J.R.GUZZO

BOLSONARO DEVERIA DIZER, EM PÚBLICO, QUE É A FAVOR DAQUILO QUE É CONTRA

Agora, para esse caso do coronavírus, já é tarde demais. Mas para uma próxima vez, se houver uma próxima vez, o presidente Jair Bolsonaro deveria fazer exatamente o contrário do que fez, se quiser sair no lucro numa disputa desse amanho. É simples: basta dizer, em público, que ele é a favor daquilo que é realmente contra, em particular – ou vice versa.

O senhor quer que aconteça “A”, presidente? Então diga que quer que aconteça “Z”. As forças vivas da nação, de Fernando Henrique ao PCC, de Rodrigo Maia a Dilma Rousseff, do STF à Assembleia Geral da ONU, e assim por diante, vão cair matando em cima do que Bolsonaro disser, seja lá o que for. Pronto: daí fica todo mundo contra o que ele, na verdade, também é contra, e a favor do que ele, em segredo, é de fato a favor.

Se Bolsonaro tivesse saído por aí dizendo que o Brasil tinha de se submeter a um confinamento radical – todo mundo trancado em casa, fecha tudo, para tudo, mata, prende e arrebenta – não haveria mais, já há muito tempo, confinamento nenhum neste país. Tinha de dizer, também, que qualquer sugestão de que existe algum tratamento médico possível para o Covid-19 é mentira, traição e coisa de comunista.

Em suma: precisava fazer o que os seus inimigos, sobretudo os que se enxergam como grandes forças na campanha eleitoral de 2022, querem que seja feito. Daí o Brasil voltava a funcionar, na hora.

É verdade que o presidente ia ser acusado de genocídio, e denunciado pelos “juristas brasileiros” nas “cortes internacionais de justiça” por crimes contra a humanidade; ele estaria obrigando os 200 milhões de brasileiros a saírem de casa, irem trabalhar e se contagiarem com o coronavírus, para exterminar a população e ficar mandando no Brasil sozinho, junto com o gabinete do ódio.

Mas e daí? Ele já está sendo acusado de fazer justamente isso. Em compensação, a epidemia estaria sendo tratada pelos médicos e pela ciência, e não pelo guarda noturno e gigantes como os governadores Witzel, Doria, Caiado, Barbalho e mais do mesmo.

O coronavírus, no Brasil, conseguiu o fenômeno de rebaixar questões da química, da farmacologia e da aptidão de gerir a saúde pública ao nível moral dos seus políticos – sobretudo dos governadores, prefeitos e fiscais que todo brasileiro sabe, muito bem, quem são e para o que servem.

Gerou uma massa de mentiras como nunca se viu antes, possivelmente, na história deste país. Levou os meios de comunicação a abrirem mão da lógica, renunciarem ao dever de informar ao público e divulgarem alguns dos mais espetaculares disparates que alguém pode ter lido na vida – como o de que a epidemia pode causar “mais de 600.000 mortos” no Brasil se as medidas de confinamento forem “relaxadas”. Todos, de uma forma ou de outra, se engajaram numa causa que acabou por se tornar maciçamente política – a campanha para impedir a reeleição do atual presidente em 2022.

Bolsonaro pode ser um péssimo presidente. Pode ser, para quem não gosta de nenhum aspecto do seu comportamento, das suas posições ou da sua própria existência, o pior de toda a história do Brasil – passada e futura. Mas a solução para tudo isso está em construir uma candidatura de oposição coerente, ir às urnas e ganhar dele. Tirar vantagem pessoal da desgraça comum, como estão fazendo tantos dos nossos políticos, apenas coloca mais um prego no caixão dessa democracia falida que há por aí.

J.R.GUZZO

OS MAIS NOVOS NAMORADOS DA ESQUERDA NACIONAL

Até muito pouco atrás o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), era tratado como uma espécie inferior de bactéria pelo ex-presidente Lula, por toda a esquerda nacional e pela mídia – para não falar das classes intelectuais, filosóficas e sociológicas do país. Poucos políticos brasileiros, em tempos recentes, foram desprezados com tanto empenho e rancor como Doria. A aversão começou quando ele derrotou o PT e Fernando Haddad na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2016.

