Relutei em escrever este texto, confesso! Mas, sabe quando existe algo que te incomoda, não te deixa dormir, é chato igual àquela pele de unha que a gente tenta arrancar no dente e acaba abrindo uma cratera dolorida e que a todo o momento você esbarra em algo que a magoa. Pois bem, este texto é quase um simulacro dessa ferida aberta na ponta do dedo.
Neste mês de fevereiro de 466 d. S. (depois de Sardinha) estive no Rio de Janeiro, a tão propalada “cidade maravilhosa/cheia de encantos mil”. Fui acompanhar uma colega resolver uma situação legal na Embaixada do Reino Unido. Viagem boa. Gosto de estrada. Gosto de dirigir. Fomos com alguns dias de frouxidão até para curtir a viagem em si, a paisagem, e as tão propaladas maravilhas da dita cidade do Rio de Janeiro.
Perdoem-me os cariocas e fluminenses com o que eu vou escrever a respeito dessa cidade, mas devo dizer uma verdade. Vocês foram enganados e continuam sendo enganados quando alguém diz que o Rio de Janeiro é uma “cidade maravilhosa”. Não é. Pode ter sido em um passado distante, mas na atualidade, o Rio de Janeiro é a quintessência do Brasil que queremos deixar para trás, superar, esquecer e enterrar.
Lembro-me ter ficado em um hotel que fica a duas quadras do Aterro do Flamengo e a duas quadras do Palácio do Catete. Sempre quis conhecer esses locais. No saguão do hotel, este caeté, com a bunda de fora, a borduna na mão e o canitar no pescoço perguntou à recepcionista se era uma boa, àquela hora – 16 horas – dar um passeio na orla. Ela me disse que não era aconselhável, mas se eu quisesse, deixasse no quarto celular, joias, se tivesse dinheiro, ou qualquer objeto de valor. Confesso que aquela confissão da moça deu-me uma saudade da taba, do fogo irracional que queima dentro da gente.
Do quarto do hotel em que estava podia ver a estátua do Cristo Redentor. Mas a vista podia baixar até certo ponto, pois nas linhas abaixo o que se via eram aas favelas – essa aberração brasileira, mas que no Rio assumiu um estado de arte -, com todas as suas contradições, suas mazelas e suas lutas. Cada vez que olhava para aquelas casas mal construídas, empilhadas uma sobre outra, sem reboco, com o tijolo aparecendo, não se sabendo onde começava uma moradia e terminava outra, foi me dando um desespero, uma melancolia, um desejo de voltar para o meu MS.
Não que aqui não haja mazelas, mas na gloriosa Campo Grande favela é uma coisa quase que alienígena. A prefeitura tem um programa sério de não favelização. Quando surgem barracos em zonas de perigo, usa-se um buldozer grandão que bota abaixo aquelas bibocas de bosquímanos, e realocam-se as famílias para conjuntos habitacionais de alvenaria.
Mas, parece que no Rio de Janeiro, a favela é um componente da própria cidade, típico da contravenção e da marginalidade. Penso naquelas pessoas que se aboletam naquelas zonas de perigo de deslizamento que sofre duas vezes. O primeiro sofrimento é a violência do crime organizado, dos traficantes que, na sua covardia, usa o cidadão obrigado a viver nos morros, como escudo humano contra a polícia. O segundo sofrimento é a síndrome de Estocolmo que o Rio vive. Sempre está escolhendo para comandar o Estado e a cidade aqueles que o sequestram, o pilham, o roubam e o vilipendiam cotidianamente. E, a cada eleição, essa mesma população é chamada a escolher entre o ruim e o pior.
Tanto na chegada, quanto na saída da cidade, ou seja, na nossa ida e volta, vimos pichações, lixo nas ruas. Sacos de lixo mesmo, como que aquilo fosse parte do cotidiano, ou da paisagem natural da cidade. Não havia lugar, por mais alto que fosse, que não estivesse com pichações, ou recados do crime organizado. Poeira, lama e valas negras nas zonas centrais. Que cidade maravilhosa é essa?
Filmar, fotografar a cidade do alto do Corcovado, só pegando a linha da praia é excelente, mas esconde a miséria, as vulnerabilidades, o atraso, a desorganização, a leniência entre o público e o privado que se agudiza na cidade do Rio de Janeiro. Essas imagens ainda estão marcadas no espírito deste caeté, um curiboca já velho, quase dobrando a carcunda pela força do vento.
Esse Rio de Janeiro, quase como uma terra de ninguém, onde todos mandam e ninguém se responsabiliza por nada é o tipo de Brasil que há muito tempo eu sonho e luto em superar. O Rio de Janeiro é a essência caeté, é o fogo irracional e anti-civilizatório que o país luta para superar, deixar para traz.
Isso não quer dizer que não haja lugares bonitos. Mensurar o Rio de Janeiro apenas por Santa Tereza, Jardim Botânico, Vila Isabel, Copacabana e Ipanema é intelectualmente desonesto, é acreditar que as demais partes da cidade não existe. Mangueira, Duque de Caxias, Alemão, morro dos Macacos também são o Rio de Janeiro, também fazem parte dessa fogueira irracional que o Rio conseguiu cristalizar como sendo o Brasil do atraso, o Brasil do passado, o Brasil do compadrio, o Brasil da rapinagem que queremos superar.
Talvez, o meu olhar possa ser até duro demais, ou condescendente de menos com uma urbe que é somente uma urbe, com todas as suas contradições e defeitos. Talvez, eu, caeté de outra opa não regulei a minha régua de acordo com as mudanças comportamentais e geográficas, e por isso estou captando uma realidade diferente daquela que estou acostumado a ver.
Veja, andando de carro, com o fedegoso na mão, mais assustado que ratão de banhado, percebi que até a polícia, isso mesmo, a polícia, contribui para a desorganização, para a avacalhação do trânsito, para a bagunça no cotidiano das pessoas. Não fomos parados por blitz, ou mesmo segurança, graças a Deus, mesmo porque, se a policia já bagunçava o trânsito, se parassem os veículos, o inferno estaria de portas abertas.
Havíamos planejado ficar, pelo menos quatro dias na dita Cidade Maravilhosa (mentira deslavada), ficamos um dia de 24 horas, em dois dias e uma noite. Voltei para meu Mato Grosso do Sul triste, desapontado, revoltado, irado, questionando-me como deve sentir pessoas que pensa semelhante a mim, mas moram no Rio de Janeiro, e tem que conviver todos os dias com a desorganização, a ligeireza, a promiscuidade entre o público e o privado, a convivência entre a civilidade e a barbárie, o incesto entre o Estado e o crime organizado.
E, desde que voltei estou remoendo este texto. Perdoem-me antecipadamente aqueles que gostam do Rio de Janeiro e todos os cariocas e fluminenses, mas volto a revelar algo assustador a vocês. Mentiram a vocês quando cantaram “cidade maravilhosa”. O Rio de Janeiro é a essência caeté,, na sua mais brutal representação. E isso, nada de maravilhoso tem.