JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SEM O PÃO – MAS COM O CIRCO

Sabemos nós que, como “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe”, qualquer dia desses, Deus, na sua onipotência, acordará o homem para produzir pelo menos o pão da vida de cada dia. Com dignidade, desejamos.

O Maranhão é, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), o estado mais pobre da federação brasileira – mas, com certeza, na ponta de qualquer medição de outro instituto, na alegria e diversão, o posicionamento muda para um dos primeiros lugares.

Assim é constatado que, ainda distante, ruas e praças e muitos logradouros, logo vencerão essa distância e começarão a se enfeitar com bandeirolas e a conhecida alegria contagiante. Todo ano é assim.

O movimento nos barracões já se percebe intenso. Não é diferente dos barracões das escolas de samba do carnaval paulista ou carioca: pessoas que amam a diversão largam afazeres domésticos e se dedicam de corpo e alma para o “enfeitamento” das fantasias e fabrico dos adereços que brilharão nos terreiros e praças de São Luís.

Até a vestimenta dos “miolos do boi” (um dançarino que carrega o boi que dança) é cuidada com esmero, ainda que ele não apareça tanto para o público – mas faz parte da grande festa que essa cultura tradicional encanta Brasil à fora. Há anos. É folclore. É patrimônio cultural da humanidade.

Boi da Maioba

Se Não Existisse o Sol

Se não existisse o sol
Como seria pra terra se aquecer?
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver?

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas, como existe tudo isso, meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo
Mas, como existe tudo isso, meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

Se não existisse o sol
Como seria pra terra se aquecer?
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver?

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas, como existe tudo isso, meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo
Mas, como existe tudo isso, meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

No Maranhão, o que muitos de outros estados chamam de letra de música, o que está acima é a letra de uma “toada” – que, como uma Escola de Samba, muda a cada ano, e, também acontecem sessões para a escolha da “toada” do ano.

A “toada” acima foi imortalizada por um cantador conhecido como “Chagas da Maioba” – atualmente afastado por conta de desentendimentos, e “cantando toadas” noutro bumba-boi, convive com a dificuldade de se desvencilhar do rótulo com que ficou, também, imortalizado.

“Brincante” do boi da Maioba

Maioba, em São Luís, é equivalente a Mangueira, Vila Isabel ou Catumbi, no Rio de Janeiro. Maioba não é um bairro, tampouco um povoado. Como preferem os maranhenses de São Luís, “Maioba” é um lugar. Ou, como se referem os apreciadores, “Maioba” é quase tudo desde o dia 1 de abril (quando são iniciados os preparativos para o que está por vir), até o dia 30 de junho, dia de São Marçal, reverenciado no dia seguinte com as apresentações no dia de São Pedro.

Todos os “ensaios” têm início no mês de abril. São centenas de “bois” com denominações diferentes, mas não são tantos os que são reverenciados. Boi de Iguaíba, Boi de Ribamar, Boi do Maracanã, Boi da Maioba, Boi de Pindaré, Boi de Morros, Boi de Axixá, Boi de Matinha e mais duas ou três centenas de bois.

Os ritmos são contagiantes. Os ritmos são chamados de “sotaques”. Os sotaques são, Orquestra, Matracas e pandeirões, Costas de Mãos (esse um “sotaque” quase extinto).

Difícil, o assistente presencial não ser contagiado pelo ritmo e se deixar cair na folia, ainda que jamais tenha feito isso – é contagiante e muito fácil dançar bumba-boi.

Matraqueiros e matracas

Eis que, na noite de 31 de maio as ruas são enfeitadas. Na manhã do dia 1 de junho, São Luís se transforma num “terreiro cultural” – abrindo a temporada junina oficial, no dia 13, dia dedicado a Santo Antônio.

Bandeirolas enfeitam as ruas. Casinhas-da-roça montadas nas praças e demais logradouros públicos, funcionam à noite e recebem visitantes ou não. Culinária local vira atrativo e as “toadas” são tocadas nos aparelhos de som. Contagia!

E é nessa hora que o IBGE não atua. Não divulga para o Brasil e para o mundo, o milagre de tanta gente sofrida que vive no Estado mais pobre da federação, conseguir – ainda que de forma temporária e ilusória – superar as dificuldades reais do dia-a-dia.

Pandeirões do Boi da Maioba

Santo Antônio, São João, São Pedro. O maranhense acrescentou São Marçal. Santo Antônio abre e São Marçal encerra – com apresentação apoteótica de dezenas de bois de sotaques diferentes, os festejos juninos. Antes, “joaninos” pela dedicação a São João. Agora, “juninos” por referência ao mês de junho.

