J.R.GUZZO

COMO EVITAR CONFLITOS À MODA POLONESA: NÃO TEM VISTO, NÃO ENTRA

Refugiados chegam à Macedônia

Um vídeo com menos de dois minutos de duração, colocado para rodar na internet, demonstra com grande clareza, linguagem direta e economia de esforço mental como alguns países da Europa conseguem tratar de maneira simples e eficaz um problema que a maioria dos outros trata de maneira complicadíssima e ineficaz.

O país é a Polônia e o problema é a multidão de estrangeiros pobres, ou francamente miseráveis, que querem ir morar nos países europeus. Uns pretendem fugir das guerras, da opressão de seus governos e da ação terrorista dos bandos de criminosos muçulmanos que operam nas nações da África e no Oriente Médio. Outros estão de olho nos benefícios sociais e na riqueza que a maioria dos países ricos ou remediados da Europa oferece.

Em todo caso, são milhões, juram fidelidade apenas ao Islã e não se interessam em integrar-se às sociedades que os recebem. Além disso, não querem aceitar leis com as quais não concordam e se consideram portadores do direito de imigrar para onde acharem mais conveniente.

Muito bem: até uma criança de dez anos é capaz de perceber que tudo isso é um tanque de TNT à espera de explodir. Mas a maioria dos governos, pensadores e organizações sociais da Europa adiciona a cada dia um pouco mais de complicação ao problema – basicamente, por falta de ideias e de coragem para enfrentá-lo, por achar que regras de imigração compõem “uma agenda de direita” e por outras patologias ideológicas.

A ideia-mãe, em toda essa pasta, é que os imigrantes pobres são “refugiados” e que suas culturas têm de ser aceitas do jeito que elas vierem, em nome do “multiculturalismo”, e do combate à “arbitrariedade das fronteiras”. Cada vez mais gente quer entrar, é claro, – e os governos simplesmente não sabem como lidar com isso.

Uma entrevista do deputado polonês Dominik Tarczynski (veja no vídeo ao final desta potagem), estrela em ascensão do partido de direita Lei e Justiça, que governa a Polônia, por uma jornalista britânica de televisão. A primeira pergunta que aparece, feita num tom de interrogatório da Gestapo, é a seguinte: “Quantos refugiados a Polônia recebeu?” A resposta de Tarczynski, em excelente inglês: “Zero”.

A entrevistadora fica sem fôlego por um segundo e tenta crescer no tom de agressividade. “E o senhor se orgulha disso?” O deputado, com paciência, explica que a Polônia, por lei, não recebe imigrantes ilegais; se são muçulmanos sem visto de imigração, não entram. “Nem mesmo um único que seja”, diz ele.

A moça volta a carga: “Eu não estou perguntando sobre imigrantes ilegais. Estou perguntando sobre refugiados. O senhor foi descrito como racista. Tem orgulho de não receber refugiados na Polônia?” Resposta final de Tarczynski: “Claro que tenho. É o que o povo espera do nosso governo. Foi para isso que fomos eleitos. É por isso que a Polónia é tão segura. Podem de chamar de populista, nacionalista, racista. Eu não ligo. Só me importa a minha família e o meu país”. Fim da conversa.

O deputado, talvez por caridade com a jornalista, não disse que todos os países do mundo, sem nenhuma exceção, têm fronteiras – e o direito soberano de decidir quem pode atravessá-las ou morar dentro delas. Apenas deixou claro que só existem dois tipos de imigrante: o legal e o ilegal. Não existe uma terceira categoria, a do “imigrante refugiado”.

O governo da Polônia não pode desrespeitar as suas próprias leis para abrigar “pobres”, “muçulmanos”, “vítimas de guerras” e por aí afora. Se o estrangeiro tem visto de imigração, ele entra – Tarczynski lembrou que há 2 milhões de imigrantes da Ucrânia vivendo hoje legalmente na Polônia.

Se não tem o visto, não entra. Mais lógico que isso não dá para ser.

J.R.GUZZO

UM PENSADOR PARA A NOSSA ERA. UM FILÓSOFO E NÃO UM FORMADO EM FILOSOFIA

Não vamos cometer aqui o insulto de chamar Roger Scruton, o filósofo inglês morto neste fim de semana, aos 75 anos, de “importante”.

