Sinal dos tempos…

Lygia Fagundes da Silva Telles nasceu em São Paulo, SP, em 19/4/1923. Advogada, jornalista, romancista e contista, conhecida como “a Dama da Literatura Brasileira”. Transitou com desenvoltura após o “Modernismo” de 1922, na geração modernista de 1945 até o “Pós-Modernismo” em princípios do século XXI. Trata-se de uma das mais elegantes, expressivas, representativas e profícuas escritoras brasileiras.
Filha de Maria do Rosário S.J. de Moura e Durval de Azevedo Fagundes. Devido a profissão do pai -juiz e promotor público- passou a infância em cidades do interior e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu por 5 anos. De volta a São Paulo, ingressou na Escola Normal Caetano de Campos e tomou gosto pela literatura. Aos 17 anos ingressou na Escola Superior de Educação Física e aos 18 iniciou, em paralelo, o curso de Direito na USP. Fez sua estreia literária com um livro de contos – Porão e sobrado -, publicado em 1938 e foi bem recebido pela crítica. O 2º livro publicado – Praia viva – se deu em 1944, quando já cursava a Faculdade de Direito da USP.
Aí manteve contatos com Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, Hilda Hilst e participou da Academia de Letras da faculdade, colaborando nos jornais Arcádia e A Balança. Em 1946 formou-se advogada e no ano seguinte casou-se com Gofredo Teles Júnior, seu professor. Na época ele era deputado federal e o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu 3º livro de contos – O cacto vermelho (1949) – recebeu o Prêmio Afonso Arinos da ABL-Academia Brasileira de Letras. No Rio trabalhou pouco tempo como advogada na Secretaria de Agricultura, mas logo deixou a profissão para dedicar-se a escrever.
Manteve uma coluna de crônicas no jornal A Manhã e pouco depois teve o 1º filho Gofredo da Silva Telles Neto, em 1954. No mesmo ano lançou seu 1º romance: Ciranda de Pedra e, segundo o crítico Antônio Cândido, atinge a maturidade literária. Ela mesma considera este romance como o marco inicial de suas obras e o que ficou para trás “são juvenilidades”. Em agosto de 1954, William Faulkner esteve em São Paulo num encontro com os escritores. Fitando-lhe os olhos, animou-se e elogiou: “Se seus contos forem tão bonitos quanto seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”.
A partir daí, são frequentes os lançamentos seguidos de premiações literárias: Histórias do desencontro (1958) recebeu o Prêmio do INL-Instituto Nacional do Livro, Verão no Aquário (1963) conquistou o Prêmio Jabuti. Na época, já divorciada, casou-se com Paulo Emílio Sales Gomes e, em pareceria com ele, escreveu o roteiro do filme Capitu (1967), baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, agraciado com o Prêmio Candango de melhor roteiro cinematográfico. Na década seguinte ficou consagrada como escritora em âmbito internacional. Antes do Baile Verde (1970), o conto que nomeia o livro, ganhou o 1º prêmio no Concurso Internacional de Escritores, na França; As meninas (1973) recebeu o Prêmio Jabuti; da ABL e da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte; Seminário dos Ratos (1977) foi premiado pelo PEN Club do Brasil.
As premiações continuam com A disciplina do Amor (1980), Prêmio da APCA; As Horas Nuas (1989) Prêmio Pedro Nava; A Noite Escura e Mais Eu (1995) Prêmio Arthur Azevedo, da Biblioteca Nacional e Prêmio Jabuti; Invenção e Memória (2000) Prêmio Jabuti, Prêmio APCA e “Golfinho de Ouro”; Conspiração de Nuvens (2007) Prêmio APCA. A consagração maior veio com o Prêmio Camões, outorgado pelos governos de Portugal e Brasil, em 2005, pelo conjunto da obra.
Ao todo recebeu 20 prêmios literários; teve seus livros traduzidos para diversos países; integrou as Academias Paulista e Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa. Segundo Clarice Lispector, Lygia é uma das maiores escritoras de contos do País, “inclusive entre os homens”.