“Se não existisse o sol
Como seria pra terra se aquecer?
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver?

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas, como existe tudo isso, meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo!”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VIAJANDO NA JANELA DO TREM DAS BOAS LEMBRANÇAS

Por que gostamos de viajar olhando pela janela?

Não sei. Mas, que é prazeroso, é!

É a janela, ou o que olhamos a partir dela?

Também não sei. Mas, que rejuvenesce e mata a saudade, é verdade.

Pois, sentemos no banco do lado da janela, nesse trem da vida e das boas lembranças. Feche o livro que carrega para ler, e desfrute o prazer da paisagem que imaginamos que passa – mas, quem passa é o trem.

E a viagem começava sempre na manhã de um domingo, porque esse era o único dia que meu Avô não trabalhava na roça.

Religiosamente, se dirigia até a sede principal do povoado para assistir a Santa Missa. Terminada a Missa, caminhava até a bodega do Raimundim – e era quando aproveitava para comprar café cru em grãos, sal em pedra, querosene e rapadura. Desse último item, comprava sempre quatro ou cinco. Servia para adoçar quase tudo e ainda nos garantia a boa merenda da tarde (farinha seca com um pedaço de rapadura, para nós, não tenha merenda melhor).

Uma boa talagada de cana era o último item antes de voltar para a casa. No caminho de volta, alguns cumprimentos de passantes e outros das casas dos conhecidos:

– Diiiiaaaaa!

E ouvia sempre o cumprimento de volta:

– Diiiiaaaaa, seu João!

Grãos de café cru

Na porteira, as ações de sempre: parava o burro, deslizava os paus corrediços da porteira. Entrava conduzindo o burro. Parava e voltava a fechar a porteira.

No quintal fronteiriço retirava a sela do burro e o levava para uma terrina grande onde o animal bebia água. Depois amarrava um saco com ração (capim) triturada.

Na casa, Vovó já tinha debulhado a mangirioba (fedegoso) que esperava os grãos de café. A rapadura era quebrada e misturada com pouca água para fazer o melaço para adicionar ao café que estava sendo torrado num alguidá de barro (um prato grande de cerâmica em forma de bacia).

Mangirioba (fedegoso)

Feita a mistura, café, mangirioba, melaço de rapadura eram retirados do alguidá e postos numa tábua (no interior, falamos “tauba”) a secar.

Café torrado com mangirioba

Na ferrovia da vida, a “Maria Fumaça” puxa o comboio de trem. Queimando lenha, fazendo brasa, não queima nem atrasa.

Queimando lenha, fazendo brasa!…..

Continuo na janela e imagino que a paisagem está passando – mas é o trem que vai, puxado pela Maria Fumaça, continuando o sonho com as boas lembranças.

Piiiiuuuuííííí´!

O sol, muito quente, “secou” o café torrado. Agora tem que pilar naquele pilão que também serve para pilar urucu, arroz com casca, castanha e até para fazer paçoca (carne seca assada, misturada com farinha seca – para fazer a “rainha” da culinária da roça)

A sobra dos pedaços da rapadura será guardada numa lata hermeticamente fechada – servirá para “adoçar o café” ou para a Avó agradar os netos, premiando-os com alguns pedaços.

Rapadura quebrada em pedaços

Ainda na janela. O trem vai rápido, cada vez mais rápido. As paisagens ficam para trás. As curvas que o trem enfrenta pela frente, algumas estão cobertas pela fumaça feita pela queima da lenha da “Maria Fumaça”!

No banco do outro lado, uma mulher dorme. Difícil acreditar, mas ela consegue. As mulheres sempre conseguem o que parece impossível para muitos. Mas, elas serão sempre elas.

O café sendo pilado

Pilar o arroz (para retirar a casca), existe a cultura de que isso precisa ser feito a quatro mãos, num ritmo que somente os maestros de algumas orquestras entendem. Pilar o café é diferente. É feita apenas a duas mãos, para evitar que o pó precioso derrame.

O cuidado é extremo. E há quem afirme (claro que não é verdade) que, sendo pilado apenas a duas mãos, o produto fica mais gostoso e vai exalar um cheiro inconfundível na feitura do produto final.

A viagem continua – a “Maria Fumaça” continua soberba sobre os trilhos, queimando lenha e soltando fumaça em cada curva.

Fiiiuuuuíííííí!

