Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)
Eu quero dividir com vocês uma experiência que vivi ontem, não tão singular assim, mas, que envolveu o meu espírito e me trouxe algumas reflexões.
Não sei se por estarmos nesse período dito como das Boas-Festas, ou porque há dias eu quis desacreditar no futuro e na idoneidade da natureza humana quando vi perdoados R$ 10bi de um “réu confesso”; dinheiro que anda faltando em tantos lares e projetos neste Brasil de corruptos ricos e de honestos paupérrimos.
Minha narrativa começa em agosto quando minha mulher precisou passar por uma cirurgia, e tivemos que contratar alguém para nos auxiliar nas tarefas domésticas por um mês.
Nós fomos apresentados por uma nossa comadre à Sra. Eli (aqui revelo apenas o começo do seu nome).
Embora da minha idade, mais velha apenas dois anos que minha mulher, D. Eli é bem baixinha e traz no corpo as marcas da dureza de sua existência e no rosto as linhas deixando-a como se tivesse a idade de uma década a mais.
Há anos desempregada, D. Eli vive em uma casa sem reboco no subúrbio de uma cidade vizinha à nossa capital. Para vir trabalhar em nossa casa, anda dois quilômetros, pega duas conduções.
O marido desempregado há quatro anos, depois de haver perdido os movimentos da mão direita num acidente doméstico, vive em luta com o INSS tentando receber algum auxílio. Em vão.
Na casa moram mais uma filha do casal – a única carteira assinada, como garçonete num restaurante – e duas netas menores de idade.
Além do dinheiro da filha o capital que entra no lar deles são dos bicos do homem e das faxinas de D. Eli.
Depois do mês aqui em casa, com algumas limitações cognitivas, ainda assim nos afeiçoamos a D. Eli. Nossos filhos criaram carinho por ela também. Tenho certeza que pela simplicidade da pessoa que ela é.
Então resolvemos que D. Eli ficaria vindo de vez em quando fazer um trabalho aqui.
Ontem ela veio.
Muito calada, D. Eli às vezes fala e desabafa em sua voz baixinha. Mas, ontem, com extrema alegria ela embalou em uma conversa para nos contar do orgulho de haver participado de uma homenagem na escola da neta mais velha: a menina foi a melhor aluna do ano.
À tardinha, serviço concluído, agradecemos a D. Eli por sua ajuda e seu cuidado.
Desejamos um Ano-Novo melhor e a abraçamos com carinho.
Fiz o PIX.
Coloquei o dobro do acertado. O que foi passando sendo uma espécie de bônus.
Não lhe falei nada.
Mais tarde a filha de D. Eli ligou para minha esposa.
Educadamente perguntou como estávamos e prosseguiu quase sem deixá-la falar:
– É que eu vim com mãe aqui no banco sacar o dinheiro, e seu marido errou quando fez o PIX. Ele botou “X” – e sem esperar qualquer resposta, ela emendou: – a senhora me dê sua chave PIX que eu quero lhe devolver o que passou.
Minha mulher lhe pediu desculpas por eu não haver falado, e lhe revelou que era um bônus de Boas-Festas.
Então ouvimos a voz de D. Eli nos agradecendo e pedindo a Deus por nossas vidas.
De ontem para cá pensei muito sobre muitas coisas. Entre elas do quanto o nosso povo mais simples carrega em si o preceito do que é correto. Do que é direito.
E chego à conclusão que honestidade não é uma questão de direito. É de caráter.
Muitas vezes onde mais sobra riqueza é justamente onde mais falta caráter.
Pelo ato de D. Eli, ontem, eu vi que há esperança para o nosso povo. E eu não posso desacreditar nele.
Por que, de um momento para outro, resolveram lutar pela existência e estabilidade (além de muito dinheiro que conseguem dos governantes) no solo brasileiro, preferencialmente da região amazônica?
Por que essas ONGs não “tentam salvar” o Saara ou o Atacama?
Essas ONGs são todas compostas por “estrangeiros”?
Estudei Ciências Naturais no Curso Primário. Ao chegar no Curso Ginasial, ainda que fosse o mesmo assunto, Ciências Naturais recebia o nome de Botânica. Conheci, ali, ainda que superficialmente, itens da fauna e da flora. Pela primeira vez ouvi falar na Papua Guiné, onde, dizem, teria começado tudo. Ou, começado a terminar quase tudo.
Nos dias atuais, esquecemos as referências passadas e, além do tal “carbono” dominar todos os assuntos, falamos mais de biomas, etc., etc.
Por que isso?
Alguém que ler este reles texto, terá liberdade para dizer que, “Zé, o mundo mudou, e, com ele, os valores que se assomaram às descobertas”. Mas, não terá o meu “de acordo”.
Continuarei insistindo que o mundo não mudou. As pessoas, sim. E isso, para mim, jamais será a mesma coisa. Num passado nem tão distante, mundo à fora, sem excluir o Brasil, a quantidade de idiotas e imbecis era menos da décima porcentagem. Nelson Rodrigues tinha razão quando vaticinou: “o mundo será dominado pelos idiotas”.
Qual o mal que uma abelha faz para a humanidade?
Nos dias atuais, vira e mexe, conseguimos ver nas poucas árvores do perímetro urbano parasitas que nasceram a partir das sementes mal digeridas pelos pássaros que, literalmente expulsos pela devastação das florestas, procuram e acham abrigos para crescer e se multiplicar. As fezes, com a umidade, nascem, formando um visual nada agradável.
Também vemos, vez por outra, casas-ninhos de João-de-Barro construídos em engenharia magnífica em postes de iluminação elétrica ou em outros locais onde eles (os pássaros) se adequem.
