COMENTÁRIO DO LEITOR

DEU NO JORNAL

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (35) ‒ POETAS

Lisboa. Mais conversas, hoje só com poetas, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ALMADA NEGREIROS, do grupo da revista Orpheu. E amigo de Fernando Pessoa (“Almada, você não imagina como lhe agradeço o fato de você existir”, está em anotação sem data). O episódio ocorreu em 1917. Dando-se que Almada, Santa-Rita Pintor e Amadeu de Sousa Cardoso conversavam quando vem cumprimentá-los o poeta saudosista (autor de Dizeres do povo), ligado ao movimento conservador Renascença Portuguesa, António Correia de Oliveira. E Almada, vestido num fato-macaco (macacão de operário), o saúda

– Bom dia, Oliveira de Correia António.

– Perdão, é António Correia de Oliveira.

– Isso é para o senhor que está daqui para ali, mas eu estou dali para aqui.

ANTONIO CARLOS SECCHIN, da ABL. Manuel Bandeira dizia que um poema de Racine, composto por 12 versos monossílabos, seria impossível de igualar: “Le jour n´est pas plus pur que le fond de mon coeur” (O dia não é mais puro que o fundo do meu coração). Secchin conseguiu essa proeza memorável com o enorme poema Luz

– Ao ver
o não
que sai
da dor
o som
da voz
já vai
no sim.
no tom
do céu
não vi
mais luz
do que
no sol
que há
em mim.

BARTYRA SOARES, da APL. O dramaturgo Aristóteles Soares (seu tio) foi expulso de um bar, em Catende (cidade com larga tradição açucareira, em Pernambuco). E decidiu continuar a serenata na rua, ele e seu violão, atrapalhando a madrugada. Num desafio ao delegado, que proibiu barulho. Acabou preso. E o tira

– Me acompanhe, cachaceiro.

– Em que tom?

Por conta dessa graçola, o seresteiro levou uma camada de pau, da polícia, e passou um mês sem poder cantar.

BOCAGE, poeta português. Foi mais um poeta preso pela Inquisição. E, como Pessoa, também escrevia por heterônimos – Lidio ou Elmano (anagrama de seu primeiro nome, Manoel) Sadino. Saía do Nicola, botequim de Lisboa onde se encontravam políticos e literatos, para ele “o último café do Rossio” (ainda hoje, fica em frente à Praça). Bem ao lado, no Chave de Ouro, deu-se mais tarde (em 10/05/1958) famosa conferência à imprensa. Em que o correspondente da France Press, Lindorfe Pinto Basto, perguntou “Se for eleito presidente da República, que fará?” com Salazar. E Humberto Delgado, o general sem medo, respondeu “obviamente demito-o”. Delgado acabaria assassinado pouco depois, em 13/02/1959, na fronteira de Badajoz, por um comissário da polícia de Salazar, mas essa é outra história. Voltando ao botequim. Amigos se fingem de bandidos e, simulando um assalto, perguntam

– Quem és tu?, de onde vens?, para onde vais?

– Sou o poeta Bocage
Venho do café Nicola
E irei pro outro mundo
Se disparar a pistola.

GENTIL PORTO, médico. Escreveu texto sobre nosso poeta de Evocação do Recife. Comentei

– Pena certeira
Bem brasileira
Um vivo, um morto
Manuel, bandeira
E Gentil, porto.

JAYME WANDERLEY, da Academia Norte-rio‒grandense de Letras. Um amigo bodegueiro de Tibau do Sul, incomodado com o tamanho na fila do pendura, pediu ideia para se proteger. E o poeta redigiu na hora versos que estão numa placa, pendurada no estabelecimento, até hoje.

– Para não haver transtorno
Aqui neste barracão
Só vendo fiado a corno
Filho da puta e ladrão.

JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que me mandou desses avisos paroquianos:

‒ Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

‒ Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

‒ O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

‒ O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.

