DEU NO JORNAL

CUBA, A ILHA-PRISÃO

Leonardo Coutinho

Jogadoras cubanas de hóquei na grama comemoram gol contra o Canadá no Pan de Santiago: maioria dos cubanos que fugiram durante a competição são da equipe feminina de hóquei.

Jogadoras cubanas de hóquei na grama comemoram gol contra o Canadá no Pan de Santiago: maioria dos cubanos que fugiram durante a competição são da equipe feminina de hóquei

Os Jogos Pan-Americanos de Santiago terminaram e dez membros da delegação de Cuba não voltaram para casa. Eles decidiram permanecer no Chile, onde tentarão obter refúgio ou asilo. As notícias sobre a decisão dos atletas de não embarcar para Cuba quase sempre tratam os casos como “deserção”. Um conceito militar que é empregado para aqueles que não cumprem suas obrigações, rompem um pacto para com seu grupo ou causa, ou viram as costas para o país em situações de serviço ou conflito. Sem forçar a mão na interpretação, quem deserta flerta com a traição. Por isso, é correto chamar de “desertor” quem foge de uma ditadura?

Quem escapa de um regime opressor não poderia jamais ser chamado de desertor. São vítimas que estão deixando para trás seus familiares, amigos, pertences pessoais e sua história com o lugar e todos os demais elementos que cada um pode considerar como parte de sua vida. Exilar-se custa muito.

As fugas só não são massivas porque os cubanos precisam ponderar que, além das perdas pessoais e afetivas, há uma série de dificuldades e ameaças impostas pelo regime cubano. Os familiares dos “desertores” permanecem na ilha, e passam a ser assediados e perseguidos de maneira implacável pelos agentes da ditadura. Os atletas nem sequer têm seus passaportes em mãos. Os documentos são recolhidos pelos capatazes logo depois que eles passam pela imigração. Confisco típico de quem escraviza. Prática conhecida, mas ignorada pelo Comitê Olímpico Internacional e federações esportivas, que jamais deveriam aceitar Cuba nas competições oficiais enquanto o regime mantém seus cidadãos sob cativeiro.

Cuba é uma ilha-prisão. Mesmo assim, quem tem a coragem – mas, principalmente, a oportunidade – foge.

No ano passado, duas atletas e um fisioterapeuta abandonaram a delegação no Mundial de Atletismo, nos Estados Unidos. Em 2021, 12 dos 24 jogadores da seleção de beisebol que disputou o Campeonato Mundial Sub-23, no México, também deram no pé. Durante o Pan de Toronto, em 2015, outros 30 atletas disseram basta para o regime cubano. Segundo o Estadão, desde o ano passado, nada menos que 187 atletas escaparam das garras da ditadura.

Em 2007, quatro membros da delegação cubana presente no Pan do Rio de Janeiro conseguiram escapar da vigilância do regime sobre eles. Dois deles, os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, acreditaram que, por estar no Brasil, encontrariam a liberdade. Ledo engano. Rigondeaux e Lara foram caçados pelas autoridades brasileiras, que, depois de localizá-los, os entregaram de volta para Cuba. Um dos episódios mais vergonhosos do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que transformou a Polícia Federal brasileira em extensão dos braços da ditadura cubana.

Anos depois, já sob Dilma Rousseff, o Brasil voltou a ser uma base de escravidão offshore de Cuba. Entre 2013 e 2018, mais de 15 mil cubanos foram explorados com a conivência do Planalto e a cobertura institucional da Organização Pan-Americana da Saúde, enquanto serviram ao Programa Mais Médicos. Quase 3 mil deles fizeram a opção de largar tudo e tentar uma vida nova no Brasil ou em qualquer outro lugar longe da exploração cubana.

Assim como os atletas, os médicos também tinham seus documentos retidos e sua liberdade vigiada. Além do já conhecido confisco de mais de 75% dos rendimentos que lhes eram devidos, os médicos que viveram no Brasil estavam sob chantagem. Qualquer “desvio” seria motivo para repatriação. A “deserção” significaria o confisco de seus poucos bens em Cuba e a promessa de punição financeira de parentes, que já viviam em um país precário e pobre.

Mas, se Cuba é o paraíso, por que tantos cubanos fogem da ilha?

Os defensores da ditadura vão dizer que não, Cuba não é um paraíso, e só não o é por causa do bloqueio genocida imposto pelos Estados Unidos. Mas (sempre há um “mas”), apesar de tudo, Cuba é, sim, um sucesso. “Seus indicadores são de dar inveja até em países do primeiro mundo”, dizem.

Então, por que tantos cubanos fogem de Cuba?

Cuba é uma ilha de fantasia. Habita o imaginário adolescente de muita gente já idosa que alimenta a propaganda de um regime que viola os direitos humanos e sufoca qualquer movimento por liberdade. Mais que fugir da carestia, os fugitivos do paraíso buscam algo que vai além do pão. Mas nos partidos de esquerda, escolas, parlamentos do Brasil à Finlândia, há quem pense que são desertores virando as costas para um país-paraíso que se resume às visitas guiadas ao Malecón e aos mojitos da La Bodeguita del Medio. Uma ilusão de paraíso que não resistiria a uma visita autônoma a um posto de saúde ou escola que estão atrás do biombo da revolução.

A PALAVRA DO EDITOR

SABADOU

Chegou o sábado!