Esta é uma palavra que se tornou horrivelmente barata nos últimos anos, a ponto de não significar mais nada – serve apenas para elogiar alguém de graça, quando não se consegue achar méritos objetivos na obra do elogiado, ou mesmo quando não há obra nenhuma a elogiar.

Temos, assim, o escritor “importante”, o artista “importante”, o cineasta “importante” e por aí afora; como não dá para dizer que fizeram alguma coisa de excelência comprovada, ou se fizeram realmente alguma coisa, confere-se a todos eles o título de “importante” e todo mundo fica feliz.

Scruton foi, isso sim, um extraordinário pensador dos tempos em que vivemos – um filósofo de verdade, e não um cidadão que se formou em filosofia, ou dá aulas na universidade, ou escreve sobre o assunto, sem a obrigação de ter, nunca, alguma ideia própria.

Ao longo dos últimos 50 anos, e nas páginas de 50 livros, Roger Scruton deixou uma imensa produção de pensamentos essenciais para a visão conservadora da vida e do mundo na era contemporânea – um filósofo da grande linhagem de Edmund Burke e os outros gigantes ingleses que lançaram os alicerces das ideias que regem até hoje as sociedades livres.

“Pessoas de esquerda acham muito difícil conviver com pessoas de direita, porque acreditam que elas sejam o mal”, escreveu ele numa das sínteses mais devastadoras que fez das disputas ideológicas de hoje. “Eu, do meu lado, não tenho problema nenhum em me dar bem com elas, porque simplesmente acredito que estão enganadas”.

Scruton dedicou-se com aplicação especial, entre a vasta obra que deixou, às questões da estética, da cultura e da política. A qualidade de uma obra artística, para ele, podia, sim, ser estabelecida por critérios objetivos – a beleza é a base dessa avaliação, e beleza não é um conceito abstrato, e sim uma realidade materialmente visível.

“Estilos vão e vêm”, escreveu Roger Scruton, “mas as exigências do julgamento estético são permanentes”. Ele jamais teve medo de dizer que a “equalização” da cultura, tão venerada entre a esquerda como arma para combater o “elitismo”, é um disparate.

Não faz nenhum sentido, em sua visão, alegar que a alta cultura, ou a “cultura clássica”, é uma espécie de “propriedade da elite” e só beneficia os que têm acesso a ela; seria o mesmo que sustentar que a matemática não adianta nada para quem não a entende em seus níveis mais avançados. “O processo de transmissão cultural não poderá sobreviver se os professores forem obrigados a ensinar Mozart e Lady Gaga ao mesmo tempo, em nome de uma agenda de igualitarismo”, resumiu Scruton.

É dele, também, uma das mais precisas explicações sobre porque os intelectuais, em sua grande maioria, são de esquerda. “Eles são atraídos naturalmente pela ideia de uma sociedade planejada porque acreditam que o planejamento ficará a seu cargo”. O que atrai os intelectuais no marxismo, diz Scruton, não é a verdade, mas o poder que ganhariam se o mundo fosse controlado pelo Estado – e, em consequência, por eles. “A notável capacidade de sobrevivência do marxismo”, conclui, “está no fato de que é um sistema de pensamento dirigido para a obtenção do poder.”

O que Roger Scruton ainda poderia produzir, nos próximos anos, vai nos fazer uma imensa falta.

J.R.GUZZO

ESQUERDA SE CHOCA COM PORTA DOS FUNDOS E IGNORA OUTRAS CENSURAS

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, mandou suspender a decisão da Justiça do Rio de Janeiro que havia proibido, dois dias atrás, que o canal de humor Porta dos Fundos exibisse um vídeo sobre Jesus. Em sua opinião, os humoristas estariam ofendendo os fiéis da religião católica — e isso não estaria protegido pelo direito da livre expressão.

Muita gente, com certeza, ficou revoltada com o vídeo, convencida de que a fé religiosa, com seus personagens de culto, não pode ser objeto de piada. Mas a lei não diz nada disso. Diz apenas que todo cidadão tem direito à liberdade de dizer o que quiser.

Se cometer algum delito ao fazer isso, como os crimes de calúnia, injúria ou difamação, por exemplo, estará sujeito a processo penal e cível, é claro. Mas não pode ser proibido de se manifestar. Muito correto.

