“O Mercado é uma entidade bolsonarista. Inclusive quando a democracia esteve ameaçada ele precificou a ditadura e foi em frente. Então nem sei se no campo democrático o Mercado está. Depois desses 4 anos de governo Bolsonaro muitas coisas ficaram claras.”pic.twitter.com/JcmZKe4r0p
Lisboa. Escrevo essa coluna como membro da Academia Pernambucana de Medicina (mesmo sendo só advogado), uma honra enorme. Hoje, conversas apenas com médicos.
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ANTÔNIO MIRANDA, cardiologista. Chamaram para ver paciente com derrame. Fez todos os exames e deixou, como diagnóstico, um curto bilhete
– Irineu, bem. Mas Irene vai ficar viúva, logo.
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CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. No dia em que comemorou 80 anos, fez uma última operação e se aposentou como cirurgião, depois de carreira consagradora. Então lembrou do grande cirurgião canadense Pierre Grodin que um dia lhe disse
– Somos como bailarinos, amigo, e precisamos deixar o palco antes do primeiro tombo.
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GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista. Contou que na cidade de Luís Gomes (RGN), onde nasceu, o médico João Izidro atendeu velhinha que se queixava de incômodos no corpo todo
– A senhora tosse?
– Às vezes sim, às vezes não.
– Tem dor de cabeça?
– Às vezes sim, às vezes não.
– Sente febre?
– Às vezes sim, às vezes não.
O médico, já irritado com as respostas, escreveu a receita. E a velhinha
– O que devo fazer?
– Tome o remédio às vezes sim, às vezes não.
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GERALDINHO CARNEIRO, da ABL. Clínica Sorocaba, foi fazer exame da próstata. No consultório, só ele e o proctologista. Ana Paula Pedro, sua mulher, ficou numa saleta contígua. O doutor, no momento crucial, perguntou
‒ Está incomodando?
E Geraldinho, querendo ser simpático,
‒ Não, está ótimo.
Foi quando sua mulher, de onde estava, gritou
‒ Que história é essa de “está ótimo”???
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GIOVANNI SCANDURA, publicitário. Viu duas irmãs suas conversando sobre a morte.
– Geórgia, eu quero morrer!
– Que nada!, Célia, tu vai aos médicos todos os dias… Como posso acreditar?
IARA, dentista. Chega, no consultório, uma jovem com dentes lindos. Apesar disso, pede
– Por favor arranque todos.
– Não posso, minha senhora, que seus dentes são perfeitos.
– Ainda assim tire, por favor.
– Mas por quê?
– Eles fedem.
Não era verdade. Só impressão. E Iara não resistiu
– Minha filha. Se não quiser ficar com nada que feda, no corpo, melhor começar jogando fora seu cu.
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REINALDO OLIVEIRA, cirurgião. Batem no portão e Maroca, patrimônio da casa, vai ver quem é.
É o assunto do momento; todo mundo parece ter uma opinião sobre as nossas urnas eletrônicas. Como alguém que trabalhou dez anos com informática, mexendo com software e hardware, vou dar minha opinião também.
A pergunta fundamental que todos fazem é “as urnas são seguras?” Vou começar a resposta com uma metáfora:
Imagine que você ouviu falar de uma empresa que aluga os cofres mais seguros do mundo. Você vai até lá para guardar seu dinheiro e o gerente mostra os vigias armados, as câmeras de vigilância, os alarmes, as trancas, as fechaduras eletrônicas e um monte de normas e procedimentos para garantir a segurança. Impressionado, você pede um cofre para você. O gerente o leva até uma sala blindada e abre um dos cofres. Você coloca seu dinheiro lá dentro. O gerente tranca o cofre, retira a chave e a coloca no bolso. Espantado, você pergunta “mas e a chave?” O gerente responde “a chave fica comigo”, e vai embora sorridente.
O que esta estorinha tem a ver com as urnas? É que, em ambos os casos, todos os dispositivos de vigilância e todos os protocolos de segurança são inúteis, porque tudo fica na mão do gerente que tem a chave. No caso das urnas, o gerente é o TSE, e todas as garantias solenes que o TSE proclama sobre as urnas não significam nada, porque é o mesmo TSE que tem o controle de tudo. Sim, os seus membros vivem repetindo que a sociedade precisa (ou tem obrigação de) “confiar nas instituições”, mas como já disse um jornalista cujo nome me escapa, somos uma república laica: nosso sistema de governo não é baseado na fé.
