O Alzheimer de Papai o faz esquecer de muitas coisas. De alguns nomes, de muitos momentos, de pessoas… Até deste filho que, para ele, aos poucos, tem virado o seu irmão Chaguinha, falecido em 1978.
“Ô Chaguinha, chegou agora de onde? Passou por Acary? Foi lá em casa?”
Cada vez mais alheio à realidade, Papai vai se distanciando de suas lembranças e dos seus prazeres.
A maior parte do tempo não reconhece sequer a casa onde mora há mais de meio século.
Dia após dia reclama de não viver mais em nossa amada Acary.
Hoje me fez prometer que amanhã iremos por lá, digo, visitar Acary.
Depois da promessa eu tive a curiosidade de lhe perguntar como se chama a cidade (de sua imaginação) onde ele está vivendo. Para minha surpresa ele respondeu “Rockefeller”.
Meu Deus! De onde surgiu esse nome na memória de Papai?
Aí, se pôs a comparar a sua megalópole Acary “com essa porcaria de cidade, que nem igreja tem”.
Papai vai esquecendo das coisas. No entanto, eu ainda lembro de não esquecer alguns prazeres dele. E, como não podia deixar de ser, não esqueci de trazer o seu “pão italiano da Bauducco” para o Natal.
Aliás, o Alzheimer não conseguiu ainda fazer com que Papai esqueça essa satisfação. Esse sabor da vida.
Amanhã nosso café em Rockefeller será mais gostoso. E com esse prazer na alma iremos, ele e eu, à Acary que Papai não esquece.
PS.: Com a satisfação de viver o prazer de Papai, desejo a todos os melhores votos de Boas Festas.
Natal é tempo de pensar, mais ainda que em outros momentos da vida, no que vai bem dentro de cada um de nós. No mais profundo e no mais alto. Aproveito essa data, então, para falar de um livro que vi nascer. Já lançado no Brasil, este fim de ano, pela Ed. Record. Em 2023, será com a Bertrand (Portugal). E, a partir de 2024, no resto da Europa. Importante, sobretudo, porque fala nos começos do homem, “com a violência dos primeiros tempos convertida em justiça, compaixão, misericórdia, perdão”. O que tem tudo a ver com esse tempo do Natal, especialmente por ser um modelo de fraternidade. A partir, e nisso é original, dos alimentos que estão na Bíblia. Por mais de 10 anos, todos os dias (incluindo finais de semana), já às 5 da manhã, Maria Lectícia estava trabalhando nele. Na busca (infrutífera, por sermos humanos) pela perfeição. E o resultado foi compensador, por favor acreditem. Pretendia hoje, véspera do Natal, falar desse livro, A mesa de Deus. Mas prefiro transferir essa tarefa ao Cardeal Dom José Tolentino Mendonça. Que o conhece tão bem quanto eu. São dele as palavras que se seguem, tiradas de apresentação do dito livro (uma pequena parte dessa apresentação, apenas). Passo a palavra, então, ao Cardeal.
“Na arquitetura de muitas casas há duas portas: aquela principal, a mais utilizada, por onde circulam os hóspedes com quem fazemos cerimônia; e a porta de serviço que, normalmente, dá acesso direto à cozinha, por onde passam apenas aquelas pessoas que têm grande familiaridade com a casa. Num primeiro relance, poderá parecer estranho um livro que se ocupa dos alimentos e da cozinha da Bíblia: Não é essa a entrada de acesso principal, diríamos todos. A verdade é que sendo, incontestavelmente, o livro mais conhecido e frequentado do mundo, uma parte significativa dos seus leitores ainda faz muita cerimônia. Isto é, ainda não se acentuou numa imersão total na Escritura, aliás, como a própria Bíblia reclama que façamos. Não é por acaso que, para construir este fascinante volume, Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti precisou de mais de uma década. É preciso colar-se à letra do livro, pele com pele, valorizá-lo com aquela atenção intransigente, humilde e interminável que nos dá o amor.
