MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

O FREIO A VÁCUO DO CAMINHÃO

A empresa para a qual trabalhei entre 1984 e 1994 tinha entre seus produtos alguns componentes que eram usados em sistemas de vácuo para aplicação nos freios de caminhões.

Alguns caminhões Ford Cargo, lançados no Brasil em 1985, apresentaram problemas no sistema de freio e as inspeções mostraram que uma provável causa do problema poderia ser o nosso componente. Posteriormente essa suspeita foi afastada. Dessa maneira, como responsável técnico da empresa, e acompanhado por um outro colega, fomos verificar o alegado problema, que havia ocorrido em uma frota de 5 caminhões recém adquiridos por uma transportadora na região de Campinas, SP.

Enquanto meu colega se encarregava de desmontar uma das peças problemáticas para examinar o componente em questão, estava eu conversando com o proprietário da transportadora, um português oriundo da região do Minho (o “jardim” do querido Portugal) muito simpático e também proprietário de uma lapa de apêndice nasal que nada tinha a dever ao sr. Ilham Aliyev, Presidente do Azerbaijão, sem, entretanto, ter o mesmo preparo tecnológico dele. Meu interlocutor buscava entender como funcionava o sistema de freio a vácuo do caminhão.

Acompanhando a descrição do funcionamento do sistema, a curiosidade do afável lusitano foi dirigida à câmara de vácuo do sistema. Perguntou-me o que tinha dentro dela.

Respondi:

– É aí que existe o vácuo que vai ajudar mecanicamente a frenagem do veículo.

– E o que é esse tal de vácuo?

– Vácuo é a ausência de qualquer coisa, o que representa uma pressão negativa relativamente à atmosférica, e é responsável por succionar o diafragma do atuador e assim reforçar a força de frenagem do veículo.

Pensou um pouco, tirou uma catoca da ala direita do narigão cheio de pelos e continuou:

– Ah, então só tem ar aí dentro?

– Não, vácuo é a ausência de ar. Não tem nada, nem ar aí dentro da câmara de vácuo.

Pensou mais um pouco, extraiu uma catoca adicional, agora a bombordo do nariz, empostou sua voz com o indefectível sotaque de nossos colonizadores e proferiu seu fulminante veredicto:

– Então, pois, pois, para que serve essa porcaria? Por isso que esses caminhões dão problemas e são tão caros. Fabricam uma peça grandona que não tem nada dentro, nem ar, como o senhor está dizendo, então não pode servir para nada mesmo a não ser para criar problemas e fazer a Ford cobrar mais caro da gente.

Para minha sorte, neste momento chegou uma mocinha com um cafezinho bem quentinho e extremamente aromático. Não deu para prosseguir o nosso diálogo altamente técnico-científico-comercial, e o prazer de saborear tão rico café serviu de tema para a próxima conversação enquanto meu colega terminava seu trabalho de retirar a peça suspeita para ser examinada em nossa fábrica.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

AS RÃS DO SR. JOSÉ OLINTO

Em Mato Grosso do Sul, perto de Corumbá, a empreiteira para a qual meu pai trabalhava chamava-se J. O. Machado Cia. Ltda., com sede em Bauru, SP, cuja razão social era derivada do nome de seu dono, o Engenheiro José Olinto Machado.

Cada 2 a 3 meses o sr. José Olinto viajava até as bandas de Corumbá para ver como estavam as obras da construção da estrada de ferro sob responsabilidade de sua empresa. Claro, quem vai à região do Pantanal mato-grossense não pode deixar de participar de uma caçada ou de uma pescaria. O sr. José Olinto não perdia uma única oportunidade dessas.

Numa dessas visitas ele, juntamente com alguns dos funcionários da empresa, reuniu seus apetrechos e foi pescar; os homens foram no final da tarde a um rio da região, ocasião em que se depararam com um magote de rãs em um brejo, imediatamente capturadas e colocadas dentro de um saco. Não é necessário dizer que o sr. José Olinto era fanático por pernas de rãs, e a ocasião de comê-las não podia passar em branco.

Os dotes culinários de minha madrasta, D. Joaninha Macedo Bezerra, eram merecedores da sua indicação ao Prêmio Nobel de Gastronomia se tal galardão existisse, e eram sobejamente conhecidos e louvados desde Kuala Lumpur, na Malásia, até Cururupu, no Maranhão, a ponto de o patrão sempre requisitar seus serviços cozinheirísticos (recompensados com boas retribuições financeiras) quando ia visitar as obras.