Foto 6 – A obra-prima de qualquer dona de casa

No fogão a lenha, o fogo foi “atiçado” (coloca-se mais lenha para garantir mais fogo). Num arame que perpassa de um lado a outro da cozinha, uma lata com água e dependurada no arame é colocada à fervura. Coloca-se alguns nacos de rapadura (o café sai passado e adoçado – poucos usam o açúcar refinado) e, antes da fervura, acrescenta-se o pó do café.

Na ferrovia, a “Maria Fumaça” faz a última curva e diminui a marcha para parar na estação da vida – onde todas as lembranças serão entregues e todas as saudades serão aliviadas.

Vovó, mais feliz que os que vão usufruir daquela obra-prima, grita a todos pulmões:

– Geeeennteeee, o café tá passado e botado!

Os que gostam, se aproximam e se servem. Beijus, tapiocas, pães e até paçoca de carne seca com farinha.

Na estação, a “Maria Fumaça” estaciona para o desembarque de alguns e embarque de outros tantos.

Finalmente acordo e saio da janela.

Foto 7 – O café!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SOM DO VENTO E A CLARIDADE NOTURNA

O céu e a claridade noturna

Gosto de ouvir o vento – ele transmite um inconfundível som da quietude, que nos conforta, quando nos encontra em Paz.

Gosto tanto de ouvir o vento – ainda que ele faça o barulho catastrófico da destruição, mostrando o seu poder de fogo (ops! – de força) – que me ponho a respeita-lo, para melhor perceber todas as suas notas musicais.

O fá, o ré, o mi e até o sol, na construção da partitura do vento – que nos embevece, chega e sai, tão suavemente, que nos transporta em voos sem asas de um êxtase para outro.

O som do vento é belo!

Tem cores tão fortes quanto o arco-íris que a Natureza Divina nos mostra no seu mural celestial.

Ouço o vento tanto quanto vejo o mar composto por águas invisíveis, que evaporam até com o mais tênue açoite – do vento!

Dia desses fui ao campo, e chegando lá, sentei no chão. Sentei, fechei os olhos e comecei a ouvir a Orquestra Sinfônica da Ventania Celestial, nota por nota, acorde por acorde, passagem por passagem que transformaram o momento numa verdadeira ópera – Divina, no Teatro Espetacular da Vida.

E, veja, escutei a bela ópera, gratuitamente!

Pagando apenas com as moedas do meu tempo e da minha Paz.

Eu escuto o vento, em todos os seus mais de 50 tons!

Tem posição “top” – para usar o americanismo da linguagem brasileira – no meu “ranking” de preferências, a noite.

A noite é o único momento das 24 horas que me permite ver a nitidez das estrelas. É na noite que vejo a beleza que não consigo ver durante o dia – porque a beleza noturna é invisível na claridade do dia.

É só durante a noite, que a claridade do dia vai embora, se preparando para voltar no amanhecer seguinte. Sem descanso. Continuadamente!

Certa noite contemplei o céu.

O céu da noite – e achei que, de noite, podia olhar melhor para Deus – tem um “que” de nobreza poética; permite o aconchego ao vento ou debaixo de lençóis.

A noite é abusivamente permissível, ainda que redundante.

Boa noite!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MENINOS QUE “DAVAM A LUZ”

Lamparina mantida a querosene

Por desconhecimento, muitos ainda creem que a falta de infraestrutura no Brasil é algo recente. Como diria Vovó, isso vem “desde o tempo da ronca”. É, se assim podemos afirmar, uma pobreza milenar e cultural. E, acredite, a subserviência continua.

Eis que, no início da década dos anos 50, Queimadas, Timbaúba e Pacatuba desconheciam “luz elétrica”. Lamparinas, candeeiros, velas e outras luzes que a Natureza nos favorecia serviam à luminosidade.

Até a luz da traquinagem infantil era acionada.

Caminhar léguas e mais léguas para comprar meia garrafa de querosene, nunca configurou sacrifício – da mesma forma que, viajar até a cidade grande para comprar um candeeiro com as parcas economias e moedas juntadas nos cofrinhos de madeira ou caixas vazias de charutos.

Candeeiro dependurado na calha

Por razões desconhecidas, as noites naqueles povoados pareciam chegar mais cedo. Ao esconder do sol por detrás das nuvens num poema indescritível da Natureza, a noite aparecia com suas determinações e amostras das necessidades inerentes a pobreza das pessoas e do lugar.

Vovó – sempre Ela – mantinha o reinado e o privilégio de andar com a única lamparina por toda a casa, que, aceitemos, era dela. A casa e a lamparina. Aqui e acolá parava de andar e atiçava o fumo no cachimbo – talvez por conta do cheiro, as muriçocas sequer encostavam nela.