Não existe censura legal no Brasil, e a Justiça não pode censurar ninguém. É curioso notar, apenas, que quando esse mesmo STF mandou censurar (os ministros dizem que não foi bem isso, mas foi) a revista Crusoé, publicada pelo site O Antagonista, a esquerda, que ficou tão escandalizada com o caso Porta dos Fundos, não deu um pio em defesa da liberdade de expressão.

Mais: quando a redação do jornal de humor Charlie Hebdo, em Paris, foi invadida por dois “militantes” muçulmanos que assassinaram à bala 12 jornalistas, exatamente cinco anos atrás, a reação do universo esquerdista foi toda cheia de cuidados e rapapés com o crime.

O jornal, como se sabe, tinha publicado uma charge satírica sobre Maomé, algo do mesmo gênero do vídeo sobre Jesus —, mas, os combatentes da liberdade de expressão no Brasil disseram que as vítimas não deveriam ter ofendido a fé muçulmana; foram elas próprias, no fundo, que provocaram o massacre. Jesus pode. Maomé não pode. É isso que estão chamando de “relativismo”.

J.R.GUZZO

TENHA PACIÊNCIA. VOCÊ TERÁ DE ESPERAR MAIS UM POUCO PELA TERCEIRA GUERRA MUNDIAL

Você terá de esperar mais um pouco, ao que parece, pela Terceira Guerra Mundial que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iria provocar nesse seu último conflito com o Irã. Fazer o que? Sem um pouco de paciência não se vai a lugar nenhum nessa vida.

Já se passaram seis dias inteiros desde que um drone das Forças Armadas americanas matou o terrorista-chefe do governo do Irã num ataque ao comboio em que ele viajava no Iraque – e, até agora, nada.

As represálias a serem tomadas pelo Irã, segundo anunciado minuto a minuto no noticiário mundial, seriam uma coisa jamais vista até hoje. Não só os Estados Unidos seriam punidos, com bomba atômica, tempestades de mísseis e outras desgraças, mas todo o resto do mundo corria o risco de ir para o espaço por conta da vingança iraniana.

Ninguém, até o momento, conseguiu explicar direito como uma coisa dessas poderia acontecer na prática. Será que o Irã é mesmo esse colosso todo? Não é fácil, tanto quanto se saiba, destruir os Estados Unidos numa guerra – imagina-se que ao receber a primeira bomba nuclear, os americanos soltariam imediatamente umas duzentas bombas de volta em quem atirou neles, e em cinco minutos não haveria nenhum inimigo vivo para continuar a guerra. Mas vai saber, não é mesmo?

Entre o céu e o “campo anti-imperialista”, sobretudo no caso do Irá, há mais coisas do que sonha a nossa vã filosofia. O fato é que Trump tinha colocado em perigo claro e imediato a segurança mundial, segundo nove entre dez especialistas em geopolítica que apareceram diante do publico contando o que iria acontecer com todos nós.

Mas a realidade, pelo cheiro da brilhantina, insiste mais uma vez em ir na direção oposta à que a mídia decide que ela deve tomar. É certo que o Irã jogou uns misseis em cima de bases militares americanas. Mas isso eles vêm fazendo há dez ou vinte anos, principalmente em cima dos seus próprios vizinhos muçulmanos e das populações civis que têm o azar de estar ao alcance de suas armas – e que oferecem à tirania dos aiatolás a incomparável vantagem de não poder reagir.

Fizeram, também, muito discurso incendiário anunciando vingança. Receberam o apoio de editoriais da imprensa progressista-liberal-civilizada, de mesas redondas na televisão e do PSOL. Mas gente de carne e osso, até agora, só morreu no próprio Irã – os 56 infelizes que foram pisoteados no funeral do chefe terrorista. Em matéria de bomba atômica em Nova York, que no fundo é o que realmente interessa, não aconteceu nada.

A “solidariedade mundial” ao Irã, apontado como “vítima de agressão em agressão em tempo de paz”, simplesmente não aconteceu, mesmo porque o Irã não está em paz nem consigo mesmo – ao contrário, vive em estado de guerra contra todos os que considera seus inimigos.

Todos os países da Europa, através da entidade militar que têm em comum, apoiaram a ação dos Estados Unidos. A China, que é a China, mais uma vez entrou quieta e saiu calada da história toda. No Brasil, houve as tolices de sempre – o “perigo” que uma posição favorável aos americanos traria para as “exportações brasileiras” para o Irã. De quanto dinheiro está se falando? De US$ 9 bilhões por ano. Qual foi o total das exportações do Brasil em 2019? Foi de US$ 240 bilhões de dólares, ou perto disso; as contas do ano ainda não estão definitivamente fechadas.