O único obstáculo para seu deleite gastronômico do dia seguinte era fazê-la cozinhar as pernas das rãs, já que minha madrasta sabidamente tinha horror e nojo a três tipos de animais: aranhas, sapos e políticos. Como consequência, qualquer bicho que se assemelhasse, mesmo de longe, a essas bestas era motivo de extensa repulsa por parte dela. E, cá pra nós, eu asseguro a vosmecê que nem mesmo a ameaça de o Alexandre de Morais mandar botar uma tornozeleira eletrônica nela poderia convencê-la de que rãs eram diferentes de sapos.

Foi então arquitetado um plano bem sacudido. Antes de chegar de volta da pescaria os homens matariam as rãs, as esfolariam e limpariam completamente, ficando apenas com as pernas das bichinhas. Com isso poderiam convencê-la de que eram pernas de aves já depenadas, limpas e sem os pés. E o plano foi adiante.

No próximo dia, mesmo ressabiada, D. Joaninha aceitou a explicação e preparou as pernas das rãs à milanesa como se fossem pernas de aves. Foi uma festa arretada para o patrão.

A tragédia pipocou no final do dia, quando uma vizinha cascavilheira abriu o bico e contou para ela que aquilo eram pernas de rãs.

Minha madrasta, furibunda e mais desvairada que a Joyce Hasselmann, juntou todas as panelas, pratos, guardanapos e talheres que haviam estado em contato com as pernas das rãs e jogou tudo no lixo; limpou o fogão, a mesa e o chão com creolina e lavou a toalha três vezes com água sanitária Q-boa!

No mesmo dia uma caminhonete veio da cidade com um lote novinho de utensílios para substituir todos os que foram jogados fora. O patrão pagou a conta. Êita rãs caras da moléstia!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

OS MÓVEIS DO SR. GENEROSO

Cuiabá, capital de Mato Grosso, em fotos antiga (Rua 13 de Junho) e moderna

Entre o segundo semestre de 1954 e o final de 1959 meu pai trabalhou em uma empreiteira que foi responsável pela construção do trecho da estrada que vai de São Vicente a Cuiabá (hoje parte da BR-364/163).

Um dos seus grandes amigos era o “seu” Generoso, um mato-grossense bagual característico daquele grande estado. Casado com Dona Linda, formavam um casal harmonioso que já havia posto oito filhos no mundo, todos gente honestíssima, trabalhadora e sempre disposta a ajudar os outros.

“Seu” Generoso criava gado na região de São Vicente, cerca de 90 Km de Cuiabá.

Para se ter uma ideia de como os negócios eram feitos naquele longínquo sertão e naquela época, costumeiramente “seu” Generoso vendia um lote de seu gado para o sr. José M., seu tradicional comprador em Coxipó da Ponte, ao lado de Cuiabá. Uma tropa de vaqueiros levava o gado e o pagamento do serviço era o chamado “quarto”, ou seja, 25% dos animais eram o pagamento da tropa. Normalmente um animal era abatido para comida dos vaqueiros (a viagem demorava vários dias), um ou outro morria e alguns bezerros nasciam. Tudo era contado corretamente. Quando o gado era entregue as contas eram acertadas e a palavra dos vaqueiros nunca era posta em dúvida, era um ponto de honra e o fio do bigode era a garantia.

– Saímos com tantas cabeças de gado, morreram tantas, nasceram tantas, e, portanto, estas que aqui estão são a sua parte.

Na maior parte das vezes o próprio comprador pagava em dinheiro o “quarto” que era devido aos vaqueiros e isso seria descontado do pagamento devido ao “seu” Generoso, mas alguns preferiam ficar com os animais.

A entrega do dinheiro do “seu” Generoso era outra questão. Claro, nada de PIX, DOC, TED ou outras facilidades naquela época.

Meu pai ia a Cuiabá quinzenalmente por razões da empresa em que trabalhava e, quando apropriado, passava na casa do sr. José M. com o recado do “seu” Generoso:

– O velho Generoso pediu para o senhor me entregar o dinheiro dele.

E assim era feito. O dinheiro era entregue ao meu pai em um grande envelope e em hipótese alguma era conferido no ato – isso era considerado uma ofensa. Em São Vicente meu pai entregava o envelope ao “seu” Generoso, recebia um pequeno agrado por isso e a missão estava cumprida. Ninguém conferia nada. Nenhum papel era envolvido na transação. A palavra era a honra de cada um, sagrada e inquestionável. Assim era a vida naqueles tempos, naqueles rincões.

Um dia, como vai acontecer a todos nós, D. Linda faleceu. O velho Generoso não suportou a solidão da falta da companheira de mais de quarenta anos. Vendeu suas terras e seu gado e, combinando com os filhos que moravam em Cuiabá, mudou-se para lá.

