A boca, às vezes, o louvor escapa E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto Mentem: tapa o louvor a inveja, enquanto O pranto a vesga hipocrisia tapa.
Do louvor, com que espanto, sob a capa Vejo tanta dobrez, ludíbrio tanto! E o pranto em olhos vejo, com que espanto, Que escarnecem dos mais, rindo à socapa!
Porque, desde que esse ódio atroz me veio, Só traições vejo em cada olhar venusto? Perfídias só em cada humano seio?
Acaso as almas poderei sem custo Ver, perspícuo e melhor, só quando odeio? E é preciso odiar para ser justo?!
Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)
Chegou-me essa matéria em anexo de uma revista sobre cinema, a revista “Tela Viva“, que fiquei todo ancho, como você diz.
A convite de meu amigo de infância, o cineasta alagoano Cacá Diegues, escrevi a história original do roteiro de seu novo filme.
Cacá Diegues está filmando em Alagoas, “Deus Ainda é Brasileiro“, um filme bem nordestino.
Com muita honra e feliz da vida, estou ajudando na produção, roteiro, etc..
Os cenários estão belíssimos.
Você terá oportunidade de assistir em 2023 quando o filme estiver pronto.
Para satisfazer minha vaidade e informar aos leitores do JBF, solicito, se possível, publicar o texto da revista “Tela Viva” em anexo.
R. Não é vaidade: é merecimento.
Você merece, meu querido amigo e colunista fubânico!
Quando eu digo que nessa gazeta escrota só tem gente malassombrada, num estou exagerando.
O filme do seu amigo Cacá Diegues, um dos maiores nomes do cinema deste país na atualidade, intitulado “Deus Ainda é Brasileiro” e cujo roteiro você escreveu, vai fazer muito sucesso, tenho certeza.
E quem vai ficar ancho somos nós, este Editor e todos os leitores desta gazeta escrota.
A seguir, a transcrição da matéria que você nos mandou:
Além da derrota vexatória, Tite deveria explicar sua dificuldade de cantar o Hino Nacional, como se viu ontem antes do jogo contra Camarões.
Ao contrário dos jogadores, ele se recusou a cantar o hino do próprio país.
* * *
Cabra safado!
Comuna desqualificado.
Certamente ele acha que cantar o Hino Nacional é se declarar direitista e “bolsonarista”.
Ou seja, é um descerebrado como todo bom esquerdóide.
Eu não entendo porra alguma de futebol, mas tenho certeza que temos dezenas de outros técnicos brasileiros bem mais capacitados que ele pra comandar o time brasileiro.
É uma ofensa um pulha feito esse sujeito ser técnico da nossa seleção.
Como dizia Tom Jobim, este nosso país não é pra amadores.
Em 1986, a convite do governo americano, participei do IWP, o International Writing Program, promovido pela Universidade de Iowa, lá nos Zisteites.
Um evento que contou com a participação de escritores de vários países, e eu tive a honra de ser convidado, via embaixada americana, pra representar o Brasil.
Foram quatro meses de debates, seminários, palestras, eventos culturais e muitas viagens ao longo do território americano.
Me amostrei foi muito!
Da América Latina, naquele ano, apenas eu, representando o Brasil, e Carlos Gardini, da Argentina, que encantou-se em 2017.
Pois uma das grandes amizades que fiz por lá foi com o espanhol Gonzalo Santonja, com quem eu conversava muito em “portunhol”.
Era um esquerdista radical, filiado ao Partido Comunista Espanhol, simpatizante da organização terroristas ETA e que chegou a ser preso.
Ele chamava sempre os nossos hóspedes americanos de “hijos de la puta“.
E dizia que havia aceitado o convite pra participar do programa apenas pra fazer uma pesquisa na fantástica biblioteca da universidade local. Desculpa boa.
Pois essa semana dei uma futucada no Wikipédia procurando os nomes de alguns do amigos que fiz lá nos Zisteites.