Vamos esperar pela próxima.

J.R.GUZZO

O INTRÉPIDO JORNALISTA QUE IRIA DERRUBAR MORO APENAS FEZ O LEITOR DE BOBO

Você se lembra das “gravações” que iriam destruir, como na explosão da usina de Chernobyl, o ministro Sergio Moro, a Operação Lava Jato inteira e quem mais estivesse envolvido na guerra contra a corrupção aberta na 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba? Foi, segundo nove entre dez dos nossos grandes formadores de opinião, um dos maiores fatos jamais ocorridos na História do Brasil – em 2019 ou em qualquer ano depois de 1500.

Pelo que se disse, um intrépido jornalista “investigativo” americano teria descoberto que estava tudo errado nos processos judiciais que levaram o ex-presidente Lula para a cadeia – Lula e quase 400 outros magnatas da política e do empresariado nacional, punidos com as mais variadas penas pela prática obsessiva de corrupção durante os governos populares do PT.

Durante dias e semanas, sem quase nenhum descanso, a mídia divulgou o conteúdo de gravações roubadas de conversas entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Elas provariam, além de qualquer dúvida, que o juiz estava ajudando ilegalmente o acusador nas suas denúncias contra os réus. Não pode. Não vale. Anula tudo. A lei tem de ser respeitada, acima de tudo, de todos, do Brasil e de Deus.

Editoriais horrorizados condenaram Moro e o procurador, os mais altos “meios jurídicos” manifestaram a sua indignação contra os “métodos” do combate a corrupção, e por aí afora. Chegou-se, num momento de descontrole já avançado, a exigir a “punição de Moro” e atribuir a ele nada menos do que a prática de crimes. Sua demissão do Ministério da Justiça foi dada por toda a mídia como uma questão de dias ou mesmo de horas – e isso seria o mínimo. Moro, segundo a maioria dos “especialistas”, poderia ser, logo em seguida à sua demissão, processado, condenado e preso pelos delitos que, segundo as “gravações”, teria cometido contra Lula e seus parceiros.

Você se lembra do que aconteceu, na vida real, depois de todas essas revelações sensacionais? Não aconteceu nada. O mundo teria de vir abaixo, mas não veio. Na verdade, a história toda acabou tendo o fim miserável que se poderia prever desde o início – caso houvesse o pequeno cuidado de ouvir o que tinha sido realmente dito nas tais gravações. Mas as autoridades judiciárias acima de Moro, todas as que foram acionadas, ouviram, com mais atenção que uma equipe de VAR. O resultado é que não se achou um único e escasso ato ilegal em nada daquilo.

Ao fim e ao cabo, a única coisa que ficou provada sem nenhuma sombra de dúvida em toda essa história foi que as fitas tinham sido obtidas através da prática de crime. Os criminosos que as forneceram ao jornalista foram presos. Eram hackers do interior de São Paulo com um extenso prontuário de fraudes por via eletrônica, do estelionato ao furto de conversas pessoais. Já houve até a proverbial “delação premiada”. Fim de história.

Moro, como todo mundo sabe, continua ministro da Justiça. Nenhum dos seus atos na Lava Jato foi anulado. Nem a facção pró-crime do STF conseguiu dar algum uso às fitas roubadas. O promotor Dallagnol está onde sempre esteve. O jornalista investigativo, enfim, voltou melancolicamente ao anonimato. Recebeu homenagens, “desagravos” e um tapa na cara depois de ter ofendido repetidamente um jornalista durante um programa de rádio – mas ficou por aí mesmo. Tentaram fazer com que ele virasse herói. Não deu.

Sobra o leitor. É chato dizer, mas para ele ficou reservado apenas o papel de bobo nessa história toda.

J.R.GUZZO

SE 2020 FOR COMO 2019 JÁ VAI SER MUITO BOM

Quer ter um bom 2020? Então peça um 2019, sem tirar nem pôr – ou melhor, sempre pode pôr alguma coisinha boa a mais, é claro, mas realmente não é preciso tirar nada do que se teve neste ano que acaba de se ir embora. O assunto, aqui, é o mundo das coisas públicas e capazes de influir na vida cotidiana do Brasil.

