Carmen Velasco Portinho nasceu em 26/1/1903, em Corumbá, MS. Engenheira e primeira mulher a receber o título de Urbanista no Brasil, tornando-se sua patrona em 2022. Foi também uma das pioneiras do Feminismo na condição de vice-presidente da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminista em 1922, junto com sua cunhada, a presidente Bertha Lutz.
Filha de Maria Velasco, boliviana, e do gaúcho Francisco Sertório Portinho, mudou-se para Rio de Janeiro aos 8 anos; completou os primeiros estudos e graduou-se engenheira pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil, atual UFRJ, em 1925. Foi a 3ª mulher formada engenheira no Brasil. Manteve estreita ligação com o incipiente movimento feminista na época em prol da educação das mulheres e pela valorização do trabalho feminino fora da esfera doméstica. Em 1930 fundou a União Universitária Feminina, da qual foi a primeira presidente, com o objetivo de defender os interesses femininos nas profissões liberais. No mesmo ano casou-se com o médico Gualther Adolpho Lutz, irmão de sua amiga Bertha Lutz. Separou-se pouco depois e se casou com o arquiteto Afonso Eduardo Reidy, projetista do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Logo após formada, foi trabalhar na Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal e em seguida foi lecionar no Colégio Pedro II, causando um escândalo na sociedade carioca, pois tratava-se de um internato masculino. Foi vítima do machismo também no seu trabalho na Prefeitura. Foi reclamar com o presidente Washington Luiz, que mantinha audiências públicas para ouvir queixas e pedidos de funcionários e cidadãos. Posteriormente foi promovida e conseguiu concluir o primeiro curso de urbanismo no País. Em 1937 fundou e foi a 1ª presidente da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas, visando o ingresso das formandas no mercado de trabalho.
Em 1939 defendeu seu doutorado em urbanismo com a tese “Anteprojeto para a futura capital do Brasil no Planalto Central”. Seu plano tem o formato de um transatlântico, contendo várias características que se encontram no Plano de Brasília, elaborado por Lucio Costa. Pouco depois ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar na comissão de reconstrução das cidades inglesas destruídas na II Guerra Mundial. De volta ao Rio Janeiro, propôs ao prefeito a criação de um Departamento de Habitação Popular (DHP), do qual foi designada diretora na década de 1950. Sua obra maior foi o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, mais conhecido como “Pedregulho”, para abrigar funcionários públicos do município, no bairro de São Cristóvão. O projeto ficou a cargo de seu marido, já reconhecido como um dos grandes nomes da moderna arquitetura brasileira.
Trata-se de um ousado projeto arquitetônico, que conquistou o 1º prêmio da Bienal Internacional de São Paulo (1953) e foi elogiado pelos arquitetos Max Bill e Le Corbusier em visita ao Brasil em 1962. Pela primeira vez centenas de famílias modestas puderam morar numa edificação contando com murais de Cândido Portinari, projeto paisagístico de Burle Marx e piscina. Em sua gestão no DHP foram construídos mais 3 conjuntos de habitação popular menos famosos (Gávea, Vila Isabel e Paquetá) que lhe deram projeção nacional e internacional. Publicou um artigo expondo seu pensamento: “É hora de oferecer ao homem [do século 20], na idade da máquina […] habitação digna de sua era. Uma máquina para viver, bem montada e organizada, que lhe permita recuperar aquela coisa inestimável, que hoje está quase perdida, que é a liberdade individual”.
Sua concepção da arquitetura moderna aliada ao urbanismo consistia em organizar a área residencial em unidades de habitação, separando as funções em um centro administrativo e de negócios, com ênfase em um sistema viário eficiente e equacionado. Em paralelo a construção de conjuntos habitacionais, chefiou as obras de engenharia civil da construção da nova sede do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio Janeiro, projetado por seu marido e inaugurado em 1958. Era a única mulher num canteiro de obras com mais de 450 operários. Com a ascensão de Carlos Lacerda ao governo em 1962, Carmen pediu sua aposentadoria, devido a divergências políticas irreconciliáveis com o governador.
Continuou trabalhando através da iniciativa privada e tornou-se diretora da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial a convite do governador Negrão de Lima, em 1963, onde permaneceu por 20 anos. Foi a 1ª escola de desenho industrial da América Latina. Em 1965 organizou a exposição de arquitetura moderna brasileira para o Instituto Hispânico-Americano de Madri e apoiou alguns artistas espanhóis na mostra de vanguarda “Opinião 65”, no MAM. No ano seguinte recebeu convite do Departamento de Estado dos EUA para visitar o país e manteve contatos com diretores de museus, escolas, galerias de arte e colecionadores. Em 1970 recebeu convite idêntico do governo alemão para conhecer o desenvolvimento do desenho industrial nesse país.
Recebeu diversas homenagens, entre as quais destacam-se as prestadas pela UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro com a instituição do “Prêmio Carmen Portinho”, criado em 1991, destinado anualmente a valorizar a produção científica dos alunos e a mostra “Carmen Portinho: uma homenagem”, em 1993, abordando sua trajetória profissional. Em 1999, ao completar 96 anos foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil e pela Secretaria Municipal de Obras Públicas. No mesmo ano a UERJ prestou-lhe mais uma significativa homenagem: a edição de um livro de arte em grande formato: Carmen Portinho – Por toda a minha vida, com depoimentos a Geraldo Edson de Andrade e Alfredo Brito. Faleceu em 25/7/2001. Seu sobrinho-neto, senador Carlos Portinho apresentou o Projeto de Lei nº 1.679, em 2022, outorgando-lhe o bem-merecido título de “Patrona do Urbanismo no Brasil”, sancionado pelo Senado Federal em 18/8/2022.