E encontrei o nome do Gonzalo. Descobri que chegou a ser ministro de estado.
A saudade me bateu, de Gonzalo e de toda a turma.
Para ver o prontuário do meu amigo espanhol, clique na foto dele que está logo a seguir:
Sou um curtidor, um apaixonado por Copa do Mundo. Amo essa época de expectativas, de especulações, enfim, dos jogos do Brasil. Não perco um jogo desde criança, seja ouvindo rádio ou assistindo televisão. Jamais compareci a uma Copa ao vivo, no estádio. Tenho lembranças, muitas. Aqui rabisco o que vem rápido à memória, sem muito esforço, histórias das Copas que assisti.
COPA 1950 no Brasil – Menino, 10 anos, eu morava na Avenida da Paz em Maceió. Fiquei fascinado com as tabelas dos jogos que me chegavam às mãos. Acompanhei pelo rádio os jogos do Brasil. Depois das fases iniciais, sobraram quatro times para o quadrangular final. O Brasil bateu de 7 x 1 na Suécia; 6 x 1 na Espanha, ouvindo o Maracanã em peso cantar: “Eu fui às touradas em Madri… E quase não volto mais aqui… Pra ver Peri beijar Ceci…” Finalmente o jogo Brasil x Uruguai, bastava o empate. O Brasil fez o primeiro gol, toda a nação comemorava, eis que de repente apareceu um líder dentro de campo, Obdúlio Varela comandou a virada. Final: Uruguai campeão 2 x 1. Chorei muito, naquela noite não consegui dormir, foi uma punhalada em um menino de 10 anos. O Brasil, 72 anos depois, ainda chora 1950.
COPA 1954 na Suíça – Jovem estudioso, adolescente de 14 anos, toda tarde depois do colégio, recolhia-me a uma puxada no quintal de minha casa. Aquele canto era meu mundo, minhas fantasias. Guardava ou colava na parede recortes de jornais e da Revista do Esporte e de mulheres seminuas. Torcedor do Fluminense, eu acompanhava o time que deu três grandes jogadores para seleção de 1954, Castilho (goleiro), Veludo (goleiro) e Pinheiro. Os jornais traziam reportagens sobre o grande futebol da seleção húngara. Durante a preparação para Copa de 1954, a Hungria massacrava os adversários de 7 x 1 aos 12 x 0. Eram Puskas e Kocsis os donos do mundo. O Brasil teve o azar de pegar a Hungria nas quartas de final, foi derrotado por 4 x 2, voltou para casa. O jogo de decisão foi Hungria x Alemanha. Deu-se o Milagre de Berna. Depois de estar perdendo por 2 x 0, a Alemanha virou, foi a campeã (a Hungria havia ganhado da mesma Alemanha por 8 x3). Recortei da Revista do Esporte uma foto do time alemão, os onze jogadores em pé ao lado do outro, preguei na parede.
COPA 1958 na Suécia – Nesse ano eu cursava a Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Fortaleza, um jovem bonito e charmoso em meus 18 anos. Primeiro jogo, Brasil x Áustria, bebericamos cuba libre na calçada de um amigo ouvindo o rádio gritei, vibrei nos gols do Brasil: 3 x 0. Com a alegria de jovem cadete dancei, bebi, me esbaldei, comemorei a grande vitória no Clube Maguary de Fortaleza. Durante a segunda partida Brasil x Inglaterra meu pelotão fazia exercícios militares em marcha pelas ruas da cidade, ouvi o jogo num rádio portátil dentro da mochila, deu empate 0 x 0. No jogo Brasil x União Soviética desbancamos o futebol científico alardeado pelos comunistas, eles eram favoritos da Copa de 1958. Foi quando estrearam juntos: Garrincha e Pelé no lugar de Dida e Joel. Deu 2 x 0 com uma linda e estonteante exibição de futebol. Desse jogo em diante Pelé reinou: 1 x 0 no País de Gales, 5 x 2 na França e finalmente 5 x 2 na Suécia. A dona da casa aplaudiu em pé. Pela primeira vez Brasil campeão do mundo. Nelson Rodrigues escrevia: “Acabou-se nosso complexo de vira-lata.”
