A primeira namorada a gente nunca esquece, mesmo quando, por algum motivo, o namoro não foi à frente. Os fatos que vem e os que virão estarão sempre interligados.
As lembranças, os momentos, principalmente os bons – a gente nunca esquece.
Pois, hoje, 7 de setembro quero agradecer o respeitoso caminho por onde andamos no final dos anos 50 e em boa parte dos anos 60.
Por respeito à privacidade dela – não tive mais notícias e não sei como está, se casada ou não – não citarei o nome. Se ela, por algum motivo tiver o hábito de ler o que escrevo aqui neste JBF, com certeza vai saber que estou falando dela e agradecendo pelos bons momentos.
Poderíamos ter casado. Em 1960, aos 17 anos, fui aprovado para ingressar na ESA (Escola de Sargentos das Armas), ainda hoje em funcionamento em Três Corações/MG. Do Ceará foram aprovados 40 jovens. Todos os exames foram realizados – mas, infelizmente, por questões que desconheço, foram chamados apenas 30. Classificado em trigésimo-segundo lugar, até hoje espero ser chamado. Se tivesse sido chamado, ao final daquele ano, ao concluir o curso e promovido a Sargento do Exército, a tendência era o casamento. Nos dias atuais, tenho consciência que Deus escolheu o melhor caminho para nós – mas, jamais esquecerei o 7 de setembro.
* * *
O PRAZER DE FAZER PARA COMER
Charque bovina
Como aprendi – Meus avós me ensinaram que o charque é um tipo de carne bovina, posta à secar por pelo menos 15 dias. É uma carne usada em cozidos, feijoadas, feijão gordo, petiscos e caldos, ou como a culinária conhecer e preferir.
A peça mais apropriada é a ponta de agulha e a quantidade varia conforme o gosto. Pode-se usar, também, a carne conhecida como patinho, ou, ainda, a posta gorda. A quantidade de sal pode e deve variar de acordo com a quantidade de carne. Sugere-se o uso de sal usado em churrasco (sal grosso).
A carne deve ser colocada numa vasilha plástica ou de vidro – meus avós não conheceram a vasilha plástica. Usavam para fazer o charque, uma terrina feita de madeira – e coberta pela quantidade de sal que não deixe espaço sem cobertura.
Coloca-se a peça de carne e, em seguida tampe ou cubra com filme plástico – que eles também não conheceram. Usavam folhas de marmeleiro ou de bananeira – e deixe curar (curtir) em temperarura ambiente.
Deixe descansar por dois dias. Troque o sal depois de dois dias, logo depois no quarto dia, próxima troca no sexto dia e deixe descansar por mais dois dias. São oito dias curando no sal, e, depois leve para tomar sol por até sete dias e estará pronta para uso e consumo.
Linguiça “caseira”
Quem gosta de saber o que vai comer, faz a “linguiça caseira” na própria casa. Fazer linguiça não é difícil, e é uma forma de garantir sabor, qualidade e personalização no preparo.
Se você já se perguntou como fazer linguiças caseiras, tente fazer. Um dia você atingirá o ponto desejado. Pode ser feita com carne bovina ou suína, mas já há quem faça com carne de frango.
Usa-se carne moída sal e pimenta a gosto. Há quem acrescente alho e pedaços de toucinho, quando é utilizada a carne bovina.
Quem preferir uma linguiça mais consistente, sugere-se levar ao sol por um ou dois dias.
Foto 3 – “Galinha caipira” preparada com esmero
Volto ao aniversário da primeira namorada lembrado no início desta postagem; Por alguns anos nos diríamos até Pecém (que nem parecia o conglomerado portuário que é hoje), e ali saboreávamos uma, duas e até três galinhas caipiras preparadas por quem jamais foi Master Chef, mas não perderia competição de saber e sabor. À cabidela era a especialização da casa.
Mãe “protegendo” os filhos com medo do Bicho papão
É sabido mundo à fora que, faz tempo, o Estado do Ceará ganhou em todas as Unescos que existam ou existiram, o “apelido” de “Ceará moleque”!
Merecidamente, frise-se.
E parte disso se deve ao desenrolo para apelidar as pessoas, homens ou mulheres. Até os cachorros tinham apelidos: Totó, Bibi, Pintado…. etc.
Lá pelos anos 40, 50 e 60, os pais que iam registrar filhos ou filhas, sabiam que, José, João, Maria, Anunciada, Conceição eram aceitos sem resmungo pelo funcionário do cartório.
Quando o pai aparecia com um nome como Klinsman, Anna Carolyne ou coisa parecida, o funcionário dizia que aqueles nomes eram difíceis até para serem aceitos nas escolas. Mas tudo era porque ele não sabia escrever aqueles nomes corretamente.
E hoje, sabemos, nenhum pai registra mais o filho com o nome de Antônio. Prefere Anthony. Antônio, seria facilmente apelidado de “Toínho, ou Toím”! José, seria apelidado de “Zeca” e Madalena passaria a ser conhecida como “Madá”!
