BERNARDO - DIRETO DO PINGO NOS Is

AUGUSTO NUNES

O CAFAJESTE

Na recepção dos hotéis que não selecionam clientes, José de Abreu reincide na falsidade ao preencher o espaço que registra a profissão do hóspede: diz que é ator. Não é. Só pode declarar-se ator alguém que interprete, por pior que sejam as performances, quatro ou cinco personagens. Faz algumas décadas que Zé de Abreu desempenha um único papel: cafajeste da novela das 8 exibida perto das 9. Quando a gravação vai começar, o eterno coadjuvante ouve do diretor a mesmíssima instrução: “Seja você mesmo, Zé!”. E lá vai o Abreu da TV fazer no estúdio o que o Abreu da não ficção faz desde o berçário. O das novelas vive mudando de nome. O original talvez seja mais cafajeste.

O Zé da telinha não hesitaria em matar a irmã solteira, que o acolheu na casa onde mora de graça, para embolsar sozinho a pensão da mãe viúva. Esse esconde as bandalheiras que consuma. O Zé da vida real orgulha-se das patifarias que coleciona. A mais recente foi a reação, publicada no Twitter, à notícia de que o presidente Jair Bolsonaro não estava bem de saúde e poderia ser submetido a outra cirurgia: “Que prazer que sinto ao saber que o filho da puta passa mal. Mata seu povo por omissão e leva castigo de volta. Que exploda em merda”.

(O que teria ocorrido se o alvo do surto de ódio fosse algum ministro do Supremo Tribunal Federal? Alexandre de Moraes produziria um boletim de ocorrência à distância e um mandado de prisão em flagrante perpétuo? Luís Roberto Barroso daria 72 horas aos pais de Zé de Abreu, vivos ou mortos, para explicarem o que houve de errado na criação da criatura? Gilmar Mendes, que só fala fora dos autos, alegaria a inexistência de inquérito ou processo para permanecer em silêncio? Dias Toffoli diria que só no caso do Poder Moderador a instituição se confunde com seus integrantes? Luiz Fux explicaria que ao Poder Executivo não se aplica a frase “mexeu com um, mexeu com todos”? Quem souber as respostas, favor encaminhá-las à redação do JBF.)

Os sacerdotes da seita que vê num ladrão seu único deus mal camuflaram o entusiasmo com o que o cafajeste vocacional escreveu. É o que pensam e querem os devotos de Lula. A solidariedade descarada e beligerante ficou por conta de duas ramificações digitais da espécie definida por Nelson Rodrigues como o cretino fundamental. Uma abrange os simplesmente idiotas, que (Nelson, de novo) antigamente se limitavam a babar na gravata e agora estão por toda parte e se metem em tudo sem qualquer constrangimento.

Esses acreditam que Lula é a alma viva mais pura do planeta, que a Lava Jato saqueou a Petrobras e pôs a culpa num inocente, que tudo foi coisa da CIA e que o petróleo é nosso, fora o resto. Outra tribo agrupa os que misturam doses cavalares de imbecilidade, selvageria e raiva. Esses vagam pela web gaguejando insultos, ameaças, profecias malucas, palavrões e outras manifestações de desvario anabolizadas por procissões de !!!!!!!!!!!!!. Tomo emprestada a definição primorosa de Ana Paula Henkel: essa gente é a cracolândia das redes sociais. E José de Abreu é o seu pastor, acrescento.

Tal honraria faz justiça a quem descobriu que cusparada é arma de guerra. Gabou-se da façanha em poucas linhas: “Acabei de ser ofendido num restaurante paulista. Cuspi na cara do coxinha e da mulher dele! Não reagiu! Covarde”. A bazófia foi desmontada pelo vídeo que registrou o incidente. Depois do disparo de saliva, Zé de Abreu tratou de escapar do contra-ataque transformando em escudo humano meia dúzia de garçons e seguranças. “Bravo, Zé!”, saudou a deputada federal Jandira Feghali. A companheira deve ter enxergado na Batalha do Restaurante o embrião de uma unidade de elite do Exército que implantará o paraíso comunista no País do Carnaval. Pelo conjunto da obra e pela fachada, Jandira cuidaria de ensinar aos recrutas a metodologia do puxão de cabelo. Combina com cusparada.

