J.R. GUZZO

BOLSONARO VIRA “JUDAS DE SÁBADO DE ALELUIA” PARA A MILITÂNCIA AMBIENTALISTA

O Brasil não tem nenhum problema de verdade com a Amazônia, o Pantanal e o restante das regiões de vegetação nativa que cobrem uma extensão tão grande do território nacional. É o exato contrário. Os agricultores brasileiros podem dar lições ao resto do mundo em matéria de preservação do ambiente em que trabalham e produzem.

O Exército Brasileiro é um exemplo de competência, eficácia e empenho na defesa da floresta amazônica – sem ele, a região já teria virado há muito tempo um amontoado de enclaves tão sem lei como as favelas do Rio de Janeiro – entregues ao tráfico de drogas, à mineração clandestina, ao corte ilegal de madeira e outras desgraças. Todo cidadão que já saiu um dia do seu asfalto natal sabe que as leis brasileiras estão entre as mais rigorosas do mundo no controle das alterações que afetam a natureza.

O que o Brasil tem – mas, aí, tem que não acaba mais – é um problema na sua imagem internacional em matéria de ecologia. O nome deste problema é Jair Bolsonaro.

O problema não é que o presidente viva tocando fogo na Amazônia ou no Pantanal, caçando onça ou garimpando diamante – nunca fez nada disso, nem deixa fazer, mas é Bolsonaro, e sendo quem é, sempre servirá de judas de sábado de aleluia para a militância ambientalista do mundo inteiro. Pode passar o resto da vida plantando uma árvore por dia; não vai adiantar nada.

As ONGs, os partidos verdes, as universidades de país rico, a mídia internacional, etc, etc, querem usar Bolsonaro como uma bandeira para as suas causas, ou para defesa dos seus interesses. Não vão mudar de ideia só por estarem dizendo uma mentira. Na verdade, acharam no presidente do Brasil uma figura ideal, que junta a sua fome com a sua vontade de comer.

Querem guerrear contra Bolsonaro porque ele é de direita – e aí clamam pelo santo nome das florestas para turbinar a sua ação política. Querem manter viva a pregação ecológica, com boas ou más intenções – e aí se servem da imagem direitista do presidente para construir uma espécie de Coringa pró-destruição do planeta. Sempre é uma mão-na-roda ter um satanás para promover o evangelho.

Não há milagre capaz de resolver este tipo de situação. Mas sempre existe o recurso de combater a mentira com a divulgação sistemática da verdade. Basta, para isso, agir com inteligência, profissionalismo e perseverança – além de trabalho duro, é claro. Não vai convencer quem não quer ser convencido. Mas com certeza ajudará a mostrar a realidade para milhões de pessoas, em todo o mundo, que estão dispostas a ouvir a razão.

O problema é que não passa pela cabeça do governo brasileiro fazer nada remotamente parecido com esse esforço. A atitude oficial é sair para a briga de rua, xingar a mãe e gritar pátria amada Brasil. Resumo da ópera: vai continuar como está, com viés de piora.

J.R. GUZZO

O CUSTO DE UMA ELEIÇÃO

Todas as vezes que você ouvir alguma dessas peças de propaganda pró-virtude da “Justiça Eleitoral”, dando aulas de moral e cívica e ensinando como o eleitor deve votar nas eleições para prefeito que vêm ai, lembre-se que isso não está apenas enchendo a sua paciência – também está custando dinheiro, e esse dinheiro sai todinho do seu bolso. Os gestores da excelência eleitoral brasileira já devem ter tentado lhe demonstrar, em outras ocasiões, que o custo das eleições no Brasil é pouca coisa, levando-se em conta os ganhos extraordinários que elas trazem para a sociedade. O que se ganha, na vida real, são esses políticos que estão aí – e cada cidadão que faça o juízo que quiser sobre a sua qualidade. Mas na questão do dinheiro não há dúvida nenhuma: é mentira o que estão dizendo. Eleição custa uma fortuna.

