ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PENSAMENTO ESTRATÉGICO

Já disse várias vezes, nesta coluna, que sou um caeté inveterado. Os meus olhos só brilham quando vejo um pedaço do chã de dentro do Sardinha chiando em um braseiro, quase pronto para ser devorado com um pouco de farinha d’água e banana da terra cozida no borralho. Afora isso, sou um fingidor, igual a Fernando Pessoa. O que se passa fora da minha taba me dá uma preguiça. O que mais gosto de fazer, depois de um lauto almoço é ficar deitado em minha rede de imbira, coçando a carcundinha de meus doguinhos.

Confissões à parte, sapeando pelas notícias de Pindorama, e olhando pratrasmente em nossa “estória”, fico apalermando em ver como renunciamos a capacidade de pensar estrategicamente nosso país. Maurício Assuero, a quem considero um grande pensador pode dar fé ao que digo, ou pode, também, me mandar ir pentear macaco pelas bobagens aqui ditas. Como disse, sou caeté. Meu único interesse é o Sardinha…, de preferência assado ao ponto!

O bom de se olhar para trás é ver a quantidade de burradas feitas e planejar o futuro evitando-se essas armadilhas. Mas, com Pindorama ocorre seu justo contrário. Olhamos para as burradas e as aperfeiçoamos ao limite da arte para que buraco seja mais profundo e a saída dele seja mais dolorosa e onerosa. E assim caminhamos, sem rumo, sem objetivos, sem saber a que porto chegar. Somos semelhantes ao homem que está bravo dentro de um ônibus e o motorista pergunta a ele onde quer descer. Em qualquer lugar, retruca. Peguei o ônibus errado mesmo.

E, de ônibus errado a ônibus errado vamos avançando de forma irracional, anticivilizatória, anti-intelectual, com nossa moral se adaptando às conveniências de momento, nossas decisões se amoldando ao batuque da hora, nossas escolhas tomadas feitas usando a parte final do intestino grosso. E, jogando a conta disso tudo para o pobre curiboca do presente, e mais especificamente do futuro.

Eu tenho uma rezinga histórica com a previdência social de Pindorama. É um dos raros casos em que uma pirâmide financeira não é somente protegida pelo Estado pantagruélico, como também defendida pela maioria daqueles que são suas principais vítimas: o contribuinte. A previdência brasileira é um caso clássico de falta de pensamento estratégico em que o resultado final, não importa quantas vezes ela for reformada, sempre será o desastre. Não dá para pensar um sistema de previdência baseada na regra distributiva em que, quem trabalha sustenta quem está aposentado, para quando chegar a sua vez de se aposentar, outros terão que trabalhar para que eu possa ficar nos “aposentos”.

Essa regra até era simples quando Getulio Vargas criou esse monstro, tomando na mão grande os recursos dos IPASES e dos Montepios para formar um grande caixa, achando que o brasileiro ia ser igual a rato, parindo ninhadas gigantescas de cada vez e fornecendo mão de obra quase infinita para sustentar o esquema. Quando a Constituição de 1988 criou a nova Previdência depois absorvida pelo INSS a coisa piorou. Gente que nunca contribuiu com um centavo passou a ser segurado. Funcionários públicos que também nunca contribuíram passaram a ser segurados. E o rombo nas contas foi só crescendo. A reforma de 2019, com o objetivo de economizar um trilhão de reais em dez anos foi só uma piada. Se Warren Buffet decidisse arriscar o dinheiro de seus investidores considerando apenas uma década, baseado apenas em suposições, seria crucificado por esses mesmos investidores, em praça pública. Isso porque, não é preciso ser bidu para saber que aquela reforma foi uma tentativa burra de se curar uma fratura exposta com esparadrapo.

Agora, com a chegada do governo do Amor estamos caminhando céleres para a revitalização de outras burradas do passado com uma pitada de cheiro de picanha assada e bodum de cerveja que já foi bebida e mijada. São várias as decisões que estão levando Pindorama ao desastre, mas com requinte de arte de dar inveja a um Caravaggio.

A última de Pindorama é o desejo do presidente ex-presidiário em criar uma moeda comum com a Argentina. Secundado pelo nosso Jaiminho (é para evitar a fadiga), nomeado ministro da Fazenda, saíram com uma ideia que, se concretizada será o fim do país. Melhor será bradar o toque de retirada, entregar o território para os índios e cada um voltar ao seu país de origem.

Há duas possibilidades nessa sandice. Ou a falta de um pensamento estratégico geracional que vislumbre os benefícios para o futuro do país, ou uma malandragem das grossas, que irá transferir o dinheiro dos desdentados e descamisados daqui para sustentar um governo desastroso do lado de lá da fronteira. Particularmente eu acredito mais na segunda hipótese do que na primeira. Será a abertura do sétimo selo do Apocalipse, com o escancaramento das portas do inferno para que sanguessugas e parasitas de outras nações se aboletem no bolso do curiboca nacional e o transforme em escravo apenas para sustentar esses governos ineptos e corruptos. Mas, isso quero discutir em outro texto.

As nossas universidades, que deveriam ser a vanguarda no pensamento estratégico geracional se tornou um amontoado de inutilidades, salvo uma, ou outra ilha de excelência. Lembro-me quando estava fazendo os créditos teóricos do meu doutorado que fui convidado a participar de um grupo de estudos sobre o pensamento de Karl Marx na contemporaneidade. Como todo caeté, sou curioso e fui participar daquele programa de “índio”.

Falou-se sobre exploração capitalista, mais-valia, a superioridade do socialismo, a malvadeza do “mercado” – ainda quero discutir isso um pouco também -, a busca do bem, a preservação do meio ambiente. Pensava eu comigo: será que essa gente já leu algum livro de História? Ou mesmo leu aquele amontoado de bobagens chamado “O Capital?”. Não acredito. A obra máxima de Marx é alentada, longa e complexa. Além de conhecimentos vastos é necessário paciência para ler aquilo. É a mesma coisa que ler a obra de Paulo Freire. Um amontoado de sandices que se contradiz a cada parágrafo e a cada linha.

Em dado momento levantei a mão e questionei se alguém ali pagava boleto. Não obtendo resposta sai da reunião e fui fazer algo mais importante. Tomar um sorvete de baunilha que é a minha Dalila. Enquanto saboreava a iguaria pensava: afinal, universidade para que? Aquela que deveria ser a culminância da sociedade, a fim de pensar estrategicamente o futuro virou a Esposa de Ló. Olha para trás, nunca para frente. Esmerilha-se ideias e ações que a história já reprovou, mas se insiste nessa bobagem, lapidando o erro até chegar ao estado de Arte.

Se existe lado bom desse convescote, eu acredito que não exista, é que, como disse o Inesquecível Roberto Campos, socialismo na juventude é igual a gonorreia. Ao primeiro boleto e à primeira declaração de imposto de renda, o socialismo é curado, em alguns, mas o estrago dele é sentido pelas gerações futuras.

Pindorama renunciou ao pensamento estratégico, vive de passado, aperfeiçoando os seus erros e aplicando-os com uma sanha de hunos sobre a civilidade. Não devemos nos preocupar. Com essa renúncia, não há a menor chance do país dar certo no longo prazo. Desculpem-me, ao pensar sobre isso, quase deixo o chã de dentro do Sardinha queimar!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

“PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES”

Pindorama, 18 de janeiro de 477 d.S (depois de Sardinha), busco iniciar esta peroração (para você Violante) com esse mote tolo de Geraldo Vandré, mas não para falar do futuro, mas sim do passado e do presente, presente. Não sou historiador, mas curioso na História, e, como curioso tenho a capacidade de criar uma enciclopédia sobre o passado, mas não consigo enxergar o que está a um segundo à frente do meu nariz.

