JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA SAMUEL HULAK

Lisboa. Frei Luis Ponce de Léon era, desde 1561, catedrático de Teologia na Universidade de Salamanca (Espanha) ‒ famosa inclusive por ter como símbolo, a partir do bestiário medieval, uma rã. Processado em Auto de Fé, pela Inquisição espanhola, foi retirado a meio da classe; e permaneceu preso, em Valladolid (capital da comunidade autônoma de Castilla y León), de março de 1572 a dezembro de 1576. Mas acabou, no fim, declarado inocente. Em seu primeiro dia de volta ao ofício de professor, e como prova de prestígio, todas as figuras ilustres da universidade estavam presentes para ouvi-lo. Mas o dito frei, em vez de protestos ou lamentos, apenas sorriu, falou “Como estava dizendo na última aula…”, e seguiu na lição interrompida.

Mais tarde, ficaria Salamanca marcada por outro episódio; quando em 12/10/1936, na Guerra Civil Espanhola, o general falangista (José) Milán-Astray gritou, numa de suas salas, “Viva la muerte”; com protestos, imediatos e fortes, do reitor perpétuo da universidade, Miguel de Unamuno. Em vez de silenciar, como recomendariam todas as regras do bom-senso (Baltazar Gracián y Morales até escreveu livro sobre isso, A arte da prudência), reagiu, porque “permanecer calado equivale a mentir”. E acabou nas masmorras, mas essa é outra história. Voltando à citação inicial, ela tem sobretudo o papel de marcar a sagração da palavra. Reconhecendo ser o que fica de importante, na vida ‒ ela e seu irmão inseparável, o exemplo. Indicando caminhos.

Essa introdução, maior talvez do que deveria, tem apenas o sentido de anunciar que já está no prelo, pela editora Paradoxum, o primeiro livro de Samuel Hulak no campo da literatura, Na contramão e outros contos.

Se ficar só nele (quase um pecado), não seria caso isolado. Walt Whitman escreveu um único livro, na sua existência, Leaves of grass (Folha de relva). A cada nova edição ia alterando, acrescentado ou suprimindo poemas. A primeira (de 1855), com 91 páginas, apenas tinha 12; a segunda 32, com o famoso Salut au monde (O take my hand, Walt Whitman), que inicialmente seria Poem of salutation; a nona e última, 293. Além de uma Death Bed Edition, de 1892, a impressão definitiva. O mesmo com Cesário Verde; dando-se que, no seu caso, foi até sem querer, por tratar-se de outra edição póstuma ‒ O livro de Cesário Verde, produzido por mulher e filha, reunindo tudo que deixou.

Margareth Mitchell escreveu Gone with the wind (E o vento levou), ficou rica e, desgraçadamente (para ela), logo morreu atropelada por um taxi. Enquanto Emily (uma das irmãs) Brontë mereceu glória breve com O morro dos ventos uivantes; logo sucumbindo, num tempo em que ainda não havia estreptomicina, a uma tuberculose devastadora (o mesmo mal que vitimou as outras filhas escritoras, Anne e Charlotte, do Reverendo Brontë).

Manuel Antônio de Almeida, amigo de Machado de Assis, começa Memória de um sargento de milícias dizendo “Era no tempo do rei”. Mas seu tempo era curto pois, em seguida, morreu afogado no naufrágio do Hermes; e, também ele, ficou neste primeiro livro. Enquanto Augusto dos Anjos nos deixou depois de EU. Ao mandar os originais para a tipografia (sem registros de editora, por ser uma edição doméstica), rasgou a mão com faca e, usando seu sangue, escreveu o título. Assim diz a lenda. Razão pela qual, até hoje, suas edições tem capa clara e título em vermelho. Cor de Sangue. E se foi cedo, aos 30 anos, pena. Tudo isso apenas para dizer que, espero, Samuel não precise usar seu precioso sangue para escrever título nenhum (até por ser, o deste livro, bem maior que as duas letras de EU). Nem faça parte dessa relação de autores com um livro único.