A “Justiça Eleitoral”, coisa que não existe em nenhuma democracia séria do mundo – simplesmente por que se considera, ali, que um negócio desses não tem a menor utilidade – transformou-se, no Brasil, num mamute burocrático cada vez mais caro. Sua influência na melhoria do nível dos políticos eleitos é igual a três vezes zero. Em compensação, joga para cima do contribuinte uma despesa exorbitante: R$ 20 milhões por dia, ou perto de R$ 7,5 bilhões por ano, mesmo em anos em que não há eleição alguma. (Estas são as últimas cifras disponíveis; pode ser mais, é claro.)

O mais curioso é que, embora haja uma quantidade fixa de eleições – uma a cada dois anos – as despesas não param de crescer. Em 2017, por exemplo, quando não foi feita nenhuma eleição, o custo do aparato eleitoral foi 50% maior que o de 2016, quando o País teve suas últimas eleições municipais – essas que vão se repetir agora em novembro de 2020. E onde eles conseguem gastar tanto dinheiro? Acertou: 90% de tudo vai para pagar a folha de funcionários.

A organização das eleições poderia, é claro, ficar nos limites de uma repartição pública modesta (sobretudo numa realidade cada vez mais digital), encarregada de expedir títulos de eleitor, convocar mesários, registrar candidatos e realizar outras tarefas de baixa complexidade. Nem pensar. Deram um jeito de criar uma estrutura XXXX-L, incluindo nela até mesmo um “Tribunal Superior Eleitoral”, uma espécie de Supremo Tribunal Federal do setor; naturalmente o TSE dispõe do seu próprio palácio-sede (aliás, já está no segundo prédio desde a construção de Brasília) e custa cerca de R$ 2 bilhões por ano para o público pagante. É claro que arrumaram também 27 “tribunais regionais”, um para cada estado – cada um com a sua sede, etc. etc.

A “Justiça Eleitoral” tem grandes planos para você. Foram autorizados, neste 2020 de covid-19 e de economia em processo de destruição, concursos para contratar mais de 1.000 novos funcionários (1.002, mais exatamente) para diversos dos “Tribunais Regionais”. Salários? Estamos, aí, em pleno Brasil-Suécia. O salário inicial para “técnico”, o cargo mais modesto, é de R$ 8.500. Para funções de “segurança” a remuneração mínima é R$ 9.600. Já um “analista” começa a vida com R$ 13.500. Conseguiram inventar, acredite se quiser, nada menos que um “oficial de justiça”, como os que a justiça comum utiliza para servir notificações de despejo, etc. Salário inicial: cerca de R$ 15.000.

Entende-se perfeitamente, aí, o medo-pânico de todo esse mundo quando ouve falar no fim do voto obrigatório.

J.R. GUZZO

VENEZUELA TRATA O BRASIL COMO INIMIGO. SÓ RODRIGO MAIA NÃO VÊ

Causou escândalo no noticiário político, dias atrás, a visita à Roraima do secretário de Estado norte americano Mike Pompeo, chefe das relações exteriores dos Estados Unidos. Escândalo de 15 minutos, é claro, porque hoje há em média uma meia dúzia de escândalos por dia, e a sua duração, em consequência de toda essa oferta, é necessariamente curta. No caso, quem teve o ataque de nervos foi o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Disse que a visita do secretário Pompeo era “uma afronta” ao Brasil, aparentemente porque ele esteve próximo à fronteira com a Venezuela — e essa parte do território nacional, no entender do deputado, não está subordinada às decisões políticas e diplomáticas do governo brasileiro.

“Afronta”? De onde o presidente da Câmara foi tirar essa ideia? Pompeo fez a sua visita à convite oficial, e perfeitamente legal, das autoridades nacionais com responsabilidades sobre as relações externas do Brasil. Não veio clandestinamente, como já fez o Rei da Noruega, que um dia resolveu aparecer no meio de uma tribo na Amazônia, nos braços de uma ONG – mas aí vale tudo, porque seria um ato de apoio aos “povos da floresta”.

Além disso, tanto quanto se saiba, os Estados Unidos são um país com o qual o Brasil mantém relações diplomáticas plenas; qual o problema que poderia haver na visita de uma das mais altas autoridades norte-americanas a um dos 27 estados brasileiros? Enfim, o secretário Pompeo não veio aqui para falar mal do papa Francisco ou do Dalai Lama, nem para criticar nenhum país aliado do Brasil. Veio para sentar a pua na Venezuela – que insulta os Estados Unidos diariamente e trata o governo brasileiro como um inimigo, além de fascista, genocida, ditatorial-militar, etc, etc.

