DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO PAU DECIFRADO – Bocage

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carValho ser falta-lhe um U;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)

DEU NO X

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

DEU NO JORNAL

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FILAS CARNÍVORAS

Milhares de espetos de carne foram distribuídos por pecuaristas de todo o país em frente a agências do Bradesco, ontem, dia 3.

O evento recebeu o nome de “Segunda-Feira com Carne”.

Os atos foram organizados em vários municípios brasileiros e ocorreram em resposta a uma peça publicitária do Bradesco que propunha a “segunda-feira sem carne”.

O informe do banco atrelava o consumo da proteína à emissão de gases do efeito estufa.

Na cidade de Ribeirão Preto (SP), um dos principais centros do agronegócio brasileiro, o Sindicato Rural distribuiu milhares de espetinhos de carne em frente à uma agência do Bradesco.

O mesmo aconteceu em Presidente Prudente, também no interior paulista.

Houve até fila para participar da manifestação.

* * *

Que pena que não teve a “Segunda-Feira com Carne” também aqui no Recife.

Eu ia ser o primeiro a entrar na fila!

A patota de famintos ficou imensamente agradecida à merda praticada pelos marqueteiros zisquerdóides que o Bradesco teve o azar de contratar.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DE NOVO?

O assunto é tão velho que é quase impossível achar uma introdução original para o texto, então vamos direto ao assunto: um jornal inglês publicou um artigo com o seguinte título: “Nós temos uma arma poderosa para combater a inflação: controle de preços. É hora de usá-la.” Não, não é um jornal do tempo do Sarney defendendo o Plano Cruzado, ou coisa parecida. Em pleno 2021, ainda existe gente que fala nisso.

Quase todos os países importantes do mundo estão vivendo um preocupante aumento de preços. O motivo é que todos eles, com a desculpa da pandemia, imprimiram dinheiro como malucos. E isso é a definição básica de inflação.

Existem várias mentiras fincadas na mente das pessoas sobre isso, e todas elas foram inventadas para “tirar a culpa” do verdadeiro culpado, o governo. Por exemplo, muita gente nas redes sociais vêm dizendo que não precisamos nos preocupar com a inflação no Brasil, porque é uma inflação “mundial”. Há dois problemas neste raciocínio.

Em primeiro lugar, a inflação está afetando muitos países, mas não todos. Enquanto o nosso índice de preços anual está acima dos 10%, em nossa vizinha Bolívia ele está abaixo de 1%. Isso tem a ver com o dólar ter subido 40% por aqui nos últimos dois anos, enquanto lá ele se manteve estável (aliás, entre todos os países das Américas, nossa inflação só “perde” para Haiti, Suriname, Argentina e Venezuela). A causa, naturalmente, é que nem todos os países aumentaram a quantidade de dinheiro.

Em segundo lugar, falar que a inflação em outros países seria a causa da inflação daqui é um contra-senso. Inflação é perda de valor da moeda, e se as outras moedas perdem valor, a nossa deveria ganhar. O argumento da “inflação mundial” é como estar na lanterna do campeonato e tentar justificar dizendo “neste ano todos os times estão jogando mal”.

Outra mentira que é repetida sem parar é “a culpa é da pandemia que fechou tudo”. Os números não dizem isso. Ao contrário, estudos mostram que a produção está acelerada, e o aumento de preços em quase todos os setores da indústria é causado pelo aumento explosivo da demanda (clique aqui para ler). De onde pode vir um súbito aumento da demanda? Do aumento do crédito e da distribuição de dinheiro fabricado pelos bancos centrais mundo afora (Os EUA criaram mais de 15 trilhões de dólares desde o início de 2020; a Europa, mais de 2 trilhões de euros. TRIlhões, não bilhões). Para citar um exemplo que está sendo muito falado, estão faltando chips em muitos setores pelo mundo, mas não por problemas de produção: pelo contrário, um dos maiores produtores, Taiwan, bateu o recorde de produção em 2021.

