Para Magnovaldo, lá dos Zistados Zunidos
E finou-se o senador Demenciano…. na cidade de Uruburetama foi aquela comoção. Todos os habitantes do burgo receberam como um choque nas partes subalternas o passamento finadístico do senador. Aliás, diga-se assim, no corrente dos causos que o senador foi um homem digno de seu tempo. Entrou na política jovem, taludo e, em sessenta anos de mandatos, remandatos e tremandatos enricou, como certa família de um grotão da Botocúndia, que é melhor deixar pratrasmente essas estórias.
Corrida notícia da morte, os papa-defundos trataram de embonecrar o corpo do senador para uma melhor viagem para o mundo dos sete palmos. Flores, círios aromáticos, música suave, caixão de mogno, todo almofadado para não magoar as carnes do defunto, afinal, gente enricada era a família daquele senador que deu sua vida pelo progresso da família e atraso do país. Mas isso deixa pra lá. São fofocagens e malquerenças que compadre Valdomiro insiste em papagaiar pelas aí, dizendo nomes feios e denegrindo o senador e sua família com um artimanhoso do cão que só não mandou para casa o teto do senado porque era de concreto armado. No mais, papou tudo.
Exigentosa, a família impôs: só entra para prestar vassalagem ao morto se deixar celular, câmera fotográfica e outros berloques fora. Dois latagões, desses que se afamaram na arte de distribuir bolachas e cachações foram contratados para ficar na portaria e melhor cumprir as ordenanças da família. Contratou-se, também, carpideiras e rezadeiras para ficar no Ora pro nobis enquanto o corpo do senador estava sendo velado. E foi chegando gente, e mais gente, e mais gente, que entupiu a capela. Alguns até tocavam no corpo do senador para verificar mesmo se estava morto.
Mortinho da silva, de morte morrida, sem violência. Aliás, vim saber depois que o caso da morte se deu por um zero. Isso mesmo. A coisa se deu assim: quando o senador Demenciano foi conferir seu extrato bancário, a máquina deu um siricutico e a vírgula saiu no lugar errado, deixando o senador pobrinho de Jó. Coração fraco, não aguentando mais fortes emoções, caiu para trás gritando e pouco depois entregou a alma ao Pai Eterno.
E foi chegando gente. O prefeito melhor ensabonetado e recendendo a água de cheiro, de aromar dois quarteirões antes dele, no barato, foi prestar vassalagem ao chefe político local. E veio senador, deputado, vereador, governador, bispo, padre, a chefe do terreiro, ateus convictos, pastores e rezadeiras. Saiu gente que há muito dava-se já pertencente ao barro, de década para trás. Finórios de todas as classes, putas, xibungos, moleque de rua para filar uns salgadinhos. Todos queriam ver o senador morto.
E, enquanto as rezadeiras entoavam a Ave-Maria, mais desafinadas que rabeca que tomou chuva e empenou, as comitivas enricadas foram se aproximando. Enterro de rico é engraçado. O que menos importa é o defunto. Tá todo mundo ali para bispar e bildar como o outro está vestido. Se a roupa do outro é exclusiva, ou uma dessa que s compra em qualquer loja de trapizongas, muito comum na cidade. Caras com aquelas televisões de 70 polegadas encanganhada no nariz, lenço preto para melhor enxugar as furtivas lágrimas, e segurando o relógio de ouro, escondendo-o. Não por medo de ser roubado pelos vivos. Mas, todos conheciam a fama do senador.
Chegada a hora do enterro, todo mundo a pé, afinal o cemitério ficava apenas a duas quadras da capela. E lá foi o cortejo, mais vistoso que ala de escola de samba. Nessa hora o morto já era vaca. Íntimo de todo mundo. A morte já fazia desaparecer as diferenças sociais. Cemitério quieto. Nem vendedor de churrasquinho de gato, nem o pipoqueiro, nem cachorro latindo. Ia ali um defunto aparatoso e de respeito.
Por ordem expressa do senador, que antes da morte planejou o seu passamento, quis seu restos encarquilhados em uma tumba só para ele, no meio de duas outras tumbas da família, onde já descansavam o pai, a mãe e a esposa. Melhor mandado, melhor cumprido. Tampo e lateral de mármore branco, o carneiro azulejado, flores. No alto, um crucifixo de dois metros de altura, com o crucificado bem à mostra que se igualava aos dois outros pertencentes à família. Depositado o corpo no carneiro, fecharam a tumba, onde no alto, além das datas de nascimento e passamento, escritos em grandes letras douradas o famoso “Aqui jaz…”.
Passada a missa de sétimo dia, depois do encomendamento da alma do senador, e mais reforço de ladainha para sua melhor entrada no céu de Nosso Senhor, dois coveiros passando ao lado das tumbas da família do senador, logo depois de uma borrasca de fazer sapo pedir guarda-chuva e peixe pedir socorro, observaram a falta de um crucificado, aquele que estava na tumba do lado esquerdo.
– Óia só Zé….óia como esse povo é finório. Não deixam a tradição nem na hora da morte. Num faiz nem oito dia que butemo o senador ali e o sujeito desce da cruz e roba as letras da catatumba do senador achando que era de oro.
E saíram gargalhando nas alamedas que enfeitavam a paz do cemitério.
Sensacional, Roque.
O final foi espetacular.
Obrigado Jesus. Vindo de um artista do seu porte é um elogio que me infla o ego.
Roque, meu Ilustre conterrâneo.
Rapaz, você me emocionou com sua dedicatória.
A sua homenagem vai ficar em um lugar especial nos anais de minha vida.
Seu linguajar serve de modelo e inspiração para este humilde escrivinhador, corumbaense como vossuncê. É simplesmente viajar por um caminho enfeitado da literatura o percorrimento de suas palavras.
Muitíssimo grato pelo prazer de ler seu conto e mais ainda pela dedicação a este seu admirador.
Grande abraço aqui dos Zistados Zunidos.
Magnovaldo