Piorou muito dois anos depois, quando se grudou desesperadamente a Jair Bolsonaro após ter abandonado a prefeitura e se ver ameaçado de perder a eleição ao governo do estado para um ex-prefeito de São Vicente. Na ocasião, inventou um negócio chamado “Bolsodoria”, e só por isso, na última hora, conseguiu se eleger. Sua imagem junto à esquerda chegou, então, ao ponto mais baixo que alguém pode alcançar.

Mas nada é tão fácil de se arrumar na política brasileira de hoje quanto um milagre. Basta se exibir como um adversário do presidente da República e pronto: a imagem de qualquer um, até mesmo de Doria, é imediatamente retirada do lixo e promovida pela esquerda e pelos meios de comunicação ao grau de estadista responsável, equilibrado, sereno, patriota e quem sabe quanta coisa mais.

Seu ponto culminante nessa virada de casaca acaba de ser atingido: ninguém menos que Lula, em pessoa, nomeou Doria, pelo Twitter, como um grande homem, na categoria de salvador do Brasil. Doria devolveu a puxada de ego. Eis aí, quem diria, os dois mais novos namorados da esquerda nacional.

Doria começou a aparecer em público como um destemido opositor de Bolsonaro assim que fez as contas e chegou a duas conclusões. A primeira é que não precisava mais da ajuda do presidente. A segunda é que a elite mais subdesenvolvida do Brasil, e que mais faz a pose de “civilizada”, não consegue admitir a hipótese de que Bolsonaro seja eleito para mais um mandato. Já não aceitam que ganhou as eleições de 2018. Não podem nem pensar em 2022. Como essa gente anda órfã de candidatos (chegam a pensar, até, num apresentador de programa de auditório para resolver o seu problema), Doria se ofereceu: “Alô, antibolsonaristas do Brasil, que tal eu?”. Desde então, não pensa em outra coisa. Com a chance do coronavírus que lhe caiu de graça no colo, se animou de vez.

Doria se meteu agora com Lula, na suposição de que o ex-presidente já é um defunto político mal enterrado, e não será mais nada, nunca, na política brasileira; poderia, então, já que não será candidato a coisa nenhuma, passar para o governador os votos e os apoios que tem hoje, em troca de vantagens em sua eventual e futura presidência. O grau de confiança que Lula tem em Doria, pelo que se sabe da mentalidade do ex-presidente, oscila entre zero e menos um. Doria, pelo seu histórico, tem o mesmo tipo de consideração pelo novo amigo. Mas política é dia a dia. Os abraços de hoje são os abraços de hoje. Amanhã é amanhã.

J.R.GUZZO

A INSENSATEZ DA OMS DIANTE DO VÍRUS CHINÊS

De toda a maciça produção de mentiras, declarações hipócritas e decisões desastrosas, devidas à ignorância ou à má fé, tomadas até agora para enfrentar a epidemia trazida pelo coronavírus, provavelmente nada iguala a estupidez de autoridades e “personalidades” brasileiras em sua insistência de exigir fé religiosa no que diz a Organização Mundial de Saúde. A OMS, um alarmante cabide de empregos que serve de esconderijo, na segurança da Suíça, para marginais que frequentam os galhos mais altos de ditaduras africanas e outros regimes fora-da-lei, é tida no Brasil como “autoridade em saúde mundial”, por “ser órgão da ONU”. Mas a OMS não é uma organização científica. É um agrupamento político a serviço de interesses terceiro-mundistas, antidemocráticos e opostos à liberdade econômica. O resto é pura enganação.

