MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

FALALÁ

Os Estados Unidos são tidos como um país onde tudo é competição. Aliás, essa é uma das bases do sistema capitalista, que é adotado explicitamente pela Constituição do país.

Não sou analista de nada, exceto quando se trata de curvas cônicas ou das quatro operações fundamentais, mas às vezes fico pensando se aquele conceito, natural por princípio, não é exagerado no padrão das pessoas desta nação. Digo natural por princípio porque a competição é o comportamento natural de todos os seres da terra – aliás, Darwin constatou isso claramente quando publicou sua importante obra “A Origem das Espécies” em 1859.

Aqui neste grande país, por exemplo, todos, desde crianças, são instigados a serem campeões de alguma coisa. Uma menina, festejada como a “Estudante Número 1 de Geografia Regional do Segundo Ano das Escolas Secundárias da Região Sudeste da Cidade de Osnabrock, Dakota do Norte”, recebe um diploma para pendurar na parede, posa para fotografias no jornal da comunidade, e é o orgulho da família.

Imagino que deve haver um prêmio e um certificado para o piá que ganhou o concurso de “O Mijo Mais Longo Dos Moleques De Até 9 Anos De Pushmataha, Oklahoma”, ou para aquele outro que foi o campeão de cuspe à distância de Tonganoxie, Kansas.

O que importa é ter um diploma de campeão de alguma coisa, ou ter um título grandioso, mesmo duvidoso, de algo.

Por exemplo, a cidade vizinha de Daytona Beach, às margens do Oceano Atlântico, aqui na Flórida, tem um dos maiores autódromos do país, construido em 1946, que abriga corridas de carro da Formula Indy. Há mais de 60 anos é o local da corrida de 4 de Julho, dia da independência americana. Mas isso não basta. Em uma das entradas para a praia da cidade se pode ver um portal com a informação de que é “A Praia Mais Famosa do Mundo”. Sério? Ipanema, Copacabana, Fernão de Noronha e a Côte d’Azur devem ser apenas uns amontoados de areia.

Outro exemplo: todos os anos, desde 1903, há um campeonato de baseball, disputado entre equipes americanas da Major League Baseball. São as conhecidas “World Series”, e ao vencedor é atribuido o título de “Campeão do Mundo”, apesar de não serem admitidas equipes estrangeiras.

Para não perder o bonde da história e completar minha cidadania americana, acabo de me atribuir o título de “Campeão Mundial de Falalá”.

Que jogo é esse?

Explico.

Há duas semanas inventei um jogo de cartas que batizei com o nome de “Falalá”. É um jogo idiota e fubanicamente besta, que não tem significado ou serventia nenhuma para quem quer que seja.

Ensinei minha neta de 13 anos a jogá-lo. Assim que ela aprendeu, houve uma competição entre nós dois e, evidentemente, fui o vencedor. Como no mundo inteiro ninguém tem a mesma desenvoltura que eu para jogar “Falalá”, ganhei o jogo e sou, portanto, o campeão mundial de “Falalá”.

Para não passar por um cascateiro mentiroso como certas altas otoridades de Pindorama, aqui vai a cópia do meu certificado, que já está em local nobre na parede da sala e, assim, fico eu inserido agora no contexto americano de campeão de alguma coisa.

Observação importante: já me esqueci como se joga.

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CHEROKEE VENEZUELANO

Durante uma semana perdida no ano de 2008 trabalhei na fábrica da Chrysler na cidade de Valencia, capital do estado de Carabobo, na Venezuela. A área industrial de Valencia é equivalente à região do ABC em São Paulo, e é o centro manufatureiro da G.M., Ford e Chrysler na Venezuela. Valencia fica a 168 km de Caracas. A G.M. encerrou suas operações na Venezuela em 2017, demitindo todos os seus 2.700 funcionários. Não sei como estão as atividades das outras montadoras atualmente

Na ocasião a empresa de consultoria de engenharia industrial para a qual trabalhava foi contratada para propor aprimoramentos no gerenciamento da qualidade e, eventualmente, no layout da linha de montagem das peruas Cherokee. Essa fábrica também fabricava o Neon, e ambos os veículos só eram comercializados na Venezuela e região.