No meio dessa confusão, uma sujeita que é professora de economia em uma universidade dos EUA publica um artigo no The Guardian inglês dizendo que o controle de preços pelo governo “funcionou na 2ª Guerra Mundial” e pode funcionar de novo. O que responder?

Não é muito comentado que durante a 2ª guerra o Reino Unido implantou um regime fortemente estatizante (alguns preferem dizer “socialista”), que perdurou após o fim da guerra. O governo estatizou bancos, ferrovias, siderúrgicas, minas de carvão, empresas de eletricidade, telefonia e gás; criou o NHS (serviço nacional de saúde), que monopolizou todo o atendimento de saúde do país, proibindo e extinguindo o atendimento privado, e implantou um grande sistema de seguridade social que incluía aposentadorias por idade e por invalidez, seguro desemprego e licença maternidade, tudo pago pelo governo. Também centralizou a distribuição de leite e a fabricação de queijo.

Durante a guerra, o governo não apenas controlava o preço de praticamente tudo, mas também determinava o que cada um poderia comprar, através de cartões de racionamento. A ração padrão durante a guerra dava a cada pessoa o direito de comprar, por semana, 113g de bacon ou presunto, 227g de açúcar, 57g de chá, 57g de queijo, 910g de geléia, 57g de manteiga, 113g de margarina, 57g de banha de porco e 1,2 libras (equivalentes a 18 reais de hoje) de carne à escolha (não que houvesse muita escolha). Roupas, tecidos, sabão, papel, combustível e materiais de construção também eram racionados através de cupons.

Quando a guerra acabou, o racionamento não apenas continuou como passou a incluir o pão. É que a produção local de trigo era pequena e não havia dinheiro para importar. Os racionamentos só acabaram completamente em 1954.

Agora vejamos a situação da Alemanha: durante a guerra, o governo nazista controlava completamente a economia do país, dizendo o que cada fábrica devia produzir e em que quantidade. Todos os preços e salários eram determinados pelo governo. Com o fim da guerra, o país foi dividido em quatro regiões, controladas pelo Reino Unido, EUA, França e URSS. Na prática, EUA e Reino Unido atuavam juntos e as duas regiões sob seu controle formavam a parte mais importante, economicamente, da Alemanha.

Como os EUA também adotaram controles de preço durante a guerra, os militares acharam natural manter o sistema que havia sido implementado pelos nazistas, e todos os preços permaneceram controlados. Mas a Alemanha estava destruída pela guerra e o governo emitia dinheiro para pagar as contas. Obviamente sua moeda, o marco, não valia nada e ninguém o queria. Em consequência, os produtos desapareciam do comércio e eram trocados no mercado informal. As grandes cidades passavam fome, embora a produção de alimentos na zona rural estivesse crescendo rapidamente. Então, em 1948, o ministro da economia, Ludwig Erhard, determinou que todos os controles de preços estavam extintos. Foi em um domingo, quando os militares ingleses e americanos não estavam em seus escritórios. Conta-se que um general ligou para Erhard no dia seguinte e gritou “o senhor não sabe que qualquer alteração na tabela de preços controlados exige a nossa autorização?”. Erhard teria respondido “Mas eu não alterei preço nenhum da tabela. Eu a joguei no lixo.” O fato é que os supermercados se encheram de comida como que por milagre, e todos os racionamentos se tornaram desnecessários.

É interessante comparar o resultado do controle de preços nos dois casos: na Alemanha, que perdeu a guerra, o racionamento durou três anos. Na Inglaterra, que ganhou a guerra, durou nove.

Existe gente querendo fazer o mesmo por aqui? Sim, certamente existe, apesar da enorme lista de tentativas fracassadas. Como disse alguém, “a coisa mais importante que a história nos ensina é que a maioria das pessoas não aprende com a história”.