A Venezuela, ao exato contrário do que foi dito no chilique do presidente da Câmara, não é “país amigo do Brasil” coisa nenhuma. Pode ser amiga dele, e de seus amigos do “campo progressista”, mas do Brasil não é. Está em vigor, ali, uma ditadura grosseira, a única da América do Sul neste momento e a diplomacia brasileira tem todo o direito de deixar claro que reprova o regime “bolivariano” e não quer conversa com ele, assim como não quer médicos cubanos e relações íntimas com Cuba.

Por que o Brasil deveria ser a favor da Venezuela? Ainda bem que é contra. O acesso antiamericano do deputado pode ter ocorrido a pedidos do “campo progressista”, mas daí não passa. O restante do país não tem nada a ver com isso.

O presidente da Câmara dos Deputados, imitando outros vultos de grande destaque da política nacional como João Doria, Wilson Witzel ou Renan Calheiros, para não falar de Luciano Huck, tornou-se um neo-esquerdista. Dá a impressão de achar, como os outros, que isso é uma ideia e tanto para o futuro da sua carreira – quem sabe, desse jeito, ainda não acabam presidentes da República? As próximas eleições dirão se o cálculo foi bem feito.

J.R. GUZZO

FÉRIAS EM DOBRO

Sede do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Brasília

O Conselho Nacional de Justiça, repartição pública onde juízes julgam os interesses dos juízes, é o tipo de tribunal que qualquer cidadão pediria a Deus para cuidar das suas causas. É praticamente impossível, pelo que fica o tempo todo demonstrado pela observação dos fatos, que um magistrado brasileiro peça alguma coisa ao CNJ e não seja atendido. Já se viu de tudo, ali – mas sempre há lugar para uma novidade e, quando se imagina que não haveria mais nada para pedir e para dar, lá vêm os conselheiros nacionais da Justiça com um novo presente para os juízes e uma nova fatura para você pagar.

O CNJ, desta vez, decidiu que os magistrados que se afastam do trabalho para presidir algum dos sindicatos da categoria – chamam a isso de “associações”, mas, na prática, são sindicatos – têm direito a receber férias, como todos os colegas que continuam a dar expediente normal, a cada ano que passam sem botar os pés numa vara de Justiça. Como os juízes têm direito a dois meses de férias por ano, quem fica dois anos num mandato sindical passará a receber do erário quatro salários, pagos em dinheiro, quando voltar ao serviço. É o que chamam de “pagamento de indenização”.

Mas já não seria suficiente, para o público em geral, pagar o salário integral e todas as demais vantagens financeiras dos juízes que presidem seus sindicatos e, por conta disso, ficam dois anos seguidos sem comparecer ao local de trabalho? Pode parecer assim para o leigo ignorante, mas não para quem está realmente capacitado a decidir sobre o assunto. De acordo com a conselheira que resolveu o caso, com o apoio da unanimidade dos colegas, supõe-se que os companheiros sindicalistas exercem suas funções em tempo integral, todos os dias e durante o ano inteiro; ficam em desvantagem, dessa forma, em relação aos magistrados que trabalham normalmente e desfrutam seus dois meses anuais de férias.

Ninguém faz a menor ideia, naturalmente, de como os presidentes dos sindicatos de fato empregam o seu tempo. Mas para o CNJ é óbvio que os juízes “classistas”, durante a sua ausência do trabalho, estão privados do “repouso” a que fazem jus – e para corrigir essa injustiça devem receber o equivalente a quatro salários em dinheiro vivo pelos dois anos que ficaram sem aparecer no fórum. Repousar do que, se não trabalharam? O CNJ não deu informações a respeito.