COPA 1962 no Chile – Eu morava na Bahia, era tenente do Exército formado recente na Academia Militar das Agulhas Negras, 22 anos, acompanhei as vitórias e os dramas do Brasil num rádio do quartel do 19° Batalhão de Caçadores em Salvador. Após o jogo final foi uma só comemoração pelas ruas estreitas da cidade com o amigo Ângelo Roberto, o maior pintor bico de pena da Bahia. Pela manhã da segunda-feira, durante a formatura matinal do Batalhão, ainda ouvia os gritos e os cantos de Bi Campeão. Foi usado pela primeira vez o vídeo – tape. Na noite após os jogos, mais outra rodada de cerveja assistindo o jogo pela televisão.
COPA 1966 na Inglaterra – Nessa época, 26 anos, eu, tenente do Exército Brasileiro comandava um Pelotão de Fronteiras da Amazônia, fronteira do Brasil de Roraima com Venezuela e Guiana Inglesa. Onde morei dois anos conhecendo de perto nossa exuberante e riquíssima Amazônia, um período importante e feliz de minha vida, mesmo cheio de problemas políticos e existenciais. O Brasil era favorito, com Garrincha e Pelé a seleção era considerada imbatível. Os cartolas começaram a perder a copa fora do campo. Para valorizar os jogadores brasileiros, em vez de 22, foram convocados 44 jogadores. Uma esculhambação dos dirigentes. Resultado, sem organização, o Brasil não passou da fase classificatória. Ganhou a primeira 3 x 1 da Bulgária, perdeu 3 x 1 da Hungria e a última deu Portugal 3 x 1. Classificado Portugal, Euzébio era novo rei da bola. Torci por Portugal, mas deu Inglaterra na final.
Estamos passando por momentos decisivos para o país.
Sugiro uma pesquisa para os milhares de leitores do JBF, acho que é a mais importante das que já foram feitas:
Você acha que o Nine sobe a rampa?
Sim ou Não?
Abraço, meu amigo
R. Aqui nesta gazeta escrota quem dá as ordens são os leitores.
A pesquisa sugerida por você já está no ar, meu caro.
É só ir aí de lado e dar seu voto.
De minha parte, eu acho que ele vai subir a rampa, sim.
Mesmo tendo “vencido” uma eleição claramente fraudada pelos seus comparsas do PTSE.
Quem tem a força e poderia impedi-lo de subir, já deu sinais de que não vai fazer nada.
Veja esta nota, publicada hoje pelo jornalistas Cláudio Humberto:
Aos poucos se dispersam as concentrações diante de quartéis, não por temerem ameaças do STF e do TSE, mas porque já não sabem o que esperar. Intervenção militar, como alguns pedem, não haverá.
Enfim, daqui uns dias vamos ver o triste quadro de membros das forças armadas batendo continência pra bandido.
E a nossa pátria vai voltar a mergulhar no fétido esgoto da corrupção e da ladroagem.
Maristelo de Holanda Melo, de Glória de Goitá, leitor, atento do JBF, me lembra que o título de nossa coluna literalmente perdeu a graça.
E dá justa “marretada”:
Suas histórias, quase todas, têm sido sérias demais. Cadê a graça?
Dantes, eu me deliciava com suas presepadas, suas histórias hilariantes.Agora, na verdade, aprendo alguma coisa ou tomo conhecimento de fatos históricos. Mas, o pitoresco dos seus conteúdos desapareceu.
Gosto de certas “lapadas” dos que me honram com suas leituras; isto porque não escrevo para mim e sim para o público. Tenho o intuito de agradar e se assim não o fizer, estou saindo de um caminho que preciso rever.