Ainda agora ouvimos o presidente do Senado – imaginem só, ninguém menos que essa figura, o presidente do Senado – nos instruir, em tom gravíssimo, das nossas obrigações de seguir em tudo o que a OMS está mandando fazer sobre o coronavírus. É claro que você já sabe o que eles querem: confinamento geral e rigoroso da população, e repressão à atividade econômica. Sem que se saiba direito porque, o ministro Gilmar Mendes, que por sinal andava esquecido com todo esse barulho, entrou no assunto. “As orientações da OMS devem ser rigorosamente seguidas por nós”, disse Gilmar. “Não podemos nos dar ao luxo da insensatez”. Obviamente, nem um nem outro têm a menor ideia do que estão falando. Quanto ao chefe do Senado, naturalmente, é exatamente o que se pode esperar. No caso do ministro, a única coisa que faz sentido dizer é o seguinte: insensato, mesmo, é ouvir o que a OMS diz sobre saúde, por cinco minutos que sejam.

Questão de ponto de vista? Nem um pouco. É uma pura questão de fatos. Vamos a eles. Durante quatro semanas inteiras, ainda em dezembro de 2019, com o vírus deitando, rolando e matando à vontade, o governo da China se recusou a admitir a existência de qualquer problema na cidade de Wuhan, o berço desse pesadelo. Não se tratava de nenhuma discussão acadêmica – era um caso de polícia secreta, como é comum acontecer em ditaduras quando aparecem problemas com os quais o governo não sabe lidar. O governo da China não apenas mentiu, dizendo, repetidas vezes, que não havia epidemia nenhuma.

Prendeu médicos e cientistas que alertaram sobre o vírus. Pesquisadores sumiram e nunca mais foram vistos até hoje. Laboratórios onde faziam seus estudos sobre o coronavírus foram destruídos. Provas materiais da existência do vírus foram confiscadas pelo governo e desapareceram. Todas as opiniões e conclusões diferentes das aprovadas pelo governo foram proibidas; passaram a ser consideradas “crime”. A China insistiu, até o último minuto, em permitir voos internacionais e em recomendar que os homens de negócio estrangeiros – da Itália, por exemplo – continuassem vindo para o país.

E qual foi, desde o início, a posição da OMS? Dar apoio cego a tudo o que o governo da China determinou. Qualquer dúvida quanto à epidemia foi considerada como “preconceito” e “racismo”. A proibição de viagens à China por parte dos Estados Unidos foi oficialmente condenada pela OMS. Qualquer advertência sobre os riscos do coronavírus foram classificados como “agressão econômica” pelo órgão encarregado de cuidar da saúde do mundo. Até o dia 11 de março, meras três semanas atrás, a OMS se recusou a declarar a existência de uma situação de “pandemia”.

E quem é o diretor-geral da OMS? Um político etíope, Tedros Adhamon Ghebreyesus, que faz parte do grupo que instalou, anos atrás, uma ditadura selvagem na Etiópia, e se mantém no poder até hoje. Como “ministro da Saúde” do regime, foi acusado de ocultar uma epidemia de cólera em seu país – pelo jeito, é uma de suas inclinações. E quem foi que colocou esse Tedros no comando da OMS? A China, usando de toda a sua influência dentro da ONU.

Mas precisamos obedecer à OMS, não é mesmo? O presidente do Senado, o ministro Gilmar e a mídia que imagina saber das coisas nos dizem que eles são a autoridade número 1 da saúde mundial. Eis aí o Brasil ignorante, subdesenvolvido e destinado, sempre a ser o último a saber.

J.R.GUZZO

DE CHURCHILL AO MADUREIRA

O jornalista Marcus Gee teve há pouco uma excelente ideia, e a partir dela escreveu uma matéria notável para o jornal canadense The Globe and Mail, de Toronto. Em tempos de crise mundial como os que vivemos agora, assustadores, incertos e com um milhão de autoridades, grandes, mínimas e ineptas, tomando decisões que vão afetar diretamente as nossas vidas, talvez nada esteja fazendo tanta falta para a humanidade quanto uma liderança maior, muito maior, que os problemas. Gee teve a ideia do artigo ao receber de um amigo, nestes dias de coronavírus e de pânico, uma foto de Winston Churchill, com a seguinte legenda: “O que Winston diria?”