Eram comuns, na Fortaleza dos anos 50 e 60, o “Cabeça de nós todos”, o “Pé de bater banha”, a “Maria pouca roupa” (para as meninas que não usavam calcinha), o “Boca de fossa” para os que tinham mau hálito.
A verve não tinha limites. Existia na rua onde morei, o famoso “Deixa que eu chuto”, apelido de um jovem que tinha como defeito físico, uma perna menor que a outra. Na rua ao lado, aquele jovem era apelidado de “29-30”!
Não foram apenas as brincadeiras de rua que a tecnologia do celular e os “playgrounds” dos shoppings acabaram. O asfaltamento irresponsável das ruas e travessas que, além de impedir a penetração da água da chuva para o lençol freático, corre em trombas, asfalto acima e asfalto abaixo causando inundações e catástrofes. A tecnologia tirou, também, o convívio entre crianças e adolescentes nas ruas dos bairros. E aquilo, a vivência, facilitava o “botar apelidos”.
Sabemos nós das gerações antigas, que o “Velho babau” ou o “Bicho papão” nunca existiram. Mas não podíamos ver um pedinte com roupas esfarrapadas e com um saco nas costas, que o apelidávamos de “Bicho papão”!
Era comum, naquelas décadas, para induzir o filho ou a filha beber uma colherada do medicamento natural intragável (óleo de rícino), a mãe ameaçar chamar o bicho papão.
Os nomes registrados com o estrangeirismo acabaram com a coisa gostosa do apelido.
Não existem mais os “Braço de radiola” (para quem tivesse uma disfunção num dos braços), e nunca mais se viu o “Barriga de lama”, para quem tinha a barriga grande.
Toím, Biné, Zequinha, Mariazinha, Sula, Mané, Chiquinha e outros tantos desapareceram literalmente.
No interior, poucos sabiam os nomes das pessoas. Nomeavam mais pelos apelidos ou ligação com o pai ou a mãe. Tipo: Lázaro. Esse nunca era conhecido pelo nome. Era fácil encontrar o “Lalá de Zé de Dora”.
Saímos um pouco das certezas (basta as que temos, mas sem solução) e pegamos a bifurcação para um dos lados. Na primeira parada para abastecimento encontramos uma das raríssimas leis aplicadas de forma impiedosa no Brasil. Na segunda parada, para o almoço, a dúvida do cardápio oferecido pelo Garçom.
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Pensão alimentícia
“A pensão alimentícia no Brasil é regulada principalmente pelo Código Civil (Lei nº 10.406/2002) e pela Lei nº 5.478/1968, que trata da ação de alimentos e seus procedimentos. O Código Civil estabelece os critérios para a fixação e o pagamento da pensão, enquanto a Lei nº 5.478/68 detalha o processo judicial para sua obtenção. “
Faz tempo que ouvimos de pessoas sérias, que as únicas coisas conhfiáveis neste país, eram os fios de cabelo dos bigodes do sertanejo que promete, e o que está escrito no talão do jogo do bicho. Entretanto, percebeu-se ao passar dos anos, que aqueles sertanejos não usam mais bigodes, e que a “tecnologia” conseguiu se infiltrar, e até “bancar” aquele jogo.
Castor de Andrade, Emil Pinheiro, Luizinho Drummond, Scafura e Anísio Abrahão David resolveram “vender” a seriedade para o modernismo. Hoje, ganha aquele que o “bicheiro tecnológico” permite. Há quem afirme que até a Loteria Federal já foi sugada.
Eis que, o Código Civil brasileiro, que vive cedendo espaço aos “coloridos” que desfilam na Avenida Paulista, bateu o martelo e não aderiu ao modernismo. Desde 1968, aquele “PAI” que ajuda gerar filhos e não suporta mais as catrevagens das esposas e resolve pela separação, paga Pensão Alimentícia, obrigatoriamente. Se não pagar, a Lei 5.478 manda para o xilindró. Sem recurso, ainda que esteja desempregado e sem salários.
Leitores atualizados respondam uma curiosidade minha: na ausência do Pai biológico, por qualquer motivo, o “Conselheiro Tutelar” em representação ao Estado, paga essa Pensão Alimentícia?
Deveria pagar! Pois o Estado lhe outorga todos os direitos paternos. Deveria outorgar, também, as obrigações!
Pergunto ainda: mãe de bebê reborn vai receber Pensão Alimentícia?
Bebê reborn
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Autismo e Síndrome de Down
Foto de cena de filme em que o menino autista aponta a solução de um problema de segurança internacional
“O que é autismo?
O Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por alterações na comunicação social e no comportamento. Pessoas autistas podem também apresentar alterações sensoriais, respondendo de maneira diferenciada aos estímulos recebidos do ambiente.”
Alguém tem parado para raciocinar e aventar a possibilidade de que, a quantidade exagerada de autistas (meninos e meninas – essas com menor frequência) que tem aparecido no Brasil, pode ter alguma ligação com a alimentação?