Aberrações como essas comprovam, mais uma vez, que as altas camadas do funcionalismo público brasileiro em geral, e do Judiciário em particular, transformaram-se ao longo dos anos em máquinas de criar pobreza neste país. De onde, na vida real, sai o dinheiro que vai pagar os quatro salários a mais que os sindicalistas da magistratura recebem a cada mandato? Não é de doações dos intelectuais orgânicos, nem da federação dos banqueiros. É do Orçamento da União e dos Estados – e cada tostão pago aos juízes que representam a “categoria” é um tostão a menos para os serviços que o poder público deve aos cidadãos mais pobres. O pagamento dessa festa sindical é um poema à concentração de renda – ou, então, à distribuição de renda no estilo brasileiro, pela qual se privatiza em benefício de poucos o imposto pago por todos.

Os habitantes dos galhos mais altos do Poder Judiciário brasileiro deram para falar, de uns tempos para cá, na necessidade de cuidar da questão “social”. Por que ninguém sugere, aí e no restante deste bioma, que o “combate à pobreza” comece a incluir a sua contribuição material? Fazer discurso a favor de “imposto sobre grandes fortunas” é fácil, sobretudo quando a fortuna é dos outros. O duro é abrir mão das férias em dobro.

J.R. GUZZO

DINHEIRO DO CONTRIBUINTE

As ideias de se criar no Brasil um novo tipo de “renda mínima”, numa espécie de combo capaz de juntar o auxílio de emergência de R$ 600 que está sendo pago para remediar a renda perdida com a covid-19, o Bolsa Família e outros penduricalhos sociais, vieram, foram embora, voltaram e, na última vez em que se falou delas, parecem ter ido para uma sala de espera – onde vão ficar, como se dizia antigamente, no aguardo de “determinação superior”.

É bom, em todo caso, que o assunto esteja mais perto do que nunca esteve, até agora, de uma definição. Tempos atrás, era comum olhar atravessado para esse tipo de ação – seria um incentivo ao não-trabalho, à criação de renda falsa e à exploração política por parte dos políticos. Hoje, os planos de renda mínima começam a parecer a fórmula mais coerente para o Estado fazer ação social com mais eficácia e menos desperdício.

Se uma parte dos impostos deve ser utilizada para ajudar quem têm menos, no entendimento de que isso beneficia o interesse comum, por que entregar esse dinheiro todo às repartições públicas do governo e ficar esperando que elas façam a distribuição? Melhor pagar direto ao cidadão, com depósito à vista na sua conta bancária. E se ele gastar o seu benefício tomando pinga ou comprando tênis de “grife”? Problema dele. A maioria não vai fazer isso – e também não está dentro das possibilidades práticas da sociedade ficar servindo de fiscal do que as pessoas gastam.

Ela cumpre a sua tarefa de ajudar a quem precisa mais; o resto é com quem recebe a ajuda. A administração pública, por outro lado, mostrou que foi capaz de cadastrar 60 milhões de cidadãos em umas poucas semanas. O povo não tinha conta no banco? Agora tem. Dá para fazer? Dá.

A questão, como acontece com 100% das questões do mesmo tipo, é definir como criar os recursos financeiros para fazer esses pagamentos diretos à população. Não se trata de dar renda; trata-se de achar a renda a ser dada. Mandamento número 1: não é possível criar riqueza sem produzir essa riqueza. Mandamento número 2: não existe “dinheiro do governo” guardado num cofre, à espera de distribuição por parte de governantes bondosos. O governo não tem um tostão furado. O dinheiro é todo do contribuinte – e é ele, e mais ninguém em todo o sistema solar, que vai botar a mão no bolso para pagar a renda mínima.

Este, e só este, deveria ser o foco de todo o trabalho a ser feito em torno da questão. O resto é pura hipocrisia, demagogia de terceira qualidade e vontade de tirar proveito político pessoal às custas do esforço comum.

J.R. GUZZO

PROFESSORES NÃO QUEREM TRABALHAR. E OS ALUNOS, COMO FICAM?

O Brasil é possivelmente o único país em todo o planeta Terra onde os defensores mais intransigentes da ideia de manter as escolas fechadas são os professores da rede pública de ensino. Por mais quanto tempo ainda? Por tempo indeterminado, até que os seus sindicatos autorizem os governos estaduais ou municipais a reabrirem as salas de aula. Mesmo para o padrão mental da esquerda brasileira e de seus atuais servidores na máquina do Estado, gente historicamente capaz de fazer qualquer coisa, é um exagero. Teria de estar acontecendo justamente o contrário.

