Os presidentes do Brasil e da China, Lula e Xi Jinping
Hoje é um dia de um encontro dois a dois na casa do Lula. Lula e Xi Jinping, que chegou a alugar um hotel inteiro vizinho ao Palácio Alvorada, na beira do lago, só para ficar o dia inteiro com o Lula. Vai almoçar no Palácio Alvorada, depois à noite vai ser homenageando. Janja está satisfeita porque parece que vai ter um avião novo com chuveiro.
Está sendo tão importante a China que o próprio Javier Milei, que já havia dito que não queria negociar nem com a China nem com comunista nenhum, estava lá de mãos dadas no G20 com a China e reconhecendo que a China pode ser um excelente parceiro comercial.
* * *
Gaseoduto
Por falar nisso, está confirmado o acordo de gás, gás de xisto, que vem lá da Patagônia para o Brasil, porque a Bolívia não está dando conta de fornecer o gás que combinou com o Brasil. Vocês lembram que a Bolívia meteu a mão nas instalações da Petrobras – foi um presente de Lula para Evo Morales.
A Petrobras é patrimônio do povo brasileiro. Mas, enfim, vai primeiro passar pela Bolívia, enquanto não tiver um gasoduto que entre por Uruguaiana no Rio Grande do Sul, que vai ser muito importante para a indústria gaúcha de adubos, petroquímica, e qualquer tipo de indústria que exija gás natural.
* * *
Trump
Vai ser uma nova fase de Lula com a China e Xi Jinping, porque a partir de 20 de janeiro, Donald Trump, por voto do povo dos Estados Unidos, volta à presidência dos Estados Unidos com um chefe do departamento de Estado – eu diria que é o segundo, o número dois no governo, talvez o número três seja o secretário da Defesa – que é um filho de cubanos, que conhece muito bem a experiência cubana e que não é muito simpático às ligações dos latino-americanos com os chineses. Agora há pouco foi um porto da China no Peru da China – já teve um encontro lá sobre isso. Mas enfim, é um dia importante nas relações Brasil de Lula e China, do governo politicamente comunista e economicamente capitalista da China.
* * *
Causa mortis
Dois fatos desses últimos dias. Um, a necessidade de vermos o laudo do Instituto Médico Legal da causa da morte do chaveiro que fez uma pirotecnia na frente do Supremo e morreu. Será que ele se suicidou ou será que, como um policial me disse, foi morto? E se foi morto, não há nenhuma condenação, foi a segurança do Supremo que estava assustada porque ele estava atirando os fogos de artifício que ele havia comprado contra o Supremo. Não quebrou nenhuma vidraça, nada. Mas é bom a gente saber a causa da morte.
* * *
Plano homicida
E a outra é saber dessas prisões, porque foi uma conspiração de um golpe que não houve, que não se concretizou. Um atentado que se concretizou foi o do Adélio Bispo em 6 de setembro, em Juiz de Fora, no ano eleitoral, contra o candidato que estava mais forte, que enfiou a faca na barriga dele. Mas esse não se concretizou, por quê?
Porque eles esperavam que Bolsonaro assinasse um documento pedindo uma intervenção pelo artigo 142 da Constituição para haver uma recontagem de votos. Eles estavam revoltados com o sigilo, a incapacidade de se entender como se contaram os votos. Eu acho que isso está de pé até hoje, uma vez que teremos uma eleição em 2026 e cabe ao Congresso Nacional mudar. Já tentaram mudar, Roberto Requião, o próprio Flávio Dino, Bolsonaro, todo mundo queria a possibilidade de comprovante do voto e não deu certo. Lá na Venezuela a gente vê que dá certo, é transparente, todo mundo ficou sabendo que Maduro perdeu. Só que ele deu um chute na eleição e ficou no poder. Aqui no Brasil, a gente ainda está precisando disso.
Tivemos essa prisão preventiva. Supostamente, era perigoso essas pessoas ficarem em liberdade, mas quatro deles, de seis, quatro oficiais superiores de forças especiais do exército estavam fazendo a segurança de Biden, de Xi Jinping e do próprio Lula. E, no entanto, o inquérito disse que eles planejavam matar Lula, Alckmin, prender ou matar o Alexandre de Moraes. Isso eles falavam entre eles no WhatsApp. Chegavam a falar as armas necessárias, só que não tinham armas também. Então a gente percebe que é muito barulho. E veio logo depois da fala da Janja, logo depois da pirotecnia no Supremo. Eu imagino os jornalistas que estavam cobrindo o G20 agora estão imaginando que tipo de país é esse.
