idéia, quebra fácil)

– Fácil de dividir (o que exclui a cerâmica, muito difícil de cortar)

– Escassa (pedregulhos e areia não servem)

– Difícil de falsificar

Existem dois metais que são bons em todos estes requisitos: ouro e prata. Não estragam, não quebram, não enferrujam, duram para sempre; podem ser derretidos e reutilizados infinitas vezes; existem em quantidade relativamente constante (é pouco provável que alguém encontre de repente uma mina com tanto ouro ou prata que chegue a causar diferença – mas aconteceu com Portugal e Espanha no século 16/17). Ouro e Prata rapidamente se tornaram quase sinônimos de moeda em todo o mundo.

Naquela última propriedade é que a coisa complica. Não dá para falsificar ouro ou prata, A NÃO SER QUE exista um governo que faça moedas falsas e obrigue as pessoas a aceitá-las. O denário de prata começou a ser utilizado em Roma no século 3 a.C. e era feito, obviamente, de prata. No governo de Nero, passou a ser uma mistura de 88% de prata com 12% de outros metais (geralmente cobre ou estanho). Dali para frente, cada novo imperador reduzia a quantidade, para poder fabricar mais moedas com a mesma quantidade de prata. No final do século 3 d.C. foram fabricados denários que continham apenas 0,5% de prata! Obviamente, ao longo deste tempo a quantidade de denários necessária para comprar as coisas não parou de aumentar. É o que popularmente se chama inflação, embora seja mais correto dizer que é a consequência da inflação, que por sua vez é o ato de inflar, ou aumentar, a quantidade de dinheiro.

Enquanto moedas foram feitas de ouro e prata, a inflação produzida pelos governos sempre foi fácil de constatar: cada novo rei ou imperador mandava derreter todas as moedas que entravam no tesouro, acrescentar metal barato, e fabricar novas moedas. Entravam 100, saíam 110, ou 120, ou 200, dependendo de quanto avacalhada estava a situação econômica do país. O “truque” é que a moeda tinha o valor gravado e o símbolo do rei, e as pessoas eram obrigadas por lei a acreditar que aquela moeda valia não o quanto ela tinha de ouro ou prata, mas o quanto estava escrito que tinha. E como o símbolo do rei estava ali, duvidar do valor da moeda era duvidar da palavra do rei, o que dava no mínimo cadeia, e não raramente pena de morte.

Tudo isso mudaria graças a um escocês chamado John Law, nascido em 1671. John Law não inventou a inflação, obviamente, que já existia no tempo de Hamurabi; o que ele fez foi escrever os primeiros livros que dão um ar “científico” à fabricação de dinheiro pelo governo. Pode-se dizer que Law foi o primeiro teórico da inflação.

John Law era filho de um banqueiro, e muito jovem demonstrou ter uma raciocínio muito rápido e grande habilidade com a matemática, que ele usava para ganhar dinheiro em uma de suas paixões, o jogo. Infelizmente, o dinheiro que ele ganhava se perdia em outra de suas paixões, as mulheres, e assim Law ganhava muito mas ficava cada vez mais pobre. Aos vinte e três anos, uma encrenca com a justiça inglesa o fez fugir para a França, onde ele continuou sua carreira de jogo, aventuras financeiras e amizade com nobres e políticos influentes.

Em 1700, o rei da Espanha morreu sem filhos. O parente mais próximo era um neto do rei da França, que assumiu o trono espanhol como Filipe V. Os outros países da Europa não gostaram da idéia de França e Espanha governadas pela mesma família, e começaram uma guerra para tentar destronar o jovem rei. Chamada nos livros de Guerra da Sucessão Espanhola, a guerra durou de 1701 a 1714. Um ano depois de seu fim, em 1715, o rei da França Luis XIV morreu. Seu sucessor, Luis XV, tinha apenas cinco anos, e o governo do país ficou nas mãos do Duque de Orleáns, grande amigo e companheiro de jogo de John Law.