Duas situações imediatamente chamaram a minha atenção.

Primeira: entre a seção de pintura e a linha de montagem das carrocerias havia uma rua interna, ao ar livre, e era comum as carrocerias já pintadas ficarem aguardando nessa rua, expostas à poeira e ao trânsito de pedestres, para entrarem na linha de montagem. Após a montagem havia um “Departamento de Retoque de Pintura” para cuidar dos problemas criados por tal situação. Essa questão, por razões óbvias, não pôde ser resolvida naquela semana – e, ao que me consta, nunca foi, já que acarretava em uma mudança significativa no layout da fábrica, com um considerável custo.

A segunda situação ocorreu ao investigarmos a principal reclamação dos clientes quando recebiam seus veículos novos nas concessionárias: sujeira, manchas e insetos nos bancos.

Essa situação era fácil de ser resolvida. Fácil? Peço a Vossa Mercê que expulse tal pensamento lógico de seu processo mental, já que na Venezuela nada é lógico nem fácil, desde aquela época.

O que se assucedia era que, durante a hora do almoço e dos lanches (manhã e tarde), quando a linha de produção parava, muitos operários, fugindo do calor que fazia dentro da fábrica, iam para dentro de veículos já montados, ligavam o rádio e o ar condicionado e ali mesmo comiam suas próprias refeições caseiras – o restaurante da fábrica oferecia uma opção muito limitada de alimentos, além de mesas, cadeiras e máquinas de refrigerantes. Os talheres tinham que ser trazidos pelos próprios funcionários, pois havia o grande risco de desaparecerem entre o prato e a boca se fossem propriedade da companhia. Não é necessário dizer que havia restos de alimentos e manchas de bebidas nos carros, e em uma boa porcentagem, atraindo baratas e outros insetos.

Limpar a sujeira feita? Foi proposto que os próprios montadores limpassem a sujeira que faziam. E quem falou que a mudança desse comportamento era fácil de implementar? Esqueça. Essa atividade laboral – a limpeza do interior dos carros – não estava no contrato de trabalho, e os operários afirmaram que limpar os carros antes da entrega aos clientes era obrigação das concessionárias, ou… de quem?

O Sindicato pôs a boca no trombone, sendo que fui por ele classificado como um estrangeiro insensível, pequeno burguês, que não conhecia a cultura local e pouco se importava com o bem-estar e os direitos dos operários. A empresa, se quizesse que os carros fossem entregues limpos, deveria contratar mais operários para limpar os veículos. O Governo socialista criou uma comissão para dialogar com o Sindicato. Não sei o que resultou dessas discussões, pois nunca mais voltei a Valencia.

Somente sei que a indústria automotiva da Venezuela produzia, naquela época, 170 mil veículos por ano, e em 2017, com Nicolas Maduro no poder (Hugo Chavez morreu em 5 de março de 2013), produziu apenas 2.768 veículos, uma redução de 98%. Não tenho dados mais recentes. A FCA (Fiat Chrysler Automobiles) produziu em 2017, naquela fábrica de Valencia, 110 veículos no total. O número de trabalhadores da indústria automobilística em Valencia caiu de 11 mil para 2 mil, mas isso é apenas um detalhe secundário do “Socialismo do Século XXI”, segundo a pujante e maravilhosa filosofia politico-econômica do governo venezuelano.

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KUREBA

Tem jeito não. Quando vossuncê aprende um idioma depois que os anos fizeram algum estrago no seu aparelho falante, seu sotaque vai sempre trair sua origem.

Após 25 anos morando aqui, quando cumprimento alguém, basta eu dizer “good morning” para que meu interlocutor, se curioso, me pergunte de onde sou.

Isso já não acontece com minhas duas netas americanas, Isabella e Gabriella, que falam inglês como os da terra, educadas que foram já na língua dos bifes.

