MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Ouvi certa vez, já não lembro onde, a expressão “O Brasil é um país que não tem povo, tem platéia”. A idéia era que o brasileiro não participa dos fatos de seu país, apenas assiste (e quando é o caso, aplaude ou vaia). O tempo tem me convencido de que a frase e a idéia que ela transmite são verdadeiras.

Nesta semana, o noticiário de meu estado mostrou um fato que já ocorreu inúmeras vezes: descontentes com um projeto sobre o setor da educação, o sindicato dos professores promoveu uma manifestação que invadiu a assembléia legislativa e transformou-se em quebra-quebra. Como das outras vezes, ninguém espera que isso traga alguma consequência. Mas ao dar a notícia, um jornalista citou, de passagem, um fato muito mais grave e que permanece completamente imune a qualquer questionamento.

O jornalista citou que muitos colégios particulares de primeiro grau em São Paulo custam menos de mil reais por mês. Estes colégios são fiscalizados pelo governo, atendem a todas as exigências e regulamentações do Ministério da Educação e agradam muitas famílias – senão, não estariam funcionando. E, se uma família prefere pagar uma escola para seu filho quando tem a opção de matriculá-lo em uma escola gratuita do governo, é porque a particular e paga é melhor do que a pública e gratuita.

Mas aí surge a espantosa complementação da notícia: em São Paulo, o custo para o governo de um aluno na rede pública é de aproximadamente dois mil reais por mês! Simplesmente o dobro da média do custo das escolas particulares (que, para horror de muitos brasileiros, visam lucro). Se as escolas públicas não visam lucro, custam o dobro e são piores, algo está muito errado.

Não apenas ninguém pergunta como esse absurdo pode ocorrer, como todos aceitam com naturalidade o hábito de repetir que todos os problemas da educação do país (e são muitos) se devem exclusivamente à “falta de investimento”. Por alguma razão misteriosa, os brasileiros parecem acreditar que um professor incompetente torna-se competente se receber aumento de salário, e que uma escola mal-administrada melhora se receber mais dinheiro.

Existe, claro, a possibilidade de que a informação esteja errada. Seria então de se esperar que as autoridades se apressassem em corrigir o erro e divulgar os números corretos. Mas nada aconteceu. Aparentemente, o assunto não é importante. Aliás, é interessante notar que quando se pergunta ao Google “quanto custa uma escola privada”, recebemos respostas exatas. Quando perguntamos “quanto custa uma escola pública”, não conseguimos nada de relevante. Ou os governantes não se dão ao trabalho de mostrar essa informação em seus sites oficiais, ou o Google não consegue achá-los.

Consequências disso tudo? Nenhuma. Apenas mais um absurdo entre tantos que envolvem o dia-a-dia deste absurdo país que é o Brasil. Faz parte da rotina. Muito mais importante é acompanhar as colunas de fofoca disfarçadas de noticiário político, que se dedicam a noticiar quem criticou quem, quem elogiou quem e quem se aliou a quem, numa versão sem graça da revista Caras.

4 pensou em “PLATÉIA

  1. Parabéns pela matéria Marcelo Bertolucci, o que esse Governo rabugento quer é destruir a nossa educação, que cada dia fica mais pobre. Afinal de contas não existe responsabilidade com o investimento público. Principalmente quando é pra educação e saúde.

  2. Caro Marcelo, trabalho a mais de 50 anos na iniciativa privada, há uns 40 anos atrás quando precisava ir a uma repartição pública tratar de assuntos da empresa, voltava revoltado, os servidores que atendiam faziam de conta que não tinha ninguém a precisar de seus préstimos, ignoravam. Hoje essa professorada se submeterem a uma prova tipo ENEM para testar seu conhecimento na profissão que exercem, tenho certeza que a decepção será grande, a não ser que quem a confira seja do mesmo time e escamoteie a verdade.

    • Luiz, coisas erradas no país são tratadas como “causo” e não como algo a ser corrigido.
      Fui empresário e participei de associação de classe durante duas décadas. Uma empresa concorrente da minha era de um juiz, naturalmente com o uso de um laranja. Nos churrascos de confraternização da associação, era comum pedir ao tal juiz que contasse o “causo do fiscal”: aconteceu que um dia a prefeitura estranhou o pouco de imposto que a empresa pagava e mandou um fiscal para conferir a papelada. O juiz apareceu, encostou um 38 no peito do fiscal e mandou ele se retirar. Ele foi e nunca mais a empresa recebeu uma fiscalização.
      Todo mundo no churrasco sempre ria muito, como se viver em um país assim fosse motivo de orgulho, e não de vergonha.

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