JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS “MEIZINHAS” DO PASSADO – QUANDO NÃO HAVIA “PLANO DE SAÚDE”

Brasileiro, principalmente nordestino, sabe bem do que vou falar. Doenças, onde quase tudo era resolvido em casa. Até mesmo uma fratura no braço, num dos dedos – o “mastruço” resolvia e o leite de jasmim “adijitorava”, como dizia minha Avó Raimunda Buretama.

Como não existia ainda o “azulzinho”, a gemada (ovos de galinha caipira no chá da casca de jatobá) levantada qualquer defunto – muitos sabem de qual defunto estou falando.

Benzedura com galho de arruda para afastar os males da “espinhela caída” e os maus olhares e até rosário de sabugo de milho para curar tosse nos cachorros.

Doenças da vida, como gonorreia ou esquentamento, lêndeas e piolhos e até chatos, a juventude sabia como resolver, dependendo da faixa etária.

Qual o menino ou a menina tão logo ouvia assuntos relacionados ao sexo e sua prática, que não recorria à masturbação?

Qual o menino que, ao “roçar” (se esfregar) na namorada que não ficava em ereção?

E qual a menina que, ao ser acariciada pelo namorado, que não ficava “molhadinha”?

Claro, estamos falando da juventude dos anos 40, 50 e 60 – a juventude atual resolve mesmo é na cama. Claro, se não tiver aderido ao homossexualismo.

Mas, sabemos todos, a faixa etária menor recorria sempre ao chavão: “eu quero a minha mãe”!

E a ela cabia encontrar a solução. E encontrava, sim.

Pomada Minâncora fazia milagres

“A Pomada Minâncora é um cicatrizante, antisséptico e adstringente para tratar e prevenir doenças da pele como espinhas, frieiras, escaras e como coadjuvante no tratamento de picadas de insetos, urticárias e pequenos ferimentos superficiais.

Além disso, também pode ser utilizado para prevenir odores desagradáveis nos pés e axilas ou contra o ressecamento da pele.

A função antisséptica da pomada Minâncora evita a proliferação de micro-organismos presentes na superfície da pele, enquanto a função adstringente cria uma camada protetora e contribui para a diminuição da inflamação. Contraindicado para menores de 2 anos e alérgicos a qualquer componente da fórmula.”

Vick Vaporub unguento milagroso

VICK VAPORUB (levomentol, cânfora e óleo de eucalipto). Indicações: é destinado ao alívio da tosse e do mal-estar muscular que acompanham gripes e resfriados, além da congestão nasal.

Biotônico fortificava tudo

O Biotônico Fontoura é um suplemento mineral, principalmente à base de ferro, utilizado para complementar a ingestão diária de nutrientes e, em particular, para ajudar a combater a anemia carencial. Também é recomendado para ajudar a estimular o apetite, especialmente em crianças e em casos de perda de apetite.

Para que serve o Biotônico Fontoura:

Estimulação do apetite:

Pode auxiliar no aumento do apetite, especialmente em crianças e em situações de falta de apetite.

Prevenção de fadiga:

Ajuda a reduzir a sensação de cansaço e fadiga, comum em casos de carência de ferro.

Fortalecimento da imunidade:

Contribui para a manutenção da saúde do organismo, fortalecendo o sistema imunológico.

Melhora da aprendizagem:

Em crianças, pode ajudar a melhorar a concentração e a disposição para o aprendizado.

Contraindicações:

– Hipersensibilidade aos componentes da fórmula.

– Anemias que não sejam causadas por falta de ferro (como a anemia megaloblástica ou a anemia sideroblástica).

– Tuberculose ativa, úlcera duodenal, gastroenterite, hepatite, insuficiência hepática, hemossiderose ou intolerância gástrica ao ferro.

Observações:

– O Biotônico Fontoura não engorda, mas pode ajudar a aumentar o apetite, o que pode levar a um ganho de peso saudável quando combinado com uma dieta equilibrada.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

HOMEM?

O parque no outono

O homem.

Quem é o homem e o que veio fazer na Terra, além de ter retirada uma das costelas (quem retirou essa costela – se ainda não havia Cirurgião?) ?

Seria ele uma estrela cadente, ou apenas e simplesmente um Homem?

Crio borboletas. Crio borboletas mil. Nunca vi uma borboleta “matar” outra da sua espécie, tampouco um ser vivo de espécie diferente.