Produtos processados.
Da mesma forma, alguém tem reparado que, nas capitais e cidades grandes, onde o consumo de alimentos processados é trocentas vezes maior, em detrimento ao alimento consumido na “roça” – que, imagina-se, grande parte desses produtos consumidos são “orgânicos” – a incidência ou descoberta do autismo é trocentas vezes menor?
Certamente, sem convencer, vai aparecer alguém para dizer que, na “roça”, o acesso à tecnologia que facilita os laudos é menor ou quae nenhuma. Não concordo. Ou, como diria um fraterno amigo, “disconcordo”. Crianças acometidas de autismo, levados a procurar o diagnóstico nas capitais e/ou cidades grandes, são em número insignificante.
Pesquisei, e encontrei essas definições, que incluo como respostas: O Transtorno do Espectro Autista (TEA), comumente conhecido como autismo, é uma condição de desenvolvimento neurológico que se manifesta de maneiras variadas e únicas. Este artigo visa iluminar as nuances do autismo, abordando sua natureza, sintomas, diagnóstico e abordagens para o suporte e tratamento, enfatizando a importância da aceitação e do entendimento na vida das pessoas com TEA.
O TEA é um espectro amplo de condições caracterizadas por desafios em habilidades sociais, comportamentos repetitivos e comunicação verbal e não verbal. O termo “espectro” é utilizado para refletir a ampla variação nos desafios e forças que pessoas com autismo podem apresentar.
Embora os sintomas do TEA variem significativamente, algumas características comuns incluem:
– Dificuldades na interação social e comunicação – Interesses limitados e comportamentos repetitivos – Respostas atípicas ou intensas a sensações ou estímulos ambientais – Necessidade de rotina e consistência – Diferenças no processamento de informações e na aprendizagem. (OBS.: – Estas informações específicas foram adquiridas no Wikipédia).
O que é a Síndrome de Down?
É uma condição genética que resulta de uma cópia extra do cromossomo. Normalmente, as pessoas têm 46 cromossomos, mas na Síndrome de Down, têm 47. O nome “trissomia 21” refere-se à presença de três cópias do cromossomo 21.
Criança portadora de Síndrome de Down
A Síndrome de Down (SD), ou trissomia do 21, é uma alteração genética causada pela presença de um cromossomo 21 extra em todas ou algumas células, resultando em deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e características físicas específicas. Ela pode levar a condições médicas associadas, como problemas cardíacos e de tireoide, mas intervenções precoces e uma vida inclusiva podem melhorar significativamente a qualidade de vida dos indivíduos com a síndrome.
Pode ser suspeitada durante a gestação por meio de ultrassonografias e testes de sangue. É confirmada após o nascimento através do exame de cariótipo, que analisa os cromossomos do indivíduo.
Não há cura: para a síndrome, mas os sintomas e problemas associados podem ser tratados. A estimulação precoce com terapias (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional) é fundamental para otimizar o desenvolvimento. O acompanhamento médico contínuo e o tratamento de condições associadas, como as cardíacas, são importantes. A inclusão social, a aceitação e o apoio familiar são essenciais para que a pessoa com Síndrome de Down tenha uma vida plena e independente.
O cromossomo extra geralmente vem da mãe e o risco de um casal ter um bebê com um cromossomo extra aumenta gradualmente à medida que a mãe envelhece. Ainda assim, uma vez que a maioria dos nascimentos ocorre em mulheres mais jovens, somente 20% dos bebês com síndrome de Down nascem de mães com mais de 35 anos de idade. (OBS.: Informações específicas extraídas do Wikipédia)
A pesquisa feita me presenteou a informação que dá conta que, no século XIX, uma Psicóloga e Pedadoga russa de nome Helena Antipoff foi a introdutora inicial e com relevante sucesso, das crianças acometidas dessa síndrome nas escolas brasileiras.
“Helena Wladimirna Antipoff (em russo Елена Владимировна Антипова; Grodno, 25 de março de 1892 – Ibirité, 9 de agosto de 1974) foi uma psicóloga e pedagoga russa que depois de obter formação universitária na Rússia, Paris e Genebra, radicou-se no Brasil a partir de 1929, a convite do governo do estado de Minas Gerais, no contexto da operacionalização da reforma de ensino conhecida como Reforma Francisco Campos-Mário Casassanta. Grande pesquisadora e educadora da criança com deficiência, Helena Antipoff foi pioneira na introdução da educação especial no Brasil, onde fundou a primeira Sociedade Pestalozzi, iniciando o movimento pestalozziano brasileiro, que conta, atualmente com cerca de 100 instituições. Seu trabalho no Brasil é continuado pela Fundação Helena Antipoff.”
É certo que o mundo (entenda, aqui, como o mundo sendo a Terra) gira?
E por que a água e as nuvens continuam – para nós – na mesma posição?
Por que não acontece com a água do mar, do rio ou do açude, o mesmo que acontece quando temos um copo com água, e se o virarmos, essa água cai?