Também cumpre lembrar que o autor escreve esse livro tarde, com 86 anos. Mais uma vez não é caso isolado. Só para ficar na literatura brasileira, antes dele já Pedro (da Silva) Nava escreveu seu primeiro grande livro de memórias, Baú de ossos, com 69. Médico, nos deixou uma obra monumental em sete livros. E mais não foram porque recebeu um telefonema misterioso (até hoje não se sabe de quem) e, com 81 anos, deu um tiro na cabeça. Já Cora Coralina (Anna Lins de Guimarães Peixoto Bretas), apesar de escrever poemas esparços desde a adolescência, decidiu publicar seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e histórias mais, com 76 anos. Doceira, pessoa simples e morando longe dos grandes centros, retratou como ninguém a vida nos interiores de nosso Brasil popular e profundo em nove livros. E morreu com 95 anos, de pneumonia. Muitos outros escritores também lhes seguem.

Para ficar só num caso lembro dona Maria Lia Cavalcanti que lançou seu primeiro e único livro, Recordar é viver, com 92 anos, em textos muito bem escritos sobre as memórias da família. Um dia, para nossa mãe, escrevi esses versos

Me diga dona
Maria Lia
Luar da noite
Flor do meu dia
Se brilha ainda
A luz infinda
Que eu perseguia.

E hoje sei que viverá para sempre, majestosa e tocada pela eternidade, essa luz que não cessará de brilhar em nossos corações.

Saramago pergunta, no início da apresentação que escreveu para um livro de Sábat (Anônimo transparente), “Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa?”. Lembro dessa passagem para fazer a mesma pergunta, com Samuel Hulak no papel do poeta português. Certo já de que sua resposta, qualquer que seja, iria surpreender. Posto ter dito autor o dom de construir, de forma invulgar e competente, suas histórias.

Mas quem é mesmo Samuel Hulak?, eis a questão. Em poucas linhas, trata-se de médico especialista em Psiquiatria. Atuou nos palcos (com prêmio de melhor ator) e foi diretor do Teatro do Estudante Israelita, além de participar em peças das televisões. Sem esquecer, ainda é compositor de músicas sinfônicas interpretadas por diversas orquestras. Uma vida, com certeza, incomum. E, antes desse livro de agora, escreveu artigos científicos, publicados em revistas especializadas; e, mais, Elementos da Psicoterapia (1976); Entrevista, mitos, métodos e modelos (1986); e um capítulo (VI) no livro Psicossomática hoje (1992), editado por Júlio de Melo Filho, só livros técnicos.

“E de repente, mais de repente”, assim Pessoa diz em sua monumental Ode marítima (quase o mesmo que Vinícius de Moraes escreveu depois, no seu Soneto da separação, “E de repente, não mais que de repente”), de repente, pois, Samuel decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária. Alguém que jamais escrevera nada parecido, antes, por que o fez agora? Mistério. Embora mistério maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade (muito) superior dos seus textos.

O escritor Theóphile Gautier foi ver As meninas, de Velasquez. Passou horas contemplando cada detalhe da tela e, no fim, perguntou “Mas onde está o quadro?”. Uso essa metáfora, que ouvi do escritor português António Lobo Nunes, apenas para perguntar, depois de ler esse Na contramão e outros contos, “Mas onde está o livro?” Melhor resposta seria dizer que está em cada pequeno roteiro do autor. Nas tramas. No inesperado. Mas prefiro recorrer a Érico Veríssimo (em Todos nós somos um mistério), “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”.

Samuel faz parte do último grupo. E escreveu esse livro com certeza só para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. “A identidade é uma trajetória”, dizia Michel Foucault (Vigiar e punir). E essa identidade nele, a partir de agora, é ser reconhecido como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil.

DEU NO JORNAL

BESTEIRA

Ao ver déficit nominal bater os R$ 380 bilhões, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) lembra que o Brasil não vive uma pandemia, mas diz que o País “tem uma quadrilha gastando igual aloprado”.

Aí é dureza!

* * *

Linguarudo.

Difamador, esse Eduardo.

Um déficit de R$ 380 bilhões é uma besteira, uma minxaria.

Faz até bem pro país, segundo o pessoal que fez o L.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CONVERSA DE TAXISTA

Peguei um taxi no centro da cidade cumprimentei o motorista e dei-lhe o destino: orla de Jatiúca. Nesse mesmo momento, em frente, uma jovem atravessava a faixa de pedestre quando de repente o forte o Vento Nordeste levantou a saía da moça mostrando um belo traseiro apertado por uma minúscula calcinha vermelhe, as mãos da jovem ocupadas com sacolas, não teve como baixar a saia continuando a exposição de seu belo corpo para os sortudos que olhavam. Ao abrir o sinal, o taxista engatou a primeira e partiu Ele sorriu, satisfeito da vida, olhou-me de soslaio e comentou.