Vovô – sempre Ele – tinha a incumbência de acender o candeeiro e dependura-lo na entrada da casa, até quando todos precisavam sair para algum lugar.

Aquele candeeiro, diziam, tinha a função de um farol conduzindo os navegadores. Pessoas que passavam pelo caminho na frente da casa, já identificavam a moradia de “Seu João e Dona Raimunda”, e, mesmo sem saber se estariam em casa, cumprimentavam:

– Boa noite, de casa!

Pirilampo fazia a luz da meninada

Ninguém daquelas paragens possuía geladeira. Qualquer sobra de alimento era servida aos patos, galinhas e perus. Ninguém tinha o prazer de guardar nada – até a água, se alguém a quisesse mais “fresca”, tinha que colocar a quartinha na janela. O vento feito brisa esfriava a água da quartinha.

Toda sobra de carne ou ave precisava ser “salgada” – daí a justificativa para a hipertensão de muitos que viveram ou ainda vivem na roça.

Poucos conseguiam economias para comprar na bodega 1 litro de querosene. O “mercado” mais usado era o de uma quarta de litro, colocado numa garrafa fechada com um pedaço de sabugo de milho. Repito: caminhava-se léguas e léguas para comprar uma quarta de garrafa de querosene. Mas, era a luz!

Mas, lembro bem, aquela casa nunca ficava às escuras. A única lamparina ficava com Vovó, e o candeeiro ficava dependurado na calha frontal da casa – durante a noite inteira.

Assim, entre uma balbúrdia e outra, antes da chegada do sono ou daquela ordem emanada do Vovô (“meninos, vão drumir”), os peraltas faziam suas iluminações particulares.

Ao cair da noite, de posse de uma garrafa vazia, os irmãos e primos saíam à cata de vagalumes (pirilampos) nos arredores da casa. Pegavam vários e colocavam na garrafa. No quarto escuro iluminavam o ambiente com a luz engarrafada dos pirilampos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

COÇANDO PEREBA NA PERNA E PAPOCA D’ÁGUA NA SOLA DO PÉ

Açude Novo (hoje chamado de Castanhão)

Uma distância que podia chegar no máximo, a 8 léguas, separava a tapera dos Buretama, emoldurada por um roçado muito bem cuidado – cheio de plantações de mandioca, milho, feijão, e num local mais úmido, duas grandes covas plantadas de batata doce e quiabo, além de um canteiro com coentro, pimentão, cebolinha e tomate – na vazante do Açude Novo.

Era no Açude Novo que nos encontrávamos para pescar piaus, tilápias, curimatás, piaba gorda, camarão sossego, cangatis, muçuns, jacundás e traíras. Era ali, também, que tomávamos nosso banho diário, banhávamos os animais, e onde as mulheres lavavam as roupas da família.

Mal comparando, o Açude Novo existia para nós, como existe hoje o playground nos shoppings centers. Era ali que, durante o banho, nos divertíamos. Nadava quem não sabia nadar e acabava aprendendo.

Sebastião Luciano, nadador exímio sem nunca ter frequentado uma escola de Natação, era o eterno campeão do jogo “Galinha d´Água” (Sebastião trabalhou alguns anos como Salva-Vidas na piscina do Clube de Regatas do Flamengo, no Rio de Janeiro. Nunca precisou entrar na piscina para “salvar” alguém.

Certa vez teve que fazer isso para “ajudar” uma criança que estava se afogando, e quando saiu da água, estava literalmente nu, haja vista que seu calção não era de Salva Vidas, mas de Jogador de Futebol – Foi demitido no dia seguinte.

Esse jogo consistia em fazer saltar o maior número de vezes sobre o espelho d´água, uma pedra escolhida e aprovada pelos jogadores.

Quem fosse e voltasse mais rápido da margem do açude até uma árvore que servia de pouso e poleiro para as andorinhas – ficava cerca de 80 metros -, conquistava o direito de voltar para casa montando um dos animais. Quem não vencesse nenhum desafio, tinha que voltar para casa andando sem montaria.

E, o pior castigo para quem voltava andando, era aturar as ferroadas das mutucas, e se o caminho estivesse escuro, correr o risco de ser picado por cobra. A necessidade fazia com que ninguém perdesse todas as disputas.