Em outros temas, cada um teve seus próprios momentos em 2019, e só cada um, naturalmente, pode dizer como foram – e se está no direito de desejar mais, ou muito mais, em 2020. Mas em termos daquilo que pode afetar a você como cidadão, e que depende em boa parte do que acontece no governo, na política e na sociedade em geral, dá perfeitamente para dizer que uma repetição deste ano vai estar de muito bom tamanho.

Chegamos ao fim de 2019 com índices mínimos de inflação, para padrões brasileiros – menos de 3,5% no ano, e sem nenhum sinal de que possa sair do controle no futuro visível. A taxa de juros está em 4,5% anuais, os mais baixos em mais de 30 anos, ou desde que se passou a manter um registro regular e oficial de sua evolução. É uma enormidade, em termos de avanço da economia do Brasil como um todo. A continuar assim – e um dos objetivos estratégicos mais vitais da política econômica do governo é continuar exatamente assim – começam a aparecer no horizonte coisas inéditas na vida de qualquer brasileiro. Se os juros continuarem a baixar, forçosamente eles estarão caminhando para se alinhar com a taxa de juros internacional – de 1% a 2% ao ano.

Isso quer dizer que vai acabar, simplesmente, o “dinheiro barato” dos BNDES e Bancos do Brasil da vida. Haverá um dinheiro só no sistema de crédito, disponível para todos que tiverem condições materiais de garantir os empréstimos que levantaram. As empresas brasileiras poderão se financiar com os mesmos custos de crédito que têm as suas concorrentes internacionais, e ganhar um elemento de competitividade que nunca tiveram – a não ser, é claro, que arrumassem o “dinheiro barato” ou levantassem empréstimos no exterior, correndo todo os riscos do câmbio. O governo deixará de tirar R$ 500 bilhões dos impostos, a cada ano, para pagar os juros da dívida publica – com juros cada vez mais baixos, os pagamentos também serão cada vez menores.

Se o mercado de trabalho repetir 2019, haverá 1 milhão a mais de novos empregos com carteira assinada em 2020. Se a safra deste ano for igual à do ano passado, a produção agrícola do Brasil vai bater um novo recorde. Se forem aprovadas reformas como a da Previdência, a economia salta dez casas para frente. Tudo isso é muito bom para o brasileiro comum – só é ruim para quem precisa que o governo dê errado. Esses sim; não querem nem ouvir falar de um outro 2019.

J.R.GUZZO

BOLSONARO FALTA COM O DECORO? É DE SE TER UM FROUXO DE RISO

Veja só que coisa extraordinária: o presidente da República está sendo acusado de faltar com o decoro. É de se ter um frouxo de riso. Falta de decoro? E desde quando alguém já imaginou que a palavra “decoro”, como está definida no dicionário, possa ter alguma relação com a vida política brasileira?

Temos uma Câmara dos Deputados onde pelo menos um terço dos membros (há cálculos que falam em 40%, ou mesmo mais que isso) está respondendo a algum tipo de denúncia criminal. Temos um senador com nove ou dez processos nas costas, outro que foi pego em flagrante de extorsão ao telefone e outros que só não estão numa penitenciária porque têm “imunidades parlamentares” – ou seja, a licença de praticarem crimes sem serem presos.

Temos um presidente do Supremo Tribunal Federal que foi reprovado duas vezes no concurso para juiz de direito. Temos os políticos metendo a mão num fundo eleitoral que tem bilhões de reais roubados do contribuinte. Temos, temos, temos. Falta de decoro? Vão passear.

Seria uma beleza, naturalmente, que os nossos homens públicos, a começar pelo presidente da República, tivessem uma conduta nota 10. Mas não têm – e muitos

não seriam capazes nem de reconhecer o conceito de “decoro”, mesmo que topassem de cara com ele numa esquina. O que fica francamente esquisito é cobrar bom comportamento só do presidente. Parece aquela palhaçada que agora colou nos jogos de futebol: os locutores de rádio e televisão que, para cumprir regras de correção política dos estádios, ficam reprovando gravemente o palavreado da torcida, sobretudo em relação ao goleiro do time visitante. Adianta alguma coisa?

E, no fundo, quem é que está ligando?