Os filhos compraram um bom lote de terreno nos arredores da cidade, construíram suas casas cercando o quarteirão inteiro e com isso tinham um grande quintal comum. Havia, inclusive, uma mina d’água no terreno.

“Seu” Generoso ficou com uma das casas. Simples que era, só tinha um armário, uma rede para se deitar e uma geladeira para gelar sua cervejinha. As noras cuidavam da sua comida e da roupa. Uma simplicidade que dava gosto.

Claro, os filhos pressionaram e convenceram o velho a mobiliar a casa, proporcionando-lhe um pouco mais de conforto. Que tal um sofá, uma cama com colchão de molas Epeda, mesa, cadeiras e, por que não, um rádio Philips e uma televisão Semp? E lá se foram, o velho Generoso e dois dos filhos, comprar tudo o que faltava na melhor loja da cidade.

Quando o vendedor viu o tamanho da venda que iria fazer seus olhos brilharam e sua alma se rejubilou. “É hoje que lavo a égua”, comemorou intimamente.

Venda acertada. Por sugestão do vendedor, tudo seria pago em 10 prestações, claro que com um pequeno juro, o que lhe renderia mais alguns trocados. Os móveis seriam entregues no dia seguinte sem nenhum custo adicional.

O velho Generoso já ia saindo todo satisfeito quando o vendedor o interpelou:

– O senhor precisa assinar esta nota promissória e alguns papéis do contrato!

– O que? Você é besta? Eu assinar um papel dizendo que vou pagar? Nunca fiz isso na vida, meu jovem. Minha palavra basta! Eu não preciso disso. Você está me injuriando!

Breve bate-boca. Um filho interveio, convencendo o velho pai que isso era normal na cidade. Depois de muito latim e saliva o velho foi persuadido a assinar os papéis.

Parecia que tudo estava certo até que o vendedor voltou logo após conversar com o gerente financeiro:

– “Seu” Generoso, como o senhor não tem emprego com carteira assinada, é novo na praça de Cuiabá e não tem referências de crédito, precisamos que o senhor providencie um fiador.

Deu merda, e bem substanciosa!

O velho Generoso puxou a faca que sempre levava na cintura e partiu para eletrocutar as tripas e o fedegoso do vendedor ali mesmo. Nunca foi tão ofendido na vida. Só não conseguiu seu intento de fazer dele um picadinho porque foi imobilizado pelos filhos e pelos funcionários da loja.

Voltou para casa destilando os mais nobres sentimentos a respeito da santa genitora do vendedor e mais indignado que o notável e profícuo escritor Luiz Berto analisando as decisões dos ministros do STF.

Os filhos, escondidos, pagaram à vista os móveis do pai e os trouxeram depois de uma semana, prazo necessário para sossegar os brios do velho.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A CALIFORNIA, AH, A CALIFORNIA!

Ah, a California de meus sonhos dourados,
Tem São Francisco, cidade que me fascina;
Tem xibungos drogados por todos os lados,
E eu piso num monte de bosta em cada esquina!

Mapa do bairro de Castro, com as dicas dos melhores rincões para a alegria das bichocas

São Francisco é o paraíso dos admiradores do mundo do arco-íris. Se vossuncê é chegado a um comportamento mais eclético, aqui vai um mapa do bairro de Castro, domínio absoluto da comunidade LGBTFWIPQP+, onde um cabra mais arretado encontrará facilmente algo pequeno, médio ou grande para sua plena satisfação. O Google mostra os melhores bares e boates gays da região.

Também em São Francisco há um aplicativo de celular (SnapCrap, vulgo “merdômetro”) que mostra onde há concentração de fezes nas ruas.

Aplicativo SnapCrap, que mostra concentração de Dórias em São Francisco

A California sempre exerceu um certo fascínio, principalmente sobre os jovens. Hoje é um estado decadente, e um passeio pelas ruas das principais cidades é um roteiro da degradação humana que nada tem a dever à mais miserável Cracolândia de uma grande cidade brasileira.

A California é o mais rico estado americano – se fosse uma nação independente teria uma economia maior que a do Brasil. Tem uma população de cerca de 40 milhões e uma área de 423.970 Km2 (25% menor que a da Bahia), com cerca de 1.240 Km desde o México até o estado do Oregon e 400 Km desde a costa do Pacífico até a Sierra Nevada, divisa com o estado de Nevada.