JORGE DE SENA, poeta. Iniciou sua vida de exilado, por conta de Salazar, em São Paulo (depois foi morrer na Califórnia, Estados Unidos). E não gostava de certo Costa Pimpão (Álvaro Júlio da Costa), salazarista, historiador e crítico, professor nas universidades da Bahia e São Paulo, famoso pelas edições comentadas de Rimas e Os Lusíadas – ambas recebidas, em Portugal, com muitas reservas. Razão também das críticas de Sena, com esse Poema do Pimpão que acaba assim

Eis o temível canudo
Que mais irrita o Pimpão
Ter ideias, isso não!
Álvaro Júlio da Costa
De ter ideias não gosta.

MANUEL BANDEIRA da ABL. Em 20/09/1945, a Academia Brasileira de Letras aprovou o primeiro Acordo de Unificação Ortográfica para reduzir diferenças na língua entre Brasil e Portugal. Apesar da oposição feroz de Bandeira. Ao sair de uma reunião preparatória, jornalistas perguntaram

– Qual sua opinião sobre esse acordo?

– Por mim, tudo bem; que, para um poeta, a forma é fôrma (disse a palavra fechando o “o”, como se tivesse circunflexo).

Depois, completou

– Agora, escrevam isso aí sem o acento diferencial.

E foi embora, rindo.

MARCELO CARNEIRO LEÃO, empresário. Antes de morrer, me legou rascunhos de um Dicionário dos insultos pernambucanos. Em poemas. Exemplos. De autor ignorado, sobre o acadêmico Rui Ayres Belo e seu nariz achatado,

– Agita-se na Assembleia
Formidável polichinelo
Que à pretensão de ser Rui
Acrescenta a de ser Belo.

Ou o poeta Manuel Bandeira, que não perdoava seus desafetos na cidade e escreveu

Façam-me uma estátua incrível
De algum novo Donatello.
O mais equestre possível
Eu montado em Mário Melo!

O pintor José Cláudio vivia repetindo poema, Que fim levou Doroteia, louvando o órgão reprodutor de certo cortador de cana

– Usina, só Catende
Caminhão, 13 de maio
Mais seu Júlio no charuto
E Benvenuto no caraio.

A propósito de soneto do sociólogo francês Michel Simon-Brésil, sobre a saudade, comentou Tânia Carneiro Leão

– Michael Simon em verdade
É um gênio, todavia
Nem entende de saudade
Nem entende de poesia.

E bem que se poderia lembrar soneto de Artur Azevedo, Velha anedota, que encerra com um cidadão “frívolo, peralta e paspalhão desde fedelho” dizendo

‒ “Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo te faz preciso?”

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: ‒ Juízo!

Ou soneto escrito por Emílio de Menezes, O plenipotenciário da facúndia (da eloquência, pois), criticando seu colega na Academia Brasileira de Letras, o pernambucano Oliveira Lima. Começa dizendo

– De carne mole e pele bobalhona
Ante a própria vaidade se extasia
Sendo Oliveira, não dá azeitona
Sendo Lima, é quase melancia.

E finda com esse terceto horroroso

– Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.

Como não quero brigar com meio Recife, quando chegar a hora, vou doar (com alguns acréscimos) para quem esteja disposto.

VINICIUS DE MORAES, diplomata e poeta. Às vésperas da Segunda Guerra, voltando de Oxford com a esposa (da época) Tati, precisou de ajuda em Portugal. Na Embaixada do Brasil, omissão total. A duras penas, conseguiu passagens com amigos que moravam por lá. Mas, antes de partir, deixou na mesa do embaixador Araújo Jorge esse bilhete

‒ Meu navio larga às seis
Muito obrigado por tudo
Que Vossa Excelência não fez.
Espero imenso não vê-lo.
Da próxima vez

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

“INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA”

Este é o título de um clássico do cinema italiano, dos anos 70, “relativamente esquecido, mas terrivelmente atual.”

Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Massimo Foschi

A trama mostra a dificuldade que tem as instituições competentes, na hora de proceder inquéritos, que envolvam figuras importantes do meio político.

Trata-se de um filme italiano, de 1970, dirigido por Elio Petri e escrito por Elio Petri e Ugo Pirro.

Em um momento de perturbação política interna na Itália, um Inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, recebe a tarefa de reprimir os dissidentes políticos. Dentre eles está sua amante Augusta Terzi (Florinda Bolkan), que é por ele assassinada, por motivos outros.

Ele começa a testar os limites da polícia, vendo se irá ser acusado pelo crime. Assim, começa a plantar pistas óbvias que o identificam como o assassino da mulher, e vê seus colegas ignorando-as, seja intencionalmente ou não. Nenhum colega seu acredita que seja ele o assassino. E desviam o curso das investigações.

O filme é levemente baseado em Crime e Castigo, de Dostoiévski e aborda o abuso e corrupção do poder e da moral.

Uma denúncia nua e crua do que acontece e permanece chocante até hoje.

A opinião pública, nem de longe admite que o Inspetor seja o assassino da amante, mesmo com indícios plantados por ele próprio. Ele atravessa o inquérito incólume.

Enquanto isso, um jovem esquerdista é incriminado pela morte da amante do Inspetor, justamente pelo policial responsável pelas investigações do verdadeiro assassino. O Inspetor assiste ao desenrolar dos fatos, perplexo diante da facilidade com que se usa a impunidade no alto escalão.

O Inspetor foi transferido da Seção de Homicídios para o Gabinete Político. Entre as salas em acesso da população civil no departamento de polícia, por duas vezes se pode ver uma placa azul com a frase, “No Estado Democrático, a polícia está a serviço dos cidadãos.”

Pouco antes, ele havia assassinado Augusta Terzi, sua amante. Ela gostava muito de simular os casos de homicídio que o Inspetor acompanhava em seu trabalho. A festa de troca de cargo foi comemorada com champanhe que o Inspetor roubou da geladeira de Augusta, após tê-la matado.

A partir daí, começa a espalhar amplas evidências de sua culpa na cena do crime e assiste cada vez mais confiante à descoberta delas, sem que ninguém da polícia o interrogue. A instituição prefere acusar o marido de Augusta, que o próprio Inspetor diz que é inocente.

Quando a polícia chega ao apartamento de Augusta e começa a analisar os indícios, um dos policiais diz que o assassino é um cretino e o Inspetor também concorda e repete “um cretino”.

Em flashback, Augusta e o Inspetor simulavam situações onde ele a interroga, como se ela estivesse presa, desempenhando o papel de pai substituto. Quando explica para Augusta que a polícia atua sobre os sentimentos de culpa dos cidadãos, que se tornam crianças quando confrontados com o Estado, ela diz que dos homens que conheceu, ele é o mais parecido com uma criança. O inspetor se irrita. Antônio Pace, o rapaz que o viu sair do prédio, é preso como agitador político de esquerda e ameaçado pelo Inspetor – até porque Augusta queria se separar dele e justificou, chamando-o de sexualmente incompetente e dizendo que Pace, o vizinho do andar de cima, era seu novo amante.

Durante o interrogatório, a coisa foge ao controle do policial, quando Pace demonstra saber que o encarregado da repressão de Estado é um assassino, e ameaça denunciá-lo.

Depois da discussão com Pace, o Inspetor (que seus pares chamam de doutor e a amante chamava de comissário) se entrega a um de seus subordinados através de uma carta onde confessa a autoria do assassinato de Augusta.

Em seguida, se fecha em sua residência, até ser acordado em sua cama por um colega, que o avisa da presença de figurões, que o esperam na sala. O Inspetor insiste em declarar-se culpado, apresentando uma após a outra as provas que o incriminam. Reiteradamente, o grupo de senhores nega a existência de provas, como por exemplo, no caso do fio de sua gravata que ele colocou na unha da vítima. Quando lhe pedem a gravata, ele diz que a destruiu porque ficou em dúvida entre confessar ou utilizar seu poder para encobrir o fato.