– O senhor viu que coisa linda? Há quem não goste disso. Sou casado, sustento minha família com esse taxi, mas tenho esse vício por mulher, gosto de dar uma voltinha por fora quando aparece oportunidade, entendeu Doutor?

Afirmei que entendia. O taxista continuou falando entrando na praia da Avenida da Paz.

– Maceió é a única capital que tem praia no centro da cidade. Não parou mais de falar, conhecia a velhaca política alagoana, foi citando os conhecidos até chegarmos à praia da Pajuçara, quando o taxi parou numa faixa de pedestre em frente a um luxuoso hotel. Nesse momento atravessaram três turistas andando devagar, vestidas em saída de praia, tecido fino e transparente mostrando os pequenos biquínis que mal cobriam as partes pudentes. Foi o pretexto para o taxista continuar a apologia à mulher.

– Olha aí que coisa mais linda, essas mulheres com o andar macio, sem pressa, ficam desfilando para o mundo, elas sabem que homem gosta de olhar. É um espetáculo e eu quero viver muito tempo para apreciar. A gente não come, mas olha, Doutor.

Deu uma risada de sua própria piada. E não parou de falar.

– Vou contar uma história, o senhor não vai acreditar. Na temporada em janeiro eu peguei no hotel duas paulistas bonitas feito a gota serena, levei-as à praia do Francês. Providenciei sombrinha, cadeiras, elas ficaram encantadas, pediram cerveja ao garçom, tomaram banho de mar, andaram na praia, retornaram à mesa, enchendo a cara com cerveja e caipirinha, eu só espiando e esperando ao longe. Já tarde resolveram almoçar na barraca, me convidaram. Comi uma boa moqueca de peixe, sem beber, é claro. Eu percebi que as duas estavam meio bêbadas, cantavam e conversavam. Só retornamos a Maceió anoitecendo. As paulistas começaram a conversar sacanagem, perguntavam-me coisas, se eu gostava, eu respondia tudo, meio encabulado no começo da conversa. Ao passar por um motel na beira da estrada, uma delas mandou eu para o carro. Imediatamente freie e estacionei no acostamento. Uma delas se achegou por trás de mim, convidou-me para uma “menage atroá”. Eu topei mesmo sem saber o que era “menage atroá”. Doutor nunca tinha visto tanta sem-vergonhice na minha vida, as mulheres fumaram maconha. Passamos duas horas no motel, aprendi tudo que é safadeza na minha idade. No final, elas pagaram a conta. Levei-as ao hotel em que estavam hospedadas na praia da Ponta Verde. Ao despedir-me, ofereci meus préstimos para o dia seguinte, levá-las a qualquer praia que quisessem. Elas me agradeceram, viajariam na madrugada, estavam numa excursão. Quando voltassem a Maceió, me procurariam. Entreguei-lhes meu cartão. Deram beijinhos, pagaram-me a conta com uma boa gorjeta.

O taxista só parou de falar quando chegamos ao meu prédio, ele ainda tinha outras história para contar. Agradeci, paguei. Fiquei pensando. Na outra encarnação quem sabe se terei a sorte em ser motorista de taxi em Maceió.

DEU NO JORNAL

TOFFOLI, A LAVA JATO E A COERÊNCIA NO ERRO

Editorial Gazeta do Povo

O ministro Dias Toffoli, durante sessão da Segunda Turma do STF em 21 de maio de 2024.

Do ministro Dias Toffoli, do STF, não se pode dizer que não seja um magistrado coerente. A coerência, no entanto, deixa de ser uma virtude e de merecer elogio quando se volta para o erro, e não mais para o bom, o justo ou o verdadeiro. Pois a última decisão monocrática de Toffoli no âmbito da Operação Lava Jato é exatamente uma demonstração dessa coerência que se transformou em obstinação no erro – erro, sim, mesmo na hipótese de ele crer que está fazendo o que é certo. Na terça-feira, dia 21, o ministro livrou o empreiteiro Marcelo Odebrecht de todos os processos e investigações que havia contra ele, e que agora se tornam nulos. A pessoa física Odebrecht se junta, agora, à pessoa jurídica que levava seu nome e agora se chama Novonor, já beneficiada também por Toffoli com a anulação de multas e todos os atos ligados aos acordos de leniência firmados pela empresa.