É uma excelente pergunta, observa Gee. “As pessoas, por toda a parte, estão procurando uma liderança forte” , escreve ele. “A maioria não está encontrando.” Que liderança poderia ser esta, idealmente? “A lendária presença de Churchill como primeiro-ministro do Reino Unido durante a guerra oferece um exemplo precioso de como liderar em tempos de perigo e de pavor”, diz o autor. É uma tragédia ainda pior que a epidemia, realmente, verificar as lideranças paupérrimas que o mundo encontra hoje dentro dos governos, em todos os níveis. Não têm a capacidade intelectual que o momento exige. Não têm a autoridade moral. Não têm a coragem. Churchill tinha. Faz uma imensa diferença.

Sempre se pode dizer, é claro, que Churchill é Churchill, e não se fazem dois como ele. Mas também é um tremendo azar, da nossa parte, que tenha cabido a nós viver esse momento de nossas vidas sob um comando geral tão miserável quanto o que temos. Não precisava ser um Churchill; tudo bem. Mas também não precisava ser o que é. Não temos líderes. Temos, de um modo geral, um bando de coelhos assustados que têm medo de perder pontos nas “pesquisas de opinião”, copiam-se uns aos outros e punem as populações que governam com o peso de sua ignorância sem limites em questões elementares de ciência. É melhor nem falar, aqui, no Brasil. Em vez de Churchill, temos Doria, Witzel e Caiado. É a morte.

“Quando ele se tornou primeiro-ministro em maio de 1940, a posição da Grã-Bretanha parecia sem nenhuma esperança”, escreve Gee. “Todos nós sabemos o que aconteceu em seguida. Churchill uniu o povo britânico, e convenceu as pessoas que, por mais grave que fosse a sua posição, a sobrevivência e mesmo a vitória eram possíveis. As lições para os líderes de hoje são claras.” A primeira delas é ser honesto e dizer a verdade – algo que muito pouca gente consegue fazer neste momento de aflição para todos. Gee lembra a tirada imortal de Churchill logo no seu primeiro discurso no Parlamento – palavras que ficarão gravadas para sempre como um dos momentos mais sublimes do espírito humano. “Eu não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho duro, suor e lágrimas”. Foi a mesma honestidade, brutal e maravilhosa, que utilizaria pouco depois: “Não se ganham guerras com retiradas”.

Churchill jamais deixou de chamar de “derrotas” o que foram realmente derrotas militares – o que diria desse tipo de coragem, hoje, a coleção de idiotas que cerca as nossas autoridades com um crachá de “Departamento de Marketing” pendurado no pescoço? Com as bombas caindo sobre Londres, jamais deixou de sair às ruas. Jamais pensou em confinamento, horizontal ou vertical. O que fez foi liderar. Foi enfrentar o perigo, em vez de se esconder. Foi transmitir esperança, com base nas realidades ao seu dispor, e conduzir o povo britânico – e a democracia mundial – ao maior triunfo de suas histórias.

“Conseguiriam os líderes de hoje aprender com esse esplêndido precedente?”, pergunta Gee. A pergunta fica em aberto. O que dá para dizer, com os anões que temos aí – e cujos gestos de maior coragem são prender cidadãos na rua e invadir fábricas de máscaras hospitalares, para aparecer nos jornais de televisão – é que estamos muito mal. É disputar a Liga dos Campeões com o time do Madureira.

J.R.GUZZO

QUEM TEM A VIDA GANHA DESCOBRIU SÓ AGORA QUE O SUS EXISTE

Saúde pública, no Brasil, não faz parte do mundo da classe média alta, mesmo a que não é tão alta assim, e muito menos, é claro, a que está ainda acima, nos galhos mais altos da árvore social. Saúde pública é coisa de pobre. SUS? Esperas dez horas na fila do atendimento?Exames clínicos que não podem ser feitos na semana que vem, nem na outra – daqui a três ou quatro meses, talvez? Cirurgias sem data marcada, do tipo “tente mais tarde”?

É assim que a saúde de milhões de brasileiros é tratada, há 30 anos, todos os dias. Ninguém — governos, mídia, “sociedade civil” — dá a mínima para isso. Por que daria? Não é com eles. O povo, como diria um dos famosos personagens de Chico Anísio, que se exploda.