A primeira vez que estive na California foi em 1997, quando fui designado para uma semana de trabalho na fábrica de aspiradores de pó da Hoover em Tijuana, México, ao sul de San Diego, justo do outro lado da fronteira. Não morava nos Estados Unidos ainda. O voo de Phoenix para San Diego havia se atrasado por mais de duas horas, a comissária de bordo era mais feia que a Graça Foster, tão azeda como a própria e, como consequência, meu humor era parecido com o da Dilma em dia de TPM.

Chegando ao aeroporto de San Diego fui até o estacionamento da Hertz para pegar meu carro alugado e atravessar a fronteira. Na ocasião utilizava minha carteira de motorista brasileira. No portão de saída um negrão enorme, parecido com o Deputado Hélio Negão, conferia os documentos. Quando viu a carteira brasileira seus olhos brilharam, abriu um sorriso de orelha a orelha e entabulou uma breve conversação:

– “Buenos dias”! É assim mesmo que se fala “good morning” no Brasil?

Já senti o clima da elevada cultura americana sobre geografia!

Sem esperar resposta, continuou:

– Essa é a primeira vez que vejo um brasileiro alugando um carro aqui! Sempre ouvi falar do Brasil e gostaria de visitar o Rio de Janeiro, especialmente no Carnaval, onde dizem que as mulheres mais bonitas do mundo se requebram quase peladas nas ruas. Mas receio que não vão entender meu pobre espanhol.

Começou bem.

Ponderei que no Brasil se fala português. Afirmei, para tranquilizar o negão, que o idioma não seria problema, já que todo brasileiro também fala espanhol, inglês, francês e argentino, e se nada disso funcionar nós nos entendemos por gestos.

– Mas você acha que vão receber bem um americano negro por lá?

– Claro, nós adoramos os americanos negros, bem como os japoneses, italianos, alemães, turcos e judeus de todas as cores.

– Mas não seria problema dirigir por lá? Vocês também dirigem pela direita?

– Pela direita, pela esquerda e até pelo meio se necessário. Só por cima é que ainda não pode.

O negão deu uma risada e continuou:

– Mas… e se eu me perder? Dá pra comprar um mapa do Brasil por lá?

– Sim, não há problema; em qualquer posto de gasolina ou farmácia há mapas à venda.

– Ah, que bom, então acho que não teria problema! E posso usar dólares para pagar as contas?

– Claro, claro. Até os engraxates e as quengas aceitam dólares.

– E, comparado com a California, qual o tamanho do Brasil?

Aí não deu mais!

– É como daqui até São Francisco para o norte e até perto da Sierra Nevada para o leste.

Para minha sorte dois carros já estavam esperando na fila atrás de mim e tivemos que encerrar a erudita e brilhante conversação.

Seguramente o negão foi dormir feliz aquela noite, sonhando com as requebrentas cabrochas brasileiras!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A BOLSA PERDIDA

O antigo Hipermercado Eldorado

Em dezembro de 1977 eu morava em São José dos Campos, SP, e tive que ir até São Paulo resolver um problema que requeria minha presença. E já que estava na cidade grande fui até o então Hipermercado Eldorado, um refinado estabelecimento comercial situado na Rua Pamplona, uma região de comércio de alto nível na capital paulista. O Hipermercado Eldorado não existe mais, tendo sido adquirido pelo Carrefour. O objetivo do meu desejo era um aparelho de som 3 em 1 (rádio, toca-discos e cassete) da CCE, uma joia eletrônica da época, que seria meu próprio presente de Natal daquele ano.

Surpreendentemente consegui estacionar na própria Rua Pamplona, perto do Eldorado, um golpe de sorte, já que desde então aquela rua era uma movimentada artéria da cidade.

Peguei minha bolsa capanga, um artigo em moda na época, e coloquei-a sobre o capô do carro enquanto buscava algo no assento traseiro. Acontece que, distraído, esqueci-me de pegar a bolsa; fechei o carro e fui ao Eldorado comprar o tão sonhado aparelho de som.

Escolhido o objeto cobiçado, engoli em seco quando me dei conta que a capanga não estava comigo. Nela estavam meus documentos pessoais, dinheiro, talão de cheques e cartão de crédito. Imediatamente me lembrei que a havia esquecido em cima do capô do carro.

Bolsa capanga e o aparelho de som 3 em 1 da CCE

Bateu um aperreio da moléstia e uma zoeira arretada invadiu os miolos.

Voltei correndo ao lugar onde tinha estacionado e, claro, nada vi em cima do carro. Vasculhei o carro por dentro para ver se lá estava, mas… nada!