Por que os peixes continuam (os que não são pegos) nas mesmas posições – com a Terra girando, claro! – sem engolir um gole d´água, e nós, se o fizermos morreremos afogados?
Eu, sinceramente, não sei. Por isso, vou sair para pescar.
Na volta da vela os peixes estão em mancheias, saltam dos urus e surrões como querendo voltar para o mar. Quase vivos os que venceram o choque térmico do gelo do porão.
Provavelmente, sem demora estarão noutra água – com sal, tomate e cheiro verde. Ou no calor mais insuportável da gordura fervente.
É o ciclo da vida ou da morte para uns e para outros. Enquanto a Terra continuará rodando, girando, sendo um mundo irreal e intocável.
Afinal, as águas – dos mares, dos rios, dos açudes e das chuvas – são de qual planeta?
Estávamos em julho de 1953. Férias escolares do meio do ano. Naquele tempo eu ainda cursava o “primário”. E, nas férias, sem condições financeiras para conhecer a Disney ou outros lugares proibidos aos sem-dinheiro, o paraíso distava uns 90 Km de Fortaleza. Era a minha querida e encantada Queimadas.
As férias proporcionavam armar arapucas com iscas de melão São Caetano; caçar rolinhas e tomar banho nu no açude.
Mas, a lista de atividades no gozo das férias não era isso tudo. As crianças, mesmo de férias, tinham suas tarefas diárias catalogadas por dona Raimunda Buretama, a Vovó. Entre essas obrigações, “dois caminhos d´água” para encher a terrina de madeira e os potes da casa.
Cumpridas essas tarefas – lembro bem que Vovó, “passada nas casca do alho” recomendava (e aquela recomendação significava uma ordem) sempre que, para buscar os caminhos d´água, eu fosse montado no jumento.
Hoje, lembro bem, desconfio o porque daqueles dois caminhos d´água não podiam ser feitos na jumentinha Preciosa. Pois bem. Menino, na idade dos 11, 12 e 13 anos, é a imagem do cão. É nessa faixa etária que começa despertar para conhecer a “Maria Cinco Dedos”, e, às vezes, cabras e até galinhas.
Os meninos de hoje, não pensam nisso e nem se masturbam mais. Mas, esse não é o assunto.
Vovô João passava o dia na roça. Encontrava sempre algo para fazer e só voltava para casa na “boquinha da noite”, quando as andorinhas faziam malabarismos no ar e com o primeiro cântico do Vem-Vem.
Vovô levava para a roça: a enxada, a foice, uma faca peixeira de 12 polegadas que mantinha sempre na bainha e na cintura para picar fumo (era o que ele dizia) – e uma cabaça com água.
Num dia daquele ano, após o cumprimento das tarefas domésticas, fui ajudar Vovô. Fui fazer as coivaras do mato capinado para bater até moer e fazer o que chamam hoje de adubo orgânico. E foi nesse varrer o mato que encontrei uma castanha de caju nascendo em broto.
Vovô recomendou para que eu protegesse aquele broto pois, com certeza, nascendo, cresceria até servir de sombra para alguém, onde se pudesse pegar o “dicumê” e pousar a cabaça d´água para esfriar na sombra. Fiz o que ele recomendou.
Vieram as férias de 1954 e as de 1955.
Nas férias escolares de 1956, atingindo a adolescência e notando o surgimento dos primeiros pelos pubianos, nova ida para a minha Queimadas. A mesma rotina dos anos anteriores. Dois caminhos d´água – sempre usando o jumento como montaria, pois, usar Preciosa, seria iniciar a saga da longa prática sexual.
Mais uma vez cumpridas as tarefas domésticas, a visita para ajudar Vovô na roça. Dessa vez Vovó mandou levar o “dicumê” e um bom pedaço de rapadura para a sobremesa.
Vovô já esperava a comida. Mas, agora, o cenário era outro. Debaixo de um sol causticante Vovô esperava na sombra do cajueiro que, em julho iniciara a floração.
– Conhece esta sombra? Perguntou.
Antes que eu respondesse, ele mesmo o fez: essa maravilha é aquele broto de cajueiro que sugeri para você não varrer. Agora está nos servindo!
A boa sombra do cajueiro
Os tempos passaram. Concluí o primário e ingressei no Liceu do Ceará, onde concluí do ginasial e o científico. Ingressei na Universidade – e, confesso, ali não aprendi nada além do que meus avós me ensinavam durante as férias escolares.
Eles eram mestres do viver com graduação adquirida no dia a dia. Na enxada, nas benzeduras com galhos de arruda, nas missas dominicais e, principalmente, no ouvir outros iguais – é isso que forma a gente e faz de nós filhos de Deus, capacitados para transmitir o bom para as gerações seguintes.
Se eu tivesse varrido o broto do cajueiro, jogando-o na coivara, não teríamos usufruído da sombra anos depois.