Entra em cena o coronavírus – ah, agora sim, a saúde publica passa a ser prioridade absoluta. O vírus pega geral. Pega, pode pegar, ou vai pegar as classes apresentadas acima. Tudo muda dramaticamente de figura, então. Fecha tudo. Isola tudo. Confina tudo. Proíbe tudo. Para tudo. Dane-se a necessidade de produzir. Dane-se o pobre que precisa de trabalho para comer e sustentar sua família – não dá, para ele, recorrer às reservas de seus investimentos na bolsa ou em CDIs; ou pega no batente todos os dias ou não ganha um tostão, e sem dinheiro ninguém lhe dá nada. Danem-se os empregos, mesmo porque a maioria das classes médias para cima não precisa de emprego para viver, ou pode substituir o seu se perder.

Toda essa gente, hoje, se escandaliza. “Não se pode colocar a economia acima da vida”, dizem, como se uma coisa impedisse a outra. De um minuto para outro, passaram a se preocupar com a “sobrecarga” nos hospitais, problema que jamais lhes tinha passado pela cabeça na vida.

O brasileiro do SUS escuta, pensa e não entende nada. “Sobrecarga”? Mas a gente vive em sobrecarga, o tempo inteiro. Esqueça a falta de leitos. Não há nem cadeiras para o infeliz sentar. Fica jogado no corredor, até aparecer um lugarzinho. Mas o Brasil que está bem de vida, ou remediado, jamais pensa nessas coisas, porque elas não lhe dizem respeito. Poderiam estar acontecendo em Marte.

Agora, com o coronavírus roncando na porta, entraram em pânico. O que não era problema passou a ser. E, como sempre acontece nessas horas, surgiu a necessidade desesperada de achar um culpado. O judas que encontraram, no momento, é o presidente Bolsonaro. O chefe da nação, como se sabe, é um homem que não sabe utilizar direito a palavra. Em 15 meses de Presidência, não aprendeu nada a respeito, ou aprendeu muito pouco.

Resultado: ao falar sobre a epidemia, dizendo até umas coisas perfeitamente razoáveis, não escondeu o que deveria ter escondido, provocou, criticou, falou mal de A, B e C — e com isso abriu a porta para os seus inimigos caírem matando. “Inimigo da saúde pública”. “Irresponsável”. “Criminoso”. “Genocida”. “Renúncia imediata”.

Vai ser acusado, já, de deixar o vírus à solta no Brasil, de propósito. Depois, de ter destruído a economia, eliminado 50 milhões de empregos e sabe lá o que mais. As classes médias ficarão aliviadas por terem encontrado um demônio. E a “pobrezada” do SUS vai continuar se explodindo.

J.R.GUZZO

DÁ PARA COMBATER CORONAVÍRUS E DEFENDER A ECONOMIA AO MESMO TEMPO

O que poderia haver de tão monstruoso em dizer que é possível, sim, pensar ao mesmo tempo no combate ao coronavírus e na defesa da economia? Será que fazer uma coisa torna impossível fazer a outra? O que há de errado em propor que além de preservar vidas, é indispensável, também, preservar empregos, produção e trabalho?

Na verdade, não deveria ser a obrigação número um dos governos, acima de todas as outras, ter como prioridade máxima a procura de meios práticos para proteger a saúde pública sem, por isso, levar o país a ruína?

Quem sugere que se pense nessas linhas não é um inimigo público. Não é um materialista insano que coloca o interesse econômico acima da salvação de vidas. Não existe, no fim de todas as contas, a escolha: ou a economia ou a saúde. Como uma sociedade pode sobreviver sem produção? É uma impossibilidade material.

Colocar as coisas nestes termos pode ser uma posição honesta, sincera e bem intencionada. Pode ser, também, fruto da ignorância. Pode ser , enfim, desonestidade em estado integral. É o caso, em grande parte, do atual debate sobre o tema no Brasil.