“A cozinha é um aspecto da casa. A sua grandeza vem de se colocar ao serviço, está na arte de secundar. Inesquecível e elegante arte, devemos dizer. Este livro não compete com os dicionários, as concordâncias, os comentários que fazem habitualmente a riqueza da biblioteca que suporta a hermenêutica bíblica. Junta-se a eles como mais um instrumento, como mapa para o prazer de ler. Este livro participa desse esforço coral de pesquisa. Que uma mesa não é só uma mesa. Também por isso, para os leitores da Bíblia, o livro de Maria Lectícia oferecerá estratos complementares de conhecimento: constitui uma espécie de micro-história da Bíblia.
“A cozinha é uma máquina de suscitar desejo. Não nos devemos admirar que uma das últimas palavras de Jesus tenha sido: Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco (Lc 22, 15), associando sabiamente a refeição do desejo. A cozinha e a mesa não reduzem o mundo: ampliam-no supreendentemente. Para quem quiser ver, a alimentação é um tema particularmente denso, onde avultam e se colhem alguns dos códigos mais intrínsecos das culturas. Quando se chega a perceber o conteúdo e a lógica da alimentação, a ordem que regula a cozinha e a mesa (o que se come, como se come, com quem se come, o significado dos diversos lugares e funções à mesa…), alcança-se um saber antropológico determinante, dos outros e de nós próprios. Maria Lectícia escreveu este livro também para que nós pudéssemos ler.
“Por outro lado, se atendermos à massa impressionante de prescrições culinárias presentes na Bíblia, não nos parecerá despropositado e excêntrico que se fale de uma autêntica teologia alimentar ou se identifique no texto sagrado judaico e cristão um esplêndido catálogo de receitas. De certeza que a escrita deste livro alterou a percepção que a sua autora tinha da Bíblia, e poderá alterar a dos leitores. Mas no melhor dos sentidos. Tornando de casa o leitor, ajudando-o a perceber a articulação entre saber e sabor, convocando-o para uma familiaridade com este texto inesgotável, desconstruindo o automatismo das leituras abstratas e gnósticas que olham para a Bíblia como um livro de verdades, onde a letra é relativizada e desconhecida.
“A torrente de passagens bíblicas referentes a alimentos e à mesa que Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti, com mão informada, com mão pacientíssima e brilhante, aqui revisita não são, portanto, uma marginalia destinada a ser etiquetada sob a categoria de curiosidades ociosas. Entrar na Bíblia pela porta da cozinha é um argumento mais sério do que se possa supor. E também é espiritual. O título escolhido para esta obra está certo. E o livro dá a provar o que promete. Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti oferece-nos aqui uma daquelas experiências que não vamos querer esquecer”.
PS. A todos e cada um desejo, com o coração, um Natal que seja esplendoroso. Feliz Natal, pois.
A volta de Lula e do PT ao poder “ressuscita” inúmeros políticos que protagonizaram os maiores escândalos de corrupção de todos os tempos, que inscreveram em suas biografias passagens pela polícia e pela prisão.
Caso do ex-deputado Geddel Vieira Lima, que foi condenado após a Polícia Federal encontrar malas com R$ 51 milhões em espécie, roubados dos cofres públicos.
Na Câmara, já apareceu um bolão para indicar em quanto tempo Geddel reassumirá a vice-presidência da Caixa, que exerceu no governo Lula.
* * *
A partir do próximo dia 1º de janeiro, a ladroagem volta a ser instalada na administração federal.
Escancarada, arreganhada, aberta, com uma fome insaciável.
O ladrão Geddel é apenas um das centenas de nomes que estão na lista dos ratos que deverão ocupar cargos importantes no governo do Ladrão Descondenado.
Onde houver um queijo bilionário, lá estará um deles roendo.
Geddel, saudoso, ansioso e nervoso, aguardando a posse do seu chefe comparsa
O procurador Eduardo El Hage, que chefiou a Lava Jato no Rio de Janeiro
O adágio de dois pesos e duas medidas nunca foi tão apropriado para descrever as ações do Judiciário brasileiro. Enquanto corruptos condenados encontram a redenção, saindo pela porta da frente dos presídios sem cumprir suas penas – alguns até para se candidatar a cargos políticos –, aqueles que ousam se colocar contra os esquemas de corrupção que há décadas mancham a política brasileira são tratados como criminosos. O mais novo capítulo desse enredo, infelizmente, nada novo, aconteceu na última segunda-feira (19).