Investigação aponta que militares das “Forças Especiais” tentariam matar Lula e Alckmin e prender um ministro do STF no final de 2022
Já que os ministros do STF, em coro com a velha imprensa, falam tanto de “contexto”, vamos analisar o seguinte contexto: Donald Trump teve uma vitória emblemática e acachapante nos Estados Unidos, levando Câmara e Senado além da maioria dos governos estaduais.
Na Argentina, ao lado do Brasil, Javier Milei vem fazendo um ótimo trabalho para consertar a lambança deixada pelos lulistas. Nas eleições municipais brasileiras, a esquerda petista levou uma surra.
Eis aí o contexto: a direita avança, a onda conservadora é forte. No Brasil, uma crise econômica está contratada por conta da irresponsabilidade de um desgoverno perdulário. Em 2026, esse será o ambiente da disputa presidencial.
Além disso, Alexandre de Moraes sabe que poderá ser condenado em processos nos Estados Unidos. Tem a estranha história de um documento adulterado ou forjado para prender Filipe Martins; tem as decisões arbitrárias contra as Big Techs durante as eleições, além da investida contra a Starlink de Elon Musk; existem denúncias de violações de direitos individuais de cidadãos americanos; e claro, as denúncias de abusos contra direitos humanos de presos do 8 de janeiro.
Quando surge um caso estranho de um sujeito que joga fogos de artifício e morre depois, isso cai como uma luva para a narrativa de “ameaça contra o Estado de Direito” ou “grupos terroristas atentando contra a democracia”. Dias depois, vem essa história esquisita de militares que planejavam a morte de Lula, Alckmin e do próprio Moraes.
O episódio relatado pela PF é tão bizarro que desafia a lógica em alguns momentos. Mauro Cid não tinha mais o que contribuir como delator para o sistema, já que as denúncias não se sustentavam: cartão de vacinas, joias etc. Já havia especulação na imprensa de que ele voltaria para delatar “algo mais”, nem que fosse para usar a “criatividade”. Aí vem essa onda de prisões de militares pela PF?
Fernão Lara Mesquita comenta: “Quatro dos militares de tropas especiais do exercito de altíssima periculosidade, posto que articularam um golpe que começava pelo assassinato por envenenamento (!!!) de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, foram presos no Rio de Janeiro, onde, – pasmem! – eram parte do esquema de segurança da reunião de cúpula do G-20!!!”
Mesquita acrescenta: “De Joe Biden a Xi Jinping – passando especialmente pelo alvo de toda a trama, o próprio Luiz Inácio Lula da Silva – estiveram, portanto, com suas vidas sob altíssimo risco desde que começou o convescote internacional”. Pois é, acredite quem quiser!
Em suma, temos aí o contexto do que acontece no país hoje: jornalistas foram e seguem censurados pelo STF sem qualquer crime cometido, vários bolsonaristas foram presos de forma arbitrária, a plataforma que preserva a liberdade de expressão foi perseguida e seu dono, um americano bilionário, foi incluído em inquérito supremo, e mesmo assim a direita avança.
O sistema precisa justificar que fez tudo que fez – incluindo inúmeros crimes – para “salvar a democracia”. Mesmo que não haja qualquer ameaça concreta ao Estado de Direito – ao menos não uma vindo pela direita – é preciso criar uma, para dar um verniz de legitimidade ao verdadeiro golpe que destruiu nossa democracia.
“Derrotamos o bolsonarismo”, disse um ministro supremo. “Perdeu mané, não amola”, disse o mesmo. Mas o povo insiste em “amolar”, então resta o sistema correr para ter pretextos para banir o bolsonarismo de toda disputa política. O Brasil não é para amadores. Tampouco é um país sério…
A expressão “pobre de direita” não é nova. Já estava velha quando escrevi os artigos “A nova luta de classes: pobres de direita contra ricos de esquerda” e “O melhor de dois mundos: a vida dupla dos ricos de esquerda”, em novembro de 2020. Salvo engano, ela apareceu pela primeira vez em 2016, para desqualificar e ofender os brasileiros das classes menos favorecidas que apoiaram, naquele ano, o impeachment de Dilma Rousseff.