J.R.GUZZO

TRAGÉDIA

É uma tragédia que o Brasil, justo quando está sob o ataque da epidemia de propagação mais rápida dos tempos modernos, tenha jogado a ciência no lixo para discutir o presidente Jair Bolsonaro. Não apenas a ciência foi abandonada em favor da disputa política. Junto com o conhecimento, foram declaradas questões de interesse secundário, ou nem isso, a lógica, a busca de uma real eficácia no combate público à doença, o respeito aos interesses da maioria e a noção de que os governos existem para servir, e não para tirar vantagens das horas de desgraça. Os seres humanos, e eles são mais de 200 milhões, foram esquecidos.

As pessoas com responsabilidades a cumprir nessa crise, pelos cargos que ocupam nos governos ou em áreas onde se decide alguma coisa, não estão jogando no mesmo lado. Uma parte se dedica honestamente, se sacrifica e se arrisca para saber mais e cuidar melhor do combate ao coronavírus. Outra parte é apenas inconsciente, ou estúpida: dedica-se compulsivamente a copiar o que fez o vizinho, não quer estudar nada e acha que deve proibir o máximo das atividades humanas, na crença de manada que é isso – o isolamento, a quarentena e a proibição do contato entre as pessoas – que a maioria da população quer no momento. A parte que sobra é a dos que querem tirar vantagem da calamidade.

O Brasil não é um país unido na guerra contra um inimigo comum. É um país dividido em facções – e quando essas coisas acontecem uma das primeiras vítimas é a liberdade de pensamento. Há uma interdição rancorosa às ideias divergentes, às dúvidas e às propostas que não sejam as suas. É o que está acontecendo hoje. Há uma verdade só, o confinamento máximo, e quem discordar – ou meramente sugerir uma abordagem diferente – passa a ser tido como um inimigo público. Tudo se reduz a uma pergunta: você é contra ou a favor do que o presidente Bolsonaro está dizendo? O resto não interessa.

O que o presidente acha ou não acha não vai fazer diferença nenhuma. E se ele parar de falar do assunto pelos próximos 90 dias – por acaso o vírus irá embora? Ou, ao contrário, vai ficar mais agressivo? O que vai decidir as coisas é o acerto, maior ou menor, das medidas todas em defesa dos reais interesses do público. Está cada vez mais óbvio, em cada vez mais países, qual é a prioridade suprema do momento: conseguir combinar a volta da normalidade na produção e nas relações humanas com o máximo de segurança para a saúde pública. Quem está realmente trabalhando para isso no Brasil?

J.R.GUZZO

O BAIXO MUNDO

O Brasil está divido por uma guerra cada vez mais aberta, indigna e agressiva entre dois países. Na verdade, só um país move essa guerra; o outro, sem defesa, apenas sofre as misérias que vêm dela. Basicamente, o país agressor, que se recusa a qualquer trégua, é o Brasil onde habitam, prosperam e mandam os membros das nossas “instituições”. O país agredido é aquele onde você, e cerca de 200 outros milhões de brasileiros, têm de trabalhar todos os dias para viver e sustentar suas famílias; sua única função, para o outro Brasil, é pagar impostos que vão sustentar cada um dos seus confortos, necessidades e caprichos. Neste ano de 2020, antes da epidemia, estava previsto que o total a ser pago seria de 3,4 trilhões de reais – isso mesmo, trilhões, arrancados do seu bolso a cada chamada de celular, cada litro de gasolina comprado no posto, cada real que você ganha, num arco que só acaba no infinito.

A última agressão vem do Supremo Tribunal Federal, que tem a folha corrida que todos conhecem, e do “Tribunal Superior Eleitoral” – um desvairado cabide de empregos que só existe no Brasil e não tem função lógica nenhuma no serviço público. Suas Excelências, justo numa hora dessas, em que o Brasil sofre um dos mais chocantes dramas de saúde de sua história e se desespera em busca de recursos para combatê-lo, tiveram a ideia de pagar com o dinheiro do contribuinte suas vacinas contra a gripe e o coronavírus. Não só eles: eles, seus filhos e funcionários da nossa corte suprema. Serão, pelos cálculos iniciais, 4.000 vacinas, a um custo de R$ 140.000. O TSE, de imediato, copiou os colegas e já está se preparando para comprar 1.100 vacinas para si próprio; devem queimar nisso mais uns R$ 75.000.

