DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VENCIDOS – Emiliano Perneta

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland? … E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço ….
Hão de os grandes rolar dos palácios infetos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

Emiliano David Perneta, Pinhais-PR, (1866-1921)

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CARLOS LINS – NATAL-RN

Caro Editor:

No presente momento, repleto de “cientistas vacinadores”, tem uma filosofia dominante.

E que se resume a uma gozação que recebi de uma amiga.

Ela me enviou esta mensagem:

Tomei pílula anticoncepcional e engravidei.

Mas certamente teria engravidado de quíntuplos se não tivesse tomado.

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JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Adma e Violeta Jafet

Adma Jafet nasceu em 1886, no Líbano; Violeta Jafet, sua filha, nasceu em 1908, em São Paulo, SP. São duas representantes de uma família de empreendedores libaneses que veio para o Brasil em fins do século XIX. Tornou-se um dos maiores grupos empresariais familiares do País, atuando nos ramos têxtil, mineração, finanças e navegação. Hoje não se pode falar em filantropia em São Paulo, sem citar a Família Jafet.

Tudo começou em 1921, quando Adma, junto com colegas da comunidade árabe, fundou a Sociedade Beneficente de Senhoras do Hospital Sírio-Libanês. Violeta, com 13 anos, estava presente na reunião, ao lado de outras 27 mulheres. O sonho delas era criar um hospital à altura de São Paulo, como forma de retribuir o acolhimento propiciado pela colônia na cidade. Com ajuda financeira de um grupo de doadores, teve início as obras do hospital numa colina do bairro Bela Vista, em 1931. “Foi em boa hora que tomamos a nosso cargo erguer este edifício sob o céu límpido do Brasil. Deus nos ajude a realizar as nossas aspirações, a servir à nação, a fazer uma obra útil à humanidade”, discursou dona Adma no lançamento da pedra fundamental do hospital.

Em 1937, chegaram os primeiros equipamentos e no ano seguinte foi realizada a primeira reunião dentro do edifício. Em 1941, já se marcava a data da inauguração, quando o governo paulista requisitou o prédio para instalar uma escola de cadetes. Estávamos em plena II Guerra Mundial e, por meio de um decreto, o local foi transformado num centro militar por mais de 20 anos. Dona Adma faleceu em 1956 e não pode ver a instituição pronta. A tarefa ficou com a filha, que batalhou pela reconquista do prédio. Junto com o genro Lourenço Chohfi, percorreu quarteis e gabinetes de políticos com poucos resultados. Até que em meados da década de 1960 se utilizou da influência de Ricardo Jafet, seu parente, na época presidente do Banco do Brasil, e conseguiram com o governador Jânio Quadros resgatar o prédio em 1959.

Em 1960 assumiu a presidência da Sociedade, chamou as amigas de sua mãe, congregou novos aliados e convocou empresários e médicos para ajudá-la na empreitada. O Dr. Daher Elias Cutait ficou encarregado da direção clínica e em 15/8/1965 foi inaugurado oficialmente o Hospital Sírio-Libanês coexistindo com a Sociedade Beneficente. Segundo dona Violeta, “a ideia era formar um hospital que tivesse pobres e ricos, gratuitos e pagantes, para que os pagantes pudessem também pagar as despesas dos menos favorecidos”. Como resultado temos um hospital que foi o primeiro do País a implantar uma UTI-Unidade de Terapia Intensiva, em 1971, e o primeiro do hemisfério sul a realizar uma cirurgia remota por microcâmera, com o paciente em São Paulo e o cirurgião em Baltimore (EUA).

Dona Violeta costumava dizer que o hospital não é nem sírio nem libanês: é “universal” e procurou ampliar sua atuação dedicando-se à educação e investigação científica. Desde 2005 mantém o Instituto de Ensino e Pesquisas e recebeu aprovação do Ministério da Educação para ministrar cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Hoje o hospital conta com 3 unidades em São Paulo e 5 em Brasília, incluindo os centros de oncologia e diagnósticos. É uma referência mundial na área médica e serviços hospitalares. O compromisso assumido há 100 anos por suas fundadoras está fundado em 4 pilares: integração com a comunidade, ambulatórios de filantropia, Instituto Sírio-Libanês de Responsabilidade Social e projetos de apoio ao SUS-Sistema Único de Saúde.

O hospital é mantido com a receita oriunda dos convênios médicos (70%) e dos pacientes particulares (30%). As doações espontâneas são esporádicas e do que se arrecada, a maior parte é reinvestida no hospital, tendo uma parcela destinada a projetos filantrópicos nas redondezas. Em 2006, aos 98 anos, Dona Violeta se afastou da presidência executiva da Sociedade. A gestão foi profissionalizada, mas ela continuou a par de tudo e marcando presença nas reuniões até 26/12/2016, quando veio a falecer aos 108 anos. Pouco depois a administração do hospital instituiu o “Prêmio Violeta Jafet” de excelência no cuidado com os pacientes e dirigido aos funcionários do hospital. Uma comenda que bem poderia se entender à todos os cuidadores da saúde.