E, analisando pratrasmente a situação atual de Pindorama faz-se necessário construir alguns castelos de vento para entender a algaravia (essa vão ter que procurar no dicionário do botocundês castiço) do dia de hoje. O Rei morreu! Longa vida ao rei proclama-se nas monarquias, inclusive na britânica que perdeu uma rainha considerada quase imortal e se entronizou um velho minhoqueiro com um mau gosto que dói até em mendigo que papa moças desajustadas.

Dia sombrio esse nosso hoje, com pessoas dizendo que hoje está menos pior do que amanhã, e bem menos pior que a semana que vem. Vamos ver. Como disse, não consigo enxergar um palmo diante do meu nariz no futuro. Mas, eu vejo com bastante interesse o que aconteceu ontem. E, confesso, decepcionado!

Para aqueles que têm memória um pouco mais atilada que a minha, já dizia em uns textos atrás que desconfiava do governo Bolsonaro. Achava os seus discursos e suas falas apenas jogo de palavras, muita saliva e pouca ação. Não que ele não tenha sido um presidente honesto, focado nos interesses do país. Não é essa a minha animosidade. Ela está em outro lugar. Vinho de odre velho, já eu pensava comigo mesmo.

Depois de 30/10 o país virou uma “nau dos insensatos”. Sem comando, sem leme, sem um capitão que organizasse os sessenta dias restantes de governo. Malandramente, Jair Bolsonaro jabutizou-se. Saindo de sua carapaça para fazer declarações estapafúrdias, enquanto aqueles que acreditavam ainda em milagres faziam as interpretações mais esdrúxulas possíveis daquela fala. Eu sempre dizia, tanto no JBF quanto no grupo de Zap do Cabaré que nada iria acontecer. Nada iria frear essa nau chamada Pindorama que estava se debatendo entre ventos de diferentes direções.

Jair Bolsonaro, apesar de todo o seu discurso de “jogar dentro das quatro linhas da Constituição” traiu a sua própria convicção. Em um único ato perdeu a chance de se tornar estadista e se contentou em ser apenas mais um político que rasteja na insignificância. Saiu pela porta dos fundos da História. Ato vergonhoso, abandonou o país nos últimos dias de seu governo. Não fez parte de um processo de transição, ainda que a raiva petelha e o desejo de vingança sejam notórios. A gana de enjaular o ex-presidente era evidente. O discurso de que o combatente cai no campo de batalha é válido, para os outros. Não para ele.

Ainda que muitos de quem me lem possam discordar e até mesmo lançar anátemas contra mim, o que é factual é aquilo que todo mundo viu, sentiu e percebeu. Jair Bolsonaro tornou-se um anão político. Na verdade, deixou de governar na noite do dia 30 de outubro. Ainda que se pese toda a oposição do STF – Supremos Toletes Federais – e do TSE – Tribunal da Sacanagem Eleitoral -, até as 23 horas, 59 minutos e 59 segundos do dia 31 de dezembro, ele ainda era o Chefe Supremo da Nação. Mas, Jair Bolsonaro renunciou a isso também, o que o coloca na mesma categoria do fujão João Belchior Marques Goulart.

Porém, era interessante que toda a semana ele ia para as redes sociais, para aquelas conversinhas fiadas com jornalistas dizendo que podiam esperar, que ia haver reviravolta. A vantagem de ser cético é que estou sempre aberto a possibilidades, mas sem esperar nada. E, como sempre dizia, nada aconteceu. O país foi entregue a uma quadrilha de alta periculosidade, com gatunos “più grassos” e ligeiros na arte de transformar o público em privado, sempre em seus benefícios.

Jair Bolsonaro foi curtir seu “dolce far niente” sendo vizinho do meu grande amigo Magnovaldo, deixando para trás uma parte da nação que se sentiu órfã e traída em seus desejos e anseios. Evidentemente as Frouxas Armadas não iriam se aventurar em ações intervencionistas. Esse tipo de atitude não cabe mais na atualidade. A menos que elas quisessem jogar o país na anarquia e na guerra civil. Ainda havia o peso do isolamento absoluto do país por outras nações contaminadas com o câncer do esquerdismo, caso houvesse a dita intervenção. Mas, isso são apenas elucubrações sobre o passado. Nada sobre o futuro.

Mas, inaugurando 2023, eis que chega o “governo do amor”, da picanha, da cervejinha com churrasco com dois dedos de gordurinha em cima, trazendo de volta o Paraíso Perdido proustiano que foi arrancado do curiboca nacional. Lembro-me que o jornalista José Maria Trindade vaticinou que o governo do amor não viria para organizar o país, mas para se vingar, porque o chefe de toda a malta estava mergulhando em um poço de ódio e rancor contra todos aqueles que não foram dar bom dia lá em Curitiba, e não acreditavam em sua inocência.

Atirei no que vi e acertei no que não vi. Ainda no passado, já havia, em um texto aqui no JBF feito a “Anatomia de um Esquerdista”. Podem procurar na minha seção que acharão. A ligeireza em destruir, a cupidez em tomar o que é do alheio, os olhos gananciosos. A primeira ação, fechar os registros e desligar as bombas que levam as águas do São Francisco para o interior do semi-árido. Água encanada para que? Nordestino veve muito bem com carro pipa e água salobra! Viveu séculos assim. Para que esse luxo todo?

E a destruição ainda ocorreu na educação com o veto das aulas de tecnologia e robótica, derrubada da sacralidade da vida, abrindo as portas do inferno para uma matança generalizada de fetos. E tem Nhambiquara que acredita piamente que o “genocida” era o capitão boquirroto. Atulhou ministérios, autarquias, fundações com cargos inúteis, só para garantir uma boquinha a gente inepta, burra e sem o menor compromisso com a população, ganhando tubos de dinheiros, achando que este cresce igual a tiririca depois da chuva.

A sanha de quem entrou e a irresponsabilidade de quem saiu revela toda a nossa irracionalidade caeté, nossa anticivilização, nosso amor ao atraso, à mendicância estatal, à frouxidão moral e cívica. Dia desses invadiram a sede dos três poderes e fizeram um quebra-quebra. Aí se deu o milagre da pecha de golpistas, terroristas, taxistas, machistas, flamenguistas. Pois olhem, meus caros caetés. Achei foi pouco. Se eu tivesse um lança-chamas e fosse mais novo botaria fogo em tudo aquilo.

Explico-me: temos um legislativo que não legisla e não representa a sociedade. O mandatário não está conectado com o mandante. Um Executivo que desde 30/10/22 não executa porcaria nenhuma. Apenas boia malandramente em palavras desconexas e vingança. Um judiciário que não judica a justiça, mas faz aquilo que bem entende e manda calar a boca de qualquer um que ousar divergir. Então, para quê aquela monumentalidade? Aquela ode à ladroeira, à ligeireza e ao desperdício encravado como um despacho a Exu da Encruzilhada sugando os recursos da taba?

Mas são coisas do passado. O futuro? Não sei o que vai ocorrer daqui a um segundo. Como disse, posso falar muito sobre o passado, mas nada sobre o presente, ou mesmo o futuro. Ah…. racionem as partes do Sardinha. Amanhã será bem pior que hoje, eu acho!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

XEXÉU

Para o Velho Capita, Carlito Lima, colunista deste JBF

Belarmino Xexéu era o típico louco de cidade pequena. Conhecido por todos. Querido, mas também zombado dada à sua figura. Mistura de profeta do Apocalipse cruzado com espírito de Bocage e Gil Vicente zanzava pelas ruas de Goiabeiras, cidadezinha do interior, poerenta e mimosa. Lugar em que morcego passava protetor solar mesmo à noite, dado ao seu calor e vento seco.

No barato, era uma espécie de faz tudo. Capinava, varria, fazia serviço de moleque de recados, guarda noturno dos puteiros e cabarés da cidade, servindo de leão de chácara e sparring para os amantes um pouco mais impetuosos da cachaça nossa de todos os dias. Conheci Belarmino pratrasmente de uns vinte anos quando ainda era ajuizado, morava protegido por telhado e tinha seu brim de fim de semana para as missas, pois era devocioneiro de São Lifôncio, santo sempre cuidadoso na proteção de picadas de inseto peçonhento.

