Mais um recorde atingindo no curto prazo: a dívida bruta no Brasil atingiu, R$ 1,043 trilhão, ou seja, 76% do PIB brasileiro. Imagine uma pessoa que ganha R$ 1.000,00 por mês e deve R$ 760,00. O que esta pessoa deve fazer para se sustentar no mês seguinte? Em linhas gerais, pode tomar emprestado, pagando juros, pode tomar emprestado com a promessa de pagar e não pagar, pode roubar, etc. No caso do governo, a forma mais lógica é tomar emprestado ou tomar um pouco mais das pessoas através do aumento de impostos. A política tributária gerou 16% a mais na arrecadação de tributos.
Em linhas gerais o governo tem gastos obrigatórios e gastos discricionários (gastos livres) que, geralmente, são aplicados em programas sociais e outros gastos semelhantes. No entanto, o aumento da receita impõe também o aumento do gasto obrigatório. Por exemplo, constitucionalmente 25% da receita do governo deve ser aplicado em educação. Se há um aumento de receita, logicamente, há um quantum maior a ser aplicado em educação, saúde, etc, portanto, há riscos de que recursos discricionários sejam afetados.
Eu tenho dito que não enxergo o Brasil que muitos exaltam na atualidade. Estamos em 2024, no final do ano o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, deixará o cargo e o governo atual indicará uma pessoa sintonizada com sua visão de expansão monetária com eventual redução da taxa de juros, o que implica em um potencial aumento da inflação. Registre-se: o novo presidente do Banco Central ficará até 2030, portanto, eu não me consigo entrever um Brasil melhor até 2030.
Embora muitos não reconheçam ou nos tratem como meros imbecis, no governo anterior, houve controle dos gastos públicos, redução na quantidade de ministérios, uma política de redução de impostos que, ao contrário do que se imaginava, trouxe estabilidade econômica, atraiu investimentos externos, fez a bolsa de valores atingir recordes nunca vistos. De repente, vimos empresas públicas voltarem a dar prejuízo.
No governo anterior, havia uma pauta de privatização que apenas com as empresas subsidiárias, arrecadou mais de R$ 250 bilhões, no entanto, a pauta do governo atual é contrária. O governo precisa de empresas públicas para colocar apoiadores ganhando salários elevados como integrantes de diversos conselhos administrativos. Os Correios, por exemplo, apresentaram prejuízo de R$ 597 milhões. Trocou-se uma política de pessoas capacitadas por pessoas ligadas a partidos políticos. Foi assim no Postalis: um sindicalista, foi nomeado como seu presidente. Experiência? Não é preciso. Basta ser sintonizado com os interesses do partido.
Há outros problemas que precisam ser equacionados e que não temos a menor noção como isso será feito. O caso dos gastos públicos necessários para reconstrução do estado do Rio Grande do Sul. Começa com a suspensão da cobrança da dívida por um período de 3 anos. Necessário, mas eventualmente insuficiente. Cobrir isso requer dinheiro e não se vislumbra de onde virá, exceto da arrecadação do governo.
Em adição, há uma situação caótica com a greve das universidades federais. Das 53 universidades, tem-se 54 em greve (os institutos federais também estão em greve). O que se pede é um aumento de 22,71% escalonado em três anos e o governo não aceita aumentar salários agora em 2024. Oferece 9% em 2025 e 3,5% em maio de 2026. Para além dessa questão, as universidades estão com recursos financeiros para funcionar até setembro próximo. Em algumas delas, já se registra demissão de trabalhadores terceirizados. Já se fala de redução de gastos com energia e é interessante registrar que essa situação já aconteceu em 2014 quando Dilma presidia o Brasil. Mas, preciso dizer mais uma vez: há funcionários públicos que trabalham e distorce esse fator considerando-os como parasitas não é um ato de justiça.
Essa semana vi um vídeo no qual um jovem explicava como a receita do governo se diluía. Ele tinha uma série de copos e separou um grupo dizendo que eram os funcionários públicos, outro grupos dizendo que eram as empresas e um terceiro dizendo ser a população. Para ele, o governo arrecada imposto das empresas para pagar aos funcionários públicos e, por isso, deixa a população sem assistência. Nunca vi tamanha imbecilidade: eu não conheço um funcionário público que não declare imposto de renda. Pago uma alíquota de 27,5%, além de 14% de contribuição previdenciária. O problema dos impostos, não é, essencialmente, a arrecadação, mas a destinação.
A lição que fica é simples: a ideologia da esquerda gasta o que não tem, em coisas que não vale a pena e, em contrapartida, penalizando quem produz, agredindo o mercado como se fosse, este, um inimigo.
“Quanto mais canto o sertão Mais tem sertão pra cantar!”