Em anos eleitorais, Zé de Abreu capricha no papel de papagaio de pirata. Uma foto do palanque de Dilma Rousseff em 2010 documentou uma aglomeração de espécimes dessa maravilha da fauna nativa. Infiltrada entre Temer e Dilma, a prefeita Luizianne Lins tem a expressão severa de quem veio de Fortaleza para testemunhar a leitura dos Dez Mandamentos pela voz de Moisés. Espremidas no fundo, há duas metades de rosto. A face esquerda pertence ao senador capixaba Magno Malta. O dono da face direita é Zé de Abreu. O que fazia por lá? Ele próprio tentou esclarecer o mistério numa sopa de letras com um título tão intrigante quanto a aparição em Brasília: Piratas, Papagaios, Torturas e Torturados.

O texto insinua que permanecera no palco a pedido da dona. “Quando tiraram os outros papagaios do palco e eu ia descer, uma mão firme me segurou, um olhar carinhoso cruzou com o meu e me senti estimulado a ficar. E fiquei.”

O resto do palavrório celebra o combatente triunfante: “Eu estava entre amigos, lutadores, como eu, da boa luta. E vitoriosos numa batalha onde golpes baixos eram lançados a toda hora, um aborto na canela, uma homofobia nas partes pudendas, um bispo protetor de pedófilo pisando no dedão… Terrorista, ladra, assassina, era o que se dizia dela, minha companheira de luta contra a ditadura, que de branda nada tinha. E tome machismo, preconceito, baixarias. Estava feliz e emocionado, a lembrar dos censurados, dos torturados, dos assassinados pelo terror de Estado. E pensei: melhor ser papagaio de pirata que pirata sem papagaio”.

O vídeo que o mostra em três diferentes momentos da vida fosca confirma: Zé de Abreu consegue rebaixar-se a coadjuvante mesmo quando aparece em comerciais eleitoreiros falando sozinho. O protagonista é um partido político que o locutor enaltece com sinceridade de estelionatário. O primeiro momento mostra um jovem vestido esportivamente, com sorriso de aeromoça, cada fio de cabelo em seu lugar e voz de padre sem paróquia. Depois de pedir votos para o PSDB, jura que é tucano desde criancinha. (Esse Zé de Abreu parece ainda acreditar que um dia será promovido a protagonista e finalmente beijará a mocinha.) Na sequência, o paletó e os óculos comprados no camelô da esquina lembram um antigo escriturário do Banco do Brasil saindo para o almoço numa cidade do interior. O tucano juramentado avisa que fugiu do ninho e tornou-se admirador do PMDB por ter descoberto no pântano o partido que salvaria o Brasil. O terceiro momento apresenta um homem já grisalho, com bigode e cabeleira de zagueiro argentino do século passado, ao fim da metamorfose que modelou o Zé do PT. Três adorações partidárias não são pouca coisa, mas o descompromisso com a coerência decerto é autorizado numa das cláusulas do pacto que celebrou com a sem-vergonhice absoluta. Coerência é virtude, e não há espaço para virtude alguma no presidente de honra de todos os clubes dos cafajestes.

Ele fez o que pôde para conseguir o emprego de ministro da Cultura. Negaram-lhe a graça alcançada por Gilberto Gil e uma das irmãs de Chico Buarque. Agora anda dizendo que gostaria de interpretar numa série de TV a figura de Lula. Eis aí um sonho possível. Zé de Abreu tem 75 anos, apenas 1 de distância dos 76 do ex-presidente. Se engordar mais um pouco, do resto a maquiagem cuida. Mais importante que tudo: no papel que cobiça, será simultaneamente o protagonista e o principal cafajeste da história.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MAURÍCIO ASSUERO – RECIFE-PE

Prezado Papa Berto,

por favor, avise aos cabarelistas juramentados que as reuniões do Cabaré do Berto voltarão a ocorrer a partir da próxima semana, sendo Vossa Santidade, convidado desde já a abrir os eventos desse ano.

O tema será livre, mas como sugestão há pessoas em Palmares que poderiam ser objetos de apresentação como Cu Trancado e Tira-Teima.

Assim, peço aos parceiros de sempre para fazermos o Cabaré do Berto de 2022, melhor do que fizemos até então.

Na qualidade de administrador, prometo bailarinos e bailarinas jovens e da terceira idade (Terezinha tem um monte de opção), streap tease, bebida de graça, o cardápio ficará sob a responsabilidade de Alexandre Malta, a água para misturar com rum ou fazer gelo para botar no wisky fica a cargo de Sancho Pança, o Dr. Honoris Coco e a energia fica por conta de Adônis que com sua inteligência está gerando energia sustentável usando os peidos que uma mulher tá engarrafando. (já ganhou 800 mil vendendo peido enlatado).

