MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O assunto é tão velho que é quase impossível achar uma introdução original para o texto, então vamos direto ao assunto: um jornal inglês publicou um artigo com o seguinte título: “Nós temos uma arma poderosa para combater a inflação: controle de preços. É hora de usá-la.” Não, não é um jornal do tempo do Sarney defendendo o Plano Cruzado, ou coisa parecida. Em pleno 2021, ainda existe gente que fala nisso.

Quase todos os países importantes do mundo estão vivendo um preocupante aumento de preços. O motivo é que todos eles, com a desculpa da pandemia, imprimiram dinheiro como malucos. E isso é a definição básica de inflação.

Existem várias mentiras fincadas na mente das pessoas sobre isso, e todas elas foram inventadas para “tirar a culpa” do verdadeiro culpado, o governo. Por exemplo, muita gente nas redes sociais vêm dizendo que não precisamos nos preocupar com a inflação no Brasil, porque é uma inflação “mundial”. Há dois problemas neste raciocínio.

Em primeiro lugar, a inflação está afetando muitos países, mas não todos. Enquanto o nosso índice de preços anual está acima dos 10%, em nossa vizinha Bolívia ele está abaixo de 1%. Isso tem a ver com o dólar ter subido 40% por aqui nos últimos dois anos, enquanto lá ele se manteve estável (aliás, entre todos os países das Américas, nossa inflação só “perde” para Haiti, Suriname, Argentina e Venezuela). A causa, naturalmente, é que nem todos os países aumentaram a quantidade de dinheiro.

Em segundo lugar, falar que a inflação em outros países seria a causa da inflação daqui é um contra-senso. Inflação é perda de valor da moeda, e se as outras moedas perdem valor, a nossa deveria ganhar. O argumento da “inflação mundial” é como estar na lanterna do campeonato e tentar justificar dizendo “neste ano todos os times estão jogando mal”.

Outra mentira que é repetida sem parar é “a culpa é da pandemia que fechou tudo”. Os números não dizem isso. Ao contrário, estudos mostram que a produção está acelerada, e o aumento de preços em quase todos os setores da indústria é causado pelo aumento explosivo da demanda (clique aqui para ler). De onde pode vir um súbito aumento da demanda? Do aumento do crédito e da distribuição de dinheiro fabricado pelos bancos centrais mundo afora (Os EUA criaram mais de 15 trilhões de dólares desde o início de 2020; a Europa, mais de 2 trilhões de euros. TRIlhões, não bilhões). Para citar um exemplo que está sendo muito falado, estão faltando chips em muitos setores pelo mundo, mas não por problemas de produção: pelo contrário, um dos maiores produtores, Taiwan, bateu o recorde de produção em 2021.

No meio dessa confusão, uma sujeita que é professora de economia em uma universidade dos EUA publica um artigo no The Guardian inglês dizendo que o controle de preços pelo governo “funcionou na 2ª Guerra Mundial” e pode funcionar de novo. O que responder?

Não é muito comentado que durante a 2ª guerra o Reino Unido implantou um regime fortemente estatizante (alguns preferem dizer “socialista”), que perdurou após o fim da guerra. O governo estatizou bancos, ferrovias, siderúrgicas, minas de carvão, empresas de eletricidade, telefonia e gás; criou o NHS (serviço nacional de saúde), que monopolizou todo o atendimento de saúde do país, proibindo e extinguindo o atendimento privado, e implantou um grande sistema de seguridade social que incluía aposentadorias por idade e por invalidez, seguro desemprego e licença maternidade, tudo pago pelo governo. Também centralizou a distribuição de leite e a fabricação de queijo.

Durante a guerra, o governo não apenas controlava o preço de praticamente tudo, mas também determinava o que cada um poderia comprar, através de cartões de racionamento. A ração padrão durante a guerra dava a cada pessoa o direito de comprar, por semana, 113g de bacon ou presunto, 227g de açúcar, 57g de chá, 57g de queijo, 910g de geléia, 57g de manteiga, 113g de margarina, 57g de banha de porco e 1,2 libras (equivalentes a 18 reais de hoje) de carne à escolha (não que houvesse muita escolha). Roupas, tecidos, sabão, papel, combustível e materiais de construção também eram racionados através de cupons.

Quando a guerra acabou, o racionamento não apenas continuou como passou a incluir o pão. É que a produção local de trigo era pequena e não havia dinheiro para importar. Os racionamentos só acabaram completamente em 1954.