A chuva voltou a cair No solo jaguaribano Disse João Paraibano “O sertão voltou a sorrir” A fotossíntese a tingir O verde em todo lugar Rã raspando sem parar Cantando alegre o carão Quanto mais canto o sertão Mais tem sertão pra cantar!
Laci De Paula Chaves
Vejo o arado rasgando O bucho verde do chão, No alpendre do casarão A Sinhá Moça pilando O café, já exalando Sua fragrância no ar, Como quem quer demarcar A sua jurisdição. Quanto mais canto o sertão Mais tem sertão pra cantar!
Magdalena Maria Yvonne Tagliaferro nasceu em Petrópolis, RJ, em 19/1/1893. Pianista franco-brasileira, foi uma referência mundial na arte de tocar piano. Criou uma concepção de sonoridade feminina no teclado, sem esquecer a missão pedagógica. Dizia que “não há gênio no mundo que resista à falta de estudo”.
Filha Louise Hergenröder e Joseph Paul Tagliaferro Tagliaferro, músico e professor de canto e piano, teve sua primeira apresentação pública aos 9 anos. Aos 12 realizou uma turnê pelo Brasil e no ano seguinte foi para França estudar no Conservatório de Música de Paris, dirigido por Grabriel Fauré. Lá conviveu com Ravel e Polenc e teve como mestres Raoul Pugno e Alfred Cortot, sobre o qual ela declarou: “Ele abriu minha imaginação musical de um modo extraordinário”. Conta-se que ele, casado, apaixonou-se pela aluna.
Era uma menina prodígio e conquistou seu primeiro prêmio – medalha de ouro – aos 14 anos (1907). O primeiro disco foi gravado em 1928 e no mesmo ano recebeu a comenda “Legião de Honra da França”. Por esta época apresentava-se regularmente nos palcos da Europa, EUA e Brasil. Em 1937 foi nomeada catedrática do Conservatório onde estudara e desenvolveu uma nova técnica de ensino. Criou o que se chama hoje de “Aula Pública”, visando a educação dos alunos e a formação do público simultaneamente.
A partir daí desenvolveu uma expressiva carreira internacional, apresentando-se com importantes orquestras: Filarmônica de Viena, Concertgebouw de Amsterdam, Filarmônica de Berlim, Orquestra da Suiça Romanda etc. Atuou com os principais maestros: Wilhelm Furtwan, Pierre Pierné, Ernest Ansermet, Charles Munch, Leopold Stokowski, Lorin Maazel, Pierre Monteux e os brasileiros Heitor Villa-Lobos, Eleazar de Carvalho e João de Souza. Durante a II Guerra Mundial deu-se o fechamento do Conservatório de Paris e ela retornou ao Brasil com suas aulas e concertos. Foi convidada pelo Ministro da Educação Gustavo Capanema, em 1942, a ministrar seu curso anual de interpretação artística, com aulas em São Paulo, Porto Alegre, Salvador e outras cidades.
Em 1949 voltou a viver em Paris e pouco depois foi condecorada com o título de Commandeur da Legião de Honra da França. Numa temporada no Brasil, criou em São Paulo a Fundação Magdalena Tagliaferro, promovendo cursos e concursos com bolsas de estudos para novos artistas. Pouco depois, com o incentivo de Alfred Cortot, levou o curso para a França. Sua pedagogia foi dissecada no livro – A arte pianística de Magda Tagliaferro – publicado em inglês, japonês e português por sua ex-aluna Asako Tamura, em 1997. No Brasil, abriu o 1º Festival de Inverno de Campos de Jordão, em 1970, e 2 anos depois foi condecorada com a comenda “Ordem do Rio Branco”. Em seguida foi agraciada pelo Governo de São Paulo com a “Ordem do Ipiranga”, no grau Grande Oficial, em 1976.
Em 1979, após seu segundo concerto no Carnegie Hall, em Nova Iorque, escreveu sua autobiografia Quase tudo… Memórias de Magdalena Tagliaferro, publicada pela Ed. Nova Fronteira. Foi jurada dos principais concursos internacionais de piano: Concurso Chopin, em Varsóvia; Concurso Tchaikovsky, na União Soviética; Concurso Rainha Elizabeth, na Bélgica; e o Concurso da Academia de Verão do Mozarteum, em Salzburgo. Segundo Fábio Caramuru, solista da OSESP e seu aluno, ela dizia que “o brasileiro é o povo mais musical que existe no mundo, é uma musicalidade natural que dá de dez a zero na do europeu”.
Os especialistas eram unânimes em afirmar que ela “além de trazer as técnicas interpretativas do impressionismo francês, ao mesmo tempo, a pianista transmitia ao povo brasileiro um estilo mais leve e humanizado de ensinar piano”. Em 1981, gravou um disco com seu aluno Daniel Varsano (1953-1988), interpretando obras de Fauré para duo de pianos, álbum que recebeu o Grand Prix de l’Académie du Disque Français.
