

Chega a ser engraçado escutar isso justo no dia que soltaram Sérgio Cabral, um homem condenado a quase mil anos de cadeia pic.twitter.com/OnkYq3t6nZ
— Moreira 🥊 (@MetodoMoreira) December 20, 2022
— H. “Mané” R. 🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷 (@hnrolins) December 20, 2022
Luiz Felipe Pondé

Ativistas trans durante protesto na Espanha
A bruxa está solta. Talvez devesse dizer “bruxe”, para não ferir suscetibilidades progressistas. A verdade é que os debates de gênero estão atingindo níveis cada vez mais altos na escala do surto. Mesmos entres os progressistas, o pau (!!) come. Ou comem-se entre si como feras que se entredevoram dizendo que tudo é um benigno debate democrático.
Há muito que parte das humanidades, principalmente as de matriz americana, não serve para nada além de criar nichos temáticos que dominam os departamentos nas universidades e perseguem quem ousar ser um herege ou ousar dizer, por exemplo, a palavra “mulher” num ensaio.
Grande parte dos ensaios de humanidades hoje morre na segunda linha quando apresentam alguns desses sintomas, tipo “ilu isso”, “ile aquilo” – você não sabe o que isso significa? Melhor para você. Não perca tempo.
O surto acadêmico ganha força porque tomou um espaço gigantesco entre essa categoria de inúteis chamados de “subcelebridades” – que vivem de engajar gente das redes para falar de nada – ou mesmo de celebridades, a moçada do mundo artístico que nunca se destacou como gente que entende a realidade para além de seus fãs, suas letras musicais ou peças teatrais. Opinião é a coisa mais fácil de se dar, mesmo sobre nada.
Seguindo o espírito democrático de uma linguagem inclusiva, proponho que, para além de banir a palavra machista “mulher”, que trai sua dependência semântica com esse território fascista chamado biologia, passemos a usar a expressão “pessoas que mijam de pé” no lugar do termo patriarcal “homem”. Assim, incluímos homens biologicamente homens e mulheres trans que porventura mijem de pé.
Especialistas dirão que a expressão “pessoas que mijam de pé” permanece presa à matriz fascista da biologia. Mas, suspeito eu, a expressão “pessoas que menstruam” tampouco se libertou da mesma matriz maldita. Se avançarmos na investigação dessa herança semântica maldita da influência da matriz biológica reacionária, podemos tropeçar em outros exemplos.
Que tal “pessoas com útero” no lugar de mulher? Ou “pessoas com próstata” no lugar de homem? A diferença é que há um claro aspecto de visibilidade nas expressões “pessoas que menstruam” e “pessoas que mijam de pé” – tanto sangue quanto xixi pingam, aliás, como dizia Nelson Rodrigues (1912-1980) com relação ao desejo: “O desejo pinga”.
Útero e próstata são órgãos visíveis apenas com o auxílio de procedimentos de medicina de imagem, o que poderia levar a dúvidas céticas quanto à autodeclaração dos indivíduos em questão. Será que você é mesmo portador de um útero ou de uma próstata?
Melhor permanecer no âmbito do que pinga. Aliás, continuando na esfera de Nelson, dizer que o desejo pinga significa dizer que o desejo não seria uma entidade metafísica, mas sim, líquida e submetida à gravidade, como o sangue menstrual e o xixi.
Enfim, surtos são entidades infinitas nas suas manifestações linguísticas. Não precisa ter formação em Lacan (1901-1981), psicanalista francês que adorava truques de linguagem, assim como o filósofo Heidegger (1889-1976), que também inventava dialetos alemães inexistentes, para perceber que esses excessos identitários são tentativas de criar novos significantes – olhe no Google – para que crianças passem a nascer “faladas” por esses significantes.
Assim sendo, quando você nascer, seus pais – ou algo similar – já “falarão de você” como “pequena pessoa que menstruará” ou “pequena pessoa que mijará de pé”. Claro que ainda permanecerá a maldição fálica freudiana de que as pessoas que mijam de pé o fazem desde crianças, enquanto que as pessoas que menstruam só o fazem quando entram na puberdade.
Mas esse detalhe temporal, biológico, diferencial e patriarcal, seguramente gerará muito espaço para mestrados, doutorados, bolsas, seminários, concursos com cotas, enfim, todo um novo nicho em que o surto semântico contemporâneo com relação à velha tara humana com o sexo seguirá seu curso histérico.
Nesse terreno, as escolas são as câmaras de tortura das crianças, e os pais, os idiotas que aplaudem.