A volta para casa acontecia sempre ao cair da noite, e quando chegávamos, o “de comer” já estava botado na mesa – o jantar era peixe cozido na “água grande” com um bom pirão. Depois, era beber o caldo, sentar na latada frontal da casa e ficar matando muriçoca e coçando as perebas das pernas ou as papocas d´água na sola dos pés.

Muitas vezes, a consciência do trabalhar na roça no dia seguinte, nos obrigava a dormir sem qualquer preocupação com a crise grega, a vida animalesca do Iraque ou as decapitações dos fanáticos religiosos. O que nos interessava mesmo era limpar cinco ou seis linhas de roça, colher o milho que já tinha sido virado, ou apanhar o feijão que já havia secado.

Esse continua sendo o segredo da longevidade no interior de muitos estados.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS CIGARRAS, OS GRILOS E A POESIA DE CADA PINGO D’ÁGUA

Quem imagina que a vida na roça é só “tudo de bom”, vive enganado. Claro que é um lugar de gente correta, que vive do trabalho e tem como direção o caminho traçado, definido e iluminado por Deus.

E hoje, domingo, não foi diferente. Domingo para quem nasce e faz questão de continuar vivendo na roça, só é domingo por conta da missa, dia do encontro formal com os amigos e com Deus.

Viver na roça, é usufruir do que Deus lhe dá.

Fui à missa. Rezei. Lembrei de pedir à Deus por alguns tantos que, a meu julgamento, precisam de Deus – mas, claro que Deus sabe mais que eu quem precisa d´Ele.

A manhã foi completada com o atendimento a uma mania. Reunir debaixo daquele juazeiro onde todos têm algo para contar – e para vender. Carne de bode, carne de porco, miúdos de porco, tripas de porco e carne de sol bovina.

Eu fui vender o que tinha: capote, ovos de capota, seis patos e nenhuma pata – obedeci a Vovó, que não permitia que vendêssemos fêmeas de nenhuma ave. Vendi quase todos – os ovos, um homem com ares de morador da cidade grande comprou todos. Garantiu que consumiria todos em gemadas.

A volta para casa e o almoço da Vovó. Hoje sei que o nome daquela carne é “chambaril” – mas Vovô achava a melhor comida do mundo para um domingo. Gostava de “bater o tutano” da canela, misturar com feijão de corda, rapadura e farinha. Era assim que entendia que teria forças para o trabalho na segunda-feira.

O almoço e a soneca na rede armada na latada frontal da casa. Sono reparador que só terminaria por volta das quatro da tarde para o café com beiju de massa de farinha. A volta para a rede na latada e o olhar contemplativo para o nada, que, de repente, mostrava os desenhos que o vento fazia com as nuvens. Como se essas estivessem mais próximas que o amanhã do Vovô.

A claridade do domingo estava indo embora. Cedia lugar à lugubridade noturna com a orquestra sinfônica das cigarras e de muitos grilos.

Repentinamente, o silêncio invadiu todos os espaços vazios dos sons possíveis. As cigarras pararam de cantar, e, seguidas pelos grilos, procuraram abrigo.

A chuva em preparativos para a poesia dos pingos

Abrigo de que?

Do vento. Da ventania. Da tempestade que chegava aos poucos, calando todos os taróis, bumbos, tambores e pianos usados pelas cigarras para nos impor aquela sonoridade da “boquinha da noite”.

A ventania amainou, mas trouxe consigo a chuva. De início, apenas uma neblina, que, aos poucos se transformava numa chuva mais grossa e pesada.

As cigarras e os grilos estão sempre certos. São parte da Natureza. Da Natureza do tempo, da Natureza do mundo, da Natureza de tudo e da Natureza da vida. São, por assim dizer, protagonistas do muito que existe.
A chuva amainou. Diminuiu, mas as cigarras e os grilos continuavam envoltos nos seus lençóis e nos seus abrigos, onde provavelmente passariam aquela noite.

Eis que, tão repentinamente como chegara, a chuva forte estava indo embora – mas, poeticamente, trouxera o seu Pablo Neruda e a sua Cora Coralina, fazendo poesia.

O pingo e a poesia de Biaman Prado

Ali, pertinho de mim, a chuva calou as cigarras e os grilos que provavelmente só voltariam a cantar na noite seguinte, com a mesma sonoridade, nos embevecendo com aquela conhecida sinfonia que nos encanta, mesmo nos irritando.

No lugar do som estridente do grilo e da frivolidade das cigarras, a poesia dos sons era escrita, agora, por cada pingo que continuava premiando nossa sensibilidade, quando caía das telhas e percorriam uma distância de três metros no caminho da mais pura beleza.