Quando me mudei em 2013, por razões profissionais, para as redondezas de Chicago, minha esposa cuidou de buscar uma casa na região. A minha nova empresa cuidou de localizar e pagar uma corretora de imóveis profissional para orientá-la na escolha, já que nada conhecíamos daqueles recantos. No primeiro dia de buscas, pelas 9 horas da manhã, a corretora foi indagada se havia ursos na região (urso, em inglês, é “bear”, que se pronuncia “béar”). Só que saiu “bíer”, que significa “beer”, cerveja. A corretora, imaginando que minha mulher era, digamos assim, uma fã seguidora do atual primeiro mandatário da nação caeté, e que já queria tomar umas lapadas de cerveja logo de manhã, afirmou que sim, mas disse que era um pouco difícil achar bares ou restaurantes abertos naquela hora. A má impressão foi desfeita em seguida.

Já quando se fala de orientais, a coisa fica ainda mais complicada, mas às vezes o linguajar utilizado já nos permite saber algo.

Explico.

Se vosmecê estiver em dúvida se o cabra à sua frente, de olhos puxadinhos, é japonês ou chinês, peça para ele falar “laranja”. O chinês vai falar “lalanja” e o japonês “raranja”. Essa regra não falha nunca.

Meu ex-colega de General Motors em São José dos Campos, Yoshida M., era o Supervisor do Laboratório Metalúrgico, e tinha como seu braço direito um jovem e simpático engenheiro chamado Cleber F. Acontece que Yoshida, nem por obras de pesada mandinga da catimbozeira Severina-Tranca-Rua ou ameaça de Dom Quixote de La Mancha, conseguia pronunciar seu nome corretamente. Apesar de dobrar, virar e afunilar a língua no sentido longitudinal e transversal, só conseguia chamar o Cleber de “Kureba”. Cleber, como todo bom e sacudido carioca, adotou dito nome com bom humor e receptividade, passando a ser conhecido na empresa como “Kureba”, e divertindo-se com isso.

Acontece que um belo dia, em um ano da década de 70, perdido no nevoeiro do tempo, um de nossos colegas, Marcelo I., precisava com urgência de uma informação que Cleber possuia. Ficou sabendo que ele estava em reunião com Yoshida em sua sala, e para lá telefonou. Atendeu o próprio Yoshida, interrompendo a reunião:

– “Arô, Yoshida farando”

– Yoshida, preciso falar com o Kureba, é urgente.

E então Yoshida descascou-lhe a linguagem e a atitude. Ponderou energicamente que não deveria chamar o Cleber pelo apelido, já que ele era um profissional de alto nível, responsável, importantíssimo para a Companhia, e o chamamento usando um apelido era uma ofensa a um engenheiro tão principal. Portanto, que Marcelo se retratasse e usasse um linguajar profissional sério e apropriado, conforme as normas de respeito e cortesia, quando a ele se dirigisse.

Marcelo desculpou-se.

– Yoshida, peço-lhe que aceite minhas desculpas. Por favor, gostaria de falar com o engenheiro Cleber, se me permite.

E Yoshida, oferecendo o escutante aparelho telefônico para o Cleber, proclamou em alto e bom som:

– “Kureba, terefone”!

Bem, pelo menos ele tentou. Mas Cleber continuou sendo Kureba.

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TELEFONE E FAX

Inovações tecnológicas nem sempre são bem aceitas no principio.

Meu querido avô Manuel Julião, um dos fundadores de Laginhas, RN, e que partiu prematuramente deste planeta aos 102 anos de idade em 1976, protagonizou um dos exemplos comportamentais que ilustram o dito em minha afirmação acima. Em seus poucos anos de existência o jovem Manuel Julião nunca pôs os pés em uma escola, sendo que, por outro lado, acreditava piamente em assombrações, benzeduras, mandingas e maus olhados. A palavra dos padres era o único farol em sua conduta espiritual.

(Interrupção para uma observação importante: apesar de analfabeto até o tutano, meu avô sabia fazer uma avaliação imediata de grandes quantidades de povo. Desenvolveu um método estatístico rápido e simples para dizer quantos bodes e cabras havia em um curral, e aplicava esse método na estimativa do público em comícios políticos, sempre com primoroso acerto. Quando a Universidade de São Paulo foi fundada em 1934, vovô Julião foi imediatamente convidado a lecionar Estatística nela, mas recusou o convite por considerar que a cidade de São Paulo era muito provinciana. Entretanto, como gratidão pelo convite, ensinou aos seus luminares as hoje conhecidas “Equações Quântico-Hiperbólicas de Manuel Julião”, que são utilizadas até os dias atuais pelos professores de Estatística da USP no cálculo preciso de multidões em espaços confinados como avenidas, por exemplo).