O cajueiro nascido do broto continua servindo como sombra
Anos depois, já morando no Rio de Janeiro, voltei a Fortaleza. Sozinho visitei Queimadas. Agora não é mais Queimadas e foi agregado ao recém-criado município de Horizonte, Região Metropolitana de Fortaleza.
Não encontrei mais a casa que outrora fora dos meus avós, e de onde saí várias vezes, nas férias escolares, para transportar dois caminhos de água num jumento – encher a terrina e os potes da casa. Não vi mais sinal da jumenta, salva das minhas iniciações sexuais.
Onde um dia foi a roça do Vovô, agora é um parque arborizado onde famílias usufruem com suas crianças nos domingos e feriados.
Visitei o lugar e voltei ao tempo de adolescente: levei comigo a cabaça onde transportava água para Vovô, que ainda estava ali, mantida pelos cuidadores em respeito ao passado.
Era a única lembrança material que ainda me ligava aquele lugar onde aprendi tudo que sei hoje.
Paulo, mas muito mais conhecido como “Paulim” era marisqueiro. Optou pela profissão, depois de ter enfrentado problemas de saúde por ter vivido anos “pegando caranguejos” para sustentar a família, e ter contraído uma bactéria que se reproduz no mangue, provavelmente trazida pela maré cheia.
Essa atividade, requer acurado conhecimento da movimentação do mar e, pasmem, até das fases lunares. É parte da pesca artesanal. O trabalho é intenso e exige conhecimento sobre as marés, os locais de coleta e os tipos de mariscos, além de habilidades específicas para a catação e o beneficiamento dos animais.
Diferentemente da pesca de peixes e outras espécies em alto mar, o “marisqueiro” utiliza ferramentas apropriadas, mas simples, como facas e ganchos para a coleta, além de objetos como colheres de pedreiro, baldes e ciscadores.
A mariscagem é uma fonte de sustento para muitas famílias, garantindo a renda e a alimentação.
“Paulim” tinha freguesia certa e exigente, e fazia questão do bom atendimento, pois era do resultado disso que dependia o sustento da família. Pescava sarnambi, sururu, tarioba e era esse último marisco que faturava um pouco mais, por atender sob encomenda especial para o Restaurante Xico Noca.
Mas, era vendendo ostra que esperava um dia ter atendidas suas orações e formar uma boa reserva financeira para se estabelecer comercialmente no ramo dos mariscos. É uma atividade lucrativa, porque considerada exótica na culinária brasileira.
Paulim “catando” ostras na maré baixa
Ostra é o nome comum de grupo diferente de molusco que cresce, em sua maioria, em águas marinhas ou salobras.
Atualmente, com atuação na piscicultura, a EMBRAPA desenvolve pesquisa e tem relevante atuação na orientação para implantação de viveiros de criação e produção de ostras – inclusive para atender a exportação.
As ostras pertencem à ordem Ostreoida, família Ostreidae. As ostras têm um corpo mole, protegido dentro de uma concha altamente calcificada, fechada por fortes músculos adutores. As brânquias filtram o plâncton da água que lhe servem como alimentação.
A ostra tem uma forma curiosa de defesa. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre o invasor impedindo-o de se reproduzir. Depois de cerca de três anos esse material vira uma pérola. Sua forma depende do formato do invasor e sua cor varia de acordo com a saúde da ostra.
Conchas de ostras
“Paulim” iniciava o dia de trabalho na madrugada. Precisava catar sururu, sarnambi e tarioba para atender as encomendas da freguesia.
Morando cerca de 800 metros da praia, “Paulim”, com o auxílio da mulher e da filha mais velha, após a captura do sururu, sarnambi e tarioba, fazia a limpeza dos mariscos escaldados e limpos para atender a freguesia.
Cumprida essa etapa, pedalava uma bicicleta velha por cerca de 9 Km até o Anil, onde embarcava no “Bonde Cara Dura” (a maioria dos passageiros transportava caranguejos, mangas, verduras e até galinhas caipiras para serem vendidas na feira livre do João Paulo). Entregava as encomendas e voltava no primeiro bonde até o ponto de partida, e, depois, voltava pedalando a bicicleta velha até em casa. Era quando preparava as ostras para vender na orla marítima, cruas, com sal e limão. Há quem goste de adicionar pimenta malagueta.
A ostra não era apenas o principal marisco tirado e vendido por “Paulim”. Era, também, a esperança de um dia encontrar um banco de ostras (que passaria a ser só do seu conhecimento e posse) que contivesse “pérola”.
Mas, enquanto isso não acontecia, “Paulim” se contentava em acordar diariamente na madruga, tirar sururu, sarnambi, tarioba e ostras para atender a uma seleta freguesia. Inclusive restaurantes.
Ostras gratinadas
Sem pretender ser algum dia Chef de restaurante, por experiência “Paulim” até se atrevia a observar nas cozinhas a preparação da “ostra gratinada”, item de alta preferência da freguesia e de alto custo.