O duque de Orleáns descobriu que a França estava quebrada. Tudo que o governo arrecadava em impostos não pagava sequer os juros dos empréstimos feitos para bancar os quinze anos de guerra. Foi aí que seu amigo Law lhe mostrou duas monografias que apresentavam um novo conceito econômico, que dizia basicamente que moedas não precisam ser feitas de ouro e prata, podem ser feitas de papel, e seu valor se sustenta simplesmente naquilo que o governo determina. O trabalho de Law foi justamente o de dizer isso de uma forma que pareça fazer sentido, e é por isso que eu chamei Law de “o inventor da inflação”; ele foi o primeiro de uma série de acadêmicos que fazem o “trabalho sujo” de fornecer aos políticos argumentos que eles possam repetir, sem ficar vermelhos, para justificar o que fazem.

Com base nas teorias expostas em seus trabalhos, em maio de 1716 Law recebeu de seu amigo duque a licença para abrir um banco e emitir dinheiro de papel, supostamente lastreado em moedas de ouro. Ou seja, as pessoas recebiam um papel colorido que dizia “vale uma moeda de ouro”. Se a pessoa fosse ao banco, poderia entregar a nota de papel e receber uma moeda de ouro – supostamente, não esqueça.

Em 1718 Law sugeriu ao governo que o seu banco fosse estatizado, o que o governo fez com grande alegria. Em troca, Law recebeu vantagens para comprar a Companhia do Mississipi, empresa que detinha o direito de monopólio do comércio com a Louisiana, uma região da América do Norte que na época era colônia da França (lembrando que os Estados Unidos ainda não existiam).

Enquanto o governo da França pagava suas dívidas com dinheiro de papel produzido pelo banco de Law, agora chamado Banco Real, este emitia mais e mais ações da Companhia do Mississipi, com promessa de altíssimos lucros. Com a súbita abundância de dinheiro, as ações subiam sem parar: subiram 2000% entre maio e dezembro de 1719, e isso enquanto novas ações eram emitidas sem parar.

No início de 1720 já fazia mais de um ano que o governo da França acreditava haver descoberto o segredo da riqueza infinita: bastava imprimir notas de papel e usá-las para pagar todas as despesas. O povo já estava notando que os preços haviam subido bastante, mas naquele tempo os políticos acreditavam que povo descontente era assunto da polícia. Enquanto isso, Law foi nomeado Ministro das Finanças.

Certamente várias pessoas já estavam “pondo as barbas de molho”, mas o primeiro a se manifestar foi o príncipe de Conti, supostamente por causa de um desentendimento pessoal com Law. O príncipe mandou três carruagens cheias de dinheiro de papel para o banco, pedindo para trocá-las por moedas de ouro. Foi atendido, mas o Duque de Orleáns, percebendo o perigo, ameaçou o príncipe e ordenou que este mandasse o ouro de volta para o banco. O príncipe devolveu duas das três carruagens.

Em poucos dias, mais e mais pessoas começaram a levar notas aos bancos para trocá-las por “dinheiro de verdade”, enquanto as ações da empresa de Law também começaram a cair. Os bancos começaram a se recusar a trocar as cédulas, o que causou correrias para comprar qualquer coisa que fosse considerada segura, como jóias, moedas estrangeiras e até talheres de prata.

O final da história traçou um roteiro que seria repetido inúmeras vezes em vários países, com o nome de “estouro de bolha”: em fevereiro de 1720, o governo proibiu o uso de moedas, determinando o uso apenas das cédulas de papel. Logo em seguida, proibiu a venda de qualquer objeto de ouro ou prata, de jóias a talheres. E logo depois outra lei proibiu a posse de ouro e prata, autorizando o confisco pelo governo de qualquer objeto encontrado. Carruagens eram revistadas nas estradas e as fronteiras foram fechadas. O governo oferecia recompensas para quem delatasse pessoas que guardassem ouro ou prata. Claro que a recompensa era paga em cédulas de papel.

