DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VOZES DA MORTE – Augusto dos Anjos

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

ALEXANDRE GARCIA

ÍCARO BRASILEIRO

Ícaro brasileiro

O presidente quase ficou sem 17 ministérios e 17 ministros quase ficaram sem pasta. E não conseguiu tirar o COAF do Banco Central nem extinguir a FUNASA, nem dar o Cadastro Ambiental Rural e a Agência de Águas para a Marina Silva, nem a demarcação de terras indígenas para a Sônia Guajajara. E ainda pagou caro pela aprovação por um triz da nova estrutura de governo: o recorde de 1,7 bilhões em emendas liberadas no dia da votação. Se Lula ficou surpreso com esse resultado é porque anda afastado demais do país, voando demais. Na intimidade, se sabe que culpa seus articuladores no Congresso, embora todos saibamos que Artur Lira teve boas razões para prevenir o governo de que o problema está mais acima.

Talvez seja difícil para o presidente entender que ele foi eleito pela metade dos eleitores. A outra metade é oposição. Na melhor das hipóteses para ele, o país está dividido; ele não teve uma vitória esmagadora, como para ele parece. Além disso, a eleição que renovou a Câmara mostrou que cerca de dois terços dos deputados vêm de partidos e votos de centro-direita; a renovação de um terço do Senado aumentou a bancada conservadora para mais de 60%. Resta ao governo apelar ao fisiologismo; liberou emendas e agora fala em dar mais ministérios a partidos que ainda não receberam. Motivos para refazer o ministério é que não faltam.

Culpar articulação no Congresso é só ficar com uma parte do diagnóstico. Ministros inexperientes não têm noção de como se relacionar com deputados e senadores e, pelo jeito, cinco meses não foram suficientes para sentir que cada um tem que servir ao seu público, ao povo e ao mesmo tempo dar atenção aos integrantes do Poder Legislativo. Governo não é apenas o Executivo e, como se sabe, o falado semipresidencialismo já é uma prática há mais de quatro anos. Mesmo os experientes ex-governadores, hoje no ministério, estão gerando desgastes no governo, como o ministro da Justiça, Flávio Dino, e agora o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que, sem ser provocado, fez um discurso preconceituoso ofendendo Brasília, os brasilienses e levantando até os petistas da bancada do DF contra o ministro coordenador do governo. Nunca se havia ouvido antes um governador chamar ministro de “um idiota completo”, como disse ao Correio Braziliense Ibaneis Rocha (MDB) referindo-se a Rui Costa.

Não foi apenas a escolha do ministério inchado, mas também o espírito de revanche e desmanche. O teto de gastos, a privatizada Eletrobras, o marco do saneamento e a autonomia do Banco Central estão entre as tentativas de retroceder décadas e afastam também os notáveis que assinaram a Carta pela Democracia que apoiou Lula. E já aparecem editoriais e artigos com forte crítica ao governo, em órgãos que apoiaram a candidatura Lula. O programa econômico é claudicante; essa última novela de carro popular com corte de impostos, depois com bônus, e agora “repaginado” para caminhões e ônibus que já têm combustível subsidiado, mostra como a área econômica está insegura, indecisa e é incipiente no ramo.

A terceira década do milênio já não é como a primeira – essa é outra falha na percepção do chefe do Executivo. Aí, voa para fora do país – até quer um avião maior -, afastando-se das dificuldades internas. Viagens que causam mais críticas que elogios, nessa política externa de incensar o ditador Maduro em Brasília, sendo anfitrião de outros presidentes. Dia 22 será a 11ª viagem internacional – uma por quinzena. O próximo destino pode ser Paris para tratar de clima. Depois vai ao Vaticano.  Na verdade, para tratar de clima, deveria voar para o Sol, que é responsável pelo clima da terra. Mas, cautela: Ícaro iludiu-se sem saber que as asas estavam derretendo.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO JORNAL

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Muitos obras de ficção já foram chamadas de proféticas, por mostrar coisas que mais tarde aconteceriam na realidade. Dois livros que certamente se encaixam nesta categoria são “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, publicado em 1932, e “1984”, de George Orwell, publicado em 1948. Em conjunto, os dois descrevem o mundo de hoje com surpreendente precisão. Ambos também têm em comum a biografia dos autores, ambos britânicos que se envolveram com a política e se decepcionaram. Vale lembrar que o antigo Império Britânico atravessou o século 20 em uma lenta decadência e em um contínuo processo de estatização muito similar às idéias dos dois livros.

1984 é muito pessimista. Mostra uma sociedade empobrecida e ignorante, mantida sob constante vigilância por um governo opressor e onipresente, que justifica sua violência pela existência de uma guerra. Em certo ponto, é mostrado que a realidade é o contrário: a guerra é que é mantida apenas para justificar o permanente estado de opressão.

Admirável Mundo Novo, por outro lado, pode ser chamado (com algum humor negro) de otimista. Não existem guerras, porque existe apenas um “estado mundial”, cujo lema é “Comunidade, Identidade, Estabilidade”. É uma sociedade totalmente coletivista, onde a individualidade é mínima e desencorajada. Tudo é planejado, tudo segue as normas estabelecidas. É um mundo que soa estranhamente familiar para quem vive no mundo de hoje. Alguns exemplos:

– No livro, o conceito de família é inexistente. Os bebês são produzidas em “linhas de produção”, criados e educados pelo estado, e os adultos passam a vida em completa liberdade sexual. No mundo real, apenas a “produção” continua seguindo o processo tradicional, mas a formação das crianças é cada vez mais controlada pelo estado.