Na mesma data em que o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral – cujas condenações já somam 430 anos de prisão por crimes como corrupção ativa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha e organização criminosa –, saía da Unidade Prisional da Polícia Militar, em Niterói, com destino a um imóvel da família em Copacabana, procuradores que atuaram na força-tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro eram julgados pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Em março de 2016, membros do Ministério Público denunciaram os senadores Romero Jucá, Edison Lobão e seu filho, Márcio Lobão, por crimes na construção da Usina Angra 3. Uma matéria institucional publicada no site do Ministério Público Federal noticiou o oferecimento das denúncias, o que, segundo a Corregedoria Nacional do Ministério Público, não poderia ter acontecido, uma vez que o processo estaria sob sigilo. O detalhe é que a própria Justiça reconheceu posteriormente que o processo não estaria sujeito a sigilo e, portanto, poderia ser noticiado. Ainda assim, a corregedoria abriu, em junho de 2021, a pedido dos senadores investigados, um processo administrativo disciplinar (PAD) contra 12 procuradores para investigar “prática de infração funcional”, o que poderia levar os procuradores a perderem seus cargos.
Em março de 2022, o PAD foi finalizado pela comissão responsável, que concluiu pela improcedência da denúncia. No relatório, assinado pelo relator Ângelo Fabiano Farias da Costa, consta que a comissão considerou “ausentes elementos de materialidade aptos à configuração da infração disciplinar”. O documento explica ainda que o sigilo havia sido imposto de forma automática pelo sistema eletrônico de peticionamento e-Proc, sem que houvesse real pedido de autoridade judicial impondo sigilo ao processo.
Mas contrariando a posição do relator, a maioria dos membros do Conselho Nacional do Ministério Público entendeu que houve, sim, quebra de sigilo e aplicou a pena de suspensão de 30 dias ao ex-coordenador da Lava Jato no Rio de Janeiro, Eduardo El Hage. Além disso, o procurador ficará impedido de participar, por cinco anos, de forças-tarefas, grupos especiais ou mesmo de ocupar cargos de confiança no MPF. Já a procuradora Gabriela de Goes Anderson Maciel Tavares Câmara, responsável pelas tratativas que levaram à elaboração e à publicação no site do MPF do Rio, recebeu a pena de censura. Os demais procuradores foram absolvidos.
Durante cinco anos, El Hage chefiou as ações da Lava Jato no Rio de Janeiro, que levaram à prisão de Sérgio Cabral entre mais de 300 pessoas envolvidas em esquemas criminosos no estado. Em abril do ano passado, ele assumiu o comando do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) no âmbito do MPF-RJ, e entre os casos que estavam sob sua mira estavam justamente os envolvendo Sérgio Cabral e os esquemas de favorecimento para a construção da Usina Angra 3. Agora, com a decisão do CNMP, El Hage deixa o comando do Gaeco fluminense.
Esse é mais um dos inúmeros duros golpes desferidos contra a Lava Jato. No afã de destruir o legado de uma operação que, pela primeira vez na história brasileira, conseguiu romper o ciclo de impunidade que mantinha intactos os profundos esquemas de corrupção dentro dos governos, os detratores da Lava Jato adotam a tática da perseguição e se debruçam sob insignificâncias, que nem de longe comprometem a relevância dos serviços prestados pelos procuradores e juízes da operação.
O mesmo esmero da Justiça em analisar eventuais erros – que, levando em conta o tamanho e amplitude da Lava Jato podem ter ocorrido –, infelizmente, não se aplica quando se trata de examinar a ação contumaz dos corruptos e bandidos que continuam a achar-se no direito de rir das pessoas de bem, certos de que permanecerão impunes. Enquanto políticos como Sérgio Cabral acharem que poderão se sair incólumes enquanto aqueles que ousam denunciar seus esquemas corruptos são perseguidos e tratados como bandidos, estaremos cada vez mais longe de ser uma nação livre da praga da corrupção.
Nilo Pereira, professor, político, jornalista e escritor
Lamento não me lembrar quem apelidou o jornalista Nilo Pereira de “O Nilo do Nordeste”. Isto, porém, foi a forma de se transformar, por instantes, aquele cidadão de semblante austero num personagem com um “meio sorriso” como este aí da foto.
Desejava-se associa-lo ao grande rio da África, um dos mais extensos do mundo, famoso por sua história antiga e pelos sítios arqueológicos que existem nas suas margens.