E, Deus é tão bom, que nos permitia acompanhar a trajetória de cada pingo, e ainda nos permitia enxergar o quanto de poesia havia em cada um daqueles pingos, que também são protagonistas da Natureza.

OBSERVAÇÃO: Biaman Prado é um amigo, Fotógrafo, autor da foto do pingo poético.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CIRCO

O circo “armado” para a estreia

Havia apenas aquela área livre em bom tamanho, no bairro. Foi aproveitado e reconhecido durante anos, como o “campo do Tropical” – e era ali que muitos tinham oportunidade de se iniciarem na prática do futebol amador, a caminho da profissionalização.

O campo do Tropical, era, digamos, a única área física disponível na Bela Vista. E era, também, a maior.

Eventos como, quermesses (que não conseguiam ou não tinham relação com a Igreja do bairro (Matriz de Nossa Senhora da Salete), festas juninas que dependiam de arraiais e outros eventos de maior porte, eram instalados no campo do Tropical.

Os jovens não aprovavam, pois, sua melhor diversão perdia o espaço por tempo indeterminado. Mas, eram obrigados a aceitar, e, em família ou com namoradas acabavam frequentando as diversões, fossem elas quais fossem.

Eis que, uma semana após o clássico futebolístico do bairro, cerca de quatro a cinco caminhões do tipo baú encostaram e estacionaram no campo do Tropical. Os passageiros começaram a descer e “vistoriar” a área, como se ela lhes pertencesse.

De um carro menor, o motorista desceu e falou:

– É aqui!

Em dois dias o Circo Itaguará estava “montado” e apto para os espetáculos circenses. Enquanto isso, os jovens do bairro ficavam privados do seu melhor e mais propício lazer: o futebol.

No primeiro fim de semana – sexta-feira, sábado e domingo – o circo estreou. Animais selvagens (um elefante que parecia mais velho que o próprio continente africano; um leão que demonstrava ser bisavô do “Rei Leão”; alguns macacos e vários trapezistas em evoluções que chamavam a atenção da plateia.

Chegara o momento mais esperado: o palhaço e suas palhaçadas, algumas muito conhecidas, mas que só tinham sido vistas pela plateia nos filmes exibidos nos cinemas.

De repente, o silêncio tomou conta da plateia. As luzes foram apagadas e aquele clima nostálgico se fez presente. Debaixo do único facho de luz que havia sob aquela empanada circense, o palhaço pediu a atenção da plateia para um pronunciamento.

– Senhoras, e, senhores muito boa noite. Peço sua atenção para minha pequena fala.

Chegamos aqui no começo da semana. Trabalhamos com afinco e sacrificamos nosso descanso para que tivéssemos a oportunidade de lhes oferecer a estreia nesta noite de sexta-feira. Conseguimos. Estamos plenamente satisfeitos com o público presente, nosso combustível para a vida e a diversão. Mas, infelizmente, amanhã iniciaremos a desmontagem da nossa vida que pretendia oferecer a todos uma diversão sadia e profissional. Partiremos, provavelmente no domingo. Muito obrigado pelo comparecimento que só nos incentiva e dignifica.

Incrédulo, o público presente se manifestou em uníssono:

– Ooohhhhh!

O palhaço triste com a partida

O palhaço, agradecido, voltou a falar: “mas, hoje, o espetáculo continua. Procuraremos fazer o nosso melhor para retribuir a atenção que nos foi dada”.

As luzes foram acesas, o elefante velho voltou ao picadeiro e fez as maiores e melhores estripulias que um animal domesticado poderia fazer. Parecia ter ouvido e sido atingido pelo discurso de despedida do palhaço.

Trapezistas evoluíram. Macacos divertiam. Aquilo não parecia uma despedida. Mas, infelizmente, era.

Fim do espetáculo.

O público entristecido deixava as cadeiras e as arquibancadas. No portão que fora entrada, e agora saída, um palhaço-mirim em lágrimas, entregava uma rosa a cada espectador, ao tempo que murmurava:

– Muito obrigado!

Palhaço-mirim

Na tarde daquele domingo da mesma semana, o campo do Tropical virava local de diversão para o clássico Tropical x Avante.

Foi quando o jogador “Acarape”, com voz e sentimento filosofal, garantia:

– “Aqui, a alegria só acaba quando termina”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MOINHOS DOS VENTOS E DOS SONHOS

“Os sonhos mais lindos sonhei!
De quimeras mil, um castelo ergui!
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas previ!

O teu corpo é luz, sedução!
Poema divino cheio de esplendor!
Teu sorriso prende, inebria, entontece!
És fascinação, amor!”