Em termos técnicos, as urnas são invioláveis? Para terceiros, sim; para gente de dentro do TSE ou dos TREs, não é e nunca poderá ser. Quem têm a posse e o controle do hardware, isso é, do equipamento físico, pode fazer o que quiser com ele, e todas as “demonstrações para a imprensa” das qualidades da urna são exatamente como o gerente garantindo a inviolabilidade do cofre com a chave no bolso: quem confia nele, ótimo; quem não confia, não têm o que fazer.
Em termos práticos: o TSE mostra um software muito bonito e garante que ele é inviolável. Antes da eleição, dezenas ou centenas de técnicos instalam o software nas milhares de urnas que serão usadas. Quem garante que o software que está sendo instalado é o mesmo que foi mostrado e certificado? Apenas o próprio TSE. Quem garante que os procedimentos adotados pelo TSE são seguros e suficientes? O TSE. Ou seja, não há controles externos, não há transparência, não há possibilidade de auditoria.
“Ah, mas as urnas podem ser inspecionadas após a eleição!” Inútil. Qualquer programador digno do nome sabe instalar um software que adultere os resultados e que se auto-apague em seguida (após a impressão do tal “boletim de urna”, por exemplo), deixando a urna “bonitinha” para uma eventual auditoria.
Tenho ouvido falar em gente que quer “inspecionar o código-fonte” das urnas. Espero do fundo do coração que seja apenas uma bravata política para aparecer na imprensa, porque acreditar nesse tipo de inspeção faz tanto sentido quanto pedir para um atleta que colha uma amostra de urina quando estiver sozinho em casa e mande pelo correio para o exame anti-doping. Para não deixar dúvida, deixo de lado as metáforas e repito: não há como saber se o software que foi instalado em cada uma das urnas corresponde a um código-fonte qualquer. Querer “auditar” isso seria uma enorme demonstração de incompetência e desconhecimento técnico.
Mudando de assunto: e a questão da apuração? Os tais “algoritmos” que muita gente está falando? Na minha opinião, é bastante improvável, por vários motivos: ao contrário das urnas, a apuração é centralizada. A quantidade de gente envolvida é muito menor, o que dificulta “passar desapercebido”. Os computadores de grande porte dispõem de muito mais recursos de auditoria, e é bem mais difícil (embora não impossível) colocar um software malicioso no sistema sem deixar vestígios. E, por último, a totalização é auditável: basta reunir os boletins impressos por cada urna e conferir com o que está registrado no sistema. As “evidências” que alguns vêem como prova da fraude para mim são evidências da ausência de fraude, porque a primeira coisa que uma conspiração deste tamanho faria seria programar a fraude de modo a não parecer uma fraude. Em resumo, não vi nenhum argumento plausível que sustente a teoria de que houve fraude na totalização dos votos.
Mudando de assunto de novo: uma urna que imprimisse os votos seria a solução? Na minha opinião, não. Se por um lado ela seria teoricamente auditável, na prática ela é vulnerável a uma ação de sabotagem bastante simples: um sujeito entra na cabine, digita alguma coisa (que ninguém mais vê) e sai gritando “fraude! fraude! eu digitei 69 e a urna registrou 96!”. O que fazer? Como provar? Não há o que fazer. Basta uma ação coordenada de uma dúzia de militantes para causar o caos em um local de votação; basta ver o que já acontece hoje, onde eleitores “vêem” as coisas mais improváveis. Para mim, o sistema de votação ideal ainda é o bom e velho voto de papel preenchido à caneta pelo eleitor. Além de seguro, seria um bom motivo para separar as eleições de presidente e governador das eleições para o congresso, já que no modelo atual ninguém presta atenção nestas últimas e vota no primeiro nome que vêm à cabeça.
Resumindo para encerrar: o sistema atual têm falhas intrínsecas e insanáveis, e se algo aconteceu nesta ou em qualquer outra eleição, nunca saberemos.
Zaqueu, operário de uma fábrica de confecções, é considerado um homem do povo. Faz parte do contingente anônimo, citado costumeiramente nos discursos políticos, em época de campanha eleitoral, quando lhe prometem mundos e fundos.
O povo é uma entidade abstrata, em nome da qual muito se fala e pouco se faz. Está sempre na linha de frente dos discursos dos políticos e na retaguarda das benesses prometidas e recebidas.
Zaqueu mora numa casinha modesta, na periferia da cidade, um local “onde o vento faz a curva”.
Certo dia, Zaqueu, chegou em casa eufórico e disse para Marina, a esposa, que tinha uma grande surpresa para ela, e pediu que adivinhasse.