E, por que isso?
Por enquanto, apenas pequenas aves tentam conseguir viver fora da floresta devastada. Mas, o que acontecerá, quando tivermos que dividir nossos espaços domésticos com jacarés, cobras, javalis e outros integrantes da fauna, considerados ferozes?
Em resumo: por enquanto estamos apenas sob ameaças. Mas, quase que diariamente, ao tomar o café matinal, tenho recebido a visita de abelhas – provavelmente por conta do cheiro que o açúcar orgânico (é o que uso, mais caro, mas o valor adicional me poupará de gastar mais com medicamentos) – ainda sem ferrão.
Isso significa para mim, que, em breve, além da “jandaíra”, espécie mais conhecida desde o meu sertão, poderemos ter a visita da “arapuá”, uma espécie difícil de ser domesticada para produção de mel. É violenta e a picada incomoda tanto quanto a picada do marimbondo.
E o mel que consumimos para fins medicinais, quem produzirá?
Mel de abelha tem importante percentual positivo na economia
EM TEMPO: Desejo aos amigos leitores e seguidores neste JBF, o mais venturoso Rèveillon, que 2024 traga saúde, Paz, prosperidade e entendimento, principalmente entre os familiares.
Mais um pouco de paciência e 2023 vai embora. De vez. Morre integralmente deixando apenas algumas lembranças gratificantes e outras bastantes amargas. Não espere milagre porque nada mudará automaticamente, ou seja, o dia primeiro de janeiro não fará o mundo viver melhor. Guerras continuarão vigentes e outras tantas arquitetadas; corruptos continuarão no poder; inocentes continuarão massacrados pela intolerância política ou religiosa; a fome continuará assolando moradores do Nordeste brasileiro que continuarão liderando o ranking de analfabetismo no Brasil. A quantidade de beneficiários do Programa Bolsa Família continuará superando a quantidade de empregos formais no Norte e Nordeste desse país.
Teremos um ano de eleições municipais e a política do panis et circenses será a principal tônica. Basta agradar o eleitor pobre com uma obra sem muito sentido, ou aplicabilidade, e os votos choverão na urna do benfeitor. A miséria continuará gerando votos e os imbecis continuarão miseráveis tanto de patrimônio quanto de espírito.
Caramba! Vai ser pessimista assim no inferno!… pensarão alguns de vocês. Não se trata de pessimismo, mas de realismo nu e cru. As desgraças, geralmente, são sistêmicas, ou seja, atingem a sociedade como um todo, enquanto as alegrias são individuais, familiares ou fraternas. O jogador de futebol que fica no banco de reserva, não está ali torcendo pelo time. Ele torce para que o titular se machuque e quando isso acontecesse ele entrar em campo com as mãos erguidas para o alto como se suas preces tivessem mesmo sido ouvidas por Deus.
Então, o possível Feliz Ano depende do volume de esperanças que carregas contigo. É esse combustível que te move e em função dele executarás os teus atos. O mundo só vai melhorar se colocarmos a esperança a frente das decepções, mas a esperança é uma variável dinâmica: aquele que senta e fica esperando que as coisas melhorem verá, tão somente, o tempo passar diante dos seus olhos sem agregar um milésimo de segundo a ao estoque de felicidade que carregas. “Quem vive de esperança morre de fome” exatamente pela falta de ação, de movimento.
Tem outro dito popular que diz “quem espera sempre alcança”. Pode até ser verdade, no entanto, esse “nirvana” pode demorar a vida inteira. É como a árvore plantada que só recebe incentivo quando chove e não creia que “A esperança é a última que morre”. Ledo engano, a realidade mata de forma mais drástica e muitas das vezes a esperança é um embrião que se perdeu no ventre dos sonhos.
O dito “enquanto a vida, há esperança” está, nitidamente, errado. É ao contrário: enquanto há esperança, há vida porque, de fato, a esperança é, ao mesmo tempo, um ponto de apoio e uma alavanca e como disse Arquimedes “dê-me um ponto de apoio e uma alavanca e eu moverei o mundo”. Creio nisso. Nós precisamos dessa estrovenga se quisermos sair do marasmo. Se quisermos fazer acontecer, não basta falar. Se sabe fazer, faça. Não espere porque o tempo passa e sua ação pode ter sido importante no segundo anterior.
Há quem diga que a “esperança é o pão dos infelizes” e quando ouço isso, lembro tremo nas bases porque entendo que se alarga o conformismo, o entreguismo a situações de penúria porque se delega a outrem a prerrogativa de fazer algo por você. Talvez seja com base nisso que as regiões Norte e Nordeste são repletas de necessitados que acreditaram que Frei Damião traria chuva para região ou que Antônio Conselheiro estava certo quanto disse, em 1833, que o “sertão vai virar mar”. Há uma romaria intensa na região em torno de “Padim Ciço” no qual o sertanejo deposita esperanças e milagres que não existem. Não espere milagre, faça a sua parte.
“A miséria só começa quando a esperança acaba”. Isso está muito sintonizado com o tal “pão dos infelizes”. Não é assim. A miséria não é uma imposição divina. Ela é criada pelo Homem. E aí, as pessoas usam o temor de Deus, a religião, etc. para justificar a miséria e trabalhar para que ela permaneça. Não é de graça que as regiões, Norte e Nordeste, possuem mais beneficiários do Bolsa Família do que empregos formais.
Então, prezado leitor. Faça suas escolhas, baseadas nas suas convicções. Qualquer decisão sua, você será o primeiro a ser afetado. Transforme, cada dia de 2024, num altar de esperança, mas trabalhe para que haja ação.