E o homem – por que um homem “mata” outro homem?

Por que os homens não viram borboletas, e saem a voar, sem pesos à carregar?

Pois, a magia de Deus se fez borboleta no início da tarde de ontem, num campo onde as folhas do outono caídas das árvores se transformavam num tapete, constantemente modificado e multicolorido pelo vento.

Sentado num velho banco em desuso no parque, onde as folhas conversam umas com as outras, numa linguagem que só a ingenuidade do amor traduz e entende, um homem de roupa simples, envelhecidas pelo excesso de uso, chapéu na cabeça, óculos escuros e uma bengala à mão pronuncia:

– Que coisa linda esse sol, nesse casamento com o vento!

Nisso, uma jovem que passeava no parque, parou a bicicleta e indagou:

– Ué, você é cego mesmo? Como está vendo isso?

Continuando sentado, o Homem apenas respondeu:

– Eu sou cego, sim. Mas o amor enxerga todas as coisas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MAIO: MÊS DAS ROSAS

Hoje começa o mês de junho, último mês do primeiro semestre – até aqui o ano foi bom, não fosse uma forte gripe que me abateu e desmotivou por vários dias – que jamais deixará para trás o mês de maio. Mês das rosas, mas, para mim, mês das mulheres.

Nasceram no mês de maio, mulheres que marcaram minha vida e me ajudaram nessa longa e correta caminhada. Não fosse as nascidas em maio, teria a comemorar apenas o dia 14 de abril.

Assim, sem citar nomes, agradeço o companheirismo e as agruras que, como uma estufa, me ajudaram a amadurecer.

Atualmente minha vida é dividida com quem nasceu no dia 2. Antes, a luz foi acesa na bifurcação para a vida, no dia 25, quando alegrias e tristezas apareceram, mas acabaram por me fazer sentir um homem, um humano, um amante da vida.

E por que eu esqueceria 24?

Não. Não dá para esquecer quem foi a minha tapioca, o meu cuscuz, o meu baião-de-dois, a minha água com limão e a minha alegria de caminhar, os dois, de mãos dadas e na mesma direção.

Assim, sem flores, mas com a experiência e a ajuda dessas três datas, o mês de maio marcou a minha vida – tenho certeza que de forma positiva.

“Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento”

(Raimundo Fagner / Cecilia Meirelles)

Sensualidade é o teu nome

Ao longo da caminhada a vida me pregou peças. As boas me fizeram lembrar de ti, dos momentos que, generosamente, dividistes comigo – foram, sei, os nossos momentos. Momentos das nossas intimidades e do prazer dos nossos corpos naqueles momentos carentes, cujo resultado molharam nossos lençóis.

“Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher
Como te atreves a mostrar tanta decência?
De onde vem tanta ternura e paciência?
Qual teu segredo, teu mistério, teu bruxedo
Pra te manter em pé até o fim?
Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher”

Compositores: Ivan Lins / Vitor Martins

Saciada que me saciava

Hoje, lembrar é como reviver tudo por completo. Cada momento vivido, cada beijo era uma troca do que sentíamos mutuamente – e ainda que estivéssemos a apreciar o pôr-do-sol era em nós que os lampiões da vida se acendiam.

Transmitias vida em cada beijo, que, para mim era uma transfusão de carinho, de amor e embevecimento.

“Tens a beleza da rosa
Uma das flores mais formosas
Tu és a flor do meu lindo jardim
E eu a quero só para mim

O teu suave perfume
Às vezes causa-me ciúme
Ao te beijar sinto no coração
O pulsar da mais pura paixão, porém

Tenho medo que tua beleza de rosa
Se transforme num espinho
Quase morro só em pensar
Em perder teu carinho”

Compositores: Pedro Antônio Ferreira / Hélio Villar

Lábios que só ligavam amor

Enfim, todo começo terá sempre um fim.

Maio em flores – vivemos quantos? – nos faz ver a vida com nossos olhos e amar a nosso modo. Agora, chega junho.

Temos que enfrentar o som das matracas, dos pandeirões e dos maracás. Tomara nos rejuvenesça e nos proporcione no próximo ano, mais um maio das flores com os dias 2, 24 e 25.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS CAMBITOS E AS PANELAS “AREADAS”

“Cambitos para carga em animal” refere-se a ganchos de madeira usados para transportar cargas sobre animais, como burros, cavalos e mulas. Esses ganchos, também conhecidos como “ganchos de madeira”, são colocados sobre a cangalha (uma estrutura que se fixa no animal) e servem para fixar a carga, como lenha, capim, ou outros materiais”.