A primeira impressão dela foi que eles tinham sido sorteados no “Baú da Felicidade”, mas não era isso; depois, pensou que ele tivesse tido um bom aumento de salário, também não era. Depois de muito suspense, Zaqueu ele revelou a novidade: -Você sabe quem vai chegar, mulher? A Democracia!!!
A mulher ficou deslumbrada:
– Meu Deus. A Democracia vai chegar?!!! É verdade? Será Que você não escutou errado, Zaqueu?
O marido falou sério e a mulher ficou sem saber o que fazer. Andou nervosa de um lado para o outro e disse ao marido que iria tomar um banho e passar um pente no cabelo. Ele lhe pediu que passasse o ferro no paletó antigo que tinha sido do casamento deles, pois queria ver a chegada da Democracia de paletó e gravata, pois o acontecimento que eles iriam assistir era muito importante.
Pediu que ela vestisse o vestido novo das festas de fim de ano, pois não queria que a Democracia a conhecesse vestida com roupas molambentas. Disse que na fábrica onde trabalhava, seu patrão tinha comentado que há muitos anos a Democracia não vinha ao Brasil.
Eufórico, Zaqueu só falava no festão que estava programada para a chegada da Democracia.
Muito contente, mandou que a mulher fizesse um bolo, enfeitasse a casa e telefonasse de um orelhão para a rádio Bujari, estação rodoviária e estação ferroviária, para saber, ao certo, a data e horário da chegada da Democracia. Disse à mulher que enquanto isso, iria até o Bar do Primo, avisar à rapaziada da chegada dessa visitante ilustre, a Democracia.
Os frequentadores do bar estavam jugando Sinuca e Zaqueu gritou: “Olha aí, turma, a grande novidade que eu trago pra vocês: Adivinhem quem vai chegar???
– Waldick Soriano!!!! – disse logo um biriteiro.
– Não. A Democracia!!!. É pouco, ou querem mais? “Dá pra tu, ou fica frouxo?”
A rapaziada arregalou os olhos, todos espantados com a novidade..
Um deles perguntou desconfiado:
– Zaqueu, estás querendo fazer a gente de besta?
– Não! Eu quero que minha alma vá pro inferno, se eu estiver mentindo!
Houve um minuto de silêncio, e um mecânico que lá se encontrava falou:
– Poxa, que legal! Sabe que, na minha vida, eu nunca vi a Democracia? Sou louco para conhecer.
Um bombeiro que lá estava também falou:
– Eu também nunca vi a Democracia. Eu só conheço a burocracia.
O mecânico perguntou:
– Zaqueu você já viu a Democracia alguma vez? Como é ela?
Mentindo, Zaqueu respondeu:
– Eu só vi a Democracia uma vez, mas era muito pequeno. Por isso, não me lembro direito.
Um empregado de uma padaria que estava no bar, quis se mostrar:
– A Democracia é um sarro – eu escuto sempre os homens falando em democracia pra cá, democracia pra lá, mas não sei direito o que é. Afinal das contas, o que é que a gente vai poder fazer quando ela chegar?
Muito falante, Zaqueu respondeu:
– Tudo. A democracia é o governo do povo e para o povo. Com a Democracia, a gente pode fazer tudo, menos xingar o Governo, nem praticar atos proibidos por lei.
Um gaiato perguntou se poderia tirar as calças na rua, xingar o governo, comprar fiado e não pagar, e passar a ser atendido no INPS sem passar horas nas filas, e a resposta foi sempre negativa.
Surgiram, então, os comentários: O bombeiro hidráulico, muito falante, disse e o empregado da padaria endossou: “Essa tal de Democracia não tá com nada.”
Foi aí que um senhor, com cara de professor, interferiu: “Tá sim. Quando a Democracia chegar, vai acabar com a Censura.”
Um dos rapazes que se encontrava no bar, perguntou:
– Quer dizer que não vai mais ter filme impróprio até 18 anos? – Todos riram.
O professor continuou falando:
– A Democracia vai acabar também com o AI-5.
AI-5? O que é isso?- perguntou um curioso. – Nunca ouvi falar nisso. É um remédio pra mulher não engravidar? Diz, Zaqueu, o que é Democracia!
Zaqueu pensou, pensou e foi sincero:
– Agora eu me enrolei todo.
O professor o socorreu:
– Democracia é o regime de governo do povo e para o povo.
A euforia foi grande. Cada um que falasse mais alto:
Oba, Governo do povo? – gritou o bombeiro: Então eu quero ser Ministro.da Fazenda! O mecânico disse que queria ser Ministro da Agricultura; o empregado da padaria disse que queria ser Vice-Presidente do Brasil e um alfaiate disse que queria se o Presidente. E todos vibraram com a novidade: “Chega de trabalhar!!! Eu agora quero é moleza e viajar muito, igual aos políticos!!!”