Naqueles idos tempos, só tinha três paixões: Zizinha, moça de porta aberta que era a mais procurada de Goiabeiras, cachaça de fundo de barril e pescaria. Nos fins de semana, não contasse com ele. Vivia tabocado em pé de pau, mais pubo que mandioca na água, na ânsia de pescar um rubafo que desdenhava de sua pessoa e de toda a sua parentagem. Havia jurado de juramento firme que não morreria enquanto não passasse aquele rubafo semvergonhista e desrespeitoso no seu anzol. E assim, passava os sábados e domingos. Atocaiado, mais fiel que perdigueiro, buscando seu rubafo.

Belarmino José Montenegro da Cruz Souza e Sá, nome comprido, desses que dão uma boa sonoridade para firma de doutor de lei, ou mesmo médico que vive de poções e sinapismos para curar vermina de criança comedora de terra, mas por alguma sorte do destino mudou completamente de vida. Os mais piedosos diziam que foi algum sortilégio lançado sobre ele. Os mais maldosos diziam que foi a cachaça mesmo. Mas isso tudo era bocagem do povo. Ninguém sabia por que motivo Belarmino descarrilou da vida. O que se sabe é que um dia ele sumiu da cidade, voltando, passado um bom par de anos, modificado, tocado pelo destino a apregoar virtudes, desdenhando posses e vivendo para auxiliar os outros.

Ganhou o apelido de Xexéu porque se tornou inimigo da água e do sabão, alegando que era coisa do Tinhoso. Vivia de bentinhos, ladainhas e ensinamentos de Deus, Nosso Senhor e de todo o povo do céu. Trabalhava de miúdo, apenas para ganhar o pão desse dia que vivia.

Vim depois a saber que Belarmino perdeu o juízo quando em um fim de semana, indo para a sua penitência juramentada, viu que um moleque pegador de passarinho, adiantara-se a ele e pegara o rubafo juramentado que por muito tempo zombou de sua pessoa. Aquela visão do peixe no samburá do moleque o transtornou. Perdeu alguns parafusos do miolo. Largou caniço e anzol e saiu pelo mundo, sem dar notícia a ninguém. Sem escrever missiva, ou mesmo mandar lembranças. Agarrou-se à fé como uma tábua no meio do oceano e teve os vislumbres da santidade, perdendo o juízo para as coisas da terra.

O mundo virou um saco de maldade, onde magotes de hereges viviam em pecado mortal, lambuzados em zombarias contra o povo do céu. Sua volta foi um espanto. Mas, como dizem o tempo cura tudo. As pessoas passaram a gostar de sua companhia e o fizeram um faz tudo na cidade, que ele executava com rapidez e segurança.

Nas feiras de domingo Belarmino se via ocupado. E mesmo se tivesse dez baços e outras tantas pernas não era capaz de atender aos favores que lhe pediam, sempre a troco de algumas moedas que ele guardava em sua calça surrada e depois ia gastar comprando guloseimas que repartia com os filhos dos pobres da cidade e comia com alegria, com todos os dentes gozando da felicidade dos desajuizados, que são puros e inocentes.

Certa vez, carregando quatro sacolas de feira, ia dirigindo um caminhão caçamba na sua cabeça, fazendo o atchim dos rodofreios sempre que chegava em uma esquina. Nesse dia, para azar de todos, Dona Clementina, Dona Cotinha e Dona Josefa resolveram pegar a fresca da manhã sentadas em cadeira de vime na larga calçada que Belarmino fazia de sua pista de caminhão.

Meio adernado pelo peso das sacolas, vinha o caminhoneiro trocando marcha, freando e acelerando o seu caminhão imaginário. Ao ver as senhoras – as três maiores fofoqueiras da cidade – Belarmino puxou a cordinha do apito de seu caminhão. Mas, sem tempo de frear, atropelou as três velhas. Foi um verdadeiro acidente automobilístico. Um ajuntamento de coentro voou pelos ares, uma sociedade de tomates que estavam embrulhados em sacola de plástico virou patê no meio da calçada e duas cabeças de repolho rolaram para o meio da rua, enquanto as velhas tentavam se levantar.

– Louco filho de uma puta! Você não viu que a gente estava sentada aqui na calçada e veio correndo?

– Eu vi, dona Cotinha. Apitei com meu caminhão, as senhoras não saíram da rua e eu não consegui frear, aí tive que atropelar, porque ‘tava’ com bastante velocidade!

Até hoje não sei, se depois desse acidente tiveram que chamar a perícia de trânsito, ou os maridos das velhas. O que sei é que Belarmino Xexéu juntou sua carga e foi entregar a encomenda contratada no endereço do freguês, em troca de uns cobres para as guloseimas de domingo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PESCARIA

Para Maurício Assuero

E ia Zenão Rubafo mais uma vez para seu sagrado dever de ofício, junto com o compadre Zaqueu Militão pescar traíra no corgo que ficava a umas vinte braças de sua casa. Preferia a curva do corgo pouquinha coisa mais distante, onde as águas faziam uma curva e deixava umas locas assombreadas onde as traíras se escondiam.

Era ofício de domingo, já que há muito tempo ele não machucava os pisos da igreja, por não se dar bem com o padre Teotônio. Aliás, ele não se dava bem com esse povo de batina, apesar de ser temente a Deus e devoto de São Benedito. Acordava às quatro da manhã, tomava banho, esfregava fumo de corda nos dentes, fazia sua reza devocioneira e arrumava seus apetrechos: caniço, linha, isca, samburá e duas garrafas de cachaça que era pra espantar a friagem da madrugada.

Assim bem apetrechado e melhor encomendado partia para a casa do compadre Zaqueu Militão ao qual chamava com um assobio e iam alegres da vida para curva do corgo pescar traíra. Voltava só depois que o dia morria. O seu despertador era um comício de saracuras e pererecas tinhorão que começavam a cantar na concha de seu ouvido. Ao ver que uma sociedade de morcego saia de seus esconderijos, levantava acampamento e iam, os dois, trocando pernas, cada um para sua casa, mais bêbados que gambá de celeiro.

Para dona Cotinha, a esposa dele, essa era uma penitência sem fim. Ver o marido todo santo domingo, que Deus, Nosso Senhor criou para o descanso do homem, sair com o compadre para encherem a cara na beira do corgo, com a desculpa de pescar traíra. O samburá, como sempre voltava vazio, assim como as duas garrafas de cachaça que os dois sugavam mais que morcego vampiro quando ataca novilha.

E, naquele domingo não fora diferente. Lá foram os compadres, conversando, pitando seus cigarrinhos de palha. Sentaram-se no barranco, armaram isca e botaram minhoca pra tomar banho. Já o dia ia tarde quando passaram três muleques tabacudos gritaram:

– Zenão, velho corno! Vai ficar o dia inteiro tostando no sol?

Zenão pulou com a faca nas mãos:

– Fi de rapariga, moleques safados. Vortem aqui que acabo com tudo na ponta da faca.

Zaqueu vendo o destempero do compadre, tentou acalmar.

– Carma cumpadi. Carma. Ocê num é tão veio assim. Esquece a mangação desse povo.

E continuaram a pescaria até a noite. Nesse dia, porém, dona Cotinha estava com o Sete Couro nas costas. Nem bem Zenão abriu a tramela da porta e ela já foi abanando seu dedinho de graveto nas fuças dele.

– Óia homi safado. Guentá você saí todo domingo, eu até guento, mas guentá bafo de cachaça é dimais. Se no próximo domingo ocê vortá bêbado de novo eu vô pinchá todos seus badulaques pra fora de casa e ocê vai durmi cum us cachorros.