Cambitos

A rotina funcionava como um desenho. Todo ano, no último dia de aulas na escola, a entrega – via de regra com alegria – do calhamaço de provas e as boas notícias da aprovação. Naqueles tempos, os alunos eram aprovados, porque aprendiam. Diferente de hoje.

A chegada em casa sequer merecia parabéns, pois a boa notícia, repito, era a rotina.

– Vamos viajar amanhã, cedinho. As passagens já estão compradas. Vá dormir cedo, mas antes arrume a mala (ainda não haviam inventado a valise, tampouco aquela maleta com rodinhas e puxador de mão) com as coisas que vai precisar. Ordenava a mãe.

No dia seguinte, sem o cantar do galo, mas, mal dormido pela ansiedade da viagem – o ônibus saía da Cidade da Criança às 8 horas, em ponto – o café preto com pão sem manteiga, na verdade representava um desenho da alegria da chegada na casa da Vovó, onde café torrado em casa, leite de cabra fervido, cuscuz feito no prato, coalhada e batata doce cozida compensavam o café preto de casa.

A viagem era rápida. Demorada era a caminhada no caminho cheio de terra que nos obrigava a retirar os sapatos para poder caminhar mais rápido, antes que o sol esquentasse.

Na chegada na casa da Vovó, o café era reforçado. O Avô, como presente por mais uma aprovação na escola, preparava uma baladeira nova, feita com a melhor borracha de câmara de pneu. O neto ganhava, também, um badoque cheio de pedras para a baladeira. A alegria era explosiva. Presente melhor, nunca houve.

Eis que, passada a alegria da chegada era iniciada a preparação para a rotina do dia seguinte:

– Zezim, meu fio, vá pegar o jumento na capoeira, aprepare ele e vá buscar dois caminhos d´água! Se avexe menino, se não o animal vai muito longe!

Aquele trabalho fazia parte da alegria rotineira das férias. Havia algum tipo de trabalho para compensar os nacos de rapadura, as cuias de farinha com açúcar e, às vezes, até as mariolas compradas pelo Avô no dia anterior.

Jumento “Pretinho” carregando água

O primeiro “caminho d´água” era para os afazeres domésticos. O segundo era para encher os potes de beber e as quartinhas – uma ficava na janela, para refrescar com a batida do vento – e a sobra enchia a terrina que ficava na sombra. Era para as aves e no fim de tarde para molhar a frente da casa antes de ser varrida.

As conversas eram postas em dia entre os avós e a mãe.

Eu ia usufruir da baladeira nova e do badoque de pedras. Conseguia matar algumas rolinhas “caldo de feijão”, e ainda voltava para tomar banho nu no açude. Aproveitava para atirar nas galinhas d´água e marrecas que se fartavam com a água do açude.

Voltava, sempre, antes do anoitecer. Bem na hora do jantar estar botado na mesa – onde todos comiam à vontade depois das orações de agradecimento. Sem telefone celular.

Panelas areadas e postas à secar

Quem vinha da cidade grande para passar férias no interior, trazia sempre alguma novidade. Mamãe comprava no prestamista (pagamento mensal) algumas panelas e outras vasilhas para a Vovó.

Tudo de alumínio. Antes do uso, eram escaldadas (na água fervente) e areadas com sabão, areia lavada e esponja de cerca. Depois, eram postas a secar e a brilhar no sol!

O que acontecia de ruim, era que aqueles trinta dias passavam mais rápido que a chuva fininha do verão – quando achávamos que deveriam demorar mais que enxaqueca menstrual das mulheres.

No último dia, a rotina. Arrumar a mala para a volta. Agora, tinha um apetrecho a mais: a baladeira nova presenteada pelo Avô.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MORENA TROPICANA – EU QUERO SEU CALOR!

Simplesmente perfeita

Morena Tropicana – Alceu Valença

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo
Melão maduro, sapoti, juá
Jaboticaba, teu olhar noturno
Beijo travoso de umbu cajá

Pele macia
Ai! carne de caju!
Saliva doce, doce mel
Mel de uruçu

Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vem me desfrutar!
Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vou te desfrutar!

Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!

Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!

Alguém já parou para pensar e apreciar a beleza da mulher brasileira, independente da sua proximidade com ela?

Pois, faça isso!