Modo de preparo: Afervente as ostras até que as cascas abram; Refogue a cebola na manteiga e, quando dourar, junte o vinho, deixando-o evaporar; Acrescente a farinha, o creme de leite e a água, mexendo sempre, até deixar o creme liso. Finalize com o sal e a pimenta; Coloque uma colher deste creme em cada ostra e salpique com queijo parmesão; Leve ao forno para gratinar.
Ostra com pérola
O valor comercial da pérola de ostra no Brasil varia, dependendo de vários fatores. Pérolas de água doce podem custar entre R$ 50 e R$ 250, enquanto pérolas marinhas podem chegar a custar milhares de reais, com preços entre R$ 250 e R$ 25.000 ou mais. O valor depende de tamanho, forma, brilho e tipo de pérola (água doce ou marinha), além de sua procedência e raridade, segundo a Amorzin Store e Mega Curioso.
Pérolas grandes são evidentemente mais caras. A perfeição da pérola redonda é mais valorizada que as de formato irregular.
As pérolas com brilho intenso e reflexos sutis são mais procuradas. As pérolas marinhas (Akoya, South Sea, etc.) geralmente são mais caras que as pérolas de água doce. As pérolas roxas são muito raras, e, assim, têm valor muito alto, chegando a milhões de reais em alguns casos.
Eis que, num mês de junho já bem distante – quando a cidade recebe fluxo de turistas muito grande -, depois de atender aos fregueses de sururu, sarnambi e tarioba, “Paulim” preferiu esperar a maré baixar mais, para que seu canteiro de ostras ficasse mais trafegável. E foi assim.
“Paulim” percebeu uma ostra de tamanho fora do comum. Catou. Mais na frente, catou mais outra e percebeu que algo estranho estava acontecendo. Mais uma ostra diferente, mais outra e mais outra. Era um banco de ostras.
O tamanho chamou a atenção de “Paulim”. Pegou a faquinha e abriu aquela ostra de tamanho desproporcional – e ali encontrou a ostra que sonhara encontrar durante anos para alavancar seu empreendimento e garantir o sustento da família.
A ostra continha uma pérola enorme. “Paulim” não coube em si de tanta alegria. Foi em frente e catou mais ostras, essas de tamanhos menores, mas com pérolas.
Beiju feito com a “goma” retirada da massa da mandioca
Cada coisa no seu devido lugar.
Quem bebe água do pote na caneca, não tira a água com a caneca usada para beber. Tira com outra caneca, ou com uma concha feita de uma das bandas do coco – e, depois, recoloca tudo nos devidos lugares. É assim que começa a lida de uma coisa ser uma coisa, e outra coisa ser outra coisa.
Como dizia Vovó: “na terra dos sapos, de cócoras com eles”.
Na Queimadas, a cada fim de dia da farinhada, com ordem explícita do patrão dono de tudo que está sendo feito, o Encarregado pela torração da farinha inicia o procedimento: limpa os tijolos do forno com uma vassoura, e prepara a massa para a feitura de cinco ou seis beijus. Prontos os beijus, cada um é entregue aos beneficiados que lideram as famílias envolvidas na farinhada.
O catitu que cevou a mandioca, cevou também o coco que será acrescentado ao beiju. Uma antiga tradição, pois ninguém consegue explicar o sabor que o coco dá ao beiju.
Terminada a tarefa de assar os beijus, o forno é coberto para evitar que gatos tentem aproveitar a quentura dos tijolos para passar a noite com suas artimanhas sexuais ou necessidades fisiológicas: cagar ou mijar.
Tudo recomeça na manhã do dia seguinte: o responsável arruma a lenha e toca fogo para aquecer o forno para continuar torrando a farinha.
Tapioca caseira, também feita com a goma extraída da mandioca
Muito distante das Queimadas, o usufruto da farinhada percorre vários lares nas cidades grandes.
O café da manhã é servido. Pães, bolachas, frutas adequadas para a hora – mas, eis que alguém que ainda continua ligado ao sertão, “inventa” de preferir o que chama de tapioca.
Diferente do beiju sertanejo dos fins de dias da farinhada, a tapioca é menor. Feita com pouca goma, e sem o coco – mas também pode ser adicionado – que outros que preferiam os pães e/ou bolachas certamente vão aderir. Provar e aprovar.
Em vez do forno de tijolos aquecidos pela lenha, a frigideira, também utilizada para outras tarefas da cozinha. A goma molhada e às vezes peneirada faz a tapioca. Há quem acrescente manteiga ou margarina, da mesma forma que há aqueles que preferem sem esses ingredientes.
Essa é a tapioca. Diferente do beiju. E é aqui que começa a diferença de, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Tapioca “recheada” servida nas cidades grandes
Criativas, algumas pessoas procuram sair da mesmice diária do consumo. Tentam mudar o foco, e até conseguem. Mas, felizmente, não conseguem mudar o sabor original. Tapioca será sempre tapioca, por mais ingredientes que sejam acrescentados.
