MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Existem dois tipos de dinheiro: aquele que é criado pelo povo e aquele que é criado pelo governo. O dinheiro criado pelo povo se baseia na confiança, ou seja, todo mundo acredita que ele será aceito pelas outras pessoas. Tradicionalmente esse tipo de dinheiro era feito de ouro ou prata, mas no mundo moderno surgiram versões digitais chamadas criptomoedas, das quais a mais conhecida é o bitcoin.

As moedas criadas pelo governo desfrutam de uma vantagem: não precisam da confiança das pessoas, porque são de uso obrigatório por lei – pode-se dizer que todo mundo é obrigado a confiar nelas. Essa obrigatoriedade permite que os governos, que são os donos da moeda, pratiquem um truque sujo, do qual já falei várias vezes: a inflação. Como eles têm o monopólio da fabricação do dinheiro, e o dinheiro é só um pedaço de papel pintado, eles podem simplesmente imprimir mais e mais sempre que querem. Fazendo isso, eles ganham duas vezes: a primeira, quando usam esse dinheiro criado do nada para gastar onde quiserem. Quando esse dinheiro chega à economia, ele faz o preço de tudo subir (por causa de um princípio básico da economia, a lei da oferta e procura), e como os impostos são calculados sobre o preço das coisas, a arrecadação sobe junto com a inflação, e o governo ganha de novo.

Por causa disso, nenhum governo gosta de abrir mão do direito de emitir moeda e de tornar o seu uso obrigatório (sem essa obrigação, as pessoas se recusariam a usar moedas inflacionadas). Mas mesmo com a obrigatoriedade, a paciência do povo acaba. Quando um governo passa dos limites e a inflação vira hiperinflação, as pessoas simplesmente passam a ignorar a moeda “podre” e usar outra coisa no lugar, geralmente dólares ou euros (antigamente usava-se o ouro). Achar uma forma de impedir isso sempre foi o sonho dos ditadores, para que possam fabricar dinheiro à vontade.

A criação do bitcoin, duas décadas atrás, foi vista como um golpe fatal nas pretensões inflacionárias dos governos. Até então, fugir de moedas inflacionadas implicava usar dinheiro físico (ou ouro), que sempre é trabalhoso e arriscado para armazenar ou para transportar, especialmente em países cujo governo já perdeu a vergonha de ser uma ditadura. Uma criptomoeda como o bitcoin pode ser acessada em qualquer parte do mundo, transferida eletronicamente, e é impossível de rastrear ou de confiscar. É a proteção perfeita contra governos arbitrários, e exatamente por isso desde sua criação governos de todo o mundo falam mal dele, tentando associá-lo a negócios escusos e à criminalidade – um pouco como culpar os sofás e as camas pelos adultérios.

Mais recentemente, governos e bancos centrais começaram a aproveitar a simpatia que as criptomoedas despertaram para falar em moedas digitais estatais. A idéia é acabar com o dinheiro físico, de papel, e deixar apenas o dinheiro digital nas contas dos bancos, movimentadas apenas eletronicamente, de uma conta para outra, sem jamais sair de dentro dos computadores da rede bancária. Aqui no Brasil, o PIX é o primeiro passo nesse sentido.

Embora o conceito já estivesse sendo discutido há vários anos, ainda parecia um pouco radical demais para ser levado a sério; tinha um quê de teoria da conspiração. Aí veio a Guerra da Ucrânia e de repente tudo começou a parecer bem real. Quem falou em implantar uma moeda digital não foi algum ditador sul-americano, mas o presidente dos EUA, Joe Biden. As conversas entre Arábia Saudita e China para negociar petróleo em yuans e não em dólares apareceram no Wall Street Journal. E os complicados negócios entre a União Européia e a Rússia precisam achar caminhos para transformar euros em rublos para pagar o gás e o petróleo, sob pena de deixar países como a Alemanha no escuro de um dia para o outro. Em poucas semanas o mundo percebeu que o moderno mundo das finanças não era aquela coisa sólida e confiável que parecia ser, muito pelo contrário. E é justamente porque a guerra fez muita gente correr para o bitcoin que os governos do mundo passaram a ter muita pressa em passar para as moedas digitais.