Todos almejavam ocupar um Ministério. A confusão foi grande. Para restabelecer a ordem, Zaqueu disse que iria ser Ministro da Energia. E usando sua energia, conseguiu que todos se acalmassem da euforia que tinha tomado conta desses homens do povo.
Zaqueu foi até em casa para ouvir da esposa o que ela tinha conseguido saber sobre a data e horário da chegada da Democracia.
Encontrou a mulher sem graça e desarrumada. Perguntou o que tinha havido.
A mulher respondeu que a Democracia iria chegar, mas não passaria por lá, pois a agenda esta muito cheia.
Zaqueu ficou indignado. Então ela não vem visitar o povo? E o povo somos todos nós!!!
A mulher entregou ao marido uma lista com a agenda que a Democracia teria de cumprir quando chegasse:
Às 7h15m estaria em Brasília e teria de cumprir vários compromissos agendados, até às 21 hora. A correria seria grande. Às 22 horas, a Democracia deveria estar no Palácio do Governo, onde se realizaria um festão. Zaqueu então, animou-se para ir conhecer a Democracia, acompanhado da esposa Marina. Mas a mulher o fez desistir, pois só seria permitida a entrada de convidados de “black – tie”. Nessa festa, seria entregue à Democracia, o título de “Regime de Visão, para o Povo e pelo Povo”
Houve um tumulto nas ruas e todos queriam saber se poderiam entrar nessa festa. A resposta dos organizadores foi “Não.”
E quando poderiam apertar a mão da Democracia?. O patrão de Zaqueu respondeu:
Detalhe da Alegoria do Mau Governo, afresco de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena (Itália). O Tirano é rodeado pelas figuras da Avareza, do Orgulho e da Vanglória; aos seus pés, a Justiça aparece amarrada
Ele é a verdade. Ele é a justiça. Ele tem todos os poderes. Suas leis são nossas leis. Suas ordens não podem demorar a ser cumpridas. E o prazo deve ser curto mesmo. Ele é bonzinho, oferece solidariamente algumas horas para que entendam suas boas intenções e se rendam. Ele é a bondade, o detentor de todas as virtudes. Não há ser mais correto, mais bem intencionado.
Seu argumento é claro: é assim, e pronto. Liberdade de expressão apenas para aqueles que a mereçam, que saibam o que se pode e o que não se pode falar. Onde já se viu? Esqueçam as leis que não são dele, calúnia, injúria, difamação… Esqueçam essa história de que alguém que se sinta prejudicado deve pedir ressarcimento. Ninguém faz pedidos, ninguém tem esse direito, exceto seus companheiros. Todos devem cumprir ordens, as ordens dele, o que a cabeça e o fígado dele determinam.
Não perguntem, não indaguem, não contestem. Isso é coisa de moleque, de rebelde, de gente que não enxerga o lindo caminho da pacificação por meio do poder absoluto. Pensem como ele, sigam seus ensinamentos. Não façam birra. Ele já explicou tão explicadinho o que é fake news, o que é desinformação. Suas verdades devem ser as verdades de todos. Se você não pensa como ele, sua intolerância fica patente e justifica um castigo.
Parlamentares, campeões de votos, cantores, empresários, jornalistas, comunicadores, calem a boca! Povo nas ruas, povo pacífico e ordeiro, cale a boca! E volte para casa. O autoritarismo está aí para defender nosso bem maior: a democracia. É assim tão difícil de entender? Ou será preciso desencarcerar mais bandidos de verdade e aprisionar metade da população?
Nosso pensamento foi sequestrado por um santo homem. O resgate é a purificação da nossa alma. Ele cuida de nós, cuida da nossa vida, é nosso tutor. Só ele sabe que informações devemos receber, só ele sabe o que devemos dizer. Sua democracia é tão clara: ou pensa como ele ou não pensa. Tão simples.
Não é intimidação nem controle nem manipulação. É carinho, é preocupação paterna, fraterna, é cuidado extremo. Não há nada a denunciar. Temos de agradecer. A luz que vem dele nos guiará. Ele é o mais poderoso dos poderosos de todos os tempos. Devemos ser gratos… Contestar seu reinado é atacar a democracia.
Por isso, se ele perguntar, como aquele antigo personagem de Jô Soares: “Dessa terra que eu amo, desse povo que eu piso o que sou, o que sou, o que sou?” Nós, os pisoteados, devemos responder, num coro só, compreendendo a salvação, a redenção que ele representa: “Sois rei! Sois rei! Sois rei!”