Os números da epidemia caminham para dois meses seguidos de queda – o que, pela lógica mais elementar, e pelo exemplo dado por países que estão uns 100 anos à frente do Brasil em termos de educação, deveria fazer governos e professores se dedicarem ao máximo a reabrir as escolas. Mas, acredite se quiser, os especialistas que decidem o que é bom e o que é ruim para o ensino nacional dizem que manter tudo fechado serve não apenas para “salvar vidas”: é uma exigência “social”.

Se eles não permitem que se abram as escolas públicas – basicamente, porque não querem mais dar aula -, as escolas particulares, então, poderiam reabrir as portas, não é mesmo? Nem pensar. Se os alunos ricos ou de classe média da rede privada (cujos pais, por sinal, estão pagando as mensalidades desde março, sem receberem em troca o serviço contratado) voltarem a ter aulas, as “diferenças” entre eles e os alunos pobres da rede pública vão aumentar ainda mais. Isso é injustiça. É aumento de desigualdade. É coisa da elite branca. Não pode. Tudo pelo social.

Ou seja: enquanto as escolas públicas estiverem fechadas, ninguém tem o direito de funcionar. O que vale “para os pobres”, dizem eles, tem de valer também “para os ricos”. Não querem, nem mesmo, que escolas privadas tenham horários com atividades de recreação, ao ar livre e obedecendo a todas as exigências dos médicos que militam no “Partido do Fique em Casa Pelo Resto da Vida”.

Por que esses meninos riquinhos teriam direito a se distrair um pouco se os meninos pobres estão obrigados a ficar nas suas casas da periferia, sem conforto, sem espaço e sem ter o que fazer? Não senhor. Se sofrem uns, têm de sofrer todos. Nunca ocorre aos professores públicos, é claro, que os meninos pobres estão sofrendo unicamente porque eles mesmos, os professores, decidiram impor esse sofrimento com a sua guerra para manter a rede pública trancada.

É sabido, há décadas, que há uma diferença estúpida entre a qualidade do ensino particular e a do ensino público – e que essa, justamente, é a principal causa das desigualdades na sociedade brasileira. Mas a esquerda educacional nunca pensou, nem por um minuto, em fazer algum esforço de verdade para melhorar a escola pública; sua solução para o problema, como se vê agora, é reprimir a escola particular. Mais: sua exigência de quarentena sem fim para as salas de aula está sendo um dos ataques mais agressivos que já se fez a favor da concentração de renda e do aumento da diferença de classes no Brasil.

O fechamento das escolas virou, nos dias de hoje, umas das principais bandeiras do “campo progressista”, como a esquerda – com o aval da mídia – chama a si própria. Não acham que 50 milhões de alunos sem aula seja uma tragédia; trata-se, para o “progressismo”, de uma meta a atingir ou a preservar. Talvez até estejam, como Dilma Rousseff, querendo “dobrar a meta”.

As escolas já estão fechadas há mais de 200 dias no Brasil – mais do que em qualquer país de primeiro mundo. A nova meta, imagina-se, é chegar aos 400.

J.R. GUZZO

ZERANDO TUDO

O ex-presidente Lula apareceu de novo no noticiário oferecendo-se ao público, pelo que foi possível entender, para restaurar a democracia no Brasil, colocar comida na mesa do povo, em vez de bala de revólver, e devolver ao País a prosperidade, bem estar e ascensão social que, segundo ele, existiam durante os 13 anos e meio dos governos do PT. Falou como quem tem certeza de que vai ser candidato a presidente da República nas próximas eleições. Lula deve saber o que está dizendo.

O Supremo Tribunal Federal, que substituiu o PT e seus amigos como o mais agressivo partido de oposição no Brasil, dá a impressão de estar querendo, acima de qualquer outra coisa, que Jair Bolsonaro caia fora da Presidência – já, se for possível, ou pelo menos em 2022, quando ele vai tentar a reeleição.

Caso não deem certo a anulação das eleições de 2018, o processo por ter demitido um diretor da Polícia Federal, a acusação de genocídio e outras propostas como essas, os ministros do Supremo parecem achar que Lula é o meio mais eficaz para chegar lá. Ou, vai ver, acham mesmo que a melhor coisa para o Brasil é voltar aos tempos de Lula & Dilma.