Nilo Pereira representou em vários tempos de sua prolongada vivência um dos grandes nomes que no Recife aportaram para viver até os finais dos seus dias sob os holofotes e impulsionar nossa cultura em várias áreas.
Nasceu no município de Ceará-mirim, no Rio Grande do Norte e aos 15 anos se iniciou escrevendo para jornais. Depois viveu em Natal, iniciou curso de Direito no Rio de Janeiro concluindo-o na Faculdade de Direito do Recife, cidade onde veio para ficar e aqui constituiu família.
Na “Folha da Manhã”, jornal de Agamenon Magalhães, foi Chefe-de-redação durante muitos anos e somente depois que a chamada “Folhinha” encerrou sua circulação, firmou-se no Jornal do Commercio, de onde foi editorialista durante várias décadas.
Devo-lhe os fundamentos de meu saber nesta arte, quando no Ginásio Pernambucano conseguiu organizar o primeiro curso de jornalismo que funcionou informalmente no Recife, beneficiando os jovens iniciantes lhes oferecendo os melhores caminhos para se tornarem bons profissionais.
Quando em junho de 1986 publiquei “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”, solicitei seu prefácio. Foi parte de um depoimento sobre nossa velha amizade. Generoso logo nas primeiras linhas, recordando tempos do jornal em que escrevi, ainda com 15 anos, o que muito me envaideceu:
Conheci Carlos Eduardo na antiga “Folha da Manhã”, da qual fui Redator-chefe. Era o que é hoje: ágil, desembaraçado, dinâmico, com extraordinário faro de repórter.
Este colunista, Nilo Pereira e Amílcar Matos
O lançamento daquele livro correu no hall do velho City Bank, no Recife e ali nos reencontramos, como aliás, sempre ocorria em vários momentos jornalísticos quando a classe se reencontrava, inclusive durante reuniões na Associação da Imprensa de Pernambuco.
Do seu Prefácio transcrevo outra parte interessante:
A História, hoje, não é apenas o documento frio, amarelecido nos arquivos, quase inerme. É o que se está passando aos olhos de toda a gente.
A História oral nos dá o bom exemplo de cada instante na época do povo, nas tradições do tempo, nos violeiros e cantadores de feira, nos testemunhos dos mais velhos, nos álbuns de família.
Não é bem a História de Carlos Eduardo ao tratar, quase amorosamente do Banco do Brasil, onde viveu os tempos em que ele relembra sem pinceladas poéticas, tanto quanto Capiba, sempre exaltando as virtudes do Banco e de seus funcionários.
O Banco aqui evocado pelo memorialista é o estabelecimento que vem desde Napoleão Bonaparte a Camilo Calazans. O estabelecimento fundado por D. João VI, que veio para o Brasil quando da invasão de Portugal pelas tropas de Junot.
Eis uma entidade feliz que tem Carlos Eduardo, Capiba e João Alberto, tanta gente boa a servi-la dando-lhe configuração histórico-social que tem a perenidade entre as melhores tradições do Recife.
Sobre nosso grande Nilo, diria melhor o escritor Orlando Parahym:
Nilo foi em muitos aspectos Nilo é, um pioneiro. Um vidente. Senão providencial, porque esse tipo de homem não existe, mas. pessoa talhada para dirigir, construir, renovar, abrir novas e amplas perspectivas e dar vida e força às esperanças dos mais jovens; ainda mais, encaminhando os novos para a cultura através do jornalismo. Um homem de inexcedível valor moral.
Lembro-me, agora, de sua caneta fazendo os reparos em minhas reportagens para a “Folha da Manhã”, depois, no Ginásio Pernambucano, me ensinando como criar uma legenda. Em anos mais recentes, quando desfrutando de sua amizade familiar, me deliciava com o cafezinho de D. Lila, enquanto o menino Roberto se arrumava para a escola.
Além de memórias sobre Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães, meu inesquecível amigo marcou sua trajetória de vida cultural com a publicação de 35 livros, membro da Academia Pernambucana de Letras, Contador, Bacharel em Direito, Professor universitário e membro da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.
Nilo de Oliveira Pereira foi um caudaloso Nilo, dir-se-ia; realmente o “Nilo do Nordeste”.