Uma decisão que podemos chamar de “coerente” com a prática recente do ministro, porque repete todos os absurdos que Toffoli, o ex-advogado do PT indicado ao STF por Lula em 2009, vem cometendo em seu esforço para reescrever a história da Lava Jato. Equívocos que começam pelo próprio fato de pesar sobre este ministro uma suspeição que é, no mínimo, de caráter moral, isso se não existir também do ponto de vista legal. Afinal, Toffoli apareceu na colaboração premiada de Marcelo Odebrecht, identificado como o “amigo do amigo de meu pai” – os três personagens que compõem o apelido seriam, respectivamente, Toffoli, Lula e Emílio Odebrecht, pai de Marcelo. Suspeições, no entanto, certamente não estão na ordem do dia para quem já chegou a anular uma multa milionária de outra empresa, a J&F, que tem entre seus advogados a própria esposa de Toffoli.

Toffoli também insiste no erro ao embasar sua decisão nos supostos diálogos que compuseram o circo midiático da Vaza Jato. Mesmo aceitando que a prova obtida ilegalmente possa ser usada em um processo quando beneficia o réu, há razões de sobra para tais supostos diálogos serem irrelevantes do ponto de vista jurídico, a começar pelo fato de sua autenticidade jamais ter sido comprovada, mesmo após perícias da Polícia Federal; e de, mesmo no caso de o conteúdo ser verdadeiro, não haver ali indícios de irregularidade, muito menos de conluio. Importa, aqui, recordar o que, em 2019, afirmou o então corregedor nacional do Ministério Público, Orlando Rochadel, ao arquivar uma reclamação contra Deltan Dallagnol. “Não se identifica articulação para combinar argumentos, conteúdo de peças ou antecipação de juízo ou resultado”, afirmou ele à época – e o Conselho Nacional do Ministério Público, é bom lembrar, jamais foi um órgão simpático a Dallagnol, muito pelo contrário.

Por fim, o ministro ainda agride o bom senso e a lógica ao manter os benefícios concedidos a Marcelo Odebrecht em seu acordo de delação premiada, assim como mantivera os da Novonor quando anulou as multas ligadas ao acordo de leniência firmado com o MPF. Acaba-se o ônus, restando apenas o bônus – que, ninguém ignora, foi o real motivo que levou tanto o indivíduo Marcelo Odebrecht quanto sua empreiteira a colaborar com a Justiça em vez de seguir negando tudo e enfrentar os tribunais em busca da absolvição, confiando na enorme expertise de sua equipe de advogados. Pois Toffoli também voltou a insistir na estapafúrdia teoria da “coação”, que, como já afirmamos neste espaço, exige um nível de “suspensão da descrença” que não se pede nem mesmo aos fãs de filmes de ficção científica ou leitores de obras de realismo fantástico.

Toffoli insiste em transformar a Lava Jato em uma enorme conspiração entre magistrados e membros do Ministério Público com objetivos políticos – alijar a esquerda do poder e alavancar futuras pretensões eleitorais dos agentes da lei – que, para serem atingidos, exigiriam uma série de ações ilegais que violariam o devido processo legal. O que o ministro do STF faz é a inversão pura e simples da realidade. Pois houve, de fato, conluio: entre o PT, seus partidos aliados e empreiteiras amigas. Tal conluio tinha, sim, objetivos políticos – perpetuar o projeto político petista, alijando seus adversários de qualquer chance razoável de chegar ao poder. E, para que o objetivo fosse atingido, foram cometidos inúmeros crimes de corrupção, pilhando as estatais – tudo devidamente comprovado e confessado. Mas Toffoli quer fazer um país inteiro crer que tudo isso jamais aconteceu.

A tentativa de impor uma realidade paralela em que os bandidos são vítimas inocentes, e os responsáveis por investigar e punir os corruptos é que são os bandidos, não pode prosperar. Certamente não prosperará entre os brasileiros que não tenham diante de si antolhos ideológicos que os impeçam de ver a verdade, mas isso não basta. O plenário do Supremo ainda não avaliou nenhuma das decisões de Dias Toffoli, apesar dos recursos já apresentados à corte pela Procuradoria-Geral da República. Cabe aos demais ministros decidir se freiam o revisionismo negacionista de seu colega ou se aderem a ele.

PENINHA - DICA MUSICAL