O presidente Bolsonaro, em seu último surto de nervos, falou algumas barbaridades contra os jornalistas que o interrogavam. Isso não se faz. É óbvio que não se faz. Não porque os jornalistas mereçam algum tratamento especial – jornalistas, na verdade, não merecem coisa nenhuma. Também não se trata, no caso, de uma reação justa ou compreensível diante de uma imprensa que, francamente, jamais foi imparcial em relação a Bolsonaro, e nunca será – ao contrário, trata o presidente da República como se ele fosse um delinquente de rua.

Enfim: ouvindo os insultos, ou coisas muito parecidas, que os jornalistas fazem frequentemente a Bolsonaro, muitas pessoas devolveriam na mesma moeda e na mesma hora. Acontece, e é aí que está o problema, que o presidente não é “muitas pessoas”. Ele é o presidente da República, Santo Deus, e o cidadão que se dispõe a ocupar esse cargo não pode, simplesmente não pode, achar que tem o direito de sair por aí dizendo o que lhe der na telha. Não tem “sangue de barata”, e outras bobagens? Então não vá ser presidente e pronto. Ninguém é obrigado.

Bolsonaro está 100% errado, porque não pode fazer o que faz. Ficar com essa história de “decoro”, ao mesmo tempo, é 100% hipócrita.

J.R.GUZZO

UM OUTRO BRASIL

O fato mais importante da década para o Brasil foi a explosão na cena nacional de um moço nascido no norte do Paraná, formado numa faculdade de direito da cidade de Maringá e desvinculado de corpo e alma do grande circuito São Paulo-Brasília-Rio de Janeiro de celebridades jurídicas, reais ou imaginárias. Seu nome, como todo o Brasil e boa parte do mundo sabe hoje, é Sérgio Moro – um típico “juizinho do interior”, como foi definido na ocasião pelo ex-presidente Lula e sua corte imperial. Todo mundo se lembra: eles simplesmente não entenderam nada quando Moro começou a chamá-lo, como um cidadão normal, para prestar contas à Justiça sobre o que tinha feito em seus tempos de poder e glória. Onde já se viu uma coisa dessas? O titular de uma modesta Vara Criminal de Curitiba, com pouco mais de 40 anos de idade, querendo interrogar, processar e talvez até condenar “o maior líder político” da história do Brasil? Pois é. Era isso mesmo. E o mundo inteiro sabe o que aconteceu depois.

Sérgio Moro mudou a realidade do Brasil como ninguém mais, nestes últimos dez anos – ou 50, ou sabe-se lá quantos. Condenou e botou na cadeia por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, pela primeira vez na história, um ex-presidente da República. Comandou a maior operação judicial contra a corrupção jamais realizada no Brasil. Não só a maior: a primeira feita para valer em 500 anos, a mais bem-sucedida em termos de resultados concretos e a mais transformadora da vida pública que o País já conheceu. Moro, no comando da Lava Jato, conseguiu mostrar a todos, na prática, que a impunidade das castas mais ricas, poderosas e atrasadas da sociedade brasileira não tinha de ser eterna – podia ser quebrada, e foi. O governo paralelo que as empreiteiras de obras sempre exerceram no Brasil, mais importante que qualquer governo constituído, foi simplesmente riscado do mapa. Em suma: a Lava Jato virou uma nação inteira de ponta-cabeça. Havia um Brasil antes de Moro. Há um outro depois dele.

Exagero? Pergunte à Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa ou OAS se mudou ou não alguma coisa importante em suas vidas. A mesma pergunta pode ser feita às dezenas de políticos processados e presos, a empresários piratas que durante décadas saquearam o Tesouro Nacional e aos monarcas absolutos que reinavam nas diretorias das empresas estatais: e aí, pessoal, tudo bem com vocês? Dá para ver se houve ou não mudança, também, quando se constata que a ação de Moro levou milhões de brasileiros para as ruas, num inédito movimento de massas contra a corrupção. Varreu do poder um partido, um sistema e milhares de militantes políticos que mandaram no Brasil durante mais de 13 anos. Fez uma presidente ser deposta do cargo por fraude contábil.

Moro e o seu time fizeram muito mais que condenar 385 magnatas, aplicar 3.000 anos de penas de prisão e recuperar para o erário, até agora, R$ 4,5 bilhões em dinheiro roubado. É bom notar, também, que em toda a Lava Jato não há um único trabalhador punido. Não há nenhum inocente na prisão, agora ou desde que a operação começou, em 2014. Não há, enfim, uma única ilegalidade em nada do que Moro fez – tomou centenas de decisões e três tipos de tribunais superiores a ele examinaram com microscópio tudo o que fez, sem encontrar nada de errado até hoje em sua conduta moral. Acusou-se Moro, até no STF, de colocar em risco “a democracia”. Bobagem. O que acaba com democracia é golpe militar, e não juiz criminal que põe ladrão na cadeia. Nenhum país do mundo, até hoje, virou ditadura por punir a corrupção dentro da lei.