De fato, Maristelo tem razões!
Aproveitando, atendo ao leitor com uma história real acontecida num dos gabinetes do Palácio do Planalto.
Na década de 80, quando participei, como Secretário-geral da Campanha de Integração Social da Hanseníase, fui à Brasília, compondo uma Comissão de representantes de instituições beneficentes, de vários estados, a fim de entregar um memorial ao Governo Federal, com reivindicações.
Tínhamos o intuito de evitar que se escrevesse em documentos do serviço público a palavra “lepra”, razões da propagação da simples doença dermatológica hanseníase, (antigo Mal de Hansen) razão de nossa Campanha. Tínhamos a certeza de que se tratava de um “Estigma Cultural”, conforme titulei um dos meus livros dedicados a essa causa.
Outra reivindicação era que os Ministérios promovessem a difusão dos novos métodos de cura,, por todos os meios possíveis, da simples doença dermatológica, para a qual havia medicamentos simples, fornecidos pelos Postos de Saúde de todo o País.
Evitar-se-ia a causa de tantos estragos ao corpo humano, como o fizeram as denominações de “lepra” e “morfeia” o fizeram, mesmo trancafiando os doentes nos antigos leprosários, hoje apenas Hospitais de Dermatologia Sanitária.
D. Maria Izabel de Oliveira Rocha, funcionária do Escritório de Pernambuco na Capital Federal, se encarregou de obter as audiências, dentre elas uma com o Ministro Chefe-de-Gabinete do Presidente João Baptista Figueiredo, Leitão de Abreu.
Éramos 15 pessoas. Não sabíamos se o Gabinete do Ministro seria ou não suficiente para tanta gente. Mas isto não foi nada!
Fomos chegando e nos ajeitando diante da mesa do Ministro, porque só havia dois divãs e três cadeiras. Resultado, ficamos todos de pé. E toca o ilustre a demorar. Mas a Secretária, educadíssima, nos acalmava, oferecendo um cafezinho e informando, por mais de uma vez, que ele estava numa sala contígua e logo viria. Soubemos depois que na verdade a sala contígua era um wc.
Às 11h15 aparece o Ministro, cidadão distinto, de idade já avançada, ainda enfiando, discretamente, o resto do cinturão nas calças, passando o lenço no rosto para tirar o suor e pedindo desculpas.
Imaginei que houvesse saído de um “momento de esforço para defecar”…
Na verdade, deveria ter acabado de “despejar o barro”, por isso, a respiração ligeiramente ofegante. Afirmara, porém, que a razão de sua demora fora ter sido aquele, um dia, de várias audiências.
Eu, como Secretário, apresentei os Representantes da Campanha. O cientista Abrahão Rotberg, Presidente de Honra da Campanha e criador da terminologia “Hanseníase”, iniciou a apresentação para a entrega das reivindicações, palavreados que não demoraram mais de cinco minutos.
Em seguida, o Ministro deixou claro que iria colaborar com a nobre Campanha da Hanseníase. Como bom gaúcho, puxou conversa sobre o tema, a fim de melhor se assenhorar da petição.
Cabe salientar que além de atendimento a todos os pleitos contidos em nosso Memorial, graças à participação posterior do Governador de Pernambuco, Dr. Marco Antônio de Oliveira, Maciel foi criada a Lei 8830/81, que além das medidas profiláticas concedeu uma Pensão Especial para os mutilados pela doença hanseníase. No primeiro lote foram beneficiadas 830 famílias de ex-doentes.
Mas, voltemos ao pitoresco da reunião.
Num instante toca o telefone e a Secretária interrompe a reunião, pedindo licença aos presentes para o Ministro atender ao Presidente da República.
Nesse momento, ouvi certo murmúrio seguido de discretos sorrisos por parte de senhoras que estavam atrás de mim. Foi quando indaguei: