JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

UMA VOLTA AO PASSADO – UM MERGULHO NO TEMPO

Xícara onde era servido o “cafezinho” nos balcões

Ainda dá para ver pelo retrovisor do carro. Não está tão distante assim, aquele passado que conseguia estabelecer e garantir laços de amizades entre as pessoas em qualquer lugar desse Brasil, apesar da sua miscigenação cultural.

Por mim, falo para relembrar da minha então bela e acolhedora Fortaleza, capital cearense – hoje uma grande metrópole brasileira que contribui de forma positiva para o desenvolvimento turístico, por tudo que ali foi construído e é servido atualmente aos visitantes.

Tanto quanto as demais cidades, capitais ou não, Fortaleza tinha um “point” para onde quase todos se dirigiam em busca de interação: a Praça do Ferreira.

Tinha tudo, ou quase tudo. Bares, lanchonetes, bancos, lojas comerciais, padarias, lojas de calçados, cinemas e um vento gostoso que ajudava a levantar as saias das mulheres e mostrava as belas e torneadas coxas.

O caminho mais utilizado para levar à Praça do Ferreira, era a Rua Guilherme Rocha, fazendo uma rápida ligação com a Praça José de Alencar, usada como terminal de quase todas as linhas urbanas que ônibus que serviam a população.

Na Rua Guilherme Rocha existia mais de meia dúzia de botequins que só serviam “cafezinho”. Não existia copo plástico, nem o café era servido em copo de vidro. A xícara apropriada era pequena, de porcelana e o pires era metálico. Ambos esterilizados numa máquina com água fervente, onde também permanecia o bule de alumínio que mantinha o café sempre quente.

Não existia (ainda) o adoçante. O açúcar era servido em recipientes de vidro, para evitar a proliferação de moscas e formigas. Esqueci e dizer que, ali, além do “cafezinho” era vendido também o cigarro. Várias marcas de cigarros – mas a mais vendida era a Continental.

Continental era a marca mais vendida de cigarros

E a gente, embora jovem, tinha sempre algo para conversar com amigos, enquanto tomávamos o “cafezinho”.

Cena comum mostra senhoras conversando nas calçadas

Outro hábito social que merece destaque – e que até hoje tem influência de forma negativa na formação familiar brasileira – era cultura da conversa dos fins de tardes entre as mulheres, quase sempre vizinhas e moradoras do mesmo trecho da rua.

Não se tratava de “fofocar” – embora alguns assuntos pessoais das ausentes fossem falados. As mulheres cuidavam dos afazeres domésticos e dos filhos, enquanto os maridos trabalhavam. Muitas permaneciam em conversas nas calçadas até que o marido chegasse em casa.

O desaparecimento desse hábito proporcionou severas mudanças na vizinhança e, por consequência disso, no relacionamento familiar e social da família brasileira. Há quem responsabilize por isso, o novo pensar e o morar em apartamentos e/ou condomínios fechados.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Armando Sales de Oliveira

Armando de Sales Oliveira nasceu em 24/12/1887, em São Paulo, SP. Engenheiro, empresário e político, tem o nome ligado a história de São Paulo, particularmente, na criação da USP-Universidade de São Paulo e do IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas em 1934.

Filho de Adelaide Sá de Sales Oliveira e o engenheiro e político português Francisco de Sales Oliveira Jr., presidente da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Teve parte dos primeiros estudos em escola pública e ingressou no curso de engenharia da Escola Politécnica. Durante o curso, trabalhou na construção de alguns trechos da Mogiana, em 1908. Destacou-se na área de projetos técnicos como engenheiro e empresário e casou-se com Raquel de Mesquita, filha de Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal O Estado de São Paulo, de quem se tornou sócio.

Com a morte do sogro, em 1927, assumiu a presidência da sociedade anônima proprietária do jornal. Apoiou a Revolução de 1930 e teve atuação destacada na Revolução Constitucionalista de 1932. Manteve ligações com os constitucionalistas, enquanto procurava uma aproximação com o governo Vargas. Em 1933 foi designado interventor em São Paulo e promoveu uma reordenação na política do Estado com a criação do Partido Constitucionalista. A USP-Universidade de São Paulo constituiu-se na criação mais expressiva de seu governo. A proposta era tornar-se um centro de excelência acadêmica de projeção nacional, um objetivo plenamente alcançado.

Para ressaltar o objetivo, criou o IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas, ao lado da Escola Politécnica. As justificativas no próprio texto do decreto são claras: “a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo” e “somente por seus institutos de investigação científica, de altos estudos, de cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus destinos”. Assim, reuniu os institutos e escolas existentes, criou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras para formar professores primários e secundários e deu no que deu: a grande USP, cujo campus hoje leva seu nome.

Além dos objetivos acima, queria preparar uma elite intelectual moderna e necessária ao País. Ainda segundo seus criadores, era necessário à “formação das classes dirigentes, mormente em países de populações heterogêneas e costumes diversos, condicionada à organização de um aparelho cultural e universitário, que ofereça oportunidade a todos e processe a seleção dos mais capazes”. Para isto, foi firmado um convênio com as universidades francesas, garantindo a vinda de professores para lecionar aqui. No ano seguinte foi eleito governador do Estado e pouco depois comunicou à Vargas seu interesse em se candidatar à presidência da República.

Foi dissuadido dessa intenção pelo presidente Vargas. Porém, não acatou o conselho, pois contava com o apoio de Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul e de outros governadores da oposição à Vargas. Em 1937 homologou a candidatura na eleição que deveria ocorrer em 1938, que não se deu devido ao golpe instaurando Estado Novo em fins de 1937. Ele ficou detido por um ano em prisão domiciliar e passou a viver exilado na França até 1939, quando se mudou para os EUA. Com o Golpe de Estado, seu jornal foi confiscado pelo Governo. No exílio divulgou diversos manifestos contra a ditadura de Vargas.

Em 1943 mudou-se para a Argentina e pouco depois foi anistiado. Retornou ao Brasil em 1945, quando se encontrava doente. Ainda assim participou ativamente na política, como membro da comissão diretora que criou a UDN-União Democrática Nacional, partido reunindo os adversários do Estado Novo. Mas, logo veio a falecer em 17/5/1945. Seu nome ficou gravado no campus da USP e diversos logradouros públicos do Estado.

Deixou alguns livros publicados com relatos sobre sua trajetória política: Jornada democrática (1937), Para que o Brasil continue (1937) e Diagrama de uma situação política; manifestos políticos do exílio (1945). Alguns textos biográficos esclarecem tal trajetória: Síntese do pensamento de Armando de Sales Oliveira, de Joaquim A. Sampaio Vidal (1937), Armando de Sales Oliveira, de Cesário Coimbra, Manuel dos Reis e Moacir E. Álvaro (1946); Armando de Sales Oliveira, de A.C. Pacheco Silva (1966) e o artigo Armando de Sales Oliveira, de Ricardo Maranhão, publicado no “Suplemento do Centenário” de O Estado de S. Paulo, em 1975.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

SARAMAGOTAS PARA REFLEXÕES

O verbo esperançar, recentemente reavivado em nossos meios de comunicação, nos relembra a necessidade de efetivar algumas pensações cotidianas, favorecendo novos comportamentos e iniciativas em prol de uma sociedade mundial que está a carecer de inúmeras superações, inclusive as das guerras travadas por lideranças asininas que ainda não sabem o que seja debater pacificamente seus problemas mais complexos.

Perguntado outro dia por um pai de adolescente rebeldemente ansioso por soluções imediatas, muitas delas sem pé-nem-cabeça, disse-lhe que iria expor pensares de quem muito intelectualmente estimo numa crônica dominical do Jornal da Besta Fubana. Eis alguns pensares de um cabra luso para lá de muito arretado de ótimo, por quem tenho uma admiração da gota, José Saramago (1922-2010), que assim pensava sem goga alguma: “Aonde vai o escritor, vai o cidadão”. E ele não se contentava em ser apenas eleitor e consumidor, sempre intervindo na vida pública, manifestando opiniões sobre temas conjunturais que mereciam seus louvores ou protestos.

Para o jovem filho do Zito, um pré-vestibulando ansioso e meio, eis alguns pensares do notável luso José de Sousa Saramago, Prêmio Nobel 1998:

“A amnésia é ruim para as pessoas e também para as sociedades. Temos de saber quem somos para viver com consciência de estar vivos. Continuamos perguntando e procurando.”
“Eu não acredito que se escreva por necessidade. Necessidade é comer e beber. Alguns levam tão longe o seu papel de escritores que dizem: se não escrever, morro. As pessoas têm a tentação de tornar as coisas mais interessantes, mais românticas. Criou-se a ideia do artista torturado, que finalmente não é um ser deste mundo. Um pouco raro, muito raro. Como se o artista e o escritor fossem uma espécie de deus condenado a criar.”

“O que eu digo é que tenho, como cidadão, um compromisso com meu tempo, com meu país, com as circunstâncias do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra.”

“A verdade é que vivemos numa sala de espelhos na qual tudo se reflete em tudo e é, por sua vez, reflexo de si mesmo,”

“A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina são o que formam o corpo desse esqueleto.”

“A pergunta fundamental das humanidades é o que é o ser humano, enquanto, para círculos empresariais e tecnocráticos que se ocupam da utilidade imediata, a pergunta é para que servem os seres humanos.”

“A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.”

“A gente não pode ser tratada como os resíduos da fabricação e atirada fora como tal. O sistema é que está em falência e o socialismo – que a meu ver não o era – também está em falência.”

“Em nenhum momento da História, em nenhum lugar do planeta as religiões serviram para que os seres humanos se aproximassem uns dos outros.”

“Enquanto formos incapazes de reconhecer a igualdade profunda de todos os seres humanos, não sairemos da desastrosa situação em que nos encontramos.”

“Eu não posso dizer em consciência que sou ateu, ninguém pode dizer, porque o ateu autêntico seria alguém que viveria numa sociedade onde nunca teria existido uma ideia de Deus, uma ideia de transcendência e, portanto, nem mesmo a palavra ‘ateu’ existiria nesse idioma.”

“Não há nenhuma dúvida de que a Terra acabará explodindo. Mas isso não é para amanhã. Porém precisamos é de um bom susto. Quem sabe assim acordamos para a ação redentora.”

As reflexões acima refletem o perfil de um talento luso pensante. E que resulta numa questão por demais irrespondível:

De quantos Saramagos o mundo necessitaria para desenvolver-se fraternalmente? Só depende nós!!!

DEU NO JORNAL

PENINHA - DICA MUSICAL