LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VAULBER B. PELLEGRINI – CAMPINAS-SP

Precisa ser criada com urgência no JBF uma seção de “Cinismo Puro”.

Estou enviando uma foto para identificar essa nova seção.

R. Excelente sugestão, meu caro.

Pra se transformar em coluna, só falta mesmo o nome do colunista.

Neste caso, poderia ser você mesmo, o autor da ideia!!!

O que não vai faltar é assunto e weiss fuder: os leitores irão contribuir com muitas dicas.

Topas?

Ficaria assim:

CINISMO PURO – VAULBER B. PELLEGRINI

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

OS URUBUS

Viajando de carro pelas estradas do interior do RN, é impressionante o número de animais que vemos mortos por atropelamento. É comum se ver um animal morto, seja um cavalo, um jumento, um carneiro, fora um grande número de cachorros, gatos e galináceos, que, inocentemente, se arriscam a atravessar as estradas. São atropelados constantemente, involuntariamente, ou por brincadeira de motoristas irresponsáveis, quando se trata de galinhas, patos, guinés ou perus, que estão soltos nas estradas. Ainda há motoristas sem compaixão, que param para transportar para casa os galináceos atropelados, para as mulheres prepará-los para almoço ou jantar.

O único animal que é raríssimo se encontrar morto nas estradas é o urubu, ave elegante que tem a incumbência de limpar a natureza, alimentando-se da carniça de outros animais. Mas, mesmo assim, uma vez por outra, um urubu é encontrado morto na estrada. Ele “aterrissa”, à procura de carniça, quando fareja que há animal em decomposição por perto.

Naturalmente, urubu também adoece e morre. Ninguém escapa.

O urubu é um animal injustiçado. Nunca ouvi falar que houvesse uma “sociedade protetora dos urubus”. Certa vez, um conhecido meu se deparou com um urubu morto na estrada da zona rural e perguntou a causa da morte do urubu a algumas pessoas e ninguém soube dizer. Até que um menino disse que o urubu tinha morrido de uma pedrada. Achei estranho.

Não imaginava que urubus se deixassem apedrejar. Urubu, na minha opinião, só morria empanzinado com carniça. Pois a função deles na terra é limpar a carniça dos animais mortos.

Por ser um animal difícil de ser visto morto, quando morre um urubu, é um acontecimento, uma festa. A ave é velada por algumas pessoas curiosas. Dificilmente, gatos e cachorros se aproximam de um urubu morto. Mas, se morre um gato ou um cachorro na estrada, rapidamente, os urubus se aproximam, imponentes, querendo se inteirar da “causa mortis” e levando o “defunto” para lhes servir de regalo.

Ninguém lamenta a morte de um urubu, pois ele vive da carniça de outros animais. Não tem choro nem vela. E os outros animais não querem nem ver o urubu morto . Eles tem repulsa pelos urubus.

Um gato ou um cachorro, morto na estrada, atrai muitos urubus. Mas a morte de um urubu só atrai outros urubus. Eles são orgulhosos e discriminam os outros animais. Formam uma casta, ou melhor, uma corja.

O urubu quando morre é abandonado, porque nunca deu valor ao seu semelhante. O que acontece com os urubus, acontece com o homem. Tal vida, tal morte.

Quando um homem se aproxima de um urubu, ele sai andando de lado e devagar, como se o homem lhe despertasse nojo e desprezo. O urubu é arrogante, mas acha que o homem é que é, mesmo sendo um cidadão comum, cumpridor dos seus deveres. O urubu se acha superior a todos os homens, só porque sabe voar. O urubu voa e voa bonito e elegante. Enquanto isso, os humanos são prisioneiros do chão. Não tem asas para voar.

Quando o homem tentou voar e não conseguiu, após dezenas de tentativas fracassadas, tentou construir um aparelho à imagem e semelhança do urubu. Afinal de contas, o avião é um urubu, ainda em fase de aperfeiçoamento. O avião se aperfeiçoa cada vez mais, na meta necessária do urubu. Já não faz barulho, como o urubu. Chegará o dia em que não ocorrerá mais desastres de avião. Aí, será a glória. O urubu será superado.

Por enquanto, em relação ao espaço aéreo, o urubu é autossuficiente e determinado, conhecendo sua rota.

O urubu que estava morto na estrada, segundo me contaram, atraiu a curiosidade de algumas pessoas, até com direito a uma vela acesa. Outros urubus sobrevoaram o local, mas logo o transportaram para o solar onde viviam.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OS ÚLTIMOS DIAS DE FERNANDO PESSOA ‒ O FIM (4 de 5)

Lisboa. Já sem mais esperanças, escreve a última frase e se prepara para partir.

TRINTA DE NOVEMBRO, SÁBADO. “Aquele depois de amanhã”, dos versos de antes, afinal chegara. O “tomorrow” da última frase, que não sabia o que lhe traria, seria o próprio amanhã. O do dia seguinte. O amanhã sem metafísica. “Ah, que manhã é esta?” As horas passam vadias. “A última tarde já não temo.” Essa tarde vai findando “e o poente em cores da dor de um deus longínquo ouve-se soluçar para além das esferas”.

Escurece. “A noite desce, o calor soçobra um pouco, estou lúcido como se nunca tivesse pensado.” No Desassossego, confessa: “Só pedi à vida que me não tirasse o sol.” Nunca mais o veria. E treme ao pressentir o que está para acontecer. “Bem no fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus.” Seja. “Senhor, a noite veio”, “com seu negro mistério roto de astros”. É uma noite de chuva. Seria sua derradeira.

“Fito o meu fim que me olha, tristonho, do convés do Barco que são todos os barcos” e “cerro os olhos lentos e cheios de sono”. Pelas 7 da noite, imaginando que Pessoa está bem e precisando cuidar da mulher presa em casa, na cama, o cunhado volta ao Estoril. No quarto ficam o dr. Jaime Pinheiro de Andrade Neves e um médico do hospital, o dr. Alberto António de Moraes Carvalho.

Logo após a partida do cunhado, chegam os amigos Francisco Gouveia, Vítor da Silva Carvalho e Augusto Ferreira Gomes. Certamente, segundo o hospital, havia lá também um capelão e uma enfermeira ‒ talvez religiosa, dado ser esse hospital então administrado pela Ordem de São Vicente de Paula, sem mais registros de seus nomes. Aos amigos, segundo informam António Quadros e Gaspar Simões, ainda consegue perguntar com voz clara e alta:

“Amanhã a estas horas, onde estarei?”

Não há memória do que lhe tenham respondido. “Partir! Meus Deus, partir! Tenho medo de partir!…”, escrevera tão antes. Pelas 8h da noite, começa a perder a visão. Em um intervalo de lucidez, e pensando ainda em ler o livrinho que tem com ele, murmura suas últimas palavras:

“Dai-me os óculos” (esse óculos hoje dorme, no Recife).

Não lhe deram. Nem haveria serventia para eles. “A morte não virá nem tarde ou cedo.” Andam longe os tempos em que diz “agora que estou quase na morte, vejo tudo já claro”. Ou, como nos Poemas ingleses XII, “a vida nos viveu, não nós a vida”. Então, foi “como se uma janela se abrisse”; e meia hora depois, simplesmente, “meu coração parou”.

Apesar dos muitos relatos que situam a morte por volta das 20h30, no Assento de Óbito está só 20 horas. Afinal, como premonitoriamente escrevera, “o rio da minha vida findou”. O Ícaro de um sonho, como o definiu Montalvor, afinal partia na direção das estrelas.

“Viva eu porque estou morto! Viva!” Reproduzindo versos do passado, agora também ele era “as mãos cruzadas sobre o peito e o gesto parado de não querer nada”. Por conta de um temporal, os telefones do Estoril deixam por horas de funcionar. A irmã doente e o cunhado que a acompanha só depois sabem dessa morte pelo telefone azul na casa, número 356.

Esse cunhado lamenta que tenha estado sem a família naquele momento, pede que marquem o enterro para o fim da manhã de segunda-feira e que providenciem os anúncios fúnebres. Depois, declarará ter tido “um fim desgraçado”.

“Quando se vai morrer, é preciso lembrar-se de que o dia morre, e que o poente é belo e é bela a noite que fica.” Porque “a Morte é o triunfo da Vida”. “Hoje, agora, claramente, ele morreu. Mais nada.” Morreu como viveu, perdido “num grande horror de túmulo e de fim”.

Os amigos se vão e o corpo fica no quarto, sem mais ninguém. As freirinhas do hospital, sabedoras da relação que tivera com Ophelia Queiroz, ligam e perguntam se ela não quer se despedir do amigo sem que outros a vejam. Essa informação não deve causar tanta estranheza, pois muita gente sabia disso. Na família de Ophelia, com certeza. E, também, no grupo de amigos de Pessoa. Tanto que Montalvor chegou a flagrar o discreto namoro dos dois.

Almada Negreiros, na própria noite do enterro de Pessoa, fez o mais famoso desenho de seu rosto; e deu a gravura de presente, nessa mesma noite, a Carlos Queiroz ‒ o depoimento é da sobrinha-neta de Ophelia, Maria das Graças Queiroz. Sendo, Carlos, sobrinho de Ophelia. Certo que, não soubesse da relação, e jamais lhe daria essa gravura (hoje dormindo, no Recife). Que acabou sendo a capa da biografia que escrevi sobre ele (Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, Ed. Record).

Não sendo assim desarrazoada a hipótese de que uma das freiras pudesse mesmo saber daquele romance interrompido. Pouco depois Ophelia chega e a levam para o quarto por uma entrada lateral, de serviço. A porta é trancada e os dois ficam sozinhos. “Velamos as horas que passam.”

Então põe a mão sobre a testa do amado e treme, talvez lembrando versos que lera em The mad fiddler: “Oh, tua mão no meu cabelo, mão de mãe repousa.” Talvez seja só coincidência, mas Almada Negreiros escreveria, depois, quase essas palavras: Mãe! Passa a tua mão sobre a minha cabeça!/ E deixa-me morrer com ela sobre mim. Em L’ inconnue, do mesmo The mad Fidller, Pessoa quase antevira essa cena (trechos):

Deixa que a tua mão arrume
O meu cabelo para trás.
Dando-me alívio!
Deixa que meu repouso se agite.
Descanso verdadeiro, venha logo!

PENINHA - DICA MUSICAL