De um jeito ou de outro, Lula está se mostrando seguro que as suas duas condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, a primeira já confirmada em três instâncias e por nove juízes diferentes, a segunda confirmada em duas, vão ser anuladas e a sua ficha ficará limpa para concorrer em 2022. É um fenômeno.

Empreiteiros imensos, diretores de estatais e outros titãs da ladroagem nacional, incluindo nada menos que um ex-ministro de Estado, hoje em prisão domiciliar, confessaram crimes de corrupção num volume sem precedentes na história nacional. Mais: devolveram milhões em dinheiro roubado. Por acaso alguém devolve por livre e espontânea vontade dinheiro que não roubou?

Toda essa gente não praticou seus crimes no Polo Sul; durante mais de dez anos seguidos operaram nos salões íntimos dos governos de Lula e Dilma. Mas, pelo jeito com que o STF parece estar vendo as coisas, o culpado é o juiz Sergio Moro. Ele foi “parcial”, dizem – então tem de zerar tudo, mesmo o que não foi ele, Moro, quem decidiu, para salvar as nossas “instituições”. Ou seja: roubaram como nunca no governo Lula, mas Lula não tem culpa de nada.

Será muita sorte, na verdade, se a coisa ficar por aí. O STF ainda pode acabar dando ordens para que o contribuinte pague alguma indenização milionária ao ex-presidente e sabe Deus a quanta gente além dele. Por que não? Já não existe o “Bolsa-Ditadura”? Então: é só criar o “Bolsa Moro”.

Uma história, porém, é contar com o mais eficiente escritório de advocacia criminal que existe hoje no Brasil – o STF. Outra, já bem mais complicada, é ganhar uma eleição para presidente da República. Uma das bandeiras que Lula mostrou nessa sua primeira salva de artilharia, por exemplo, foi a tese de que Bolsonaro matou 130.000 pessoas na Covid.

Essas ideias são um perigo. Se ficar até 2022 repetindo isso, corre o risco de reviver sua campanha presidencial de 1994, quando passou o ano inteiro dizendo que o Plano Real era uma farsa e que a inflação estava cada vez pior; perdeu já no primeiro turno, algo que nem Geraldo Alckmin conseguiu.

Inventar realidades que não existem rende barulho na mídia, mas não substitui o essencial: Lula terá de explicar com clareza para os eleitores o que, exatamente, ele vai fazer de diferente do que Bolsonaro está fazendo – e convencer umas 70 milhões de pessoas de que essas mudanças, na prática, vão melhorar a vida de cada um. Ninguém está pedindo a “volta da democracia”, nem da “ascensão social”. Não é por aí.

J.R. GUZZO

TSE CONVIDA “ESPECIALISTA” DUVIDOSO PARA ALERTAR ELEITORES SOBRE FAKE NEWS

É sempre muito difícil fazer bem uma tarefa que é ruim pela própria natureza. No caso, a tarefa bichada é essa campanha da Justiça Eleitoral, mais uma, para ensinar aos eleitores como votar direito nas próximas eleições para prefeito. A intenção, em si, é um disparate: de onde os ministros do Tribunal Superior Eleitoral tiram a ideia de que são capazes de ensinar alguém a exercer “bem” o seu direito de votar – ou a fazer “bem” qualquer outra coisa?

É a incurável compulsão das autoridades públicas deste país em tratar a população brasileira como um bando de débeis mentais, sempre necessitados da ajuda da madre superiora para pensar, escolher e decidir. Além de absurda, a ideia é inútil. Se os sermões de campanha do TSE servissem para alguma coisa, o Brasil deveria ter os melhores políticos no mundo, não é mesmo? Tem esses que estão aí.

Na opinião dos próprios arquiduques dos nossos tribunais, aliás, o atual governo federal, saído diretamente das últimas eleições de 2018, é o pior que o país já teve em sua história. O que é que adianta, então, toda essa conversa de “voto consciente”? Há 31 anos, desde 1989, o Brasil faz eleições diretas para presidente da República. Há 38, desde 1982, faz eleições diretas para governador. Já deveria ter dado tempo para o brasileiro “aprender a votar” – ou tudo isso aí ainda é muito pouco? Quantos anos mais, segundo o TSE, serão necessários para essa gente entender como é que se vota do jeito que suas excelências querem?