Tinha uma nítida concepção de seu papel: “O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão”. Algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, teatro e TV. Foi condecorada com a Ordem do Rio Branco; Ordem das Artes e das Letras, pelo governo da França; Ordem do Mérito Docente e Cultural “Gabriela Mistral”, pelo governo do Chile e Ordem do Ipiranga, pelo governo do Estado de São Paulo; Ordem do Infante D. Henrique de Portugal, entre outras condecorações, além do título de Doutora Honoris Causa concedido por diversas universidades. Em 2016 foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores.
Apesar de muitas informações e a própria ABL indicarem seu nascimento em 1923, uma pesquisa realizada pelo genealogista Daniel Taddone revelou que, conforme o registro de nascimento, de batismo e certidão de casamento, informa que ela nasceu em 1918. Faleceu, portanto aos 103 anos e não aos 98, em 3/4/2022. Ainda não temos uma biografia de Lygia, temos apenas diversos verbetes biográficos na Wikipedia. Mas existem alguns livros sobre seu processo criativo: Técnica Narrativa em Lygia Fagundes Telles, de Katia Oliveira, publicado em 1972, pela Editora da UFRGS; A Metamorfose nos Contos de Lygia Fagundes Telles, de Vera Maria T. Silva, em 1985 pela Presença Edições; A Ficção Intertextual de Lygia Fagundes Telles, da mesma autora, em 1992, pela Editora da UFG. Os Cadernos de Literatura Brasileira, do IMS-Instituto Moreira Salles, dedicaram-lhe o nº 5, de novembro de 1998, com um seletivo panorama sobre a escritora e sua obra.
Leonardo Coutinho

“O Brasil está de volta.” Desde a confirmação dos resultados da eleição presidencial no Brasil no final de outubro passado, esse talvez tenha sido o lema de quem, sob a perspectiva das relações internacionais, se entusiasmou com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Presidentes, primeiros-ministros, ONGs, imprensa… todo mundo se uniu sob o mote que resume a ideia de que Jair Bolsonaro havia transformado o Brasil em uma espécie de Coreia do Norte tropical – isolada e obscurantista.
A despeito dos fatos que possam ser apontados sobre o papel da política externa brasileira nos últimos quatro anos, o tal “O Brasil está de volta” não deve ser sinônimo de comemoração. Muito pelo contrário. A diplomacia brasileira sob a batuta (ou seria tacape?) petista tem um desempenho de arrepiar. Ou não. Como tudo em política, depende do gosto do freguês.
As intenções das ações do Brasil quase sempre são justificadas pela busca da paz, pela consolidação da autodeterminação e soberania dos povos, fortalecimento das alianças Sul-Sul e, ao fim, o redesenho do mundo sob o rearranjo da tal multipolaridade. Intenções que sabe lá Deus se são realmente sinceras.
Vamos ao fato da semana. Dois navios de guerra do Irã ancoraram no Rio de Janeiro. Nada demais, segundo a avaliação de ex-embaixadores brasileiros, que viram no ato um sinal de “independência do Brasil”. Um cacoete típico de diplomatas que olham para países como o Irã como se fossem a Suécia.
Sinceramente, alguém pode mesmo acreditar que o regime dos aiatolás colocou esses navios no mar para um rolê da paz, como disse a Embaixada do Irã em Brasília no Twitter?
O Irã está em guerra constante desde o dia em que Ruhollah Khomeini fundou a teocracia que até hoje governa o país. Justamente por ser uma teocracia, o regime iraniano e seus atos não podem ser analisados sem a fusão dos elementos políticos e religiosos. A escatologia (teoria sobre o fim do mundo e o que vem depois disso) xiita é exuberantemente útil para interpretar as ações do regime.
Desde o antissemitismo atávico, que atinge o ápice com o público desejo de varrer Israel do mapa, à compulsão em ter uma arma nuclear, sobram sinais de que para o Irã (se é que eles levam a sério o que eles dizem acreditar) a guerra total (nuclear?) é o caminho para a volta do profeta Jesus, o Messias para os cristãos. O tema é delicioso e longo demais para caber em uma coluna.
Voltando aos navios. A flotilha iraniana tem planos de dar uma volta ao mundo, segundo a propaganda iraniana. Por questões óbvias, eles estrearam a viagem passando pelo Estreito de Ormuz, a saída natural para os navios iranianos e ponto de passagem para 30% do petróleo negociado no mundo. Depois disso, eles seguiram para a Indonésia. Por lá, singraram o Estreito de Malaca, por onde transita nada menos de 20% de todo o comércio global. Depois disso, “deram uma sumida” nas águas do Pacífico até tentarem uma ancoragem no Chile. O presidente Gabriel Boric disse-lhes não.