Em maio, o governo demitiu Law do cargo de ministro e determinou o fechamento dos bancos. Quinze dias depois, os bancos reabriram com um decreto determinando que as cédulas de papel passariam a valer apenas metade do valor original. Filas se formavam na frente dos bancos, e em poucos dias não havia mais ouro. Os bancos passaram a trocar as cédulas por prata, que em pouco tempo também acabou. Houve tumultos, quebra-quebra, o usual nestas situações. Quem tinha ações da Companhia do Mississipi aceitava qualquer preço para se livrar do mico, e no final do ano elas não valiam mais nada. A economia da França só iria se recuperar oitenta anos depois, com Napoleão (para perder tudo na guerra novamente).

Law permaneceu em Paris até o final do ano, quando fugiu abandonando todas as suas propriedades, incluíndo mais de vinte castelos. Morreu na pobreza nove anos depois.

Tudo isso aconteceu em cerca de dois anos. Aconteceu de novo, de forma muito parecida, nos EUA em 1920 e de novo em 1929. Aconteceu no Brasil com o “encilhamento” entre os últimos anos do império e o governo de Floriano Peixoto, mas nossas escolas não tocam no assunto. Aconteceu em ritmo de tango na Argentina dos anos 90, com o presidente fugindo de helicóptero da Casa Rosada cercada por manifestantes. E vai acontecer outras vezes, à medida em que os governos vão se sofisticando na arte de roubar o povo e ao mesmo tempo convencer o povo de que não está sendo roubado.

Como epílogo, para quem souber inglês, sugiro uma comparação: leiam o artigo sobre John Law na Wikipedia em inglês. É um artigo equilibrado e bem fundamentado. Eu o usei para conferir todos os dados e datas deste pitaco. Depois tomem um Engov e leiam o artigo em português: Law é considerado um gênio, chamado “o pai das finanças modernas”, e a culpa de tudo que aconteceu é colocada nos “especuladores”. É o retrato perfeito da completa cegueira que os sistemas educacionais modernos conseguem impôr.

8 pensou em “O INVENTOR DA INFLAÇÃO

  1. Hoje conheci John Law, hijo de una gran puta, por sinal…

    Sancho largado no meio do mato, sem casa, sem roupa, sem comida, mas com um saco cheio de notas do lobo-guará que lhe entregou mister Law. Só faltou o Bertoluci colocar a polícia perseguindo o pobre sujeito no meio do matagal… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Só parei de rir quando o Bertoluci veio com a facada certeira, ao lembrar da Argentina:: os governos vão se sofisticando na arte de roubar o povo e ao mesmo tempo convencer o povo de que não está sendo roubado.

    • O Law era uma figura. Eu não coloquei no texto porque já estava muito longo, mas o “problema com a justiça” que ele teve aos vinte e três anos foi o seguinte: ele e um tal de Edward estavam gostando da mesma cabrocha, uma condessa que segundo alguns já tinha frequentado até a cama do rei William II. O outro o desafiou para um duelo, mas o Law era bom de espada e ganhou o duelo no primeiro golpe. O Edward morreu de derrame: a espada do Law fez um talho na barriga dele de fora a fora e as tripas derramaram todinhas no chão.

      Law foi condenado à morte, a família dele (que era muito rica) conseguiu transformar em prisão perpétua. Law ficou uns meses na cadeia, fugiu e se mandou para Amsterdam e de lá para Paris.

  2. Quando pela primeira vez eu disse para um grupo amigos que dinheiro não serve pra nada, o pessoal me olhou com cara de “agora ele endoidou de vez”.
    Tentei explicar que não servia porque, quando queremos nos servir do dinheiro, precisamos trocar ele por outras coisas.
    A explicação não adiantou nada. Levaram na galhofa. Riram de mim.
    Finalmente sinto-me compreendido.
    Obrigado, Marcelo!

    • É isso mesmo, Marcos. Mas a confusão tem sua lógica: quem acredita que dinheiro é riqueza e acredita que o governo pode fabricar dinheiro, vai acreditar que o governo pode produzir riqueza.

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