Esse Ato Institucional fez Zenão ficar meditativo na varanda de casa, quando viu o compadre Zaqueu chegar com os olhos baixos, cara no chão. Compadre Zaqueu contou a descompostura que a mulher tinha dado nele. Quase tão igual quanto àquela que Zenão levou. Mulher tem dessas coisas. Parece que urdem as coisas só pela força do pensamento.

Decididos a mudar de conduta, mais por medo de ter que dividir a cama com os cachorros, do que pela força de vontade, decidiram que continuarem com o esporte da pesca, mas que abandonariam a cachaça, pelo bom passamento da paz familiar. Na verdade, era mais uma Pax Romana, do que qualquer outra coisa.

E chegou mais um domingo que parecia ser um daqueles dias maravilhosos de céu limpo e brisa fresca. Zenão levantou-se à hora de costume, tomou seu banho, fez sua reza devocionista e preparou os apetrechos de pesca. Levava caniço, linha, isca e dois samburás. Chamou compadre Zaqueu com o assobio de sempre e lá foram os dois para sua diversão. No meio do caminho, compadre Zaqueu Militão estranhando os dois samburás inquiriu o compadre.

– Cumpadi, nóis vai pescá, é fato, emboramente nossas muié tenha puribido nóis bebê… que mar lhe pergute… que qui tem nesses dois samburá

– Oi cumpadi. Neste aqui da dereita to levando duas garrafa de cachaça.

– Mas cumpadi, nóis não prometeu num bebê mais?

– Carma cumpadi, carma. Essa cachaça é pra que, se de repente aparecê uma cobra e picá a gente, nóis usa a cachaça pra limpá o ferimento e toma só um golinho pra cortá o efeito da bicha, enquanto prucura o hospitar.

– Ói cumpadi, num é que ocê tem razão? Mas, e esse outro samburá?

– Ah cumpadi… é uma cobra ué…. lá pode não tê!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PERFUME

Para Luiz Berto Filho

Coronel Sizenando Jaguariúna sempre fora chefe político, mandonista e o maioral da cidade de Pipeiras. Herdeiro de pastos finos e gado do mais gordo, sua fama de demandistas de causas impossíveis graças ao seu tirocínio político o fizera quatro vezes prefeito e cinco vezes presidente da Câmara de vereadores. Mas já se foi o tempo em que o coronel, demandista como ele só, ministrava pronta justiça e mandava pras galés da cadeia pública, quem desafiasse seu senso de paz e ordem.

Já morreu o tempo em que coronel Sizenando enfrentava onça pintada, boi cornudo, ou ia desimpedir algum aceiro assombrado por visagem de menino que morreu pagão, ou aparecimento de lobisomem, boitatá, ou mula-sem-cabeça. Esses atrasos dos ermos, nem mais atiçava seu gênio querelante. Quando aparecia alguma comitiva solicitando seus pareceres e pronta sentença de justiça, mandava um peão ir resolver a demanda e despachava, de pessoalmente a comitiva.

Coronel da Guarda Nacional por força do braço e herança de família, talqualemente foram seu avô e pai, cresceu no debaixo do capotão do avô, coronel Hermeneildo Florêncio de Sá Souza Jagariúna. Firma comprida, dessas de mal caber em folha de caderno, quanto mais em caderneta de identidade emitida pelo governo.

Coronel Sizenando, suave de trato, macio nas palavras, desses que comem minguau quente pelas beradas, quando se tratava de política, o ardume de fogo pelo partido o transformava. Entulhava qualquer recinto com sua voz grossa, suas deseducações que era tão suave quanto apito de navio afinado em Lá maior, e esfarinhava qualquer discussão a poder de tapa na mesa e fumarola do charuto que ele sempre trazia debruçado na varanda do beiço. Aforamente essa paixão pela política, no dia a dia o coronel não matava nenhuma formiga, pois tinha grande respeito pelas criaturas de Deus, Nosso Senhor.

Em Pipeiras, todos conheciam o gênio estouvado do coronel, quando o assunto era política. Sustentava seus arrazoados no atacado e no varejo, e quando se via contrariado era capaz de levantar o demandista a solavanco de orelha, ou mesmo pelos gorgomilhos. Andava sempre com uma vara de gurumguba que fazia de bengala e carrasco, e muitos filhos de égua experimentaram o poder de seu braço e o assobio de caninana daquele instrumental que ele sabia manejar com maestria.

Pois bem. Deu-se que, aproximando as eleições municipais, Coronel Sizenando aparecia como franco favorito a ser tornar prefeito do burgo pela quina vez, se não aparecesse, saindo sabe-se Deus, de onde, de que loca, ou tulha, a figura franzina de Robertinho Caçalho. Figura miúda, dedos de graveto, carcundinha dobrada, devido a muitos anos de subalternismo e vassalagem para patrões ricosos, lançou também candidatura. E foi engrossando a curriola de apoiadores.
Soube-se depois que Robertinho Caçalho era afilhado de gente graúda da capital, desse tipo que manda e desmanda no governo, afinal esse magote de lobisomem vivem de correr, um atrás do rabo do outro. Compadre Alegria sempre dizia que, não importa se um governo é honesto, ou não, ele tem que ser derrubado por causa das safadagens que se comete nos desvão das salas de mando. Mas isso são lá impressões dele, e não minha.

E a campanha começou a esquentar, com cada candidato atacando o outro desenterrando segredagens e confissões de um e de outro lado. Uma denegria a família e a parentagem do outro pratrasmente de 200 anos quando Pipeiras era terra mais de bugre, deseducada igual a cavalo redomão, terra de satanás, que, por mais empenho que se deitasse nela só fazia crescer saúva e cururu-de-frade. E, nesse esquentar da política, deu-se que Coronel Sizenando e Robertinho Caçalho resolveram sentar praça na barbearia do Navalhudo. Lugar de fofocagens, do diz-que-foi, diz-que-não-foi, e por aí vai.

Deu-se que, certo dia, num desses sábados preguiçosos, de fim de trade triste, pouca coisa antes da eleição os dois candidatos resolveram fazer a barba naquele estabelecimento. Corte vai, corte vem, com os barbeiros falando e os clientes apenas concordando com a cabeça, porque nenhum dos dois era maluco para dizer algo com aquela navalha rente ao pescoço. Terminado o serviço da navalha, os oficiais de barba perguntaram aos candidatos se queriam loção pós-barba, dessas de aromar a vinte braças do candidato, mesmo com o vento de contrário.

– Bote não, meu caro – disse o coronel. – Bote não, porque se eu chegar em casa com esse aroma de água de cheiro, minha mulher vai pensar que tive no putero e vai fechar o tempo!

– E o senhor? Perguntou outro barbeiro para o Robertinho!

– Pode ponhá rapaz, afinal minha mulher nunca frequentou putero e não conhece o cheiro de lá.

Dizem que ninguém se interessou pelo resultado final da eleição naquele burgo perdido no meio do nada. O que mais se comenta até o dia de hoje, é que ainda não terminaram a reforma da barbearia do Navalhudo depois que os dois candidatos fizeram a barba naquele sábado de triste sol de Pipeiras.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CONSTITUCIONALICES

Essoutro dia, aqui, na minha rede de imbira, coçando a carcunda de meus doguinhos e vendo a máquina de fazer doido comecei a assuntar um tema que os políticos da botocúndia estavam debatendo: retirar o stf do arcabouço judicial bananeiro e deixá-lo apenas como corte constitucional, a fim de mantê-lo longe das atividades políticas como hoje tem acontecido. Isso é conversa miolo de pote, assunto que não leva a lugar algum e só é conversa para enganar curiboca bobo. E eu explico, mas terá que ser uma explicação um pouco longa, então meus caros caetés, pouco de paciência.

Eu sempre digo que a constituição brasileira, aquela promulgada naquele 5 de outubro de 1988 é uma bizarrice e um monturo de coisas que mais atrapalham do que organizam a vida da sociedade. Todas as vezes que ouço um deputado, um senador, ou mesmo o executivo propondo uma PEC – Proposta de Emenda à Constituição -, repito comigo: é mais fácil e mais barato rasgar a que se tem e fazer outra bem mais realista e conectada com a sociedade.