Em 2018, a eleição de Bolsonaro foi o gatilho para a expressão “pobre de direita” voltar a circular no chamado campo progressista. “Como assim?”, reagiram intelectuais e políticos de esquerda. “A gente trabalha tanto para perpetuar e capitalizar politicamente a miséria, e é assim que esses pobres ingratos retribuem? Votando nos fascistas?”
Já em 2020 o gatilho foi o desempenho medíocre dos partidos de esquerda nas eleições municipais. Escrevi, na ocasião:
“O uso da expressão [pobre de direita] tem uma função catártica para a esquerda. Basta pesquisar no Google ‘pobre de direita’ para ver o ‘ódio do bem’ contra os pobres ser destilado em doses cavalares. Os brasileiros mais humildes são comparados a escravos que apoiam escravagistas, diagnosticados como doentes mentais e chamados de jumentos. Do alto de sua superioridade moral, o máximo que os intelectuais concedem é que não se deve odiar esses pobres, mas ter pena deles, por serem tão burros e imbecis”.
Dá para estabelecer um padrão: sempre que a esquerda sofre derrotas ou enfrenta alguma crise, como aconteceu em 2016, 2018 e 2020, ela joga a culpa nos pobres.
É curioso, nesse sentido, que a expressão “pobre de direita” volte a ganhar força em 2024, quando (pelo menos segundo a grande mídia) o Brasil governado pela esquerda vive uma fase maravilhosa, com a economia bombando e os pobres comendo picanha, gratos ao STF por salvar a democracia das garras do fascismo.
Em um contexto tão favorável, por que voltar a ofender os pobres? Pois é isso que faz, apesar de alguns méritos em suas análises, o novo livro do sociólogo Jessé Souza.
O livro ofende os pobres já na capa, no título e nos dois subtítulos.
Ofende no título, “O pobre de direita”, porque rotular alguém como direitista, aos olhos da intelectualidade de esquerda, é um insulto, ao menos na intenção;
Ofende no primeiro subtítulo, “A vingança dos bastardos”, ao chamar de “bastardos” as dezenas de milhões de brasileiros que não votaram no mesmo candidato do autor. Ainda que, tecnicamente, a palavra não seja ofensiva, na prática, ela adquiriu uma conotação pejorativa (na dúvida, experimente xingar de bastardo um ministro do Supremo);
E volta a ofender no segundo subtítulo, “O que explica a adesão dos ressentidos à extrema-direita?”, ao classificar como “ressentidos” e de “extrema-direita” todos os eleitores pobres de Bolsonaro. (“Extrema-direita”, vale lembrar, é tudo que está à direita do PT.)
Em suma, só quem vai gostar do livro são as elites de esquerda, aquelas que desprezam os pobres que não seguem a sua cartilha, aqueles que ostentam virtude nas redes sociais enquanto mantêm seus privilégios de classe.
Seria prudente, para a parcela bem intencionada da esquerda, se perguntar se essa estratégia de desqualificar a pobreza, por suas escolhas políticas, traz algum benefício para a sua causa. Continuem ofendendo brasileiros comuns, vai dar “certinho”.
Aliás, a mesma estratégia foi usada nos Estados Unidos, e a consequência foi a volta de Donald Trump. Porque, simplesmente, milhões de americanos comuns se cansaram da demonização, promovida pelo sistema, do candidato republicano e seus eleitores das classes baixas.
O americano comum cansou de ser chamado de nazista por não gostar de imigrantes ilegais e pronomes neutros, enquanto via sua vida ficar cada vez mais difícil. Ele percebeu que o argumento da “defesa da democracia” estava sendo usado para distorcer a própria democracia e manipular o povo, já que, por definição, não existe democracia de um lado só.
O americano comum entendeu que a agenda woke, os ataques ao “fascismo” e a defesa da “justiça social” são, muitas vezes, apenas uma conversinha de elites ricas que encontraram uma maneira fácil e barata de expiar sua culpa de classe sem sair do sofá.
Ora, o mesmo processo está acontecendo no Brasil. Daí, talvez, a aversão provocada na elite acadêmica pelos “pobres de direita” – aversão que precisa ser racionalizada, sempre com aquele olhar moralmente superior, condescendente e arrogante de quem sabe o que é melhor para os pobres. Não é culpa deles, eles apenas precisam ser recivilizados.