Ontem eu sonhei. Sem sequer imaginar alguma petulância, no sonho, eu era Don Quixote e caminhava ao lado do Sancho. Procurávamos um moinho, pois o vento era, naquele tempo, os nossos corações – e a vida precisava ser mantida. Soprada. Impulsionada com movimentos da esquerda para a direita.

Que fosse até mesmo um redemoinho. Mas que fosse, a princípio, de vento. O vento que carrega nuvens, e, às vezes, também provoca tempestades. É a natureza do vento.

Eis que, num olhar despretensioso, de soslaio, Sancho – o mais fiel dos escudeiros – descobre no horizonte o balançar das folhas de uma palmeira. Baixinho, para não me assustar e acordar, diz:

– Senhor, temos ventos!

Incontido olhei e confirmei o aviso, ao tempo que disse:

– Não temos apenas ventos, Sancho. Temos o moinho!

Quixote comemora com Sancho o Moinho dos Ventos

Queimadas, quase todos já sabem, foi (e ainda é) o povoado onde vim ao mundo no dia 30 de abril. Meu primeiro banho (contou minha Avó) foi com água retirada da raiz da mucunã. Era tempo de seca total. A bacia (também contou minha Avó) não era grande, pois o menino era pequeno e a água era pouca.

Na cozinha a parentada cuidava do almoço: galinha caipira com pirão de parida para a mãe; patos e capotes para quem os podia comer. E gostasse.

Na sombra da frondosa mangueira do quintal, dois ambientes. Num, a limpeza preparatória dos patos e capotes; e, noutro, o Avô moía o milho para o pão-de-milho (hoje, cuscuz) sendo perturbado pelos pintos que se aproveitavam dos farelos que saltavam.

O pão-de-milho feito num prato, com a massa molhada aparada por um pano de prato, e posta a cozinhar no vapor da água fervente de uma panela.

Moinho antigo que virou peça de museu

Galinha cozida e pirão de parida feito. Patos e capotes fartos, preparados em cabidela – havia quem preferisse sem o sangue. E era prontamente atendido.

Na camarinha, a parida recebia cumprimentos, ainda com o esfomeado recém-nascido lutando para encontrar o mamilo materno e sugar a delícia do leite.

Na cozinha a parentada acabara de comer e as mulheres se apressavam para lavar os pratos e as panelas. O quintal onde as aves foram abatidas e limpas, recebia agora um novo cenário.

Um jirau que também era aproveitado como mesa de uma beirada propositadamente preparada, recebia, agora, outro moinho: o de moer grãos de café torrados ao mel da rapadura e acrescentado com porções de mangirioba.

Na latada da frente da casa as visitas aproveitavam aquele delicioso café torrado e moído em casa. Leite de cabra, pão-de-milho, biscoitos e bolachas acompanhavam o tão famoso e desejado café da tarde.

Bons tempos.

Moinho de mesa

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CANOA DOS SONHOS

Navegando em sonhos

“I have a dream!”

Foi isso sim que, um dia, disse Martin Luther King em pronunciamento para milhares de americanos que, como ele, sonhavam com o fim das injustiças, iniciando pela segregação racial.

Pois, eu também tive um sonho. Sonhei de olhos abertos, pensando sempre em um dia poder viver num país diferente deste que os escroques de hoje nos impõem. Tive filhos. Ainda tenho filhos e sempre lhes ensinei o que de melhor aprendi com meus pais. Nunca transgredi pensando que isso (a transgressão) pudesse um dia lhes servir de modelo.

Errei, certamente. Mas errei tentando fazer sempre o melhor, por mim, por eles e principalmente por nós. E até hoje, vi que eles tiveram competência e discernimento para não repetir os meus erros.

Sei, existem muitos, que, não apenas não agem assim, como também não pensam em agir da mesma forma. Pouco se lhes importa o acerto, a retidão, desde que isso lhes mostre retorno material.

Não! Nunca pretendi imitar Luther King. Mas, um dia me vi – em sonho – navegando numa canoa em alto mar. Só eu e a minha companhia divina. A canoa do tempo que me levaria, sem curvas e titubeios, na direção da realização humana e social num país de gente livre. Livre e feliz!

Nesse sonho, ora me via como passageiro e ora era o próprio comandante, remando e puxando a água para ganhar velocidade, e para avisar ao mundo que a canoa, no mar, estava livre e que qualquer um poderia embarcar em algo que não pararia nunca.

Yes, I also have a dream!

E sonho com um País diferente, com práticas e conceitos modernos e evoluídos, mas, principalmente, humanos – e não apenas porque viraram modismo – na convivência entre famílias sem preconceito ou segregação racial e abertura de espaço para a prática religiosa de cada um.

E continuarei sonhando que, um dia, vamos protestar, reclamar, brigar pelos nossos direitos – sem estarmos dirigindo um carro e falando ao celular ao mesmo tempo. Sonho que um dia teremos a prática superando a teoria na cidadania.

Sim, eu sonho.

E, sinceramente, peço para não me acordarem nunca. Me deixem continuar remando e sonhando!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CALDO DE CANA COM PASTEL

Moenda

O calor abrasador se aproxima dos 40 graus. As sombras das árvores não têm muita serventia. Mas, ainda é na sombra, que transeuntes minimizam os efeitos do calor que se torna insuportável.

E a danada da chuva que não vem. Mas continuam as rezas para São José, o Padroeiro do Estado.

Fortaleza, capital do Ceará. Exatamente 10 horas e o sol continuava inclemente. Apressados, passantes procuram as sombras das árvores nas praças. A preferida é a Praça General Tibúrcio, local onde antes funcionou a sede da Prefeitura Municipal de Fortaleza, e naquele mesmo período, a sede da Secretaria de Segurança do Estado.

Ali naquele logradouro aconchegante, o calor é amenizado com ares de oásis e fica melhor ainda se você sentar numa cadeira de um Engraxate para mandar dar um brilho nos sapatos. Se você estiver muito cansado, é capaz de dormir, tamanho é o frescor da brisa que sopra.

Mas, o calor fortalezense também pode ser amenizado em outras duas praças, próximas uma da outra. A conhecida Praça dos Leões com vários acessos para a Rua Sena Madureira e bem próxima do antigo Mercado Central, e a mais conhecida, mas não tão bem arborizada, Praça do Ferreira.

Mas, ainda que sem a necessária arborização, era na Praça do Ferreira que ficava a pastelaria Miscelânea, hoje Leão do Sul, onde é servido o melhor e mais concorrido caldo de cana com o mais gostoso pastel com diferentes recheios.

Caldo de cana caiana

Próximo dali, na esquina da Rua Perboyre e Silva com Rua Floriano Peixoto, ficava o antigo Café Cearazinho, onde o café fazia ameaçadora concorrência para a Miscelânea – essa atravessou o século XX no auge do prestígio.

– Seu Zé, me dá dois pastel e um caldo!

– Cadê as fichas?

– Taqui!

– Pastel de que?

– Um de queijo e o outro de carne!

Pastel de carne e queijo (misto)

Bem distante dali, viajamos horas de avião, ou dias de ônibus, e chegamos a São Paulo. Antigamente, desembarcávamos na Estação da Luz, onde também funcionava o Terminal Rodoviário.

Agora, viajantes por via terrestre (ônibus) embarcam e desembarcam no Terminal do Tietê. São Paulo mudou pouco, se não levarmos em consideração a violência urbana. Quase tudo que existia no Centro da capital, ainda existe hoje. Pouco ou quase nada foi acrescentado.

Distante do Centro, chegamos numa manhã dominical à Feira Livre do bairro Limão, uma das mais concorridas de antigamente, que manteve algumas tradições. Como bares e restaurantes vendendo galetos e um excelente cupim bovino assado na roldana. Uma maravilha. O petisco, servido com pão de queijo e uma cerveja Caracu gelada, não tem concorrência.

Mas, é na feira livre que encontramos a novidade não tão nova assim. Caldo de cana com limão sem semente (para evitar amargar), ambos passados na moenda. Acompanhado de pastel com vários recheios preparados pelos “chinas”. Outra maravilha da vida. Irresistível!

Faz parte da nossa vida cultural e dos nossos hábitos cotidianos, não dar muita atenção à higiene do que se come fora de casa. Assim, o pastel frito na hora é aceito e comido de qualquer jeito. Nunca se soube se a massa ou o queijo estão com validades garantidas.

– O que tem nesse pastel, “china”? (na maioria das vezes o atendente é nordestino e nem se incomoda muito com a nova “naturalidade”)

– Carne de boi e azeitona!

Come-se o pastel até o fim e a azeitona não é encontrada. Da mesma forma, o pastel com recheio de camarão.

– “China” cadê o camarão desse pastel?

– Tu queres um quilo de camarão num pastel desses, é?

E assim, como diálogos desse nível, ainda se come o melhor pastel de São Paulo, acompanhado de um caldo de cana moído com limão.