A entrada, como sempre, é grátis para homem do sexo masculino e mulher do sexo feminino e os dez primeiros participantes irão concorrer a diversos prêmios como: uma taça de água benta para mitigar os pecados, um rosário bento por Roque Santeiro, um passeio em Quixadá para conhecer a sogra de Neto Feitosa, ou uma vídeo aula da profa. Dra. Mercedita de Leon, especialista em Cus Prolapsados que regressou recentemente do seu segundo pós doc.

Para concorrer, basta preencher um cupom e jogar no bicho. Se der viado, então Maurino Júnior ou Zé Ramos farão a entrega dos prêmios em solenidade a ser agendada.

Peço desculpas a todos, mas tenho um compromisso do qual não posso faltar.

Então, com minhas desculpas para os cabarelistas, ficamos desde já informados para o nosso primeiro encontro na próxima sexta feira dia 14/01.

Obrigado.

R. Meu caro, você deu a ordem e eu vou cumprir.

Sou um soldado disciplinado.

O fato é que ganhei o dia com essa sua convocação.

Será um grande prazer comandar o nosso movimentado cabaré em sua primeira reunião deste ano de 2022 que está começando.

Conversar miolo-de-fossa é minha especialidade mesmo!!!

Vai chover besteira na nossa reunião do próximo dia 14.

Gratíssimo pela honra concedida a esse editor inxirido, meu nobre gerente e diretor cabarelista.

Abraços e um excelente final de semana!!!.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

UM GALOPE PARA O UMBUZEIRO – Júnior Guedes

Frondoso e bonito, o velho umbuzeiro
Que brotou das fendas abertas da terra.
Cresceu num aceiro do pé de uma serra
Passando agruras o tempo inteiro.
Foi ficando forte a cada janeiro,
Mudando a paisagem que tem no lugar.
Felizes daqueles que vem contemplar,
Seu verde, a sombra e sua doçura
O doce da fruta na forma mais pura
Que o puro da brisa que sobra do mar.

* * *

Biliu de Campina

Versejar é minha sina
No mundo transcendental
Passo do ponto final
Fazendo o que me fascina
Vou pelo mapa da mina
Navegando em barco a vela
Sem ter medo da procela
Numa letal disparada
A morte está enganada
Eu vou viver depois dela.

* * *

Miro Pereira

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

* * *

Zé Fernandes

A seca seca primeiro
Os depósitos cristalinos
Depois seca as esperanças
De milhões de peregrinos
Mas bota enchente de lágrimas
Nos olhos dos nordestinos.

* * *

Adauto Ferreira Lima

Quando o sujeito envelhece
Quase tudo lhe embaraça
Convida a mulher pra cama
Agarra, beija e abraça
Porém só faz duas coisas:
Solta peido e acha graça.

* * *

Pedro Tenório de Lima
(Poeta analfabeto do sertão do Pajeú)

Me criei abraçando a agricultura
Já tô véi, a cabeça tá cinzenta
Pra onde vou é levando a ferramenta
E uma faca de doze na cintura
Minha boca lambendo rapadura
E meu almoço, um punhado de farinha
A merenda é um ovo de galinha
Namorei abraçando as raparigas
Me deitando por cima das formigas
Que uma cama bonita eu não tinha.

* * *

PELEJA DE MANOEL CAMILO COM MANOEL MONTEIRO – Manoel Monteiro

Peço inspiração aos magos
Luz, força, brilho, fulgor
Para em poesia alegre
Contar ao caro leitor
Uma discussão que tive
Com um grande cantador.

Pernambuco é o torrão
Em que nasci e andei
Após uso da razão
A poesia abracei
E saí vendendo versos
Na Paraíba aportei.

Chegado em Campina Grande
Novato e desconhecido
Na quarta fui para feira
“Cantar versos” carecido
De ganhar dinheiro pois
Estava “desprevenido.”

Notei um senhor de óculos
Quando eu estava cantando
Que pôs-se à parte e ficou
Somente me observando,
Quando terminei o “show”
Ele foi se aproximando.

E perguntou-me; Poeta,
Estás só ou com amigo?
Respondi-lhe, na viagem
Só trago o pinho comigo,
Ele convidou, eu quero
Fazer um “baião” contigo.

Sem conhece-lo falei:
– O convite está aceito
Que pra cantar desafio
Fiz, faço e farei bem feito,
Poesia é minha água,
Meu pão, meu sal e meu leito.