Há até quem adicione algo doce – mas, aí, deixa de ser parte adicional do café da manhã, e passa a ser peça importante nos lanches.
Repetimos: uma coisa é uma coisa, e outra coisa é (e será sempre) outra coisa.
Aruá em desova em local apropriado
Voltamos à Queimadas. Anos antes do aproveitamento da área para reconstrução do Açude Novo, um pequeno lago servia de alimento para as batatas doces semeadas ao seu derredor. As raras chuvas aumentavam o diâmetro da área, alagando-a. E era ali que os aruás se deleitavam em vida e escolhiam para a reprodução.
Quem já viu a fome precedente da morte de perto, e sem fantasia carnavalesca ou literária, vai conseguir identificar o que, agora, tento descrever: “a gente procura o que comer, e come o que encontra”.
Quando íamos apanhar batatas doces para o café da manhã e para completar o dicumê do meio-dia, catávamos e apanhávamos, também, um bornal de aruás. Ovados ou não. Aprendemos a preservar, não bulindo jamais com os ovos postos nos galhos ressequidos das pequenas árvores. Seria a comida, no futuro.
Escargot da culinária francesa
Banha suína era coisa rara. Óleo de soja, milho ou outro qualquer, ainda não existia. Vovó recorria ao sebo bovino, retirado como excesso na carne e salgado separadamente. Aquele sebo era derretido, virando o adicional das frituras. Nenhum tempero – quando muito, o colorau feito a partir do urucu.
A farofa de aruá, por vezes (muitas) enfeitou o dicumê na casa dos Buretama.
Longe algumas horas da Queimadas, Paris. A Torre Eiffel.
Próximo dali, mas com vista privilegiada, a Brasserie Lipp serve aos endinheirados turistas, o “escargot”.
Para os cearenses que viram a fome sem desenhos estilosos, o aruá.
Mas, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Antônio “Não Sabemos das Quantas”, nascido na região cearense dos Inhamuns, terra de gente que não tem o hábito de escutar e levar desaforos para casa, foi literalmente expulso daquelas paragens pela seca. Aquela seca que, sem milagres, consegue mudar até a cor dos camalões (que muitos conhecem como iguanas), transformando o verde brilhante num acinzentado sem bilho algum.
Na fartura que vivera naquela terra, conseguiu amealhar numa mala velha de tábuas, com a ajuda imprescindível da mulher Alzira, os trocados que usaria para o recomeço de vida noutro lugar. Vendeu uns porcos, cabras, bodes e cabritos e não se sabe quantas galinhas poedeiras e pelo menos duas vacas leiteiras, juntou todo o lucro e deixou o que lhe pertencera e construiu na labuta ferrenha e do sofrimento sertanejo na falta de tudo.
A fartura é outra coisa, e até os piores articulistas fazem daqueles lugares a maravilha desejada.
Escolheu morar em Fortaleza. Ali pelas décadas de 50 e 60. Comprou uma pequena residência de duas esquinas, reformou e transformou na sua nova forma de vida: uma bodega.
Na nova vida, aceitou de bom grado a mania do povo fortalezense e ficou conhecido como “Toím da Bodega”. Assim, fez novas amizades e garantiu o respeito da freguesia.
Trouxe dos Inhamuns, algumas manias. Uma delas, a valentia e a pecha de que não escutava desaforos. Com a abertura da bodega, adotou outras manias: ao contrário de outros “bodegueiros”, para fazer amigos, resolveu vender fiado. Perdeu dinheiro investido em mercadorias e alguns amigos que moravam na mesma rua e tinham o hábito de comprar “fiado para pagar quando recebesse”. Nunca pagavam e até mudavam de caminho.
Conhaque de alcatrão “queimando” a dose de cachaça
Mas, “Toím da Bodega” conseguiu aprender coisas novas. Uma delas, foi manter uma bacia com água debaixo do balcão de madeira, onde muitos imaginavam que ele lavava os copos – mas, na verdade, quase nunca trocava aquela água da bacia.
Outra mania que passou a praticar, foi “não vender bebida fiado”. Assegurava que, bebendo fiado, o freguês se embriagava e esquecia de pagar.
Ciriguela “inchada” o tira-gosto preferido do cearense
Excluindo bebidas, “Toím da Bodega” vendia fiado, sim. Entendia que aquela era uma das formas positivas de manter a freguesia – até porque, afastado dali, as outras bodegas vendiam fiado. Ele não faria diferente. Mas, mantivera a posição pessoal: não vendia bebida fiado.
– “Seo Toím”, mamãe mandou comprar meio quilo de açúcar, dois cruzados de banha de porco, um quilo de arroz e um medida de colorau. Disse pro senhor anotar na “cardeneta”!
“Toím da Bodega” atendia, e sem fazer bico, ou cara feia. Tinha certeza que aquela mãe pagaria a dívida, tão logo o marido recebesse o salário na reparticição onde trabalhava.
Mas, bebida, “Toím da Bodega” não vendia fiado. Nunca vendeu.