Sérgio Moro deu ao Brasil uma chance de ser um país civilizado. É muito.

J.R.GUZZO

LUCRO É COISA DE RICO. COISA DE POBRE É PREJUÍZO

As estatais vão dar um lucro. Em 2015, último ano do governo de esquerda Lula-Dilma prejuízo foi de R$ 35 bilhões

O Brasil é realmente um país onde as coisas vivem de cabeça para baixo boa parte do tempo, ou talvez a maior parte do tempo.

Pelo que qualquer cientista social, formador de opinião ou pensador de universidade dirá, todas as vezes que você perguntar, governos de esquerda se preocupam em atender os interesses das populações mais pobres, que são a maioria. Já os governos de direita, vice-versa e ao contrário, gostam dos ricos – e, por isso mesmo, se preocupam em atender os interesses do “1%” mais rico da população. Esse célebre 1% do qual se ouve falar o tempo todo, mas que também pode ser 2% ou, vá lá, até uns 5% ou 10%, na melhor das hipóteses.

Imagina-se, então, que nos governos de esquerda as empresas estatais, que precisam existir porque o povo precisa ter empresas, deveriam dar lucro – e esse lucro seria distribuído aos pobres. Nos governos de direita, pelo mesmo raciocínio, as estatais não deveriam nem existir, e se existissem deveriam dar prejuízo, porque o povo não tem nada de ficar recebendo lucro de coisa nenhuma. Lucro é coisa de rico. Coisa de pobre é prejuízo.

Por que raios, então, as empresas estatais brasileiras dão prejuízo nos “governos dos pobres” e dão lucro nos “governos dos ricos”? Vai saber.

Por razões que nunca foram explicadas direito, alguém por aqui ligou o polo negativo no lugar onde fica o polo positivo, ou fez o inverso, e o resultado é que as coisas vivem com sinal trocado no país. Estamos passando, justo agora, por um desses grandes momentos da “contradição inerente aos fenômenos”, ou da “lei da unidade nos contrários”, no dialeto marxista à brasileira.

Em 2019, primeiro ano do governo de direita de Jair Bolsonaro, as estatais vão dar um lucro recorde na história – R$ 52 bilhões só nos primeiros nove meses, o que pode acabar perto dos R$ 70 bi até o final de dezembro. Em 2015, último ano do governo de esquerda Lula-Dilma, as mesmíssimas estatais deram um prejuízo de R$ 35 bilhões. Será preciso dizer mais alguma coisa?

O PT – o grande partido estatista do Brasil junto com os seus serviçais do Psol, PCdoB, etc. – é o inimigo número 1 da privatização, como todos estamos cansados de saber. Se desse, tudo o que serve para produzir alguma coisa deveria pertencer ao “Estado” – talvez não tanto quanto em Cuba, onde até charrete puxada a burro é estatal, mas o mais parecido com isso que os seus teóricos conseguissem imaginar.

No papel, tudo é “patrimônio popular” e pertence “ao povo”. Na prática, é tudo propriedade privada dos que mandam no governo – e aí a gente acaba vendo que na verdade não existe contradição absolutamente nenhuma nessa história toda. Uns roubam. Outros trabalham. As estatais, nos governos Lula-Dilma, foram roubadas dia e noite. Só podiam mesmo dar prejuízo. Agora seus diretores trabalham, em vez de roubar. O lucro apareceu já no primeiro ano.

Não que “o povo” vá ver um tostão furado de todos esses bilhões que entrarão em 2019 – o povo nem passa do saguão de entrada das estatais, mesmo porque os seguranças não deixam. Mas os pobres (além dos médios e dos ricos) não vão mais pagar, ao contrário de 2015, pelo prejuízo com o dinheiro dos seus impostos, que têm de tirar do bolso a cada vez que acendem a luz de casa ou compram um quilo de mandioca. Faz uma imensa diferença.