E daqui a pouco termina a primeira quinzena de novembro.

Como o tempo passa ligeiro.

É vapt, vupt!

Nossa fogosa secretária Chupicleide já avisou que hoje vai relar o bucho num forró que rola no Bar da Burra Cega, um recanto escroto e apertado, localizado no Beco da Tapa, aqui no Recife.

E garantiu que vai encher a pança tomando umas e outras!

Ela manda um xêro especial para os fubânicos Áurea Regina, Magnovaldo Bezerra, José Claudino, Samuel Levi, Amaro Mendes e R.B. Soares, que possibilitaram a farra que ela vai fazer hoje.

E, além da farra de Chupicleide, também ajudaram bastante esta gazeta escrota a manter suas contas em dia. Que o diga Bartolomeu Silva, o doutor em informática que nos dá assistência técnica.

Um excelente final de semana para toda a comunidae fubânica!

E pra alegrar nossa tarde de sábado, uma gostosa roda de choro.

RLIPPI CARTOONS

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DULCE – Castro Alves

Se houvesse ainda talismã bendito
que desse ao pântano – a corrente pura,
musgo – ao rochedo, festa – à sepultura,
das águias negras – harmonia ao grito…

Se alguém pudesse ao infeliz precito
dar lugar no banquete da ventura…
E trocar-lhe o velar da insônia escura
no poema dos beijos — infinito…

Certo… serias tu, donzela casta,
quem me tomasse em meio do Calvário
a cruz de angústia que o meu ser arrasta!…

Mas se tudo recusa-me o fadário,
na hora de expirar, ó Dulce, basta
morrer beijando a cruz de teu rosário!…

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)

DEU NO JORNAL

J.R. GUZZO

SERÁ QUE ADIANTA A OAB RECONHECER QUE O STF AGE CONTRA A LEGALIDADE?

Ministro Alexandre de Moraes durante a sessão plenária do STF

Ministro Alexandre de Moraes durante a sessão plenária do STF

Até a OAB? Até a OAB. É um sintoma revelador da situação de desordem em que vive hoje o Sistema Judiciário no Brasil. Alguma coisa, definitivamente, tem de estar ainda mais errada do que se imagina, quando até a Ordem dos Advogados do Brasil começa a achar que a situação não está certa.

A entidade ficou calada como um túmulo, durante os últimos quatro anos, diante da violação serial do direito de defesa, das garantias do processo penal e das prerrogativas legais dos próprios advogados por parte do STF. A justificativa da OAB para apoiar a ilegalidade com o seu silêncio era a mesma de tantas outras estrelas da “sociedade civil”. O Supremo, no seu entender, estava em guerra para salvar a democracia no Brasil; diante desse propósito superior para os interesses da nação, e da imensidão da tarefa a realizar, não se podia ficar querendo que o STF respeitasse todas as leis. Não ocorreu à direção nacional da OAB, aparentemente, a conexão entre democracia e respeito à lei; uma coisa não existe sem a outra. Agora, enfim, parece que caiu algum tipo de ficha.

A OAB protestou, em nota oficial assinada por seu presidente, contra decisão do STF que proibiu os advogados de fazerem sustentação oral na defesa dos réus envolvidos nos distúrbios do dia 8 de janeiro em Brasília. Isso, de acordo com a Ordem, significa a supressão de direitos legais dos acusados; os advogados não podem falar de viva voz diante dos juízes, o que viola garantias constitucionais explícitas dos seus clientes.

A OAB poderia fazer outras reclamações. Na verdade, quase nada é legal ou lícito nesses processos, desde o seu primeiro minuto. Decidiu ficar só no veto à sustentação oral, que considera uma aberração particularmente perversa – para ficar apenas no aspecto mais chocante desse tipo de julgamento, o advogado tem de mandar a sua defesa por computador e a sentença pode sair minutos depois, com o mesmo texto de decisões já tomadas para outros réus. Alguém está lendo o que a defesa escreve? Não se entende, também, porque o sistema do “plenário virtual”, adotado para enfrentar a emergência da Covid, está sendo utilizado para um julgamento que não tem nada a ver com a situação existente durante a epidemia.

O protesto pode acabar sem nenhum efeito prático; os ministros do STF se acostumaram em ver os dirigentes da OAB de joelhos, e não entendem agora do que estão se queixando. Quem usa a força armada para violar a lei, e recebe aplausos, não tem muito interesse em mudar de conduta; tende a violar cada vez mais, e não menos.

Os réus não poderiam estar sendo julgados no STF, pois não têm foro especial. Não poderiam estar sendo condenados a até 17 anos de cadeia por participarem de um quebra-quebra. Não poderiam ser punidos sem que a acusação apresentasse provas de que cometeram os crimes dos quais são acusados – muitos nem sequer estavam no local geográfico dos distúrbios. Não poderiam estar presos quando são réus primários. Não poderiam ser condenados por cometerem ao mesmo tempo os crimes de “golpe de Estado” e de “abolição violenta do Estado de direito” – e não poderiam receber penas somadas por um e pelo outro. Não poderiam, obviamente, estar sendo julgados pela prática de um crime impossível de ser praticado. Como alguém pode dar um golpe de Estado sem ter sequer um canivete no bolso?

A OAB, apesar dos frequentes protestos dos seus próprios filiados, está engolindo tudo isso em silêncio. Fica difícil, agora, impressionar os ministros do Supremo.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

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