Sua última homenagem se deu em 1985, com a outorga da comenda “Ordem Nacional do Mérito” pelo presidente José Sarney no palco onde fez sua última apresentação. Manteve uma intensa atividade pedagógica e artística até o final da vida em 9/9/1986, aos 93 anos. Um bom apanhado de sua longa vida pode ser apreciado na pesquisa realizada pelo maestro Édson Leite, patrocinada pela FAPESP, para sua tese de doutoramento na ECA/USP, em 1999, que resultou no livro Magdalena Tagliaferro: testemunha do seu tempo, publicado pela Ed. Annablume em 2001.
1. Nada ameaça mais uma democracia que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental: Em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida. Na atual conjuntura brasileira, nada mais oportuna que uma análise sem preconceitos, sem apegos a cargos e funções, deixando-se refletir diante da explicitada seriedade de propósitos dos governantes. Estratégias e táticas bem definidas e seriamente discutidas, uma contínua postura dialogal e um ver-melhor-o-derredor bem poderiam constituir os balizamentos necessários para um fico-ou-saio dos que auxiliam diretamente os mandatários federal, estaduais e municipais.
2. A atual crise brasileira, que também se incorpora a uma crise mundial, é significativa, bastante complexa. Prenúncio do fim de uma era, início de uma nova fase planetária, onde quase todo mundo ainda está despreparado para um agir consequente e duradouro. A ausência de uma militância comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros técnicos, os mais despreparados, a uma não conformação com o fortalecimento do setor político, gerando um outro componente daquele caldo cultural que carrega duas tendências: uma, a de ser hipercrítica em relação a tudo aquilo que desagrada; a outra, a de ser subcrítica diante daquilo que contempla. E os hiper e os sub não estão ampliando a cidadania da gente brasileira. Estão, sim, deixando os senhores políticos sem uma densidade mais criativa e com uma frágil consciência acerca da própria estratégia partidária. E nutridos de um mandonismo inoportuno, detentor de poder decisório quase absoluto, que somente faz aumentar o número daqueles que consideram a repressão como caminho natural para o desenvolvimento nacional, única saída para garantir a segurança do grande capital.
3. A hora de reinventar-se chegou. Ultrapassar os obscurantismos técnicos, políticos, culturais e religiosos é prova maior de querer implementar uma democracia cada vez mais solidificada. Caso contrário, outras situações poderão advir, com prejuízos para quase todo mundo, principalmente os despossuídos.
4. Quando ainda se fala muito pouco, no Brasil de hoje, em ampliar efetivamente a capacitação dos recursos humanos das empresas públicas e privadas, preparando-as para os novos desafios empreendedores, que estão emergindo celeremente nos quatro cantos do mundo, em outros contextos mundiais a situação é bem outra. Com capacitação sempre levada a séria e com um notável senso de visão antecipatória. Vejamos um caso recente. Estão assustando meio-mundo europeu alguns dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE, com sede em Paris, sobre analfabetismo planetário. O relatório revela que muitos milhares de pessoas, nos países mais avançados, ainda não sabem ler nem escrever. A OCDE encontrou quantitativos inquietantes: três milhões de adultos, na Alemanha, são analfabetos funcionais; na França, 20% dos quinhentos mil homens convocados para o serviço militar, nos últimos anos, não conseguiram ler um simples texto de 70 palavras; na Suécia, entre 700 trabalhadores pesquisados, aproximadamente 100 (14,3%) não sabiam ler ou escrever adequadamente. E termina a OCDE por advertir com severidade: “os milhões de analfabetos, na Europa, significam uma séria ameaça para o desempenho econômico de seus países.” Ainda sobre esse problema europeu, a opinião de Donald Hirsch, pesquisador do Centro para Pesquisas Educacionais da OCDE, é bastante oportuno: “Os países industrializados deveriam destinar mais recursos para o problema do analfabetismo, sob pena de não conseguirem um aumento de produtividade proporcional ao desenvolvimento tecnológico.” E vai um pouco mais além: “Sem uma melhoria substancial na qualidade da educação e na capacitação dos que já estão trabalhando, a economia europeia não poderá ter um desempenho adequado nas próximas décadas.” Percebem, os de lá, que no estágio civilizatório atual, as inovações do saber-ser e do saber-fazer alteram crenças, ampliam sonhos e desestruturam desejos que proporcionam valores nada sadios, além de outras formas de crueldade.
No resto, favoreçamos em nosso país a disseminação de um saber pensar crítico, concordando sempre com a máxima de La Rochefoulcauld: “Os tolos não têm estofo bastante para serem bons.”