J.R.GUZZO

A ERA DAS NARRATIVAS E O EMPRESARIADO QUE SE DEU BEM COM O PETISMO

Há, como se diz hoje a respeito de quase tudo, uma nova “narrativa” na praça. Como é bem sabido, tornou-se praticamente impossível, no Brasil atual, o cidadão passar 24 horas seguidas sem ouvir na mídia algum tipo de “narrativa” – a “narrativa” de Sua Santidade o Papa, da moça que apanhou do marido ator de novela, do bandeirinha de futebol e daí por diante, até o último dos 7 bilhões de habitantes do planeta.

A “narrativa” que se pode pegar no momento por aí, e que já começa circular no ambiente político-empresarial-jornalístico-jurídico-garantista e mais tudo o que em geral entra nessa sopa, é o que daria para se chamar de: “Fábula do empresário nacional mal tratado pela justiça do seu próprio país, em vez de apoiado por todos nesta sua hora de desventuras, como aconteceria nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, onde os governos pensam em salvar empresas e empregos”.

É o que as classes instruídas, e melhor equipadas para pensar do que você, começam a ouvir – e, mais que isso, a dizer em palestras, entrevistas à imprensa, mesas redondas e por aí afora.

Os empresários apresentados ao público como vítimas de maus tratos da justiça, ou coisa parecida, boa parte deles hoje afastados do comando efetivo das suas empresas, são em geral de um biotipo muito conhecido no Brasil dos últimos anos: donos e altos executivos de empresas que praticaram atos bilionários de corrupção nas suas relações com os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, e hoje não andam mais no lado da rua onde bate o sol. Foram pegos em flagrante. Confessaram, com papel passado e assinado, os crimes que cometeram. Delataram-se uns aos outros, sem constrangimento, diante da autoridade judiciária. Pagaram multas-gigante, tiveram de devolver dinheiro roubado e fizeram “acordos de leniência” com órgãos do Estado, para pagar penas financeiras mais em conta – acordos que são, de novo, confissões perfeitas da prática de delitos previstos no Código Penal brasileiro.

A “narrativa” que começam a vender, agora, é que o mal que fizeram, junto com os participantes dos governos de Lula e de Dilma, não foi, no fundo, tão grande assim. Na verdade, talvez nem tenham tido tanta culpa pelo que fizeram – afinal, precisavam fazer suas empresas trabalhar (e gerar empregos, claro, gerar empregos acima de tudo) e os governos deste pais, como todo mundo sabe, não deixam ninguém funcionar sem o pagamento de propinas. Não se pode esquecer que muitos pagaram, com todos os juros, tudo o que tomaram emprestado do BNDES, Banco do Brasil e outros guichês onde magnatas amigos de quem manda encontram “dinheiro barato” – não fizeram nada de útil para o país com as cordilheiras de dinheiro que receberam, mas isso são outros 500, não é mesmo? Foram enganados em seus negócios com Angola, Cuba, Moçambique, Guiné e outras potências desse porte; como iriam imaginar que uma coisa dessas pudesse acontecer? E por aí vamos.

Não faltam ajudantes para tocar essa “narrativa” segundo a qual ladrões confessos de dinheiro público vão tentando, discretamente, livrar-se do seu registro como bandidos e ir vestindo a fantasia de empresários mais ou menos normais, “simples homens de negócios úteis para a economia brasileira”, ou mesmo vítimas das circunstâncias. Aqui e ali o presidente do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, dá a sua mão. Aqui, ele diz que não pode haver progresso se houver muito rigor nas exigências de ordem. Ali, diz que um “lado ruim” da Operação Lava Jato foi quebrar empresas; imagina-se, então, que seus crimes de corrupção não deveriam ter sido punidos, para que elas continuassem colaborando com o avanço econômico do país. É aplaudido por banqueiros e tratado com deferência na mídia.

A Odebrecht, no momento, parece ser quem está avançando mais na construção da nova “narrativa” – justo ela, a Odebrecht, dada como a campeã mundial da corrupção em todos os tempos. Seu ex-presidente, Marcelo Odebrecht, voltou a aparecer na mídia e a empresa voltou a ser comentada. Só que você não vai ouvir falar na palavra “corrupção” em nada disso. A “narrativa” vai tentar lhe mostrar que o problema da empresa e do reinado de Odebrecht, no fundo, foram dissenções internas, operações de altíssima complexidade no exterior e mais uma porção de milagres. Quem sabe acaba pegando?