O dinheiro é uma mixaria, dizem eles, mas a atitude moral dos ministros é uma calamidade. Com todos os privilégios que já têm, por que não pagam eles mesmos esses trocados? A resposta é um retrato perfeito dos dois Brasis descritos acima: não pagam porque podem meter a mão no seu bolso, de onde sai o dinheiro de todos os impostos, e tirar o dinheiro de lá. Não vai acontecer nada, vai? Então porque gastar, mesmo um centavo, se existe um país inteiro para pagar as suas contas?

A um certo momento, nessa crise toda, foi sugerido, imaginem só, que deputados e senadores, dessem para o combate ao coronavírus uma parte dos bilionários Fundos Eleitoral e Partidário que criaram para doar dinheiro a si próprios – tirado, é óbvio, dos impostos pagos por você. Santa inocência. Não deram, é claro, um tostão furado para combater doença nenhuma. Estás na fila do SUS há 12 horas esperando um atendimento que pode vir ou não vir, bonitão? Problema seu. No nosso ninguém tasca. E tratem de dar graças a Deus porque ainda não tivemos a ideia de lhe tomar mais uns trocos para fazermos nosso estoque de vacinas – como fizeram as maravilhosas instituições judiciárias aí do lado.

Este Brasil que está em guerra com os brasileiros é hoje um dos maiores concentradores de renda do mundo. Não são os “ricos”, os “empresários”, “o 1% do topo”, etc. que constroem a miséria nossa de cada dia. Não são eles os promotores da desigualdade em estado extremo no País. Não são eles que os impõem a ditadura dos privilégios. É essa gente que não admite, sequer, pagar a própria vacina. A imprensa faz esforços inéditos, todos os dias, para defender essa gente, pois são eles que compõem as “instituições”. E o que os jornalistas recebem em troca de congressistas e magistrados? Atos de crocodilagem explicita, um atrás do outro. Fica cada vez mais difícil achar alguma virtude nesse baixo mundo.

J.R.GUZZO

DECISÕES PRECIPITADAS NÃO VÃO SALVAR O BRASIL DO CORONAVÍRUS

Sempre é preciso tomar muito cuidado quando você decide que sua prioridade é ser responsável ao máximo, ou há o sério risco de perder o pé e acabar agindo de maneira irresponsável – exatamente o oposto das suas intenções. Acontece, com frequência, quando a obrigação de ser responsável supera a sua obrigação de pensar. O senso de responsabilidade, então, se torna destrutivo e leva as pessoas a caírem num mundo mental de desprezo insensato pela verdade. Os resultados são os que se pode imaginar. No Brasil do coronavírus, é algo que se pode ver todos os dias.

Todos, em geral, querem fazer o bem, e cada um quer fazer mais o bem que todos os outros – governos, mídia, entidades, organizações, médicos, hospitais, direita, centro, esquerda. Em suma: todo mundo que pode decidir alguma coisa, do presidente da República ao síndico do prédio, acha sua obrigação agir com o máximo de prudência, cautela e toda a coleção de virtudes aparentadas a essas – é a “responsabilidade”.

Em relação à epidemia, a ideia predominante, ou a chamada “sabedoria convencional”, é copiar o tempo todo quaisquer atos de proibição, restrição, interdição, suspensão, cancelamento, fechamento determinados por alguém que está ao seu lado, e principalmente acima, na árvore dos que mandam.

Fechou lá? Então fecha aqui. Não pode lá? Então não pode aqui. O certo seria pensar, caso a caso, se é ou não necessário fazer a mesma coisa – ou, mais ainda, se o correto é fazer o contrário. No momento, parece que apenas uma minoria pensa assim – ou, melhor dizendo, parece que apenas uma minoria se dá o trabalho de pensar. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, talvez seja um exemplo.

