Para Maurício Assuero
E ia Zenão Rubafo mais uma vez para seu sagrado dever de ofício, junto com o compadre Zaqueu Militão pescar traíra no corgo que ficava a umas vinte braças de sua casa. Preferia a curva do corgo pouquinha coisa mais distante, onde as águas faziam uma curva e deixava umas locas assombreadas onde as traíras se escondiam.
Era ofício de domingo, já que há muito tempo ele não machucava os pisos da igreja, por não se dar bem com o padre Teotônio. Aliás, ele não se dava bem com esse povo de batina, apesar de ser temente a Deus e devoto de São Benedito. Acordava às quatro da manhã, tomava banho, esfregava fumo de corda nos dentes, fazia sua reza devocioneira e arrumava seus apetrechos: caniço, linha, isca, samburá e duas garrafas de cachaça que era pra espantar a friagem da madrugada.
Assim bem apetrechado e melhor encomendado partia para a casa do compadre Zaqueu Militão ao qual chamava com um assobio e iam alegres da vida para curva do corgo pescar traíra. Voltava só depois que o dia morria. O seu despertador era um comício de saracuras e pererecas tinhorão que começavam a cantar na concha de seu ouvido. Ao ver que uma sociedade de morcego saia de seus esconderijos, levantava acampamento e iam, os dois, trocando pernas, cada um para sua casa, mais bêbados que gambá de celeiro.
Para dona Cotinha, a esposa dele, essa era uma penitência sem fim. Ver o marido todo santo domingo, que Deus, Nosso Senhor criou para o descanso do homem, sair com o compadre para encherem a cara na beira do corgo, com a desculpa de pescar traíra. O samburá, como sempre voltava vazio, assim como as duas garrafas de cachaça que os dois sugavam mais que morcego vampiro quando ataca novilha.
E, naquele domingo não fora diferente. Lá foram os compadres, conversando, pitando seus cigarrinhos de palha. Sentaram-se no barranco, armaram isca e botaram minhoca pra tomar banho. Já o dia ia tarde quando passaram três muleques tabacudos gritaram:
– Zenão, velho corno! Vai ficar o dia inteiro tostando no sol?
Zenão pulou com a faca nas mãos:
– Fi de rapariga, moleques safados. Vortem aqui que acabo com tudo na ponta da faca.
Zaqueu vendo o destempero do compadre, tentou acalmar.
– Carma cumpadi. Carma. Ocê num é tão veio assim. Esquece a mangação desse povo.
E continuaram a pescaria até a noite. Nesse dia, porém, dona Cotinha estava com o Sete Couro nas costas. Nem bem Zenão abriu a tramela da porta e ela já foi abanando seu dedinho de graveto nas fuças dele.
– Óia homi safado. Guentá você saí todo domingo, eu até guento, mas guentá bafo de cachaça é dimais. Se no próximo domingo ocê vortá bêbado de novo eu vô pinchá todos seus badulaques pra fora de casa e ocê vai durmi cum us cachorros.
Esse Ato Institucional fez Zenão ficar meditativo na varanda de casa, quando viu o compadre Zaqueu chegar com os olhos baixos, cara no chão. Compadre Zaqueu contou a descompostura que a mulher tinha dado nele. Quase tão igual quanto àquela que Zenão levou. Mulher tem dessas coisas. Parece que urdem as coisas só pela força do pensamento.
Decididos a mudar de conduta, mais por medo de ter que dividir a cama com os cachorros, do que pela força de vontade, decidiram que continuarem com o esporte da pesca, mas que abandonariam a cachaça, pelo bom passamento da paz familiar. Na verdade, era mais uma Pax Romana, do que qualquer outra coisa.
E chegou mais um domingo que parecia ser um daqueles dias maravilhosos de céu limpo e brisa fresca. Zenão levantou-se à hora de costume, tomou seu banho, fez sua reza devocionista e preparou os apetrechos de pesca. Levava caniço, linha, isca e dois samburás. Chamou compadre Zaqueu com o assobio de sempre e lá foram os dois para sua diversão. No meio do caminho, compadre Zaqueu Militão estranhando os dois samburás inquiriu o compadre.
– Cumpadi, nóis vai pescá, é fato, emboramente nossas muié tenha puribido nóis bebê… que mar lhe pergute… que qui tem nesses dois samburá
– Oi cumpadi. Neste aqui da dereita to levando duas garrafa de cachaça.
– Mas cumpadi, nóis não prometeu num bebê mais?
– Carma cumpadi, carma. Essa cachaça é pra que, se de repente aparecê uma cobra e picá a gente, nóis usa a cachaça pra limpá o ferimento e toma só um golinho pra cortá o efeito da bicha, enquanto prucura o hospitar.
– Ói cumpadi, num é que ocê tem razão? Mas, e esse outro samburá?
– Ah cumpadi… é uma cobra ué…. lá pode não tê!
Eita, Roque: só você mesmo para trazer alegria com seus maravilhosos contos nesta época tão tensionada, onde todos nós estamos com o samburá cheio de politiquezas.
Tenha um excelente dia.
Um grande abraço corumbaense,
Magnovaldo
Magnovaldo, isso é apenas para nossa diversão em tempos tão bicudos e tristes.
Ilustre Roque, ganhar um conto desses é uma homenagem e tanto. Valeu Caeté.