Então, sem escalas, eles atravessaram a Passagem de Drake, no ponto mais ao sul do continente americano. Fizeram-se de “invisíveis” para a Argentina, onde o Irã é acusado de ser autor do atentado contra a Associação Mutual Israelita de Buenos Aires (Amia).
Os iranianos conseguiram porto no Brasil, mas tiveram, por alguma razão (explico minha hipótese em um fio no Twitter), que atrasar a viagem. Passaram um mês escondidos entre centenas de pesqueiros ilegais chineses ao norte das Ilhas Malvinas.
O desembarque no Brasil está sendo tratado como um ato de soberania. O dog whistle para as manchetes que predominaram em absolutamente todos os sites e jornais brasileiros foi dado pelos russos da agência Sputnik no dia 24 de fevereiro: “Brasil rejeita pressão dos EUA e autoriza entrada de navios iranianos no Rio de Janeiro”. O argumento pautou todo mundo e tirou de Lula e da diplomacia a responsabilidade de importar para região conflitos que deveriam estar contidos bem longe.
Depois de zarpar do Brasil soberano, terra da diplomacia ativa e altiva, os navios iranianos têm previstos uma visita ao regime de Nicolás Maduro e um deslocamento até o Canal do Panamá, por onde transita cerca de 6% do comércio marítimo mundial.
Ormuz-Malaca-Drake-Panamá. Seria coincidência ou uma viagem de preparação para algo tão inédito como a chegada de um navio de guerra iraniano em um porto sul-americano? Não existe resposta fácil. Mas certamente ela não pode ser dada pela prosaica excursão de diplomacia marítima e mensagem de paz que Teerã diz ser. Recomendo a quem possa interessar prestar bastante atenção na estabilidade das rotas marítimas.
Agora vamos voltar no tempo. Mais precisamente 13 anos, no final do governo Lula 2. Em 2010, o Brasil se prontificou com a Turquia a salvar o mundo. A ideia era construir uma alternativa “Sul-Sul” para um acordo nuclear com o Irã. Quando o Brasil entrou em cena, o nó da questão era o seguinte: o Irã tinha que entregar 1,2 mil quilos de urânio pobremente enriquecido. Pelo menos desde 2007, Lula tentava ajudar o Irã a garantir o seu direito de desenvolver seu programa nuclear.
A história mostra que os movimentos de Lula em favor dos iranianos não deram em nada. Pelo menos sob o aspecto formal. Na prática, o jogo de cena dos iranianos com a colaboração (prefiro crer que inocentemente passiva) dos brasileiros ajudou muito as ambições atômicas do regime.
Sabe aqueles 1,2 mil quilos de urânio pobremente enriquecido que o Irã tinha em suas mãos em 2010? Pois é, em 2015 o acordo foi finalmente assinado (sem participação alguma do Brasil), e o Irã tinha em seu poder 10 mil quilos de urânio pobremente enriquecido. Em cinco anos, eles multiplicaram por oito os seus estoques, enquanto Lula brincava de construir a paz mundial com seu colega Mahmoud Ahmadinejad.
A lista de conquistas da diplomacia petista é longa. Caberia contar como foi a operação que Dilma Rousseff, Maduro e a dupla Fidel e Raúl Castro fizeram para expulsar o Paraguai do Mercosul e incluir ilegalmente a Venezuela. O suporte a Manuel Zelaya, em Honduras. A tramoia com a Organização Panamericana de Saúde para contratar os médicos cubanos em regime análogo à escravidão. A prisão dos pugilistas cubanos e a devolução deles ao regime de Fidel Castro. O envio de João Santana para fazer campanhas na Venezuela e El Salvador, que foram pagas com dinheiro roubado nos esquemas de financiamento de obras via BNDES.
E… “O Brasil está de volta”.