Em 2017, na celebração dos 130 anos da imigração no Brasil, a família Jafet promoveu uma festa no Clube Atlético Monte Líbano, com a presença de mais de 500 de seus descendentes. O objetivo não era apenas festejar a data, mas também demonstrar o legado deixado para as gerações seguintes. A comissão organizadora do evento -integrada por primos descendentes dos seis irmãos que chegaram ao Brasil a partir de 1887: Benjamin, Basílio, Nami, João, Miguel e Hala- ofereceu um coquetel de boas-vindas e exibiu a árvore genealógica atualizada: 1.265 descendentes, sendo que 873 estão vivos, permitindo que os presentes marcassem todos os familiares do mesmo ramo genealógico. O evento culminou com uma série de atividades voltadas às crianças, um “pocket show” apresentado por cinco descendentes cantores e uma homenagem aos nove descendentes vivos, com idades acima de 90 anos.

Na comemoração do centenário do Hospital, em 2021, todas as diretorias da Sociedade Beneficente se manifestaram no sentido de manter e alargar as conquistas da entidade como forma de retribuição ao acolhimento da cidade de São Paulo e o Brasil propiciado aos imigrantes.

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ AMÉRICO GALVÃO – BELÉM-PA

Sr. Editor e senhores leitores do JBF:

Retrato do Velho foi uma música usada na comemoração da vitória de Getúlio Vargas na eleição presidencial de 1950, que o traria de volta ao cargo de Presidente da República, depois de seis anos do fim do Estado Novo, sendo sucesso no carnaval de 1951.

A letra da marchinha, composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto, fazia referência ao fato de Getúlio ter determinado que as repartições públicas tivessem o retrato do Presidente na parede, que então voltariam a ter seu retrato caso houvesse sucesso dele no pleito, como de fato aconteceu.

Em 1950, “Gegê”, assim chamado pelo povo, reconquista o poder, agora por voto direto.

E, ironizando os anti-getulistas e concitando a volta do retrato, o grande artista brasileiro Chico Alves gravou a música.

Aqui está o áudio original.

Com uma montagem de imagens adaptada pros dias de hoje, neste ano de 2022.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

LUZES PARA UM BAITA ESCURO

Alguns estudiosos do Primeiro Mundo demonstram, nesta pandemia assassina, uma crescente preocupação com os espertíssimos embromadores que estão vitimando uma imensa maioria populacional, nos diferenciados níveis de escolaridade. Os fundamentalismos religiosos negativistas estão se expandindo, nos quatro cantos do planeta, através dos modernos meios de comunicação, enquanto alguns sabidos ganham fortunas com anjos, ETs, tarôs, cristais, satanismos, continentes perdidos, OVNIs, horóscopos, aparições, cristais pelos olhos, baralhos, fitinhas e penduricalhos que dão sorte, acuando, para terrenos movediços, os salutares valores da racionalidade, de decrescente notoriedade entre incautos e abobados, deteriorando gigantescamente os avanços científicos mais consistentes e fecundantes.

As novas crendices e superstições estão substituindo, nos centros urbanos metropolitanos brasileiros, as mulas sem cabeça, as pernas cabeludas, a comadre Fulôzinha, o boi da cara preta e os demais engana-bestas que povoavam a imaginação dos jecas em passados não muito remotos.

Num livro não muito recente, embora sempre dotado de notáveis insights, O Mundo Assombrado pelos Demônios, editado no Brasil pela Companhia das Letras, magistralmente escrito para todos os pensantes não negativistas, o notável Carl Sagan divulgou dados percentuais assustadores: 95% dos americanos são “cientificamente analfabetos”, prevalecendo, nas terras do Tio Sam, uma lei similar à de Gresham, segundo a qual “a ciência ruim expulsa a boa”. Ele alerta com muita acuidade: “As consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior”. E acrescenta sem disfarce: “Dos membros do Congresso dos Estados Unidos, raramente 1% chegou a ter alguma formação científica significativa no século XX”.

No seu livro, Carl Sagan revela que, recentemente, a diretoria de uma grande companhia de produtos eletrônicos inquietou-se com o seu derredor social, ao constatar que 80% dos inscritos numa seleção não conseguiram aprovação num teste de matemática elementar. Ele denuncia: os colegiais norte-americanos não estão estudando o suficiente, apesar do desempenho extraordinário de uma reduzida minoria. Enquanto o ano escolar dos Estados Unidos tem 180 dias letivos, a Coreia do Sul tem 220 dias, a Alemanha tem 230 e o Japão lidera com 243 dias. E no Brasil, a merdalidade educacional se amplia em todos os níveis de escolaridade.

Com dados comprovados, Sagan faz comparações: enquanto o aluno norte-americano médio, de escola secundária, utiliza 3,5 horas por semana nos deveres de casa, o aluno japonês da quinta série estuda, em média, 33 horas semanais. E aponta a consequência: com metade da população dos Estados Unidos, o Japão forma anualmente duas vezes mais cientistas e engenheiros com diplomas de nível superior!

Para todos os leitores deste JBF sempre crítico-edificante, uma leitura que poderá render muitas iniciativas promissoras: Lições de um século de vida, Edgar Morin, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2021, 110 p. Páginas de um sempre pesquisador senhor de 100 anos que continua preocupado com os tormentos de nossa contemporaneidade.

Um presidente norte-americano, George Washington, já dizia em 1790: “Nada é mais digno de nosso patrocínio que o fomento da ciência e da literatura. O conhecimento é, em todo e qualquer país, a base mais segura da felicidade pública”.