Sentei-me, quase tendo um troço, quando vi um bilhete colado no para-brisa:

“Vi quando o senhor saiu do carro deixando sua bolsa em cima dele. Peguei-a, mas lhe perdi de vista no meio das pessoas. Sua capanga está guardada aqui perto, na Silvia Calçados, na esquina com a rua Haiti. Por favor, venha buscá-la”.

Nem acreditava no que estava lendo. Peguei o bilhete e fui correndo até a Silvia Calçados, onde fui atendido por uma simpática mocinha. Mostrei o bilhete e disse que eu era o dono da bolsa. Ela pegou a bolsa embaixo do balcão, tirou minha carteira de identidade e me perguntou qual era o meu nome, para conferir.

Respondi:

– Magnovaldo.

E aí fez a segunda pergunta:

– Magnovaldo de que?

Nisso uma senhora, que aparentava ser a própria Dona Silvia, a interrompeu:

– Filha, dê logo a bolsa dele. Um cabra que acerta “Magnovaldo” na mosca não precisa acertar mais nada.

Comprei meu aparelho 3 em 1 da CCE e uma bem surtida caixa de bombons finos para a moça. Sim, sei que ela merecia bem mais!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A TORTILHA ESPANHOLA

San José de Chiquitos, Bolívia

Meu pai, na década de 1950, trabalhou na construção da Estrada de Ferro Brasil – Bolívia e por essa circunstância passamos alguns anos naquele país. Moramos em Roboré, San José de Chiquitos e El Tinto, na beira da estrada de ferro, e isso me permitiu aprender o básico da língua espanhola.

Em 1996, a empresa para a qual eu trabalhava em São Paulo, antes de mudar-me para os Estados Unidos, me determinou fazer um reforço na língua espanhola para encarar trabalhos na Argentina, no México e na Venezuela, reforço esse conduzido com muita competência pelo meu professor José Luiz, um madrilenho muito simpático e destro na ensinação de seu idioma.

Tornamo-nos amigos. José Luiz havia se casado com uma brasileira, Maria Teresa, e já tinham um rebento de seus 3 anos de idade. Voltou para a Espanha um ano depois e foi morar em Madri.

Em 1998 fui trabalhar por uma semana em Genebra, na Suíça. Viajei no domingo. O voo da Varig de São Paulo para Genebra parava em Madri, e a Swissair completava o percurso.

Na quinta-feira telefonei para meu amigo José Luiz e disse que tinha umas 5 horas de espera no final do dia seguinte, sexta-feira, no aeroporto de Barajas em Madri e caso ele estivesse disponível poderíamos tomar um café no próprio aeroporto. Recebeu meu telefonema com grande alegria e insistiu em que eu passasse a noite na cidade com ele, sua esposa e com os dois pirralhos que faziam parte da família. Conversando com o pessoal da Varig, consegui que meu trecho de Madri a São Paulo fosse adiado por um dia. Ótimo.

José Luiz me pegou no aeroporto. Fomos à sua casa, onde dois irmãos, suas esposas e filhos, além de um outro casal de amigos já estavam a postos para um lauto jantar à espanhola.

“Tortilla” espanhola

Sua esposa Maria Teresa preparou um jantar inesquecível. Um dos pratos principais era uma “tortilha espanhola” que, diferentemente da tortilha mexicana, é uma torta gorda, bem recheada, e que foi acompanhada por frutos do mar, minha paixão gastronômica depois de uma rabada com polenta e uma carne de sol de Caicó.

Vinhos e alegria não faltaram à mesa. Quando o teor alcoólico já estava elevado fizemos um ruidoso brinde ao nosso reencontro e busquei expressar meu agradecimento, alto e bom som, ao elogiar os dotes culinários de sua esposa em preparar tão deliciosa tortilha:

– José Luiz, sua esposa Maria Teresa é a melhor “tortillera” do mundo!

Deu merda.

Silêncio imediato na galera. Os meninos arregalaram os olhos, assombrados. As mulheres começaram a rir. Os homens se olharam assustados. Então José Luiz veio em socorro de sua esposa:

– Minha mulher não é uma “tortillera”, garanto. Sou seu marido e não tenho nenhuma queixa!

E as gargalhadas pipocaram pela sala.

Foi aí que descobri que “tortillera” na Espanha significa lésbica.

Felizmente minha alegada ignorância das nuances da língua espanhola perdoou meu vexame.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

UM VOO DA VASP PARA JOINVILLE, SC

Avião da antiga VASP

Um dos grandes amigos, daqueles “brothers” mesmo, Benjamim H., era conhecido entre nós como o “Besouro”, tal a intensidade e baixa frequência de sua voz. Não existia nenhuma maneira de ignorá-la quando Benjamim falava.