Presidente eleito Lula tem negociado com os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, para aprovar a PEC fura-teto
Na segunda-feira o presidente do Senado – e, por consequência, presidente do Congresso – convocou deputados e senadores para o ato da posse de Lula no plenário da Câmara, no dia 1.º de janeiro, às 15 horas. Então, Lula tem apenas 12 dias para escolher seu ministério. São 37 ministros e ainda faltam uns 30, sinal de que está muito difícil contentar a todos os envolvidos. Todo mundo quer uma parte na partilha, e o PT não quer ceder muito, não.
Além disso, Lula vai acabar tendo de negociar com Centrão e já tem outra contagem regressiva correndo: ele só tem esta semana para conseguir aprovar a PEC da gastança, que vai a votação nesta terça-feira na Câmara dos Deputados. Como se trata de emenda constitucional, são necessários 308 votos – 60% de 513 deputados – em dois turnos.
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Supremo atropela o Congresso duas vezes em poucas horas
Mas Gilmar Mendes, votando sozinho, teve uma força maior que 594 deputados e senadores que já podem ser dispensados, porque o Supremo está fazendo a legislação. Na noite de domingo, Gilmar Mendes decidiu que ele também tem um furador de teto e que o governo pode gastar R$ 145 bilhões no Bolsa Família. Gilmar já disse que é para avisar o relator que ele pode botar no orçamento esses R$ 145 bilhões, que ninguém sabe de onde virão: de impressão de dinheiro, que causa inflação direta; ou da emissão de crédito, que causa dívida pública e faz subir a inflação e os juros. É isso, ou teremos mais carga tributária, vamos pagar mais imposto para sustentar tudo isso.
Aliás, nem sei por que estamos está sustentando o Congresso; o Judiciário está substituindo o Legislativo; são 30 mil pessoas no Congresso, o Supremo está fazendo as leis e o Congresso fica calado. Lembro do tempo em que Antônio Carlos Magalhães ou Jarbas Passarinho presidiam o Congresso. Não aconteceria o que acontece com o Supremo de hoje. O STF daquela época não fazia isso: quando vinha algum pedido de partido político pequeno, que não tinha voto no plenário, sobre questões internas, legislativas, o Supremo simplesmente mandava para o arquivo e dizia que não era assunto dele; que resolvessem no plenário da Câmara ou do Senado. Agora não: a Rede, de Randolfe Rodrigues, foi lá, pediu e Gilmar atendeu.
E poucas horas depois o Legislativo foi atropelado de novo no caso das emendas de relator, que são uma questão interna, um hábito de anos, de negociações entre Executivo e Legislativo. O Supremo disse que isso é inconstitucional. Agora Câmara e Senado estão sem saber o que fazer; fizeram resoluções para substituir uma decisão do Supremo, mas não adiantou. O voto decisivo foi de Ricardo Lewandowski, que seguiu a relatora Rosa Weber. O pedido veio do PSol, do Partido Verde, do PSB e do Cidadania, que é o novo nome do Partido Comunista Brasileiro.
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Apartamento de luxo será a nova “prisão” de Sérgio Cabral
E, em mais uma cortesia do Supremo, lamentamos a sobrevivência da impunidade no Brasil. Consolidou-se nesta segunda-feira, quando a 13.ª Vara Federal de Curitiba, aquela que havia sido do ex-juiz Sérgio Moro, foi obrigada a emitir o alvará de soltura para Sérgio Cabral, para quem 425 anos de condenação passaram rápido, passaram em seis anos. Também por decisão do Supremo. Ele vai ficar em prisão domiciliar, em seu belo apartamento. Lembro de quando Paulo Maluf recebeu prisão domiciliar e ficou em seu palacete, no bairro dos Jardins, em São Paulo. A impunidade sobrevive neste país.