O Inspetor falou de uma doença contraída por aqueles que fazem uso permanente e prolongado do poder: “uma doença profissional, disse ele, comum a muitas personalidades que tem nas mãos as rédeas da nossa pequena sociedade.”

Ridicularizado e agredido, o Inspetor termina concordando com a versão dos fatos de acordo com os colegas, e brinda o seu retorno ao rebanho, com uma frase lapidar:

“CONFESSO MINHA INOCÊNCIA.”

Todos se retiram.

A história termina com a citação da frase de Franz Kafka em O Processo (1925, capítulo 9):

“Não importa a impressão que nos dê, ele é um servidor da Lei, portanto pertence à Lei e escapa ao juízo humano”.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

DESAPROVADO EM TUDO QUANTO É CANTO

Levantamento Marca Pesquisas encomendado pelo site Diário do Poder, divulgado nesta sexta-feira (7), registra a rejeição do eleitor goiano à administração de Lula (PT) na Presidência.

O petista é desaprovado por 51,3% dos eleitores, 32,6% aprovam e outros 13,4% classificam a gestão como regular.

O resultado evidencia a tendência de queda na aprovação do governo Lula 3, após institutos como Paraná Pesquisas apontarem que até mesmo no Nordeste a aprovação do petista derrete.

* * *

Sei não…

32,6% de aprovação no valoroso estado de Goiás é um número altíssimo.

Desconfio que os pesquisadores não fizeram as contas direito…

Bom, como as coisas estão piorando a cada dia que passa, vamos esperar o resultado da próxima pesquisa.

Detalhe: a mesma pesquisa indica que o governador Ronaldo Caiado tem aprovação de 80,2% dos seus conterrâneos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEVERINO, O SÁBIO

Olegário comprou um sítio com uma bela casa para as bandas do Alto de Ipioca. Uma linda vista da praia e o clima ventilado pela brisa. Contratou um caseiro para tomar conta do sítio. Severino, o caseiro, ficou morando numa casa de taipa nos fundos do sítio com um quarto, sala, cozinha e banheiro.

Olegário gostou do rapaz trabalhador, incentivou ao empregado arrumar uma moça e se casar ou se amigar. Severino confessou ter acontecido uma decepcionante experiência marital. Sua mulher fugiu com um pilantra, ele preferia ficar só na vida.

Certo dia o caseiro foi a Rio Largo, aniversário de um primo, conheceu uma prima, Esmeralda, morena bonita, 26 anos, também separada.

A família começou a encorajar o namoro entre os primos. Severino mesmo traumatizado em ter levado galha, foi engolindo a corda. Depois de algumas cervejas os dois conversavam animados. No mês seguinte Severino parou um caminhão na porta de Esmeralda. Pegaram uma cama e um guarda-roupa, se juntaram na casa de morador do Sítio.

A lua-de-mel durou pouco, Esmeralda tem um defeito congênito que alguns chamam de furor uterino ou comichão na genitália ou ninfomaníaca; o companheiro tem que ser ótimo de cama para dar conta de Esmeralda e seu novo homem não era tão bom assim. Ela começou a sair com um vaqueiro da redondeza, até o menino Pedroca visitava a mulher enquanto Severino toda tarde entrava nas matas em busca de lenha e fiscalizando os caçadores proibidos, deixava a mulher sozinha, sem ter o que fazer. Alguém chegou a fuxicar no seu ouvido, ele não quis saber, achava Esmeralda bonita, gostava dela, lhe dava carinho e boa comida quando chegava cansado da mata. Mas ficou desassossegado com o fuxico.