Naturalmente, não existe uma única democracia no mundo onde se faça qualquer coisa parecida com essas campanhas pró-virtude que nos enchem a paciência há décadas. Também não existe nenhuma democracia onde o voto seja obrigatório – ou seja, onde os políticos transformaram um direito constitucional em uma obrigação. É lógico: nossas “instituições”, a “Constituição Cidadã”, etc, são muito superiores a tudo que existe no resto do planeta.

Na hora da execução, como se poderia esperar, a ideia ruim fica pior. Na atual campanha, o TSE convocou para nos dar instrução moral e cívica algumas dessas figuras que têm a profissão de “especialista”; sua especialidade é especializar-se em ser ouvido pela mídia na condição de “especialistas”. Um deles, chamado para advertir os eleitores do perigo das “fake news”, é o mesmo que disse que haveria “1 milhão de mortes” no Brasil por causa de Covid-19 se não fosse adotado um fechamento extremo de tudo, em todo o país, por tempo indeterminado: afirmou, até, que estava sendo otimista.

Não foi feito o fechamento exigido. O número de mortos está abaixo de 130 mil. Se isso não é notícia falsa, o que seria? Um outro especialista, para quem sair de casa é praticamente um crime de lesa-pátria, quer que os mesários não deixem de participar da maior “aglomeração” de gente desde o início da epidemia – as próximas eleições. É esse o nível de qualidade da campanha de propaganda do TSE.

Além de ser obrigado a ouvir isso tudo, você ainda tem de pagar – cada tostão gasto nas aulas dadas pelo TSE no rádio e televisão sai diretamente do seu bolso, através dos impostos que a máquina do Estado extorque a cada vez que o cidadão acende a luz, fala no celular ou põe um litro de combustível no tanque do carro. Qual a novidade? Se o brasileiro já paga os serviçais que puxam a cadeira dos magistrados “top de linha” na hora em que se sentam para as reuniões, as suas lagostas, os seus planos médicos cinco estrelas e tanta coisa mais, por que não teria de pagar pelas lições do TSE? É a beleza das nossas instituições.

J.R. GUZZO

200 DIAS SEM AULAS

O Brasil acaba de chegar a um número espetacular: crianças e jovens estão há 200 dias seguidos sem aulas, fenômeno que não encontra paralelo em nenhum país do mundo. É a maior realização, até agora, da quarentena defendida com tanto entusiasmo por nossos “gestores” públicos, médicos que só pensam naquilo – “fique em casa” –, sindicatos de professores e todos os militantes, como eles, do Partido Funerário Brasileiro.

É mais um título mundial, para se juntar ao “penta”: nenhuma nação do planeta conseguiu chegar nem perto deste recorde. Na Dinamarca, as escolas públicas ficaram fechadas 30 dias. Na França, 56. Na Alemanha, 68. Mais uma vez a Europa se curva ante o Brasil.

Crianças e jovens estão há 200 dias seguidos sem aulas no País Foto: Alex Silva/ Estadão

Deve ser, obviamente, porque o sistema de ensino europeu é muito inferior ao brasileiro. Aqui, com a prodigiosa qualidade da nossa escola pública, podemos ficar praticamente um ano sem aulas – e garantir assim a perfeita saúde das crianças, enquanto a Europa, irresponsável, ignorante e coitada, está criando “aglomeração” nas escolas e fazendo esse genocídio infantil porque precisa tirar o seu atraso em matéria de educação. Só pode ser isso.

No Brasil quem entende mesmo do assunto é gente como a deputada Bebel, que manda no sindicato de professores de São Paulo, ou dr. Drauzio, especialista vitalício da mídia para questões de medicina pública, privada e de qualquer outra natureza – e mais uma penca de celebridades tão parecidas com esses dois que nem é preciso ficar citando mais nomes. Eles não podem nem ouvir falar em volta às aulas; os 200 dias de escola fechada são a maior vitória que já conseguiram até agora ao longo de toda a quarentena.