Vejam bem, a Carta está com seus 35 anos de vigência e já sofreu mais de 120 emendas. O texto original não existe mais, e, mesmo se existisse é tão porcaria quanto a colcha de retalho que temos agora. Admira-me países como os Estados Unidos, com sua constituição de mais de 220 anos possuir apenas 13 artigos e 27 emendas claras, precisas e impossíveis de interpretação esdrúxula. O Reino Unido nem isso têm. O costume e as leis ordinárias são mais do que suficiente para se saber o que é e o que não é legal. Nas terras do rei Charles III desde a Revolução Gloriosa de 1688 sabe-se que a propriedade é direito fundamental, que a vida deve ser protegida e ponto final. Não se discute pelo em ovo.

Quando a nossa constituição foi produzida entre 1986 e 1988, José Sarney, então capataz da Botocúndia foi profético quando disse que o monstro que estava sendo parido na Assembleia Nacional Constituinte iria tornar o país ingovernável. Não era preciso ser bidu para saber que ele estava mais do que certo, apesar de, pessoalmente, desaprovar a sua figura vulturina. Não decorreram nem cinco anos para que as ditas PEC começassem a aparecer para tentar corrigir as lambanças daquela assembleia que, no meu ver tomava uma xícara de ayahusca todo dia e ia para o serviço de contribuir para o progresso de nosso atraso.

A constituição de 1988 é longa, pedante, balofa, fala basicamente sobre tudo e regula todos os aspectos da vida social da taba brasilis. Não existe tema que a sanha legiferante de regular não tenha metido a mão e estragado tudo. Veja meu caro curumim. Ela disciplina saúde, educação, segurança, organização dos poderes, meio ambiente, casamento, relações internacionais, moeda, propriedade, a vida pessoal, laboral e social da pessoas, religião, trânsito, gastos públicos, e até mesmo privados, solo, agricultura, petróleo, previdência, trabalho, e por aí vai.

Recentemente conversando com um amigo que está terminando Direito, este me pediu para analisar um texto sobre a “função social da propriedade”. Está lá, no texto constitucional. Questionei o que era isso? E ele me disse que a propriedade tem ser dessa forma, que a lei estabelece que ela tem que agir assim e assada, mas não conceituou o que era essa tal de função social da propriedade. Fui pesquisar e encontrei ouras lorotas do mesmo gênero e a pegadinha no final. Se a propriedade não estiver cumprindo sua função social, ela pode ser tomada de você e dada a outro que vai fazer com que ela cumpra. Trocando em miúdos, função social da propriedade é só um eufemismo para dizer que a propriedade não é sua, e se qualquer capataz de plantão entender que sua propriedade não está cumprindo a dita função social, você a perde para alguém que não tem e que vai, teoricamente, cumprir essa função. Lorota pura para esbulho.

Outra situação mais esdrúxula que a dita constituição traz. Se você sair com seu carro e acontecer algum acidente, torça para que você atropele e mate, dolosamente um ser humano e não um calangro, desses de beira de estrada. Isto porque, de acordo com a constituição, o homicídio doloso vai te dar aí uns 20 anos de cadeia, com direito a progressão de pena, saidinha por bom comportamento, auxílio reclusão e outras cositas. Já o calangrocídio doloso vai te dar pena de 30 anos, com cumprimento integral, pois se trata de crime inafiançável, imprescritível e insuscetível de graça. É crime ambiental previsto na constituição.

Um outro ponto absurdo da dita Carta Magna é o estabelecimento da quantidade de horas que o cidadão deve trabalhar, das horas que ele deve descansar e das horas que ele deve destinar ao lazer. Nossa constituição fez com que burocratas e gente que não sabe o que é trabalho definisse até as horas que eu devo ter para me divertir. O meu trabalho me diverte. Além do mais, quem sabe quantas horas eu devo trabalhar para pagar as minhas dívidas sou eu, e não o estado. É o cúmulo do absurdo, algo que deveria ser uma carta de princípios descer a minudências e detalhes que atrapalham a vida de todas as pessoas.

Como a questão que envolve o supremo tribunal federal ser desvinculado do sistema judiciário e se ater apenas a temas constitucionais são só saliva de porta de botequim, já que a constituição de 1988 legisla e regula tudo na vida do cidadão, consequentemente, todos os temas afeto ao cidadão, vão acabar na suprema corte, já que, praticamente tudo é matéria constitucional.

Do índio que vive pelado nas tabas aos mexilhões e cracas que vivem nos mangues à beira-mar estão lá, como temas constitucionais. Não tem como fazer essa desvinculação do stf – assim mesmo em minúsculo para mostrar a importância dele -, do sistema judicial por causa da constituição de 1988. Já disse, ela é detalhista, pernóstica, com uma linguagem que se assemelha muito ao Português, e que serve mais para enrolar o curiboca pagador de imposto do que de organizar a vida social.

A constituição brasileira é uma loja de trapizongas onde se tem de tudo, menos organização da vida pública e arquitetura de sociedade moderna. Assim, ouvindo alguns políticos defendendo essa ideia, cocei a carcundinha do meu Pitoco Afonso, olhei para a cara de vira latas dele e disse: é, meu velho. Taí mais um cretino querendo enrolar a patuleia com uma conversa sem pé e nem cabeça. Tá querendo alguma coisa.

Assim, quando algum curiboca vier com essa conversa fiada sobre separar o stf do judiciário, apenas sorria, assobie e vá colher pitombas. Você ganha muito mais e deixa de perder tempo com loroteiros que estão doido para enfiar a mão no seu bolso.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

REQUIESCAT IN PAX

Para Magnovaldo, lá dos Zistados Zunidos

E finou-se o senador Demenciano…. na cidade de Uruburetama foi aquela comoção. Todos os habitantes do burgo receberam como um choque nas partes subalternas o passamento finadístico do senador. Aliás, diga-se assim, no corrente dos causos que o senador foi um homem digno de seu tempo. Entrou na política jovem, taludo e, em sessenta anos de mandatos, remandatos e tremandatos enricou, como certa família de um grotão da Botocúndia, que é melhor deixar pratrasmente essas estórias.

Corrida notícia da morte, os papa-defundos trataram de embonecrar o corpo do senador para uma melhor viagem para o mundo dos sete palmos. Flores, círios aromáticos, música suave, caixão de mogno, todo almofadado para não magoar as carnes do defunto, afinal, gente enricada era a família daquele senador que deu sua vida pelo progresso da família e atraso do país. Mas isso deixa pra lá. São fofocagens e malquerenças que compadre Valdomiro insiste em papagaiar pelas aí, dizendo nomes feios e denegrindo o senador e sua família com um artimanhoso do cão que só não mandou para casa o teto do senado porque era de concreto armado. No mais, papou tudo.

Exigentosa, a família impôs: só entra para prestar vassalagem ao morto se deixar celular, câmera fotográfica e outros berloques fora. Dois latagões, desses que se afamaram na arte de distribuir bolachas e cachações foram contratados para ficar na portaria e melhor cumprir as ordenanças da família. Contratou-se, também, carpideiras e rezadeiras para ficar no Ora pro nobis enquanto o corpo do senador estava sendo velado. E foi chegando gente, e mais gente, e mais gente, que entupiu a capela. Alguns até tocavam no corpo do senador para verificar mesmo se estava morto.

Mortinho da silva, de morte morrida, sem violência. Aliás, vim saber depois que o caso da morte se deu por um zero. Isso mesmo. A coisa se deu assim: quando o senador Demenciano foi conferir seu extrato bancário, a máquina deu um siricutico e a vírgula saiu no lugar errado, deixando o senador pobrinho de Jó. Coração fraco, não aguentando mais fortes emoções, caiu para trás gritando e pouco depois entregou a alma ao Pai Eterno.