Faça isso e veja que, a ausência dos olhos azuis e transparentes é compensada pela tez da cor de jambo e emoldurada pelas curvas sempre mais perigosas que as curvas da estrada de Santos. Delineadas, definitivas, sem obstáculos, e como se tudo isso não bastasse, com versos poéticos escritos por Deus através da Natureza.

Nas fotos anexadas para ilustração, observe atentamente o conjunto de perfeições que faz essas meninas morenas tropicanas, e brasileiras. Precisa de olhos azuis?

E a beleza escuda detalhe importante em se tratando de Brasil: é afrodescendente! E alguém liga para isso?

Observe as bocas dessas belezuras com o lábio superior protegido por um buço apenas imaginável, mas perceptível quando a respiração nasal fica mais ofegante.

É linda! É brasileira! É tropicana!

A beleza da mulher brasileira

A televisão tem sido o altar onde aparecem algumas mulheres quase santas – mas anjos, com certeza – como um desafio para quem tanto aprecia a beleza de dançar o tango, banhar nu num igarapé ou simplesmente apreciar e tentar vencer o desafio que é a beleza dessas mulheres.

Foi a Vênus Platinada quem nos apresentou a beleza agressivamente brasileira da Vênus Tropicana dos olhos levemente esverdeados.

As novelas globais de hoje não demonstram muitas preocupações com as qualidades interpretativas de atores e atrizes. O que tem interessado é a beleza fisionômica aliada a beleza física. O resto não conta muito.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ AMARGO E O FUBÁ DA MINHA TIA

Rapadura cortada para adoçar o café

Nunca pense que a vida na infância é só peraltice, escola, comida boa ou jogar bola e andar de bicicleta ou qualquer outro brinquedo, pois a infância tem também suas agruras e dificuldades.

Papeira, ou caxumba?

Sarampo, conjuntivite (no Ceará, “dordói”), dedo dismintido, coqueluche, bexiga – acredite, isso não é nada bom. Que já enfrentou, sabe como é.

Isso, sem contar as surras (no Ceará, “pisa”) com cipó de marmeleiro, os castigos em casa e na escola – além daqueles famosos: “quando a gente chegar em casa, vamos conversar”; ou ainda a ansiedade da pisa antecipada, com o famoso: “quando teu pai chegar, vou contar tudo pra ele”!

Gripe com febre alta e assistir o aparelho fervendo com a ampola e a agulha para tomar aquela injeção que doía mais que parir uma criança?!

Tudo café pequeno.

Tomar banho, querendo ou não – porque está na hora!

Ouvir: “vá banhar, daqui a pouco vou lhe esfregar, pra tirar esse “serôto” do cangote”!

Todas essas coisas, boas e ruins que acabam sendo boas por que vão somar no aprendizado da vida, representam a convivência da universidade familiar, que vai nos acrescentar mais que qualquer mestrado ou doutorado.

É a verdadeira graduação da vida. Com diploma para emoldurar e exibir na parede da vida – quando os cabelos branquearem, as articulações começarem a doer e a urina começar a cair fora do vaso sanitário.

Fubá de milho torrado e pilado

Mas, como focar nesse “remake” da vida deixando de lado o que de bom enfeitou nosso viver?

Alguém conhece uma criança que, mesmo vivendo dificuldades, não tenha sido feliz?

E, assim sendo, quem teria inventado a frase: “a gente era feliz e (não) sabia”?

Eu fui feliz, sim senhor – mesmo enfrentando ao longo de oitenta anos os problemas que enfrentei. Mas, me atreveria a olhar para trás e repetir muita coisa.

Roubar a rapadura da Vovó (que, no fundo, era minha também), guardada numa cumbuca debaixo de sete chaves – única e exclusivamente para adoçar o “nosso café”.

Ajudar a socar no pilão o milho torrado para fazer fubá, pôr na boca uma mancheia e tentar falar: “minha Tia é boa porque pode”!

Pois é. Ser feliz é fazer e ver acontecer coisas simples, que, às vezes, apenas nós entendemos.

E, sinceramente falando, esse é o somatório da vida. É o que significa viver e ser feliz.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DOR DA SECA

O dia-a-dia do sertanejo

A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuassem a acalentar um sonho. O sonho do vento, e mais tarde, o milagre da chuva.

A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que nem os mais fortes conseguem suportar.

Doía.

Doía muito mais que um corte sangrando em qualquer local do corpo.

Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito.

Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna.

Doía muito. Doía mais que a sede ou o martírio de sonhar com a água.

Eu não sabia que doía tanto.

A seca dói.

Dói mais na alma – e perpetua essa dor – que no corpo. Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve.

Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.

Não há poesia nesse sofrimento. Só dor. Dor que dói.

A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais.

A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não.

A dor dói.

A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo. Não há direito de escolher o cardápio, porque a fome é analfabeta e não escreve nada e tampouco consegue ler. Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.

A seca dói.

Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.

Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.

Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”.

Coisa de gente que nunca sentiu dor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FÉ ME TROUXE ATÉ AQUI – 82 ANOS

Nunca será fácil envelhecer, principalmente enfrentando os obstáculos físicos que enfrentei.

Quem percorreu o caminho que percorri, se consegue chegar aonde cheguei, se estiver desde a chegada e visão da luz, segurando na mão de Deus.

Não é fácil. Nunca será.

Quando cheguei, só depois de meses, segurei na mão de Deus e aprendi a andar. Nunca larguei a mão de Deus, e ainda me acostumei, nos dias de hoje, caminhar mais devagar, paciente, confiante e sem perder a Fé.

Não é fácil. Nunca será – para mim, ou para qualquer outra pessoa.

Cheguei nesse mesmo 30 de abril, faz tempo. Muito tempo. Assim, olhando para a frente e confiando em Deus, disse adeus ao que fui quando nasci e hoje, continuando com a mesma Fé, agradecendo a Ele, no homem que me tornei.

Aniversariar não é apenas ultrapassar mais uma primavera. É ter consciência que alguém te trouxe para que visses a luz do dia, e, agradecer sempre e todos os dias dobrando os joelhos para quem te mantém vivo. Ele!

Não é fácil fazer aniversário.

Não, não é.

Ao fazer a assepsia matinal, o espelho está na frente. Aceite as rugas, pois elas são apenas as tatuagens dos caminhos andados, dos perigos enfrentados e vencidos, dos problemas resolvidos como se fossem equações fáceis – por você continuar segurando na mão de Deus.

As rugas, os cabelos brancos, os dentes amarelecidos, o caminhar lento e até a audição diminuída representam em quem envelhece, os troféus da vida – e que você está prestes a ouvir no lugar da entonação do hino pátrio, a trombeta celestial convocando para perfilar.

Não, não é fácil envelhecer.

Você tem que aprender a não esperar nada de ninguém.

Caminhar sozinho pelo caminho que Deus te mostra – esse caminho bifurcado para alguns, é o único que te levará a aniversariar.

Hoje, 30 de abril, sempre segurando na mão de Deus, tenho o privilégio divino de alcançar 82 anos – e ainda consigo lembrar que, ao dar os primeiros passos, tal como faço agora, agradeci a minha saudosa Mãe.

Desde então, nunca mais larguei a mão de Deus.

Nunca fui dependente de qualquer vício. Nunca usei qualquer tipo de droga. Nunca furtei nada de ninguém. Nunca matei. Nunca adorei o bezerro fantasiado de ouro.

Tive uma Mãe. Tive um Pai. Tive a proteção da minha Avó – e espero ter a honra de ter a proteção de Deus até meus últimos suspiros. 

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CHUVA CHOVENDO

A chuva – mais uma poesia divina

O hábito da leitura noturna na varanda é interrompido pela força e luminosidade de um raio que transforma os céus num dia comum. É rápido, mas chamou a atenção de muitos. Não me excluiu.

Paro de ler. Retiro os óculos, fecho o livro (O Crematório Frio – József Debreczeni) e sou atraído pela chuva fina que começou a cair.

Olho e vejo a chuva, chovendo!

Embevecido pela magia repentina e envolvido pela força da beleza visual que a Natureza proporciona, levanto da cadeira de palhinha e vou até a camarinha procurar um cobertor – quero limpar o ego e me deixar entregue aquela beleza, agora noturna. Volto à varanda e à cadeira sentando na posição fetal, agasalhado e pronto para apreciar um dos momentos mais belos daquela hora.

A chuva chovendo. Fina, como toda beleza o é.

Olho a chuva caindo, e viajo.

Viajo sem sair do lugar, sem pegar trem ou avião. Viajo em pensamento, tangendo as nuvens, organizando cada uma delas para que não parem de cair, fina, mas perene – pelo menos naquele pedaço de noite.

Envolto no cobertor, levanto.

Vou até a cozinha e pego uma caneca de café. Volto e sento para ver e tentar entender os versos daquele poema que jamais será visto e lido por outras pessoas. Só eu, naquele momento mágico que me embriaga e me faz ébrio da poesia.

Olho para o telhado e a chuva continua fina. Fininha, mas cada minuto que passa, fica mais suave e mais bela. Poética chuva.

Olho para o chão e sinto vontade de jogar fora o cobertor, levantar da cadeira, retirar a roupa e correr nu para absorver ainda mais aqueles versos escritos pela Natureza.

A chuva que choveu

Chove chuva. Chove!

Choveu!

A magia inicial daquela noite, como se fora a última página de um livro, terminou. Olho e procuro entender o que vi. O que vi, com certeza, foi um momento, ou mais um poema da Natureza.

Termino o café. Olho o fundo da caneca, agora vazia.

Olho para fora e não vejo mais a chuva. Mesmo a chuva fininha que me absorveu e encantou por minutos. Talvez horas, pois sequer vi o tempo passar. As luzes artificiais da rua começam a ser apagadas. A claridade natural do dia está tomando as rédeas do lugar.

A chuva choveu!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PAPEIRO É MEU!!!

Como se fora um texto de uma peça teatral, lido e relido várias e incansáveis vezes, até decorar. Afinal, é uma representação para determinado público.

Eis que as cortinas se abrem, e, mesmo diante de tanto tempo (já se vão mais de 70 anos), vejo a figura da minha mãe, com a única filha “escanxada” – forma de falar cearense – no lado esquerdo, sobre a bacia, enquanto mexia o papeiro do mingau com a mão direita.

A menina, com uma coriza incurável, enquanto chorava pela demora do mingau, deixava escorrer aquele catarro nariz e boca abaixo, que descia pelo ombro da mãe.

– “O papeiro é meu”! Gritava eu.

– “É meu, eu pedi primeiro”! Gritava meu irmão mais novo.

Enquanto a mãe se apressava em apagar o fogo, ao tempo que lavava a mamadeira (no Ceará, há quem chame “chuca”), os dois irmãos, entre empurrões, digladiavam pela posse do papeiro, onde a mãe, de propósito, deixava sempre um pouco do mingau.

E a rinha acabava, quando a mãe, com a necessária autoridade, decidia:

– “Hoje é do José”! Mas, não lamba a colher de pau, finalizava!

Leite em pó distribuído pelo FISI

Há muito tempo existe o leite Ninho. Depois, apareceu o Mococa, e anos depois, o Glória.

O dinheiro que o pai ganhava, feitas as demais despesas domésticas necessárias, mal dava para comprar duas latas de Ninho, a cada mês. Daí minha mãe precisar recorrer ao leite em pó do FISI, uma entidade americana que fazia a distribuição gratuita.

Minha mãe recebia aquele leite e colocava na lata vazia do leite Ninho. Ficava mais fácil “medir” quantas conchinhas podia usar para preparar o mingau. Duas conchinhas e meia eram suficientes para o mingau – quatro vezes por dia.

Por quatro vezes, a mesma cantilena:

– “O papeiro é meu”!

No último mingau do dia, o papeiro já não era mais de ninguém, pois os dois estavam dormindo – a escola esperava no dia seguinte.

A conchinha que media o leite em pó

Mas, antes mesmo da briga pelo papeiro onde ficava sempre um pouco de mingau, quando um dos dois irmãos “perdia a disputa”, o outro não falava nada. Nem podia falar. Metade da conchinha do leite em pó estava pregada “no céu da boca”.
O risco de ser flagrado e tomar uns catiripapos era grande, pois aquele leite recolocado na lata do leite Ninho, precisava ser regrado para “demorar até o fim do mês”!

O papeiro

A peça, em três atos, terminou. Mas, as cortinas continuam abertas e o texto imutável continua sendo escrito para ser decorado.

A atriz principal, no papel de mãe, não está mais no Teatro – certamente está preparando outros mingaus, embora não escute mais o som de:

– “O papeiro é meu”!

A menina com coriza escorrendo nariz abaixo pelo ombro da mãe, também já está no outro plano, o mesmo acontecendo com aquele que, em disputa saudável, dividia o privilégio do papeiro. Com certeza não precisa mais ficar calado por conta do leite em pó surrupiado colado “no céu da boca”!