A sindicalista diz que não há nenhuma condição de reabrir as escolas no momento, embora o número de crianças que contraíram o vírus pelo mundo afora seja, em geral, inferior a 1% dos infectados; as mortes são menos de 1% desse 1%. Ela acaba, aliás, de fazer uma ameaça: se as autoridades ensaiarem qualquer tentativa de volta às aulas os professores entrarão “em greve”. O especialista diz que todo mundo tem de continuar trancado em casa – salvo, por alguma razão não explicada, os mesários das próximas eleições municipais, segundo sua mensagem ao público na propaganda da justiça eleitoral.

Todos falam, naturalmente, que a solução é substituir as aulas “presenciais” (como se fosse possível dar algum outro tipo de aula) por lições “no computador” – que servem, talvez, para quem quer fazer um curso de corte e costura, mas não ensinam coisa nenhuma de aritmética, ciências ou português.

Em países que contam com um mínimo de decência por parte dos seus “gestores”, levar as crianças de volta às aulas foi uma prioridade absoluta desde o começo da epidemia. Aqui, manter as escolas fechadas por 200 dias, e quantos mais for possível, é um ato de patriotismo.

J.R. GUZZO

CÁRMEN, O EXÉRCITO E A AMAZÔNIA

Os atuais ministros do STF estão numa disputa cada vez mais agitada para ver quem, entre os onze, consegue fazer os piores papéis. Há, é claro, os grandes craques, gente da qualidade de um Gilmar Mendes ou Dias Toffoli, Edson Fachin ou Luís Roberto Barroso – especialmente esse Barroso, que se esforça todos os dias para ser nomeado guardião supremo da virtude no Brasil e, possivelmente, no resto do mundo. Mas sempre há um lugarzinho para a turma da segunda divisão tentar alguma coisa. É o caso da ministra Cármen Lúcia, que andava entregue à pequenez habitual de sua presença na mídia, hoje mais excitada com colegas que falam de “genocídio”, de “dictatorship” etc. É a velha história. Se ninguém está prestando atenção em você, tenha um ataque de nervos; sempre haverá quem pare um pouco para olhar.

O último chilique da ministra foi dar “cinco dias” para o Exército explicar a sua “presença” na Amazônia. Como assim? Desde quando Exército Brasileiro tem de pedir licença à ministra Cármen, ou a quem quer que seja, para ir a algum lugar do território nacional? Tanto quanto se saiba, as forças armadas têm o direito de estar presentes em cada palmo dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados deste país. Não podem ir para o Paraguai ou para a Bélgica, mas aqui dentro podem, sim. Ou melhor, têm a obrigação legal de estar presentes – não podem dizer que nesse ou naquele lugar “a gente não vai”. Porque a ministra Cármen não pergunta, então, o que o Exército está fazendo no Paraná? Ou em Pernambuco? Perderam a noção.

A maior parte das fronteiras do Brasil com os seus vizinhos fica na Amazônia. Uma das principais funções de um exército, em qualquer lugar do planeta, é vigiar as fronteiras nacionais; se não fizer isso, quem vai fazer em seu lugar? Uma ONG? A PM de Alagoas? Os “capinhas” do STF? O Exército não precisa preencher um formulário em quatro vias para explicar por que mandou o pelotão “X” ou “Y” se deslocar do ponto “A” ao ponto “B” dentro do território brasileiro. Só num lugar como o atual STF, em seu show diário para convencer a si próprio que manda no “governo militar, antidemocrático e fascista” que está aí, daria para encontrar quem acha o contrário.

É, para resumir a ópera, mais uma comprovação da crescente incapacidade do STF em funcionar como uma corte de justiça de país decente. Para piorar o que já é ruim, o despacho da ministra Cármen foi feito para satisfazer – acredite se quiser – um pedido do Partido Verde, que conta com quatro deputados (4) entre os 513 que formam a Câmara. Pode isso, Arnaldo? Sobra, melancolicamente acima de tudo, a clara sensação de mais uma palhaçada top de linha. Por acaso o Exército Brasileiro vai abandonar a Amazônia para atender ao Partido Verde, ou à doutora Cármen? Não vai. Então chega.