Eu gosto da vida na roça, pois foi lá que aprendi tudo que sei e a praticar o bem ao próximo – ali é (ainda) onde moram a verdade e a sensatez. Por isso, meus temas são interligados ao sertão e aos meus avós – minhas raízes fortes e tão profundas quanto as raízes do ipê.
Pobres de valores materiais, mas, abastados de valores morais e religiosos, não tínhamos geladeira (naqueles tempos idos, a maioria funcionava à base de querosene) – em casa. Isso significa dizer que, tudo que comíamos era “natural” e as carnes e peixes eram salgados (salpresados, como falamos no Maranhão) para não estragar. Isso, fez com que quase todos fôssemos hipertensos.
Banha de porco
Durante anos – provavelmente por herança de hábito cultural dos mais antigos – não conhecíamos o óleo como parte da preparação culinária. Nenhum óleo – a não ser o “óleo de rícino” (intragável) usado como purgante para expulsar as lombrigas.
Toda comida era “temperada” com banha de porco, ou a variante, banha de coco. E, até onde sabemos, essas duas banhas são extremamente saudáveis – e vendidas em porções nas bodegas de todo o Brasil. Poucos conseguiam comprar a lata pequena de banha de coco.
Banha de coco
Mas, sabemos também, o que chamam de evolução, um dia chegaria. E chegou trazendo o óleo comestível da marca Pajeú, produzido a partir do caroço do algodão e da amêndoa do babaçu – largamente produzido no Maranhão.
A partir de então, a hispertensão provocada pelo consumo do sal deu lugar a inúmeros problemas de saúde causados pelo consumo dos óleos industrializados – incluindo o “óleo extra-virgem” produzido em Portugal.
Mas, sabemos, nem tudo era tão ruim ou provocador de problemas de doenças. Havia, sim, as vantagens curativas ao ser humano, além do “óleo de rícino”: a banha extraída da galinha caipira. Ou, como dizem alguns, asa galinhas de capoeira criadas soltas e comendo tudo que encontra.
Banha de galinha caipira
Qualquer que fosse o problema de saúde – de crianças ou adultos – recorríamos à um unguento: banha extraída da galinha caipira para curativo. Principalmente para feridas contusas ou inflamação na garganta. Não era degustada. Era usada como massagem. E curava com muita eficácia.
Doutora Honuas Causa – em tudo: honra, resiliência e responsabilidade.
A beleza é predicado interior. Esse tipo de beleza não vai ao “Salão de Beleza”, não veste roupas da moda, não tem dinheiro e não dirige carros de luxo e blindados.
Hoje, deixo um pouco de lado meus avós, minha vida da infência no interior, meu aprendizado na escola da vida, e resolvo focar e render homenagem a uma mulher.
Desfilando honradez e resiliência pela prática do bem, CORINA SERRA MARTINS, 92 anos, mascida na cidade maranhense de Itapecuru-Mirim, em 1933 e há mais de 60 anos vivendo em São Luís, ganha a preferência destas linhas neste começo de julho de 2025.
Alguns anos atrás o marido (Sotero Macedo Martins) de Corina voltou ao barro, de onde todos saímos e para onde voltaremos. Acostumada coim a simplicidade da vida que levava – embora fosse proprietária do Hotel Nena, em São Luís – ao perder o marido e sem profissão definida resolveu se desfazer do hotel e tocar a vida com o dinheiro recebido na negociação.
O tempo passou e o dinheiro acabou. Corina caiu literalmente na realidade da vida – mas optou naqueles tempos por manter o maior capital que possuía: a honradez que transferia aos filhos.
Eis que o sino da infância foi sacudido. Corina lembrou que aprendera a fazer doces, quando ainda era uma jovem em Coroatá, interior maranhense. Os filhos não se opuseram e a discordância inicial veio apenas quando souberam que ela, Corina, seria a própria vendedora do seu produto: pirulito.
Uma tábua pesada que ficava mais pesada ainda com a carga dos pirulitos (120 pirulitos), vestida com roupas simples e subindo e descendo as ladeiras e escadarias do Centro Histórico de São Luís.
Sabor limão, por ser o mais barato ingrediente. Depois a diversificação do sabor para cajá, bacuri, manga e cupuaçu. O preço sempre o mesmo: equivalente a R$1,00 até os dias atuais.
Muitas pessoas compravam os pirulitos apenas com a intenção de “ajudar” Corina. Mas, ao provar o doce, reconsideravam e compravam mais para levar para as crianças de casa.
Nos dias atuais, quando chove ela procura abrigo. Quando não chove ela permanece – sempre foi assim – calada a espera da freguesia.
Corina em estátua
Agora CORINA SERRA MARTINS está exposta ao sol: chova ou faça sol.
A Prefeitura de São Luís foi tocada pela bondade e resolveu reconhecer Corina como uma das muitas pessoas que contribuíram desde muito tempo para as tradições da cidade – e resolveu homenagear Corina com uma estátua erguida na área preferida por ela no Centro Histórico.