Éramos colegas de trabalho em uma empresa metalúrgica em São Paulo, ele na área comercial e eu na industrial.

Em meados do ano de 1990 fomos instruídos a ver um Cliente em Joinville, SC, onde algumas questões técnico-comerciais reclamavam nossa presença. No dia marcado, uma segunda-feira, já estávamos dentro do avião da VASP às 8 horas, esperando a decolagem que deveria ocorrer às 8:30. Para matar o tempo, Benjamim vasculhava a seção de autos no jornal do domingo para decidir o preço a pedir pelo seu Opala, que seria posto à venda no final de semana seguinte.

E nada de o avião decolar.

Atrás de nós um casalzinho recém casado estava indo em lua-de-mel para o sul, pombinhos arrulhando suaves murmúrios preparatórios para os doces embates a serem travados nos aconchegantes rincões sulistas.

E nada de o avião decolar.

Os passageiros começavam a ficar nervosos.

Imaginávamos que o tempo fechado era a causa da demora na partida, mas uma comissária, aperreada com as queixas dos passageiros e pedindo desculpas, informou que a causa da demora era a falta da tripulação técnica. Era, na verdade, a falta do comandante, que estava atrasado para o voo.

Bem, depois de mais de meia hora chegou a tal tripulação técnica: era um baixinho enfezado, com a cara trancada, que subiu a escada do avião de quatro em quatro degraus, não cumprimentou ninguém, entrou direto na cabine, já ligou os motores enquanto a porta era fechada e nem esperou que eles esquentassem. O avião foi direto para a cabeceira da pista, começou a acelerar antes de fazer a curva do início da pista, engatou uma quinta e embicou para as nuvens com toda a potência. Cinco minutos depois o avião entrou em uma nuvem de tempestade exatamente quando deixou de subir e nivelou o voo, passando a sofrer forte turbulência. Com tudo isso acontecendo o silêncio dentro do avião ficou estrondoso.

Quero dizer, silêncio total até quando o Benjamim, sabendo do preço declinante do seu Opala, disparou seu vozeirão e apregoou alto em bom som:

– Ih, Magno, está caindo!

O casalzinho atrás esbugalhou os olhos e a jovem recém casada dirigiu-se para meu colega e, mais branca que bunda de norueguês, perguntou quase chorando:

– Moço, é sério que o avião está caindo?

Claro, meu colega e amigo estava se referindo ao preço dos Opalas usados, mas sua voz poderosa, em função das circunstâncias, ressoou com um sentido diferente. Após a explicação, houve um suspiro generalizado de alívio. Chegamos a Joinville sem maiores problemas.

Tenho certeza de que a lua de mel do jovem casal ocorreu da maneira mais feliz possível.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

CARREUPA E SUA PRIMEIRA VIAGEM DE TREM

Meu curso ginasial, incluindo a “Admissão ao Ginásio” (sou daquela época), foi feito na Escola Agrícola Gustavo Dutra em São Vicente, a 90 quilômetros de Cuiabá, hoje Instituto Federal de Mato Grosso, entre 1955 e 1959.

Um de meus colegas se chamava Silvio, e era conhecido por Carreupa, apelido de origem incerta e não sabida, mas que tampouco o desagradava.

Carreupa era proprietário de 237 neurônios no total, o bastante para aprender os ensinamentos escolares em nível suficiente para passar de ano. Índio grosso, era, entretanto, um amigão sempre disposto a ajudar, sorridente, nunca reclamava de nada e mantinha um espírito alegre e positivo.

Quando terminou o curso ginasial resolveu seguir seus estudos e foi encaminhado, como todos nós de São Vicente, ao Colégio Agrícola Nilo Peçanha em Pinheiral, Estado do Rio (hoje Instituto Federal do Rio de Janeiro), igualmente sob a administração do Ministério da Agricultura.

Fui aluno desse Colégio Agrícola de 1960 a 1962, onde tive um dos períodos mais felizes de minha juventude.

Pinheiral fica junto aos trilhos da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, entre Volta Redonda e Barra do Piraí, não sendo ponto de parada da maioria dos trens de passageiros com destino ao Rio de Janeiro. Somente uns poucos trens de subúrbio com destino a Japeri paravam em Pinheiral. Não havia serviço regular de ônibus naquela época. A estação de trem de Pinheiral foi desativada há muitos anos atrás.

A antiga estação de trem de Pinheiral, RJ

Meu querido amigo Carreupa veio de Cuiabá a São Paulo de ônibus e de ônibus continuou até Volta Redonda, quando foi informado que teria que tomar um trem para Pinheiral. E agora, como se faz para tomar um trem? Como é isso?