Disse ele, o Dr. Limeira
Convidou-me pra cantar
Estando sem parceria
Pra fazer-me acompanhar
Ouvindo e vendo seus versos
Resolvi lhe convidar.

Ele fechou o contrato
Pra noite do outro dia
Recolhi-me ao dormitório
E de quando em quando ouvia
Na rua o autofalante
Divulgando a cantoria.

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BERNARDO - DIRETO DO PINGO NOS Is

DEU NO JORNAL

“SAIDÃO” QUE ENTRA NO FURICO DO CIDADÃO

O sumiço de 522 presos durante o “saidão” de Natal no Rio de Janeiro não é surpresa para os órgãos de segurança.

Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária, 42% dos beneficiados não retornam.

* * *

Ou seja, quase a metade dos que estavam cumprindo pena por seus crimes e que ganham este esdrúxulo benefício do “saidão”, não volta pra cadeia e vai pras ruas cometer novos crimes.

Esse nosso país é mesmo de lascar.

Cada lei mais escrota que a outra.

Saidão de Natal“…

Os anjinhos com cara de Papai Noel cruzam os portões dos presídios com destino às ruas com a cara mais lavada do mundo.

E Suzane von Richthofen, aquela que mandou assassinar os pais, ganha também uma saidinha pra comemorar o Dia das Mães em casa.

É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FILHA DE MEU AMIGO

Aécio chegou cedo ao escritório, alguns clientes o esperavam na sala. Cumprimentou-os, entrou. Sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Ligou no interfone para Marlene. Ela levou a lista dos assuntos da manhã. Aécio perguntou quem era uma jovem, a secretária informou ser a filha do seu amigo falecido Tonho. Ela apareceu no lugar da mãe para pegar o cheque mensal. Ajuda que Aécio se comprometeu pelo resto da vida. Eram amigos de unha e carne desde criança jogando bola na praia. Tonho era o melhor jogador de sua turma.

Naquela época, a juventude convivia com as diferenças sociais. Valia mais quem sabia jogar bom futebol, quem trepava num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Tonho era um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira dos trapiches avançados mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Aécio, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira (peteca) , mergulhando e pescando no Riacho Salgadinho, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Anos depois Tonho procurou o amigo, estava morrendo, pediu para não deixasse a família desamparada. Desde que ele morreu, há três anos, um dos filhos de Tonho vai buscar um pequeno cheque, uma pequena ajuda.

Ele não conhecia essa filha do Tonho, morena vistosa, mandou-a entrar.

– Você parece com Tonho, sente-se. Por favor.

Recebeu-a em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se, elegante, cruzou as pernas, sorriu.

– Muito prazer Nilda. Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou de uma juventude alegre na praia da Avenida da Paz.

– Dá-me uma saudade dor quando vejo o Salgadinho desaguando naquele mar azul esverdeado, poluído, uma pena. Diga Nilda o que você faz na vida? Tonho foi grande amigo de infância. Gostaria de saber como posso ajudar?

– Doutor Aécio, eu estou desempregada, batalhando para sobreviver.

– Faça o seguinte, deixe seu currículo com minha secretária, vou ver o que posso fazer.

Levantou-se, estirou a mão, ficou olhando a filha de Tonho maravilhado. Que bela mulher!

Duas semanas depois ele a convidou para trabalhar no escritório, auxiliar de secretária. A convivência entre os dois se estreitou. Aécio tinha maior carinho pela filha do amigo. Ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo dia no final do expediente ele dirigia quando avistou Nilda no ponto de ônibus, ofereceu carona, ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa. No primeiro sinal vermelho parou o carro, olhou nos olhos de Nilda, aconteceu o inevitável abraço e beijo, deixou-a perto de sua casa. No dia seguinte ela estava encabulada mal olhou para o patrão. Ele fez o convite inevitável. Passarem uma tarde inesquecível num motel da Jacarecica. A vida estabilizada, toda semana repetiram as tardes maravilhosas por mais de dois anos.

Aconteceu o inesperado, um italiano bonito e forte conheceu Nilda numa festa. Conversaram, tomaram champanhe, dormiram juntos.

Paolo se apaixonou, prolongou as férias, preparou a família, levou Nilda. A jovem agora mora em Gênova preparando-se para o casamento. Aécio, chocado, está em depressão. Em vez em quando bate saudade da fase maravilhosa que passou com a filha do Tonho, e também saudade da juventude jogando futebol com Tonho.