Verme maldito. pic.twitter.com/2RKMSdG3gF
— Roger Rocha Moreira (@roxmo) March 3, 2023
O Clube de Roma é um grupo de cientistas ilustres que se reúnem periodicamente para debater um vasto conjunto de assuntos relacionados à política, à economia internacional e, sobretudo, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável. Foi fundado em 1968 pelo industrial italiano Aurelio Peccei e também pelo escocês Alexandre King.
A entidade tornou-se muito conhecida a partir de 1972, ano da publicação do relatório intitulado Os Limites do Crescimento, elaborado por uma equipe do MIT, contratada pelo Clube de Roma e chefiada por Dana Meadows.
O relatório, que ficaria conhecido como Relatório do Clube de Roma ou Relatório Meadows, tratava de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade, como energia, poluição, saneamento, meio ambiente, tecnologia e crescimento populacional. Foi publicado e vendeu mais de 30 milhões de cópias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre ambiente mais vendido da história.
Utilizando modelos matemáticos, o MIT chegou à conclusão de que o Planeta Terra não suportaria o crescimento populacional devido à pressão gerada sobre os recursos naturais e energéticos e ao aumento da poluição, mesmo levando em conta o avanço tecnológico.
Recomendo aos sempre pensantes, para uma boa reflexão quaresmal, a leitura de excelentes páginas binoculizadoras, que muito poderão favorecer estratégia de sobrevivência para todos os quatro cantos do mundo: RESGATAR A FUNÇÃO SOCIAL DA ECONOMIA: UMA QUESTÃO DE DIGNIDADE HUMANA, Ladislau Dowbor, São Paulo, Elefante, 2022, 176 p. O autor é professor de Economia da PUC de São Paulo, consultor de agências da ONU e gestor do site http://dowbor.org, pequena biblioteca científica com textos disponíveis gratuitamente. Vale a pena dar uma espiadinha analítica no que está lá à disposição de todos.
Sem preocupações analíticas teologais, muito apreciaria também ver analisados alguns ditos contidos em Provérbios, um dos livros do Primeiro Testamento, considerado o de maior sabedoria em todos os tempos. Textos provavelmente escritos pelo rei Salomão, que teve 800 dos seus 3.000 provérbios incluídos naquela parte das Sagradas Escrituras.
Numa conjuntura pós-moderna que está destruindo inúmeros valores, minimizando morais, ridicularizando o eterno, debochando do honesto, desvalorizando o sagrado e menosprezando o talento, o bom senso e o bom gosto, além de desconstruir sinceridades e compromissos sociais, uma leitura atenta de Provérbios reedificará caminhadas, sedimentará novas convicções e realimentará redirecionamentos pessoais compatíveis com os balizamentos éticos contidos em todas as crenças religiosas.
É oportuno lembrar que o livro Provérbios possui ditos espirituosos, poemas, chistes engraçados, dele se originando inúmeros adágios populares. Cito alguns exemplos dos seus 31 capítulos:
Quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato (Pv 10,19)
Como o vinagre para os dentes e a fumaça para os olhos, assim é o preguiçoso para aqueles que o enviam (Pv 10,26)
Melhor viver no deserto do que com uma mulher briguenta e amargurada (Pv 21,19).
Se eu fosse escolher provérbios sempre alertadores, faria as seguintes escolhas:
– Os homens maus e sem valor vivem dizendo mentiras. Piscam e fazem gestos para enganar os outros. As suas mentes perversas estão sempre planejando o mal, e eles espalham confusão por toda parte. Por isso a desgraça cairá de repente sobre eles, e não poderão escapar (Pv 6,12-15).
– Quando um governador dá atenção a mentiras, todos os seus auxiliares acabam se tornando maus (Pv 29,12).
– Quem anda com os sábios será sábio, mas quem anda com os tolos acabará mal (Pv 13,20).
– O que se arrebenta todo por falta de conselhos, desconhece que os bem-sucedidos possuem muitos conselheiros dotados de senso crítico (Pv 15,22).
– O amigo quer o nosso bem, mesmo quando nos fere; mas, quando um inimigo abraçar você, tome cuidado! (Pv 27,6).
Juntemos as nossas migalhas de esperança. Saibamos esperançar! Todos, sem distinção, desarmados, sem odiosidades e complexos de superioridade. Sempre brasileiros, sem ódios nem preconceitos nem aloprados alucinados.