Com as informações obtidas, comprou uma passagem de trem até Pinheiral e ficou na plataforma apropriada esperando a próxima composição.

Acontece que o próximo a estacionar na plataforma foi um trem de minério de ferro que havia acabado de desembarcar sua carga na Usina Siderúrgica da CSN em Volta Redonda e estava voltando para Minas Gerais. Teve que parar na estação por alguns minutos esperando luz verde para seguir na rota.

Carreupa viu o trem parado e não titubeou. Achou que esse era o seu trem. Jogou sua mala no vagão de minério parado à sua frente e pulou para dentro dele em seguida.

Ora, se há alguma coisa neste mundo que está cheia de pó de ferro é um vagão de minério do mesmo. E o nosso Carreupa, oitavado num canto do vagão, recebeu toda a carga de pó de minério no rosto, braços, cabelos, roupa, sapatos, mala e em tudo o mais que fazia parte de sua figura. Com o trem em movimento e dentro de um vagão aberto, o vento se encarregou de impregnar esse pó em todos os milímetros quadrados do Carreupa e de seus pertences.

Na próxima parada da composição Carreupa leu a placa com o nome da estação: “PINHEIRAL”.

– Oba, é aqui que eu desço.

Pegou sua mala, pulou do vagão e ei-lo chegando em Pinheiral mais preto que bunda de nigeriano, coberto de uma camada de 3 milímetros de pó de minério de ferro, somente com o sorriso branco estampado na negra figura, e reclamando do serviço:

– Esse troço só pode ser obra do cão. Não existe viagem mais miserável no mundo do que nesse tal de trem. Deus me livre de viajar nessa porcaria de novo!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE

Em 1966 houve a formatura do jovem Sidney A., graduado pela Faculdade de Medicina da USP, uma das mais renomadas do país. Sua irmã Marlene A., minha grande amiga, me convidou para o churrasco de comemoração que seu pai Sebastião A. daria no sítio da família em Jundiaí, SP, para todos os 50 doutorandos, professores e amigos.

“Seu” Sebastião era um imigrante italiano oriundo de família simples e que veio para o Brasil logo depois da Segunda Guerra para tentar a sorte. Como todos os imigrantes daquela época, teve um início difícil em sua nova terra, mas prosperou bastante e em 1967 tinha uma cerâmica que fabricava tijolos, telhas e ladrilhos de boa qualidade e que tinham grande aceitação em Jundiaí, Campinas e região.

Na alegria da festa o orgulho e a felicidade de quem era apenas um pobre carcamano imigrante e agora tinha um filho médico foi muito para o coração simples de “seu” Sebastião. Começou a chorar de emoção, a pressão sanguínea se lhe subiu e começou a passar mal. Imediatamente o filho, agora médico, foi socorrê-lo.

Ele rejeitou:

– Você não, chame um médico de verdade.

– Pai, não somente sou médico, mas tenho aqui 49 outros colegas médicos e vários professores. Podemos cuidar de você muito bem.

– Não, não. Você é filho, não é médico, e essa meninada aí não sabe de nada. Chame então um dos professores, esses sim são médicos de verdade.

“Seu” Sebastião foi devidamente socorrido e medicado e ainda viveu por muitos anos depois desse incidente.

Algo parecido também se passou comigo um ano após esse incidente, pois graduei-me Engenheiro em 1967.

Em março de 1968 meu pai, então com 59 anos, comprou sua primeira casa própria em Bauru, SP. A casa ficava em um terreno trapezoidal com as dimensões abaixo:

O velho estava desconfiado que a área do terreno que constava na escritura (240 m2) podia não estar correta e tentava saber a exatidão daquele número para ter a tranquilidade de que não fora tapeado. Como seus estudos não foram além do curso primário, o cálculo da área de um trapézio era algo envolto em um profundo mistério. Fez várias tentativas:

18 x 12 + 22 = 238 m2. Hum, não sei. Será que é isso mesmo?

12 x 22 – 18 = 246 m2. Não, não pode ser isso. Ou pode?

22 x 18 = 396 m2. Há algo errado, não é por aí.

(12 + 18 + 22 + uns 14) = 66. Então 66/4 = 16,5, e daí 16,5 x 16,5 = 272,25 m2… não, isso deve estar errado!

E estava nessa angústia existencial quando cheguei para ficar com ele alguns dias em Bauru. Mostrou-me as dimensões do terreno e me perguntou se eu sabia calcular a sua área. Em dois tempos lhe mostrei as contas:

{(18 + 22) x 12} / 2 = 240 m2.

A área do terreno que constava na escritura estava correta! Achei que o velho tinha sossegado. Ledo engano!

Dois dias depois dei uma carona para meu pai até o seu local de trabalho. Fui recebido pelo seu chefe, o Eng. Rafael, bonachão, que me cumprimentou pela formatura e logo em seguida me comeu o fígado:

– Então, meu jovem, que droga de Engenheiro a Escola Politécnica forma? Você não sabe nem calcular a área de um trapézio? Precisou seu pai me pedir para que eu faça o cálculo?

Foi então que fiquei sabendo que no dia anterior meu pai havia pedido para o Eng. Rafael calcular a área do terreno, alegando que não havia ninguém na família que soubesse fazê-lo.

É impressionante a paciência que os filhos precisam ter com os pais!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

O BOLO DE CENOURA

Bairro do Morumbi, São Paulo

O amor é lindo!

Quando se ama, todo sacrifício em prol da pessoa amada vale a pena, mesmo quando a alma é pequena, com meus pedidos de desculpas ao espírito de Fernando Pessoa.

Em 1994, ano em que o Brasil ganhou mais uma Copa do Mundo, um dos colegas de Faculdade de meu filho Alexandre, o Duda, despertou os primaveris olhares langorosos e apaixonentos de uma bonita moçoila em São Paulo. Além das virtudes de natureza física tinha também uma outra, esta de origem econômico-financeira: era filha de um dos Diretores de um dos maiores bancos brasileiros, hoje extinto, engolido que foi por um dos gigantes desse segmento.

Fernanda morava com os pais e duas irmãs em um desses grandes, luxuosos e sofisticados apartamentos de um moderno edifício no Morumbi, um dos bairros nobres da capital paulista. Um por andar, claro, como convém a uma família de elevada extração. Tinha seu próprio salão de lazer, todo envidraçado, de onde se desfrutava uma bela vista. Havia também um telão onde se projetava a imagem de uma televisão de última geração (as maiores televisões da época tinham 45 polegadas, e um projetor de imagem com um amplificador estéreo era o supra sumo do status e do prazer de acompanhar uma partida de futebol pela TV).

Em sua investida inicial nossa querida Fernanda levou para o Duda um belo pedaço de bolo de cenoura que a mãe havia feito.

Ora, se havia algo neste mundo que Duda detestava era bolo de cenoura! Mas, como vossuncê bem sabe, a paixão não só cega os olhos e tornam moucos os ouvidos como também perverte a sinceridade das palavras. O rapazola não só engoliu o pedaço inteiro como salientou sua apurada predileção por bolos de cenoura, e que esse havia sido o melhor deles que já havia provado na vida.

Duas semanas depois, em 17 de julho, aconteceria a disputa da final da Copa do Mundo entre o Brasil e a Itália. Duda foi convidado a assistir ao jogo no apartamento da família da Fernanda. Jogo tenso, impróprio para torcedores cardíacos, que acabou empatado no tempo regulamentar e na prorrogação. A decisão foi para os pênaltis. Enquanto os goleiros e batedores se preparavam para o tiroteio final, a mãe da Fernanda veio da copa, toda sorridente, com uma magnífica tora de bolo de cenoura.

– A Fernanda me disse que você adora um bolo de cenoura. Portanto, fiz esse com capricho especialmente pra você. Espero que esteja à altura de seu bom gosto.

Nosso querido Romeu engoliu em seco, mas manteve a pose para não desapontar sua Julieta. Ficou enrolando, deu uma mordidinha aqui, outra ali, mas sem ânimo de encarar o pedaço do bolo.

Nisso a sorte o ajudou: Baggio chutou pra fora, o Brasil venceu por 3 x 2 e virou tetracampeão.

Explosão de alegria. Todos gritavam e pulavam.

Duda aproveitou a balbúrdia da ocasião e despachou seu pedaço de bolo a 136,7 quilômetros por hora pela grande janela aberta do salão que estava às suas costas.

Quero dizer, na verdade a janela não estava aberta, mas o vidro estava tão cristalinamente limpo que dava a impressão que dita janela aberta estava. O resultado foi que a vidraça interrompeu a trajetória do pedaço do bolo de cenoura e agora seus restos mortais deslizavam lentamente por ela em direção ao piso, marcando seu rastro no vidro com uma gosma marrom de chocolate que não deixava dúvidas sobre o que havia acontecido.

Até hoje tenho dificuldades em entender porque o namoro dos dois jovens não foi adiante. Dariam um lindo casal!