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MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

ONDE FICA TUBARÃO?

No ano da graça de 1969 este humilde escrivinhador que agora fuxica com vossuncê estava em Vitória, capital do Espírito Santo, trabalhando no Porto de Tubarão, à época o maior porto exportador de minério de ferro do mundo (hoje, se não me falha o bestunto, é o segundo). Em todas as rotas de navegação marítima do planeta o porto de Tubarão é destaque no mapa do Brasil.

Certo dia de manhã, cuja determinação precisa se perdeu no nevoeiro do passado, um pequeno navio inglês atracou no cais do porto de Tubarão para carregamento de minério de ferro da Companhia Vale do Rio Doce, com a inusitada situação de não ter a bordo o chamado “Chief Mate”, ou o Primeiro Oficial, o segundo homem em comando no navio, substituto do Comandante e responsável pelo carregamento. A operação de carregar o minério naquele pequeno navio levaria umas 4 horas.

O que se assucedeu bem assucedido é que no dia da saída do navio da Inglaterra o dito Primeiro Oficial, por alguma razão que ignoro, perdeu a hora de embarcar. Como o navio vinha vazio o Comandante resolveu partir assim mesmo, sem seu precioso auxiliar, ficando combinado que nos próximos dias nosso personagem voaria com destino ao Brasil e se juntaria à tripulação para retomar suas obrigações no carregamento e retorno à Inglaterra.

Até aí as cousas estavam sob controle. Ficou acertado com uma agência de viagens inglesa que o Primeiro Oficial tomaria um avião em Londres para chegar em Tubarão no dia anterior ao carregamento do navio.

A funcionária da agência londrina, certamente uma ruivinha cheia de sardas, não teve nenhuma dificuldade em localizar Tubarão no mapa do Brasil – no caso, a simpática e acolhedora cidade de Tubarão, em Santa Catarina. Sem aeroporto na cidade, a esperta moçoila também identificou que Florianópolis era o destino aéreo mais próximo de Tubarão, a apenas 140 km de distância.

Levantou a bola e deu a raquetada! Comprou a passagem só de ida Londres – São Paulo – Florianópolis e não alugou carro para nosso diligente oficial se deslocar de Florianópolis a Tubarão já que, sacudida e arretada que era, constatou que no Brasil se dirigia pela mão errada, segundo seu conceito, e um cidadão inglês acostumado a dirigir pela esquerda poderia ter dificuldades na terra dos caingangues.

Isso não seria problema. No aeroporto em Florianópolis se providenciaria um táxi. Também foi reservado um hotel em Tubarão para que nosso nauta descansasse à noite para pegar no batente no dia seguinte na parte da manhã.

Tudo funcionou com perfeição britânica: o Primeiro Oficial desembarcou em Florianópolis no meio da tarde e com a ajuda de funcionários da companhia aérea contratou um táxi até Tubarão, mostrou o endereço do hotel onde ficaria e foi descansar da longa viagem e da diferença de fuso horário.

No dia seguinte de manhã bem cedinho pediu à recepcionista do hotel que solicitasse um táxi para levá-lo ao porto para embarcar em seu navio. Foi aí que o dragão da confusão arreganhou seus dentes!

Em Tubarão, Santa Catarina, não há porto e, claro, nem navios, o mar fica a mais de 35 km de distância e não há nenhuma atividade ligada a minério de ferro na região.

Sem falar nada da língua portuguesa a não ser as tradicionais frases “señorita, ¿cuanto és?” e “una cerveza gelada, por favor”, sabidas por todos os gringos viajores, as sinapses de nosso “Chief mate” sofreram um curto circuito e deram um nó arretado nos neurônios. Ficou então sabendo que o porto de Tubarão, seu verdadeiro destino, ficava a 1.800 km de distância!

Após o pânico, e com a ajuda do pessoal do hotel, um táxi o levou de volta a Florianópolis, onde comprou uma passagem aérea de Floripa a Vitória. Chegou ao Porto de Tubarão no final da tarde.

O navio já havia partido de volta para a Inglaterra seis horas antes!

Despacharam o bravo súdito de Sua Majestade britânica em um avião para São Paulo com destino a Londres.

Não tenho nenhuma ideia de como foi sua reintegração à tripulação do navio, mas olhando o acontecido pelo lado positivo, seguramente nosso desavisado gringo e a ruivinha sardenta tiveram um notável aumento de seus conhecimentos sobre a geografia do Brasil.