Mas como funcionará a tal moeda digital? Até estar tudo implantado, parecerá ótimo. Sistemas como o PIX serão ampliados para facilitar ao máximo as operações digitais e torná-las parte da rotina. Então o governo anunciará o fim do dinheiro físico, provavelmente com as tradicionais desculpas sobre “sonegação de impostos”, “lavagem de dinheiro”, “negócios ilegais” e coisas assim. Será dado um prazo para todos depositarem suas notas no banco, e após esse prazo todas as notas perderão a validade, e todas as movimentações passarão a ser digitais.

E então? E então seremos todos escravos do governo, ao melhor estilo “1984”. A partir do momento em que o dinheiro só existir nos computadores dos bancos, o governo poderá determinar o que pode e o que não pode ser feito com ele. Comprar dólares? Não pode. Comprar ouro? Não pode. Enviar dinheiro para o exterior? Não pode. Comprar qualquer coisa que o governo não queira, como bitcoins? Não pode. Impostos poderão ser debitados automaticamente de sua conta. O governo saberá tudo o que você faz, tudo o que você gasta e tudo o que você ganha. E se ele quiser inflacionar a moeda, azar o seu. Você até poderá ir embora do país (se o governo deixar você comprar uma passagem), mas o seu dinheiro ficará aqui. Você não pode sacar em um caixa 24 horas. Aliás, caixas 24 horas não existirão mais. O controle do governo sobre a economia passará a ser absoluto, e quem controla o dinheiro controla tudo, inclusive o que é ilegal e o que não é.

Com a possibilidade de controlar a movimentação e impedir qualquer transação indesejável, o governo fica livre para criar impostos ou aumentar os que já existem. Se um empresário desistir de seu negócio e decidir fechá-lo, por exemplo, pode ter seu dinheiro confiscado por alguma taxa populista, sem chance de escapar. Qualquer um pode ser obrigado a fazer o que o governo determinar, sob pena de ter seu patrimônio bloqueado ou expropriado. E naturalmente, aqueles que desfrutam de boas amizades receberão importantes isenções e privilégios inacessíveis ao cidadão comum. Em resumo, teremos a tecnologia garantindo a ditadura perfeita.

Não é uma questão de SE vai acontecer. É uma questão de QUANDO vai acontecer, e qual país será o primeiro.

4 pensou em “O DINHEIRO DIGITAL

  1. Marcelo,

    Você conhece a obra As vendas do Tuttle Twins (Os gêmeos Silva, na tradução brazuca)?

    As vendas do Tuttle Twins (Os gêmeos Silva aprendem sobre a Lei · Desbravando O Mundo A Regra De Ouro · Desbravando O Mundo Livre A Busca Por Atlas, ETC…) ultrapassaram a marca de 3,5 milhões de exemplares (https://tuttletwins.com/product-category/portuguese/). O trabalho, que ressalta a obra de pensadores como Frédéric Bastiat, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, está sendo cada vez mais requisitado por pais e jovens (https://tuttletwins.com/). With our books, your children will learn things like: Why a free market economy is the greatest way to lift people out of poverty and allow people to trade with one another; How property rights allows us to decide what’s best for us, and make decisions for our family; Why the world is a better place because of entrepreneurs who create businesses to help serve us and improve our lives. What socialism is and why it is so destructive to our freedoms and well being; How the Golden Rule is so important to people getting along with one another, no matter where we live, what we look like, or what we believe; Why education is so important, and why children should be allowed to learn things they are interested in; What true laws are, and why the government should protect our rights…and so much more!

  2. Marcelo,

    Você conhece a obra Tuttle Twins (Os gêmeos Silva, na tradução brazuca)?

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