Nos fins-de-semana o casal descia à praia de Ipioca, direto para a Bodega do Joaldo. Os dois casais se davam bem, tomavam cerveja, cachacinha, iam ao mar, tinham um domingo maravilhoso. Até que Joaldo deu para visitar Severino com assiduidade, mesmo sem ele em casa, aparecia para uma prosa com Esmeralda. Precisou um amigo contar a Severino: Joaldo estava de caso com sua mulher, toda tarde ele chegava sorrateiramente para visitá-la.

Severino ficou indignado. Seu maior amigo fazer uma traição dessa! Uma punhalada nas costas. A coisa não ia ficar assim. Depois de muito remover, pensar, resolveu dar fim aquela história que machucava o fundo de seu coração. Foi à Feira do Passarinho, comprou um velho revólver, R$ 150,00.

Ao entrar em casa, Esmeralda desconfiou, havia alguma coisa no ar, perguntou porque ele estava estranho. Severino pediu que o deixasse em paz. No outro dia, domingo, os dois desceram até a Bodega de Joaldo. Enquanto as mulheres foram ao mar, Severino pediu um particular. Foram para mesa mais afastada. O caseiro foi direto, estava com mágoa no coração.

– Joaldo, estou com um problema. Primeiro eu desconfiei, agora tenho certeza de um caso muito sério. Esmeralda está me traindo, ela tem um amante. Eu preciso acabar com esta situação. Comprei uma arma, está aqui em minha cintura, vou matar o amante de minha mulher.

O amigo se assustou, respirou fundo, baixou os olhos. Maior silêncio entre os dois. De repente Joaldo olhou nos olhos de Severino e falou bem pausado.

– Meu amigo, não faça isso. Você vai acabar sua vida por causa dessa mulher que não lhe merece. No mínimo 20 anos de cadeia. Eu estou sabendo que ela é doente, precisa procurar um médico para ver se tem cura. Se você matar esse amante, vai ser uma desgraça. Segurou na mão do amigo e perguntou

– Escute! Por quanto você comprou o revólver?

– R$ 150,00

– Vamos fazer um negócio! Eu estou precisando de uma arma na bodega, tenho medo de assalto, lhe dou R$ 250,00 por ela. Está bom?

Calaram-se, um olhando para o outro. Severino pensou, pensou, depois de alguns minutos de silêncio, chegou à conclusão.

– Você tem razão, não vale a pena pegar uma cadeia por aquela cadela. Mas, me faça um favor, eu vou para casa agora, você diga a essa vaca que não pise mais em minha casa, vou queimar tudo dela. Ela não apareça!

Pegou o dinheiro de Joaldo, colocou no bolso, entregou o revólver, levantou-se. Subiu ao Alto de Ipioca aliviado da dor que oprimia seu coração. Tocou fogo em tudo que era de Esmeralda. Prometeu-se nunca mais casar ou amigar; só raparigar. Hoje Severino, o Sábio, vive sozinho no Sítio do Olegário, com direito a levar uma rapariga para esquentar a cama juntos, vez em quando. Casar nunca mais.

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PLATÉIA

Ouvi certa vez, já não lembro onde, a expressão “O Brasil é um país que não tem povo, tem platéia”. A idéia era que o brasileiro não participa dos fatos de seu país, apenas assiste (e quando é o caso, aplaude ou vaia). O tempo tem me convencido de que a frase e a idéia que ela transmite são verdadeiras.

Nesta semana, o noticiário de meu estado mostrou um fato que já ocorreu inúmeras vezes: descontentes com um projeto sobre o setor da educação, o sindicato dos professores promoveu uma manifestação que invadiu a assembléia legislativa e transformou-se em quebra-quebra. Como das outras vezes, ninguém espera que isso traga alguma consequência. Mas ao dar a notícia, um jornalista citou, de passagem, um fato muito mais grave e que permanece completamente imune a qualquer questionamento.