Mas voltemos ao livro. Já na primeira página, o autor parte de duas premissas que parecem equivocadas. Primeiro, ele menospreza a importância dos fatores econômicos nas escolhas políticas dos mais pobres: “Nunca foi a economia, tolinho!”, escreve no título do prefácio (mais uma vez, de forma condescendente: pergunte aos americanos pobres se a economia não influenciou seu voto em Trump).
Para, em seguida, afirmar, de forma categórica: “A economia jamais foi, em nenhum caso histórico, o móvel do comportamento humano”. Jesus! Já que é assim (e já que destruir livros está na moda), joguem fora 90% dos livros que tratam do tema – começando pelas obras de Karl Marx, aquele bastardo!
Capa do livro “O pobre de direita: A vingança dos bastardos”, de Jessé Souza
Ora, não é preciso ler Marx, nem Max Weber e Pierre Bourdieu, citados em “O pobre de direita”, para perceber a falácia dessa teoria. Para o brasileiro comum que acorda cedo e pega ônibus cheio para ir trabalhar, que sofre para pagar boletos e vê sobrar mês no fim do salário, a economia pode não ser o único fator, mas é seguramente um fator determinante de seu comportamento – do seu comportamento eleitoral, inclusive.
Sobretudo quando esse brasileiro comum vê os candidatos de esquerda menos preocupados com a inflação e o desemprego do que com banheiros unissex, a liberação do aborto e das drogas, a relativização da censura e a defesa dos direitos dos bandidos – enquanto os candidatos de direita defendem liberdade de expressão, os cortes de impostos e mais segurança para as famílias.
De qualquer forma, quando a economia desmorona, não há narrativa ideológica que resista. Foi assim com Dilma em 2016. Parece que a lição não foi aprendida.
A segunda premissa equivocada é afirmar que a ascensão do conservadorismo entre as classes populares no Brasil se deu “contra” os próprios interesses dessas classes, já que Bolsonaro estaria associado aos interesses das elites econômicas e das classes médias, enquanto Lula estaria associado aos interesses dos pobres.
Ora, não parece uma boa ideia insistir no argumento da luta de classes como explicação para o Brasil contemporâneo, mas já que é assim: qual foi mesmo o candidato que as elites apoiaram em 2022, incluindo os banqueiros, as grandes corporações, o mercado financeiro e os meios de comunicação, além da elite cultural e acadêmica? Como disse recentemente um comentarista da Globo News, “ser de esquerda virou uma coisa de elite”.
Talvez a explicação esteja aí. Talvez os eleitores pobres – diferentemente dos intelectuais ricos – tenham simplesmente percebido de que lado estão as elites.
Também é importante ter memória e respeitar os fatos, sem tentar apagar o passado a serviço de uma agenda. Por exemplo, segundo um estudo da insuspeita Fundação Getúlio Vargas publicado em outubro de 2020, graças ao programa de auxílio emergencial o número de brasileiros abaixo da linha de pobreza – aqueles com renda domiciliar per capita inferior a meio salário mínimo – recuou impressionantes 23,7%, atingindo nova mínima de 50 milhões de pessoas, o nível mais baixo da série histórica. Isso em meio à tragédia da pandemia, e durante o governo que supostamente contrariava os interesses dos pobres.
Como escrevi em 2020, o voto do pobre não é ideológico. Pobres não são de direita nem de esquerda. São apenas pessoas a quem não são dadas, geração após geração, oportunidades de educação e trabalho que possam tirá-las da situação dramática em que vivem. Infelizmente, enquanto não forem criadas essas oportunidades, os pobres votarão, pragmaticamente, no candidato que garantir o básico para não morrerem de fome, seja de que partido ele for.
Para o pobre, o problema está na pobreza. Mas, aparentemente, para a intelectualidade de esquerda o problema do pobre de direita não é ser pobre, não é viver miseravelmente, não é depender a vida inteira de mesada do governo, não é ser privado de educação de qualidade e oportunidades de trabalho digno; o problema é ele ser de direita. Sendo assim, a solução não é combater a miséria, mas convencer os miseráveis a votar da maneira correta, como as elites cultas e virtuosas deste país.