DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CANÇÃO DO BOÊMIO – Castro Alves

Que noite fria! Na deserta rua
tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! Por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vês?… Meu coração é triste,
como um calouro quando leva ponto.

A passos largos eu percorro a sala,
fumo um cigarro que filei na escola…
Tudo no quarto de Nini me fala,
embalde fumo… tudo aqui me amola.

Diz-me o relógio, cinicando a um canto:
— Onde está ela que não veio ainda? –
Diz-me a poltrona: por que tardas tanto?
Quero aquecer-te, rapariga linda.

Em vão a luz da crepitante vela
de Hugo clareia uma canção ardente;
tens um idílio — em tua fronte bela…
um ditirambo — no teu seio quente…

Pego o compêndio… inspiração sublime!
Pra adormecer… inquietações tamanhas…
Violei à noite o domicílio, ó crime!,
onde dormia uma nação… de aranhas…

Morrer de frio quando o peito é brasa. . .
quando a paixão no coração se aninha?!
Vós, todos, todos, que dormis em casa,
dizei se há dor que se compare à minha!…

Nini! o horror deste sofrer pungente
só teu sorriso neste mundo acalma…
Vem aquecer-me em teu olhar ardente…
Nini! Tu és o cachenê dest’alma.

Deus do Boêmio! São da mesma raça
as andorinhas e o meu anjo louro…
Fogem de mim se a primavera passa,
se já nos campos não há flores de ouro…

E tu fugiste, pressentindo o inverno,
mensal inverno do viver boêmio…
Sem te lembrar que por um riso terno
mesmo eu tomara a primavera a prêmio…

No entanto ainda do Xerez fogoso
duas garrafas guardo ali… Que minas!
Além, de um lado, o violão saudoso
guarda no seio inspirações divinas…

Se tu viesses… de meus lábios tristes
rompera o canto… Que esperança inglória!…
Ela esqueceu o que jurar-lhes vistes,
ó Paulicéia, ó Ponte Grande, ó Glória!…

Batem!… Que vejo! Ei-la afinal comigo…
Foram-se as trevas… fabricou-se a luz…
Nini! Pequei… dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços… do martírio a cruz.

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SÉRGIO – SÃO PAULO-SP

Será que a Ministra do Meio Ambiente Marina vai barrar ou vai fechar os olhos?

Pra mim ela vai ser passiva e, quem sabe, supostamente até de ganhar um imóvel lá.

Cada vez mais mostra porque Globo e Armínio Fraga fizeram o L.

Governo do PT autoriza herdeiro da TV Globo a construir Resort de Luxo em área preservada na Bahia.

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DEU NO X

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CAVALO ALADO

Ah, se desse d’eu voar
Com você em mim montada
Cruzando os céus do espaço
Dando no ar rabeada…
Você agarrada em mim
Subindo e descendo assim
Num voo, em galopada.

E nessa viagem alada
Eu feito aquele pavão
Mysterioso e formoso,
Fogoso nessa ação,
Fazendo um voo dos sonhos
Dando razantes medonhos
Co’as asas dessa paixão.

Se tudo isso é ilusão
Eu não quero acreditar
Que sou como um passarinho
Que se cansou de voar
E por delírio me faço
Cavalo alado, de aço,
Para você cavalgar.

Sem temer tempo no ar
Sem respeitar o espaço.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CONVOCAÇÃO

João Pessoa

Mote:

Bora jogar poesia
Nos recantos da cidade.

É um dever do poeta
Em todo e qualquer lugar
Essa cultura levar
De uma maneira completa
Com sua rima correta
Na sua simplicidade
Sem nenhuma vaidade
E sem muita burocracia
Bora jogar poesia
Nos recantos da cidade.

Poeta Nascimento

Se o dia amanhecer feio
E você se entristecer,
Lembre, sempre vai haver
Uma forma ou um meio
De mudar o que nos veio,
Pois em Deus não há maldade:
Mude a sua realidade,
Pinte o mundo de alegria,
Bora jogar poesia
Nos recantos da cidade.

Melchior SEZEFREDO Machado

Do Bessa até Mangabeira,
Do Varjão ao Cabo Branco,
Deixe o verso voar franco
Sorvendo a brisa praieira.
Quando chegar na ladeira
Do Cuiá, sinta saudade
Da boemia que invade
Os botecos de Água Fria.
Bora jogar poesia
Nos recantos da cidade.