E foi chegando gente. O prefeito melhor ensabonetado e recendendo a água de cheiro, de aromar dois quarteirões antes dele, no barato, foi prestar vassalagem ao chefe político local. E veio senador, deputado, vereador, governador, bispo, padre, a chefe do terreiro, ateus convictos, pastores e rezadeiras. Saiu gente que há muito dava-se já pertencente ao barro, de década para trás. Finórios de todas as classes, putas, xibungos, moleque de rua para filar uns salgadinhos. Todos queriam ver o senador morto.

E, enquanto as rezadeiras entoavam a Ave-Maria, mais desafinadas que rabeca que tomou chuva e empenou, as comitivas enricadas foram se aproximando. Enterro de rico é engraçado. O que menos importa é o defunto. Tá todo mundo ali para bispar e bildar como o outro está vestido. Se a roupa do outro é exclusiva, ou uma dessa que s compra em qualquer loja de trapizongas, muito comum na cidade. Caras com aquelas televisões de 70 polegadas encanganhada no nariz, lenço preto para melhor enxugar as furtivas lágrimas, e segurando o relógio de ouro, escondendo-o. Não por medo de ser roubado pelos vivos. Mas, todos conheciam a fama do senador.

Chegada a hora do enterro, todo mundo a pé, afinal o cemitério ficava apenas a duas quadras da capela. E lá foi o cortejo, mais vistoso que ala de escola de samba. Nessa hora o morto já era vaca. Íntimo de todo mundo. A morte já fazia desaparecer as diferenças sociais. Cemitério quieto. Nem vendedor de churrasquinho de gato, nem o pipoqueiro, nem cachorro latindo. Ia ali um defunto aparatoso e de respeito.

Por ordem expressa do senador, que antes da morte planejou o seu passamento, quis seu restos encarquilhados em uma tumba só para ele, no meio de duas outras tumbas da família, onde já descansavam o pai, a mãe e a esposa. Melhor mandado, melhor cumprido. Tampo e lateral de mármore branco, o carneiro azulejado, flores. No alto, um crucifixo de dois metros de altura, com o crucificado bem à mostra que se igualava aos dois outros pertencentes à família. Depositado o corpo no carneiro, fecharam a tumba, onde no alto, além das datas de nascimento e passamento, escritos em grandes letras douradas o famoso “Aqui jaz…”.

Passada a missa de sétimo dia, depois do encomendamento da alma do senador, e mais reforço de ladainha para sua melhor entrada no céu de Nosso Senhor, dois coveiros passando ao lado das tumbas da família do senador, logo depois de uma borrasca de fazer sapo pedir guarda-chuva e peixe pedir socorro, observaram a falta de um crucificado, aquele que estava na tumba do lado esquerdo.

– Óia só Zé….óia como esse povo é finório. Não deixam a tradição nem na hora da morte. Num faiz nem oito dia que butemo o senador ali e o sujeito desce da cruz e roba as letras da catatumba do senador achando que era de oro.

E saíram gargalhando nas alamedas que enfeitavam a paz do cemitério.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

ANATOMIA DE UM ESQUERDISTA

Esta semana de setembro, em Pindorama, neste ano de 466 (d.S.) foi, como posso dizer “sui generis”. Teve senador que fala fininho chamando a taba toda de “facção”, teve candidato ladrão chamando o cidadão de “cuscuz” klan, em uma referência àquela entidade fundada pelo partido democrata, portanto, de esquerda, nos Estados Unidos que perseguia, amedrontava e matava negros, teve um candidato do PCdo B comemorando a morte da Rainha Elizabeth II, mas preferindo que ela fosse guilhotinada, e, a morte daquela Soberana, propriamente dito.

Nesse caso, vou começar pelo fim. Primeiramente quero prestar minhas condolências à Família Windsor e minhas homenagens póstumas a uma das líderes mais carismáticas, firmes, honesta, segura e que representou uma ideia e um ideal: sob ela a ideia de britanismo chegou ao estado da Arte. Sobre o ideal aquela veneranda senhora se ombreou com seu pai, o Rei George VI e com sua trisavó, a rainha Vitória, ideal de ser uma referência de serenidade , decência, amor à sua Pátria e estabilidade.

Já sobre o candidato a governador de São Paulo que bostejou que iria abrir uma cerveja para comemorar a morte da rainha, dizendo que os monarcas deveriam ser guilhotinados é o tema que eu quero debater. Mas primeiro, é preciso deixar de lado essa conversa fiada da psicologia, ou da ideologia do esquerdista. Quero me concentrar em sua anatomia e tentar revelar como ele age, os seus motivos traduzidos em suas ações, em seus fazeres. Nunca espere de um esquerdista uma mão para te ajudar a ficar em pé, se você cair. Nunca espere um ato de solidariedade, ou compaixão por parte de um esquerdista. Esses valores são a base da sociedade de matriz judaico-cristã, e ele abomina essa matriz.

Comecemos pelo cérebro do esquerdista. Esse cérebro está congelado lá no Período do Terror, aquela época da Revolução Francesa e seu lixo ideológico de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que gerou monstros como Maximilien Robespierre e Saint Just. Período em que a guilhotina chegava a trabalhar até três mil vezes ao dia. Daí se entende porque aquele sujeito fala em guilhotinar reis. Na sua concepção congelada no século XVIII, a guilhotina é a resposta para tudo aquilo que ele detesta, que ele tem inveja e não tem talento para se igualar, ou fazer melhor. Para o esquerdista, a guilhotina é a panaceia que cura o mundo, desde que o pescoço não seja o dele, óbvio.

Os olhos do esquerdista são sempre sombrios, frios, sempre buscando ver o que há além. Basta olhar qualquer foto do Zé Dirceu. Há sempre uma sombra envolta em seus olhos, sempre uma nuvem negra que tolda a visão de quem olha para ele. Nunca um esquerdista vai te olhar direto nos olhos. Ele sempre quer olhar através de você e além de você para daí ver se pode ter alguma coisa que ele possa tomar. Seu cenho está sempre cerrado e uma máscara de ira e ódio é fixa em seu rosto.

O nariz de um esquerdista “veve” sempre farejando algo. Sempre em busca de algo. Jamais você encontrará um esquerdista apreciando o perfume de uma rosa, ou o cheiro de grama cortada, ou mesmo o odor de uma plantação. Se ele fareja algo assume a atitude de um porco caçando trufas. Vai lá, fossando a terra, revirando-a até achar o que quer para devorar como um lobo faminto. O esquerdista se assemelha àquelas brocas de plantas. Não se contenta em comer o fruto. Ataca as raízes para sugar sua seiva, matar a árvore para que ninguém mais possa comer do fruto daquela árvore.

A boca do esquerdista é semelhante a uma sepultura aberta com um cadáver em decomposição avançada. Mas não, não é pelo bafo de maconha e cachaça, não. É que da boca do esquerdista só sai mentiras. Se um esquerdista vier te contar uma história, acredite no exato contrário dela que você chegará à verdade. Além da mentira, a boca do esquerdista está sempre disposta a caluniar, a injuriar, a destruir reputação de quem quer que seja, desde que isso o ajude a atingir os seus objetivos e seus planos de poder.

As mãos e braços do esquerdista são membros inúteis para produzir algo de bom para si e para a sociedade, mas são rápidos para tomar aquilo que é dos outros. Pergunte-se: qual foi o trabalho de um José Dirceu ao longo de toda a sua vida? Que atividade produtiva um José Genoíno teve para ajudar a construir seu país e sua família? Essas mãos são rápidas, todavia, para tirar algo de outros, se assenhorear daquilo que não construíram, juntar para si aquilo que não produziram. Vejam o exemplo de esquerdistas como a Família Castro, ou a Família Kim. Enquanto seus povos passam fome, eles mesmos vivem uma vida que nem Elizabeth II ousaria ter. São mãos que nada constroem, mas são rápidas em destruir. Quem se lembra do caso dos terroristas do MST que invadiram fazenda de laranja e passaram tratores nos laranjais, ou mataram vacas prenhes, deixando-as morrer com seu filhote, e nada aproveitando, ou ainda da invasão do herbário da Suzano, jogando no lixo vinte anos de pesquisa? Essa é a anatomia da mão do esquerdista.