Mandetta lembrou que sim, perfeito, tudo bem, precisamos agir com o máximo de rigor para combater o contágio. Mas lembrou também que é preciso transportar cloro para tratar os sistemas de água corrente. Se são tomadas medidas que impedem as companhias de saneamento de colocar cloro na água, pelas restrições em cadeia que crescem a cada 24 horas, você estará salvando o Brasil do coronavírus — e destruindo um dos princípios mais elementares da saúde pública.

O que é pior: coronavírus ou água contaminada, principalmente nas grandes cidades, onde estão os focos principais da epidemia? Os dois são piores – não há escolha — e os dois têm de ser combatidos. Mas para fazer o combate completo à doença, uma coisa não pode impedir a outra. Muita coisa, neste momento, está sendo decidida, tanto nos governos como no setor privado, sem a consideração correta das consequências. Um carro não anda só com acelerador, ou só com freios – é indispensável combinar os dois, a menos que se queira arrumar uma colisão frontal ou ficar parado no mesmo lugar.

É angustiante que quase ninguém esteja pensando numa coisa chamada “emprego” – ou em trabalho, produção, atividade. Não se trata de ficar falando em “verbas”, como políticos e governos adoram fazer. Desemprego? Toca uma verba aí, mesmo que não exista de onde tirar um tostão dessa verba. Isso não resolve nada. O que pode ajudar a resolver, isso sim, é pensar com seriedade numa lógica para enfrentar a doença e não arrastar o país ao abismo.

J.R.GUZZO

OS SABICHÕES DO COMBATE À PANDEMIA NO BRASIL

O mercado de eventos praticamente parou. As companhias de aviação jamais voaram com tão poucos passageiros. Hotéis estão com apenas uma fração dos hóspedes que tinham. Empresas de ônibus veem o número de seus passageiros cair dia após dia. Os gênios do aconselhamento pregam a urgência de recorrer ao “teletrabalho” – infelizmente, não ensinam como uma faxineira, que tem de sair de casa todos os dias, ou então não vai ganhar um tostão furado, poderá trabalhar a distância.

Três grandes montadoras anunciam o fechamento de fábricas e férias coletivas para 50.000 empregados; muitos dos seus fornecedores devem ir logo atrás. Indústrias começam a parar por falta de peças. O comércio, de todos os portes, está perdendo bilhões de reais em vendas – e nenhum centavo disso será reposto depois. Vamos ver como os grandes marechais de campo do combate radical ao coronavírus vão arrumar, “mais tarde”, os empregos que as pessoas estão perdendo hoje.

Mas e daí? Qual é o problema? Toda a sabedoria acumulada no Brasil sabe perfeitamente o que é preciso fazer. Fechem todas as fronteiras, já, diz o presidente da Câmara – como se ele tivesse a menor ideia do que está falando. Fechem os shoppings, manda o governador de São Paulo. Fechem todas as lojas, resolve o prefeito – todas. Tranquem as pessoas em casa. Prendam quem recusar ordens médicas de quarentena. Não usem o transporte público.

Não comprem, não vendam, não aluguem. Deixem de ir à feira, porque “está assim de vírus, ó”. E por aí vamos: quanto melhor de vida o cidadão está, mais radical é a sua receita sobre o que deve ser feito – e mais hostil ele fica com os outros seres humanos, por medo de “pegar” o vírus. Quanto mais “civilizado”, em suma, mais selvageria ele propõe para combater a epidemia.

O presidente da Câmara e outras nulidades absolutas em infectologia e qualquer aspecto da medicina defendem a repressão sanitária porque sabem que, ao fim de cada dia, vão estar com o bucho cheio, e podem se entreter com a Netfix. Alguém, como sempre, vai prover o seu sustento. O problema é de quem volta para casa, todo dia, angustiado por saber não se vai “pegar” o vírus – mas se terá o seu trabalho amanhã.

Talvez seja uma surpresa para as nossas mesas-redondas de televisão, mas há por aí, infelizmente, umas dezenas de milhões de brasileiros comuns que precisam trabalhar todos os dias de sua vida – ou trabalham, ou não ganham nada, e, se não ganham nada, não comem. O Brasil do “equilíbrio” quer que todos eles vão para o diabo que os carregue.