Já disse várias vezes, nesta coluna, que sou um caeté inveterado. Os meus olhos só brilham quando vejo um pedaço do chã de dentro do Sardinha chiando em um braseiro, quase pronto para ser devorado com um pouco de farinha d’água e banana da terra cozida no borralho. Afora isso, sou um fingidor, igual a Fernando Pessoa. O que se passa fora da minha taba me dá uma preguiça. O que mais gosto de fazer, depois de um lauto almoço é ficar deitado em minha rede de imbira, coçando a carcundinha de meus doguinhos.
Confissões à parte, sapeando pelas notícias de Pindorama, e olhando pratrasmente em nossa “estória”, fico apalermando em ver como renunciamos a capacidade de pensar estrategicamente nosso país. Maurício Assuero, a quem considero um grande pensador pode dar fé ao que digo, ou pode, também, me mandar ir pentear macaco pelas bobagens aqui ditas. Como disse, sou caeté. Meu único interesse é o Sardinha…, de preferência assado ao ponto!
O bom de se olhar para trás é ver a quantidade de burradas feitas e planejar o futuro evitando-se essas armadilhas. Mas, com Pindorama ocorre seu justo contrário. Olhamos para as burradas e as aperfeiçoamos ao limite da arte para que buraco seja mais profundo e a saída dele seja mais dolorosa e onerosa. E assim caminhamos, sem rumo, sem objetivos, sem saber a que porto chegar. Somos semelhantes ao homem que está bravo dentro de um ônibus e o motorista pergunta a ele onde quer descer. Em qualquer lugar, retruca. Peguei o ônibus errado mesmo.
E, de ônibus errado a ônibus errado vamos avançando de forma irracional, anticivilizatória, anti-intelectual, com nossa moral se adaptando às conveniências de momento, nossas decisões se amoldando ao batuque da hora, nossas escolhas tomadas feitas usando a parte final do intestino grosso. E, jogando a conta disso tudo para o pobre curiboca do presente, e mais especificamente do futuro.
Eu tenho uma rezinga histórica com a previdência social de Pindorama. É um dos raros casos em que uma pirâmide financeira não é somente protegida pelo Estado pantagruélico, como também defendida pela maioria daqueles que são suas principais vítimas: o contribuinte. A previdência brasileira é um caso clássico de falta de pensamento estratégico em que o resultado final, não importa quantas vezes ela for reformada, sempre será o desastre. Não dá para pensar um sistema de previdência baseada na regra distributiva em que, quem trabalha sustenta quem está aposentado, para quando chegar a sua vez de se aposentar, outros terão que trabalhar para que eu possa ficar nos “aposentos”.
Essa regra até era simples quando Getulio Vargas criou esse monstro, tomando na mão grande os recursos dos IPASES e dos Montepios para formar um grande caixa, achando que o brasileiro ia ser igual a rato, parindo ninhadas gigantescas de cada vez e fornecendo mão de obra quase infinita para sustentar o esquema. Quando a Constituição de 1988 criou a nova Previdência depois absorvida pelo INSS a coisa piorou. Gente que nunca contribuiu com um centavo passou a ser segurado. Funcionários públicos que também nunca contribuíram passaram a ser segurados. E o rombo nas contas foi só crescendo. A reforma de 2019, com o objetivo de economizar um trilhão de reais em dez anos foi só uma piada. Se Warren Buffet decidisse arriscar o dinheiro de seus investidores considerando apenas uma década, baseado apenas em suposições, seria crucificado por esses mesmos investidores, em praça pública. Isso porque, não é preciso ser bidu para saber que aquela reforma foi uma tentativa burra de se curar uma fratura exposta com esparadrapo.
Agora, com a chegada do governo do Amor estamos caminhando céleres para a revitalização de outras burradas do passado com uma pitada de cheiro de picanha assada e bodum de cerveja que já foi bebida e mijada. São várias as decisões que estão levando Pindorama ao desastre, mas com requinte de arte de dar inveja a um Caravaggio.
A última de Pindorama é o desejo do presidente ex-presidiário em criar uma moeda comum com a Argentina. Secundado pelo nosso Jaiminho (é para evitar a fadiga), nomeado ministro da Fazenda, saíram com uma ideia que, se concretizada será o fim do país. Melhor será bradar o toque de retirada, entregar o território para os índios e cada um voltar ao seu país de origem.
Há duas possibilidades nessa sandice. Ou a falta de um pensamento estratégico geracional que vislumbre os benefícios para o futuro do país, ou uma malandragem das grossas, que irá transferir o dinheiro dos desdentados e descamisados daqui para sustentar um governo desastroso do lado de lá da fronteira. Particularmente eu acredito mais na segunda hipótese do que na primeira. Será a abertura do sétimo selo do Apocalipse, com o escancaramento das portas do inferno para que sanguessugas e parasitas de outras nações se aboletem no bolso do curiboca nacional e o transforme em escravo apenas para sustentar esses governos ineptos e corruptos. Mas, isso quero discutir em outro texto.
As nossas universidades, que deveriam ser a vanguarda no pensamento estratégico geracional se tornou um amontoado de inutilidades, salvo uma, ou outra ilha de excelência. Lembro-me quando estava fazendo os créditos teóricos do meu doutorado que fui convidado a participar de um grupo de estudos sobre o pensamento de Karl Marx na contemporaneidade. Como todo caeté, sou curioso e fui participar daquele programa de “índio”.
Falou-se sobre exploração capitalista, mais-valia, a superioridade do socialismo, a malvadeza do “mercado” – ainda quero discutir isso um pouco também -, a busca do bem, a preservação do meio ambiente. Pensava eu comigo: será que essa gente já leu algum livro de História? Ou mesmo leu aquele amontoado de bobagens chamado “O Capital?”. Não acredito. A obra máxima de Marx é alentada, longa e complexa. Além de conhecimentos vastos é necessário paciência para ler aquilo. É a mesma coisa que ler a obra de Paulo Freire. Um amontoado de sandices que se contradiz a cada parágrafo e a cada linha.
Em dado momento levantei a mão e questionei se alguém ali pagava boleto. Não obtendo resposta sai da reunião e fui fazer algo mais importante. Tomar um sorvete de baunilha que é a minha Dalila. Enquanto saboreava a iguaria pensava: afinal, universidade para que? Aquela que deveria ser a culminância da sociedade, a fim de pensar estrategicamente o futuro virou a Esposa de Ló. Olha para trás, nunca para frente. Esmerilha-se ideias e ações que a história já reprovou, mas se insiste nessa bobagem, lapidando o erro até chegar ao estado de Arte.
Se existe lado bom desse convescote, eu acredito que não exista, é que, como disse o Inesquecível Roberto Campos, socialismo na juventude é igual a gonorreia. Ao primeiro boleto e à primeira declaração de imposto de renda, o socialismo é curado, em alguns, mas o estrago dele é sentido pelas gerações futuras.
Pindorama renunciou ao pensamento estratégico, vive de passado, aperfeiçoando os seus erros e aplicando-os com uma sanha de hunos sobre a civilidade. Não devemos nos preocupar. Com essa renúncia, não há a menor chance do país dar certo no longo prazo. Desculpem-me, ao pensar sobre isso, quase deixo o chã de dentro do Sardinha queimar!