Suas pernas e pés são ligeiros em ocupar espaços que não lhes pertence, como o caso dos terroristas do MTST que invadem propriedade privada, se aboletam nas casas alheias como se suas fossem e ainda se dizem ter “direito” de assim o fazer. As pernas do esquerdista nunca vão se flexionar para ajudar qualquer um que esteja caído. Ao contrário do soldado no campo de batalha, que não deixa seu companheiro ferido e caído em zona de fogo, mas arriscando a própria vida coloca o companheiro nos ombros e o leva a um local seguro, as pernas e pés do esquerdista vão esmagar a tua cabeça, pisar no teu corpo ferido, sempre buscando empalmar um poder absoluto. O esquerdista é semelhante àquela personagem da Legião do Mal, no desenho do Super Homem, Solomon Grund: está sempre em busca de algo, mas não sabe o que é esse algo, mas não se importa em destruir, pisar e abandonar todos aqueles que se colocam à sua frente, ou ao seu lado. O esquerdista é o exato oposto do Bom Samaritano. Suas pernas e pés não se apiedam de ninguém, não tem compaixão para com ninguém, não reconhece o outro como indivíduo. Suas pernas e pés esmagam e destroem tudo que se coloca em seu caminho.

Por fim, o coração do esquerdista. Este é negro. É uma pedra de basalto. Noções como ética, moralidade, piedade, amor, comiseração não habita aquele coração. Como um planeta errante sempre mergulhado na escuridão e na frieza do espaço, o coração do esquerdista não possui lealdade. Pátria, família, esposo, ou esposa, marido, ou mulher, filhos, amigos de um esquerdista sempre estará na alça de mira dele. Se o líder esquerdista mandar ele trair sua pátria, sua família, seus amigos, seus filhos, ele o fará. O coração do esquerdista é um lobo faminto. A diferença é que o lobo não trai a sua espécie, enquanto a traição encontra sempre guarida no coração do esquerdista. Não há lealdade, não há confiança, não há decência no coração do esquerdista. Se ele puder, vai jogar a culpa sempre em outros. Esse caso é bastante notório em Pindorama, quando um ladrão condenado jogou a culpa de seus crimes nos cadáveres da esposa e do neto, fazendo comício safado e abominável.

Eis aí, isso é um esquerdista em sua essência, então meus caros caetés, não se surpreendam se ouvir e ver coisas mais abomináveis bostejada por um esquerdista. Lembre-se: se ele disser algo, pense no seu exato contrário. Mas não, eu não quero a morte de um esquerdista. Se eu assim pensasse isso me igualaria a ele de uma forma abominável. Eu quero o esquerdista desaparecido, jogado na lata de lixo da história, mas feito pelas vias democráticas e civilizadas, coisa que esquerdista não sabe o que é.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PROSTITUTAS

Neste sábado chuvoso aqui na gloriosa Campo Grande, fazendo jus à Pindorama que é chuvosa neste meio do ano, peguei-se-me a pensar sobre diversos assuntos. Assuntos pueris, assunto “miolo de pote”, como diz nosso amigo Maurício Assuero, ou assuntos que são aparentemente desimportantes, mas calam fundo nos nossos caracteres. E um desses assuntos, bispando eu na máquina de fazer doido, era, as ditas brigadas de vartizap para alavancar a campanha política de Luís Luladrácio da Silva.

Duas questões se me pularam no quengo: a primeira é sobre a legalidade de uma central sindical, ou seja, um ajuntamento de diferentes sindicatos, que em tese é a voz de seus afiliados, com um foco voltado apenas para um candidato, mesmo que na base desses sindicatos haja filiados de diferentes matizes, de diferentes ideologias, financiando esse candidato. E, outra, até onde eu saiba a legislação eleitoral proíbe sindicatos financiar candidatos de qualquer espécie.

A segunda questão é mais profunda, e envolve o sindicato profissional de professores – eles preferem ser chamados de educadores -. Eu não sou educador. A função de educar cabe aos pais, à família do estudante. Eu sou professor. A minha função é ensinar, dentro da minha especialidade a Língua materna, as artes e a literatura dessa língua. Eu não sou pago para educar, mas para ensinar.

Lembro-me, no começo deste ano, quando o presidente da república deu um aumento de 33% no assim chamado Piso Salarial Nacionalmente Unificado – aquele indexador de salários que nivela em um piso o mínimo que um professor pode ganhar, estando ele na esfera municipal, estadual, ou federal – e que causou alvoroço em todas as esferas administrativas, além de esperança e alegria nos professores.

Todavia, eu, este velho caeté que está ficando sem dentes para cravá-los no chã de dentro do Sardinha, sempre busquei fazer uma análise à la cachorro que caiu do caminhão de mudança; com cara de quem não tem casa nova para onde ir e nem casa velha para onde voltar. E busquei analisar como nossa diretoria sindical agiu diante desse decreto presidencial, mas sempre com uma mão na alavanca do freio.

Desde 2019 o sindicato de professores, tanto municipal, quanto estadual classificava o governo Bolsonaro como “miliciano” “golpista”, “genocida”, “nazista” “inimigo da educação”, e tendo, nas 24 horas do dia um único pensamento: acabar com a educação pública. Tudo certo, válido e perfeitamente aceitável dentro de uma sociedade DE DIREITO e com plena liberdade. Entretanto, eu penso que, se eu tomo determinada postura política e ideológica, eu tenho que me comprometer com essa postura e ver, naquele que está do outro lado, como o adversário a ser combatido e anulado pelo meu discurso e pela minha estratégia política.

A situação que se apresenta, logo depois do aumento dado pelo governo federal no piso salarial, a meu ver, tornou-nos prostitutas – com todo o meu respeito à profissionais da segunda atividade mais antiga do planeta. A primeira é a política -. Isso mesmo, prostitutas! E falo isso sem medo de censura, ou, como dizem na atualidade, sem medo de ser “cancelado”. De repente, o nazista, genocida, miliciano foi trocado por um bem comportado “não fez mais que a obrigação”.

Quando ouvi essa desculpa me senti mais prostituta do que nunca. Simplesmente nossos líderes sindicais disseram o seguinte, ainda que de maneira sub-reptícia: fiquem quietos e esqueçam as nossas pautas. O negócio e que, liberando a grana, calcinhas no chão. Nunca me senti tão vil, tão desacreditado em minha profissão. Tenho 31 anos de serviço público prestado ao Estado de mato Grosso do Sul. Nesses 31 anos fui chamado de muita coisa: pelego, guaipeca – aqui no MS esse adjetivo significa sem valor, ou vagabundo -, preguiçoso, mal casado, e outros. Mas em todos eles, havia certa reserva de dignidade, de altivez e de honra na profissão, porque sabia que não afetava a minha profissão e a minha vocação.

Quando nossos sindicatos fizeram assembleia para decidir como os governos fariam esse repasse aos salários, levantei a voz e disse que não poderíamos aceitar esse reajuste. Se não por honra, ao menos por coerência. E aqui é preciso entrar em filosofanças baratas, mas acertadas. Se eu, ser, ou ente, julgo e decreto ser o outro um “nazista”, “genocida”, “miliciano”, e tudo o mais que vai de encontro à minha ética e moralidade social, aceitar qualquer benesse desse mesmo ser me diminui e me torna cúmplice desses mesmos atos e conceitos que eu aplico no outro.