– No livro, todas as pessoas recebem gratuitamente uma droga sintética chamada “soma”, que é considerada segura e socialmente útil (“todas as vantagens do cristianismo e do álcool, sem nenhum dos seus inconvenientes”, diz um personagem). No mundo de hoje, as pessoas têm à sua disposição não uma, mas várias opções para fugir da realidade: Rivotril, Frontal, Prozac, Lexapro, Zoloft, Wellbutrin e dezenas de outros.

– No livro, a obediência ao padrão está acima de tudo; a maior obrigação das pessoas é agir e pensar da mesma forma que todos os outros. Diz um personagem: “Não há crime mais odioso que a falta de ortodoxia na conduta. O homicídio mata apenas um indivíduo, e, afinal, o que é um indivíduo? Podemos produzir indivíduos novos com a maior facilidade, tantos quantos quisermos. A falta de ortodoxia, porém, ameaça mais que a vida de um simples indivíduo: ela atinge a própria Sociedade.” No mundo de hoje, é fácil notar que o estado se preocupa cada vez menos com agressões ao indivíduo, como roubos ou assassinatos, mas se preocupa muito com ameaças a ele próprio.

Por que o mundo utópico de Admirável Mundo Novo parece mais real e mais possível do que o mundo distópico de 1984? A melhor explicação vêm do próprio Huxley, em um prefácio escrito para a reedição de 1946:

“Não há, por certo, nenhuma razão para que os novos totalitarismos se assemelhem aos antigos. O governo pelos cassetetes e pelotões de fuzilamento, pela carestia artificial, pelas prisões e deportações, não é simplesmente desumano (ninguém se importa muito com isso hoje em dia); é, de maneira demonstrável, ineficiente – e numa época de tecnologia avançada, ineficiência é o maior dos pecados.”

Um crítico comparou as duas obras dizendo: “Em “1984”, as pessoas são controladas pela dor e pelo medo. Em “Admirável Mundo Novo”, elas são controladas pela alegria e pelo prazer. Orwell previu um mundo onde os livros seriam proibidos. Huxley previu um mundo onde não é preciso proibir os livros porque ninguém quer ler.”

A sociedade criada (ou profetizada) por Huxley eliminou a escassez, o sofrimento, a dor – tudo que havia que desagradável na vida, enfim. Em um diálogo no final do livro, o “administrador mundial” explica que “a população ótima é como um iceberg: 90% abaixo da linha de flutuação, 10% acima dela”. Seu interlocutor pergunta se as pessoas “de baixo” são felizes, e o administrador responde “sim, mais felizes que os que estão acima”. “Apesar daquele trabalho horrível?”, é a réplica. “Horrível? Eles não acham. É leve, de uma simplicidade infantil. Nenhum esforço excessivo da mente ou dos músculos. Sete horas de trabalho leve, depois a ração de soma, esportes, cópula sem restrições e cinema. Que mais poderiam pedir?”

Analisando essa sociedade, Huxley faz uma análise/previsão que se tornou famosa:

“Um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos e os administradores controlassem uma população de escravos que não precisariam ser coagidos, porque amariam a escravidão. Fazer o povo amar a escravidão é a tarefa, hoje, dos ministérios, diretores de jornais e professores.”

Ministérios, diretores de jornais e professores. Em outras palavras, o governo e seus muitos órgãos, a imprensa e a escola. São eles que se dedicam à tarefa de fazer o povo amar a escravidão, temer a liberdade, suplicar por ordens e regulamentos, e de forma geral odiar qualquer um que cometa a heresia de pensar por si mesmo. São eles os executores do plano de levar-nos ao Admirável Mundo Novo. Já são muitos os seus apoiadores, que dizem que o bom cidadão obedece e não questiona, repete o que ouve mas não pensa, apoia tudo que a maioria apoia e condena, usando a violência se lhe pedirem, tudo o que a maioria condena.

Imitando a história, o Mundo Novo ficcional de Huxley surgiu após uma guerra, aproveitando o sentimento coletivo de que qualquer paz, ainda que sob uma tirania, é melhor do que a destruição e o sofrimento inevitáveis em qualquer guerra. A última “grande” guerra acabou há três quartos de século, mas de lá para cá as pequenas guerras têm sido constantes, e a simpatia pela guerra parece estar crescendo. Huxley disse em 1946:

“Os horrores da Guerra dos Trinta Anos foram uma lição, e por mais de cem anos os políticos e generais da Europa resistiram conscientemente à tentação de ir até os limites da destruição ou de combater até que o inimigo fosse inteiramente aniquilado. Porém, nos últimos trinta anos não tem havido conservadores, mas apenas radicais nacionalistas de direita e radicais nacionalistas de esquerda. O último estadista conservador foi o Marquês de Lansdowne; e, quando ele escreveu uma carta ao The Times sugerindo que a Primeira Guerra Mundial deveria ser concluída por um acordo, como tinham sido a maioria das guerras do século 18, o jornal se recusou a publicá-la. Os radicais nacionalistas impuseram sua vontade, com as consequências que todos conhecemos: bolchevismo, fascismo, inflação, depressão, ruína e fome.”

Então, estaremos chegando ao Admirável Mundo Novo? Em minha opinião, já estamos muito mais perto do que pensamos.

DEU NO X