Agora vejamos a situação da Alemanha: durante a guerra, o governo nazista controlava completamente a economia do país, dizendo o que cada fábrica devia produzir e em que quantidade. Todos os preços e salários eram determinados pelo governo. Com o fim da guerra, o país foi dividido em quatro regiões, controladas pelo Reino Unido, EUA, França e URSS. Na prática, EUA e Reino Unido atuavam juntos e as duas regiões sob seu controle formavam a parte mais importante, economicamente, da Alemanha.

Como os EUA também adotaram controles de preço durante a guerra, os militares acharam natural manter o sistema que havia sido implementado pelos nazistas, e todos os preços permaneceram controlados. Mas a Alemanha estava destruída pela guerra e o governo emitia dinheiro para pagar as contas. Obviamente sua moeda, o marco, não valia nada e ninguém o queria. Em consequência, os produtos desapareciam do comércio e eram trocados no mercado informal. As grandes cidades passavam fome, embora a produção de alimentos na zona rural estivesse crescendo rapidamente. Então, em 1948, o ministro da economia, Ludwig Erhard, determinou que todos os controles de preços estavam extintos. Foi em um domingo, quando os militares ingleses e americanos não estavam em seus escritórios. Conta-se que um general ligou para Erhard no dia seguinte e gritou “o senhor não sabe que qualquer alteração na tabela de preços controlados exige a nossa autorização?”. Erhard teria respondido “Mas eu não alterei preço nenhum da tabela. Eu a joguei no lixo.” O fato é que os supermercados se encheram de comida como que por milagre, e todos os racionamentos se tornaram desnecessários.

É interessante comparar o resultado do controle de preços nos dois casos: na Alemanha, que perdeu a guerra, o racionamento durou três anos. Na Inglaterra, que ganhou a guerra, durou nove.

Existe gente querendo fazer o mesmo por aqui? Sim, certamente existe, apesar da enorme lista de tentativas fracassadas. Como disse alguém, “a coisa mais importante que a história nos ensina é que a maioria das pessoas não aprende com a história”.

7 pensou em “DE NOVO?

  1. Verdade Marcelo há muito li um livro (acho que quatro mil anos de controle de preços) e as pessoas não aprendem.
    Tem um caso emblemático do controle do preço do leite na França. Daí os pecuaristas pediram o controle do preço da ração e os produtores de ração pediram o controle de preço de seus insumos e por aí vai: tudo está conectado.
    Também li um aforismo que dizia “a história é a melhor professora, mas não tem alunos”.

  2. Caro Marcelo,

    Teu texto é, mais uma vez, simplesmente brilhante!

    Só há um pequeno porém: as 1,2 libras de carne eram LIBRA PESO, e não dinheiro.

    Como eu sei que tu és economista, e não engenheiro, fica compreensível que vejas o dinheiro por trás de tudo. ahahahahahah

  3. Era dinheiro mesmo, Adonis. Os outros ítens estavam em peso, veja os valores quebrados (910 g de geléia = 2 libras, 227g de açúcar = 8 onças = 1/2 libra). Creio que no caso da carne, como a variedade era maior, foi especificado pelo preço.

    Mas agora que eu conferi, escrevi errado sim. Não era 1 libra e 20 centavos (que nem existiam) mas sim 1 shilling e 2 pence, sendo o shilling 1/20 da libra e o pence 1/12 do shilling. Então o valor correto na época seria 14/240 de uma libra, ou 0,058333. De qualquer forma, corrigindo pela inflação, corresponde a 2,5 libras de hoje, ou os 18 reais que estão no texto. A referência ainda diz que isso dava para comprar mais ou menos meio quilo de carne bovina de segunda, o que curiosamente não fica muito longe de 1,2 libras-peso.

    Como complemento, os vegetarianos podiam devolver os cupons de bacon e carne e ganhar em troca cupons adicionais para queijo e outros ítens.

      • 20 pence fazem um shilling, 12 shillings fazem uma libra (dinheiro).

        Para o peso, 16 drachmas fazem uma onça (ounce), 16 onças fazem uma libra (pound), 14 libras fazem uma pedra (stone), 8 pedras fazem um quintal (hundredweight) e 20 quintais fazem um ton. Mas para líquidos, 20 onças são um pint e 8 pints são um galão. (a Grã-Bretanha mudou para o sistema métrico, mas o chope ainda é obrigatoriamente vendido em pints)

        Para o comprimento, 12 polegadas é igual a um pé, 3 pés são uma jarda, 22 jardas são uma corrente (chain), 10 correntes são um furlong, 8 furlongs são uma milha e 3 milhas são uma légua, exceto no mar onde 6 pés são um fathom e 1000 fathoms são uma milha náutica.

        Fico imaginando quantas horas-aula do primário eram gastas ensinando estas tabelas para a criançada.

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