Se eu considero o outro um genocida, aceitar qualquer coisa dele, se não me faz genocida, ao menos, me coloca como alguém que aprova seus atos e ações, por mais abjetas que elas sejam. Ou é isso, ou então estamos tripudiando em cima de 65 milhões de cadáveres que o nazifascismo deixou no século XX. Ou repudiamos a ação de um miliciano, ou somos cúmplices nas atrocidades cometidas pelas milícias mundo afora.

Fiz essa mesma abordagem nas reuniões sindicais. Quase fui linchado. Praticamente fui expulso das reuniões. Passei na tesouraria e pedi minha desfiliação. Posso até ser chamado de guaipeca, mas prostituta é demais para mim.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

COMIDA

Este fim de semana estava relembrando coisas do passado e me deparei com um fragmento de memória de quando eu tinha 16 anos e havia lido na revista Seleções do Read Digest – acredito que a maioria de nós já leu, ou assinou essa publicação maravilhosa -, cujo tema, ainda se me alembro muito bem que era “Comida: o calcanhar de Aquiles do mundo comunista”. Eu, nos meus dezesseis anos li e reli a matéria, até mesmo que meio encantado com a análise feita pelo repórter.

Dizia a matéria que onde o comunismo se instalava, o primeiro sintoma era a escassez de alimentos e o racionamento de comida, insumos, produtos e depressão na atividade produtiva. O articulista dizia que a burocracia, o dirigismo, as decisões erradas o desconhecimento de como a produção funciona eram os responsáveis para que a comida desaparecesse das gôndolas do supermercado. Essa conclusão ficou comigo por muito tempo, aceitando-a como verdadeira e factual naqueles países em que o comunismo logra tomar o controle do estado.

De fato, uma análise histórica do desenvolvimento do comunismo na Rússia, antes dela se tornar a União Soviética, demonstra que o desconhecimento, a burocracia, o dirigismo provocou uma das maiores fomes na Ucrânia, país com a maior área produtiva da Europa, até os dias de hoje. O Holodomor provocado a mando de Josef Stalin – o bigodudo tarado da Geórgia – provocou uma severa fome, com mais de três milhões de mortos por inanição, além de consagrar uma palavra que está muito em voga na atualidade: politicamente correto.

O politicamente correto nasceu surgiu como uma forma de se pasteurizar notícias ruins, a fim de agradar o tarado bigodudo. Quando uma ação do estado dava com os burros n’água, não se informava ao chefe a real situação dos fatos, mas inventava-se uma novilíngua para dizer que tudo estava bem, mesmo sabendo que, de fato, tudo estava caminhando de mal a pior. O resultado dessa novilíngua? Fome e escassez de alimentos.

Hoje, eu beirando os 51 anos de vida – uma boa ideia – retornei àquele texto dos meus 16 anos, apesar dele estar apenas na lembrança, como fragmento. E, ao retornar ao texto vi que as conclusões do articulista estavam todas erradas. Infelizmente, para a minha inocência adolescente, o articulista, ou foi apressado demais, ou inocente demais, ou, ainda, conivente demais com as suas conclusões.

De fato, a escassez de alimentos é um problema nos países comunistas, ou esquerdistas, de modo geral. Mas essa escassez não é fruto da ignorância, da burocracia, ou mesmo da pressa, mas sim de uma intencionalidade bem pensada e melhor executada. O corolário dessa política é o domínio e a submissão da vontade de um povo a uma ideologia perversa e assassina.

Cuba, na década de 1950 tinha o mesmo padrão de consumo de caloria que a Flórida e o mesmo padrão educacional que a Argentina. Quando os tarados de Sierra Maestra – que o diabo os tenha no inferno mais profundo -, tomaram o poder, a primeira coisa que fizeram foi destruir o setor produtivo, principalmente o de alimentos. O resultado foi a instituição das “cadernetas” de rações, dos vales e do racionamento. Hoje, Cuba tem um índice de ingestão de caloria mais próximo do Sudão do Sul, do que o de El Salvador.

Outro exemplo, e esse bem mais próximo é a Venezuela. No começo da década de 1990 o país tinha um padrão de vida próximo ao da Bélgica, um índice de ingestão de calorias semelhante ao da Itália. Depois que o projeto de ditador, Hugo Chavez – que satanás dê banho nele em chumbo derretido três vezes ao dia, no inferno -, os padrões de ingestão de caloria foram ladeira abaixo, chegando, segundo informações não oficiais a menos de 900 calorias diárias na capital, Caracas. Agora imaginem no resto do país.

Nessa crise de privação alimentar, só restou ao povo lançar mão do que tinha, comer cachorro e gato para poder ter acesso à proteína animal, uma vez que o tiranete destruiu o pouco que tinha do setor produtivo, haja vista a maldição do petróleo ter matado a construção de um parque fabril diversificado. A saída encontrada pelo ditador foi jogar a culpa nos “imperialistas” malvadões que queria o povo morrendo de fome. O interessante nessa mazurcada é que o ditador e seus cupinchas não passam pelas mesmas privações calóricas.

O exemplo mais recente são nossos hermanos argentinos. Eles estão trilhando a mesma senda de destruição do setor produtivo, patrocinado pelo governo. Em Buenos Aires, como pode ser visto por reportagem a geladeira dos mais pobres está igual à Antárctica: fria e deserta. A miséria avança cada vez mais para abiscoitar uma maior parcela da população, a pobreza mostra suas fauces e a miséria é retratada em crianças barrigudas. Cheias de verme, mas com nenhum alimento dentro delas.

A que constatação se chega? Muito simples. Quando o comunismo se instala em um país, a primeira vítima é o setor produtivo de alimentos para a população. Cria-se, intencionalmente uma insegurança alimentar para toda a população, menos para o ditador e seus comparsas. E, o dado da realidade é bastante simples, quase simplório, aliás. Quando se está com fome, a única coisa que um ser humano pensa é quando e onde irá encontrar a próxima refeição para saciar sua vontade de comer.

Manter uma população estado famélico, desnutrida, é a melhor estratégia para mantê-la escrava. Uma população em que o pensamento constante é matar a fome não desperdiçará energia pensando em liberdade, em representatividade, em democracia, ou mesmo em fazer algo sem autorização do ditador. Mais uma vez, veja-se o caso Venezuela. Nas últimas eleições o partido do ditador ganhou ameaçando os eleitores que, se eles não votassem nos candidatos do governo…, adeus cesta básica e caderneta de alimentos. Isso sem contar que, essa cesta básica é composta de arroz, farinha de milho, azeite, açúcar…, sem proteína de nenhuma espécie e que só dá para 12 dias, em uma família de 4 pessoas. Os 16 dias restantes, a família que se vire.

A insegurança alimentar, em países comunistas e socialistas é uma política de governo. Uma política para manter a dominação e a escravização da população. Aqueles que podem fugir fogem do país, mas os mais pobres são as vítimas. Vítimas que os ditadores, enquanto ainda estão longe do poder juram que governarão para eles, que a intenção é fazer um governo voltado para que o pobre possa “ter a sua vez”. Quando chegam ao poder, a primeira vítima é o pobre.

O pobre, esse pobre diabo que é mantido na pobreza, justamente para ser escravo de países comunistas e socialistas, ao pensar com o estômago, dada a sua situação famélica, ao votar em promessas vazias não percebe que está, voluntariamente, colocando grilhões em seus pés e pescoço para se tornar escravo de um regime socialista. Eis a razão porque até agora, nunca foi permitido ao Brasil trabalhar e enriquecer.

Nossa classe política, desde a redemocratização sempre trabalhou para que a população se mantivesse pobre. Uma nação em que a maioria das pessoas está na classe média é livre e independente. Não precisa da esmola estatal e não se deixa colocar algemas. Sempre está buscando formas de se manter o mais afastado do estado e depender dele o mínimo possível.

Assim, ao voltar naquele texto dos meus 16 anos, vejo agora o quanto o articulista foi equivocado: Não é burrice, não é burocracia. É algo pensado e executado. Manter a população com fome foi a estratégia mais bem sucedida do comunismo para se manter no poder.