O jornalista citou que muitos colégios particulares de primeiro grau em São Paulo custam menos de mil reais por mês. Estes colégios são fiscalizados pelo governo, atendem a todas as exigências e regulamentações do Ministério da Educação e agradam muitas famílias – senão, não estariam funcionando. E, se uma família prefere pagar uma escola para seu filho quando tem a opção de matriculá-lo em uma escola gratuita do governo, é porque a particular e paga é melhor do que a pública e gratuita.

Mas aí surge a espantosa complementação da notícia: em São Paulo, o custo para o governo de um aluno na rede pública é de aproximadamente dois mil reais por mês! Simplesmente o dobro da média do custo das escolas particulares (que, para horror de muitos brasileiros, visam lucro). Se as escolas públicas não visam lucro, custam o dobro e são piores, algo está muito errado.

Não apenas ninguém pergunta como esse absurdo pode ocorrer, como todos aceitam com naturalidade o hábito de repetir que todos os problemas da educação do país (e são muitos) se devem exclusivamente à “falta de investimento”. Por alguma razão misteriosa, os brasileiros parecem acreditar que um professor incompetente torna-se competente se receber aumento de salário, e que uma escola mal-administrada melhora se receber mais dinheiro.

Existe, claro, a possibilidade de que a informação esteja errada. Seria então de se esperar que as autoridades se apressassem em corrigir o erro e divulgar os números corretos. Mas nada aconteceu. Aparentemente, o assunto não é importante. Aliás, é interessante notar que quando se pergunta ao Google “quanto custa uma escola privada”, recebemos respostas exatas. Quando perguntamos “quanto custa uma escola pública”, não conseguimos nada de relevante. Ou os governantes não se dão ao trabalho de mostrar essa informação em seus sites oficiais, ou o Google não consegue achá-los.

Consequências disso tudo? Nenhuma. Apenas mais um absurdo entre tantos que envolvem o dia-a-dia deste absurdo país que é o Brasil. Faz parte da rotina. Muito mais importante é acompanhar as colunas de fofoca disfarçadas de noticiário político, que se dedicam a noticiar quem criticou quem, quem elogiou quem e quem se aliou a quem, numa versão sem graça da revista Caras.

A PALAVRA DO EDITOR

BELOVED ET “LES CHANSONS D’AMOUR”

“La literatura nos permite vivir en un mundo cuyas leyes transgreden las leyes inflexibles por las que transcurre nuestra vida real”, cunhou Mario Vargas Llosa na página 394 de seu livro, ‘La Verdad de las Mentiras’.

Hablando en literatura… ¿Es posible que haya algo mejor que Sancho? Puedo decir que ustedes, lectores, pueden escribir millones de cosas mejores que Mister Brochura Sancho, el tontolón.

Correndo (tentando correr) para o amor nas avenidas congestionadas. Hell of the January eleito o segundo estado da Federação com as pessoas mais grosseiras no trânsito, perdendo apenas para Sampa, líder do ranking dos “sem-educação no trânsito”, conforme destacaram 20% dos entrevistados em pesquisa recente da Preply (o número de veículos congestionando o trânsito nessas duas metrópolis, em minha visão, explica tais colocações na pesquisa).

Um verdadeiro clássico do Dia dos Namorados! Em geral, rosas vermelhas são sempre uma boa opção para a data, já que são tidas como a “flor do amor”. Sancho saiu da floricultura sem nada nas mãos, pois não tem namorada; à porta da joalheria também recuou, pois nenhuma bela o aguarda para a troca de presentes no próximo dia 12. Reserva em hotel de luxo como era seu costume? Desnecessário se faz desta feita. Desde que completara 13 anos isso não ocorria. Dizem que para tudo há uma primeira vez.

¡Prepárate para sumergirte en esta emocionante aventura de un peculiar Sancho sin poderes, sin phodderes, “vecchio” y con un destino incierto! Recomenda Albert Tugues la última novela de un autor anónimo, que se titula: ‘Cagada de pájaro sobre la cabeza del enamorado que en la esquina esperaba en vano’.

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