Wellington Vicente

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SONHO DE CONSUMO

Comemorando seu aniversário de 20 anos na Barraca Pedra Virada, Antônia conheceu Tonhão. Deu-lhe um frio na barriga, uma química inesperada nos hormônios, uma vontade louca de abraçar-lhe, beijar-lhe. Foi o melhor presente aparecer aquele homem bonito, moreno, alto, forte que se tornou a grande paixão. A recíproca foi verdadeira, Tonhão empolgou-se no primeiro instante com a linda e sorridente morena. Numa coincidência dos Deuses, ele também fazia aniversário, 24 anos, no dia dos namorados, 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Nenhum amigo percebeu aquela atração repentina. Os dois ficaram conversando e bebendo até o término da festa. Na mesma noite foram a um motel iniciando o maior amor do mundo. Os dois passaram a se ver todos os dias, viviam grudados que tem tapioca, bela pareia de jovens, comentavam. Não deu um ano de namoro resolveram casar-se. Tiveram dois filhos, Tonhão formou-se advogado, trabalhando muito em tradicional escritório, tornou-se conhecido. Nesses anos todos, no dia dos namorados, os dois cumpriam a liturgia de uma festa íntima pra lá de erótica. Durante mais de 20 anos celebraram essa noite tórrida de amor num motel.

Certo dia, Tonhão foi defender um preso em um complicado júri em Palmeira dos Índios. Seu cliente havia assassinado a esposa e o amante, crime hediondo, com requinte de crueldade. O assassino antes de matar o sedutor, cortou seus colhões com uma facada. Joana, a irmã do preso, em nome da família, contratou Tonhão por uma boa quantia. A moça além de desenvolta, bem articulada, simpática, era um belo espécime feminino. Morena de olhos escuros, olhar profundo, sensual. Tonhão ficou cativo do olhar faceiro de Joana. O assassino pegou 17 anos de cadeia. O advogado perdeu no júri, entretanto, ganhou o coração e todos os outros órgãos de Joana, a bela. Embora mais velho, se deram bem na cama, na mesa, nas conversas, coincidiram as afinidades, os valores de vida, semelhantes sonhos de consumo. Ela ama joias, viagens, conforto e carinho. Ele também ama as coisas caras do mundo moderno, um carrão bonito, roupas de grifes, relógios e sapatos. Não puderam esconder por muito tempo essa comunhão carnal. Tanto fizeram que houve a separação. Muito choro e depressão, foi difícil para Antônia aceitar o divórcio.

Algum tempo depois de separados, no dia dos namorados, véspera de Santo Antônio, dia das comemorações alucinantes, Tonhão marcou um encontro com a ex-esposa, precisava discutir alguns detalhes sobre os filhos. Ele levou-a a um discreto restaurante na praia de Ipioca. Conversaram bastante sobre os filhos. O amor paterno de Tonhão sempre encantou Antônia. Retornando ao centro da cidade, ao passar no corredor de motéis, Tonhão puxou o carro de lado, entraram num belo motel. Fizeram amor a tarde toda como nos velhos tempos. Antônia aceitou a situação por dois motivos: vingança contra a sirigaita e ainda gostava de ser amada por Tonhão. Mantiveram a tradição, por mais de cinco anos, todos os dias dos namorados eles se encontravam.

Antônia, solteira, não ficou sozinha, de vez em quando saía com alguém sem compromissos, alguma aventura amorosa, guardava no íntimo a esperança da volta de seu primeiro amor, aquele que nunca se esquece.

No ano passado no dia dos namorados, Tonhão telefonou para Antônia, marcou o almoço e tarde de amor. Dessa vez ela estava fria, arredia, pediu para acabar com aqueles encontros anuais, não era correto. Tonhão insistiu em pegá-la de qualquer maneira, ansioso para mostrar seu novo carro. Depois do almoço quando se dirigia aos motéis da praia de Jacarecica, Antônia segurou a mão de Tonhão, e implorou: – “Por favor, leve-me para casa, a situação mudou, tenho outra pessoa, estou namorando firme, não fica bem. Amo o Pedro, agora é diferente, sou uma mulher honesta. Ele me ama, é carinhoso, faz café e me traz na cama, mais moço pouca coisa que eu, entretanto, é um homem maduro, ajuda em meus problemas. Além de tudo, ótimo professor na cama, me ensinou coisas que não pensei existir. Um verdadeiro sonho de consumo de qualquer mulher de 47 anos. Não fica bem, por favor Tonhão, me atenda!”

Tonhão deu a volta no carro, rumou para o Centro, sem dizer uma palavra, Antônia percebeu que lhe caiu uma lágrima, ele chorava contido, não sabia se de raiva ou de saudade por ter perdido para sempre aquele amor que foi o maior amor de sua vida.

DEU NO X

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