O telefone foi mostrado ao público pela primeira vez na Primeira Exposição Universal dos Estados Unidos, comemorativa do primeiro centenário da independência, na cidade de Philadelphia, Pennsylvania, em 4 de Julho de 1876 – mas é sabido em toda a região do Seridó que a exposição na verdade foi uma homenagem ao segundo aniversário do vovô.

O Imperador D. Pedro II, que estava presente à exposição, ficou encantado com a inovação e resolveu trazê-la para o Brasil. Assim, em 1877 o telefone chegou às terras botocudas, sendo o Rio de Janeiro a segunda cidade do mundo, depois de Chicago, a ter uma linha telefônica, ligando o Palácio da Quinta da Boa Vista às residências dos ministros do Imperador.

Bem, meu querido avô não era chegado a essas mumunhas tecnológicas. Em um ano cujo RG se perdeu na poeira dos tempos, foi um dia buscar sua filha, a saudosa Tia Zefa, na formosa Caicó, onde estava passando uns dias com parentes. Tia Zefa, como toda jovem (á época), ficou abismada com aquela novidade novidadeira e mostrou-a, toda sacudida, ao pai. De acordo com o relato de fidedignas testemunhas oculares, olhentas e escutentas, vovô Manuel pôs o telefone na orelha, ouviu alguém falando do outro lado e imediatamente despachou dita geringonça a 157 quilômetros por hora contra a parede, transformando-a em sucata. Justificou seu comportamento afirmando que aquilo era fruto do engenho e obra do Satanás, pois tinha roubado um dom divino – a fala – e o colocado em uma coisa amaldiçoada, que nem alma tinha, e que passou a ter um comportamento de gente cristã e batizada na Santa Igreja.

Já os aparelhos de fax estrearam na G.M. em São José dos Campos, SP, onde trabalhei por pouco mais de 8 anos, no segundo semestre de 1979. Pura novidade! Um fax era chamado de “Rapifax”.

No final de Setembro daquele ano um problema com a usinagem de uma família de peças de motores levou um dos engenheiros da empresa a ser despachado para a Alemanha, de modo a resolver o problema. O fabricante da máquina de usinagem providenciou a solução, que envolvia algumas modificações no ferramental usado e no processo produtivo. Como o problema era urgente, o engenheiro enviou a solução proposta pelo fabricante por fax, enviado da Alemanha, para que tais alterações fossem imediatamente feitas.

Acontece que o fax ainda não era bem conhecido no Brasil, e a burocracia da G.M. impediu que tais modificações fossem feitas baseadas apenas naquele troço – seria necessária a elaboração de uma documentação “oficial”, a qual, obviamente, só poderia ser feita pelo engenheiro, com sua assinatura pessoal em tal documentação, autorizando as modificações. Ah, a velha burocracia, onde pessoas que não sabem como fazer coisas dizem como fazê-las aos que sabem!

Dessa maneira, cinco preciosos dias foram passados até que o excelentíssimo senhor engenheiro voltasse de sua viagem, quando então os burocratas de plantão conferiram e certificaram, carimbadamente, que cada folha do fax era mesmo a que constava do documento original. Até lá os problemas continuaram, mas isso não interessava – a pureza do sistema estava preservada.

Conheço uma pessoa que até hoje não viaja de avião porque não vê por onde ele está indo e não acredita na navegação eletrônica dessa coisa avoadora.

Eita ferro!

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DESCULPAS

Às vezes fico pensando no uso indiscriminado da desculpa como justificativa para as nossas aberrações.

Afinal, a desculpa de aleijado é a muleta. Ou, para os mais sacudidos, a desculpa de um sujeito ruim de cama é a posição anatômica do bilau, pensamento este da mais elevada extração, ensinado pelo meu querido amigo Benjamim H. – que, aliás, teve seu avô morto em Treblinka pelos meigos democratas alemães admiradores do bigodinho.

Isso não é de hoje. Em 1973, ano da primeira vez em que estive nos Estados Unidos como funcionário da General Motors, estava de carona em um carro (da G.M., claro) dirigido pelo meu colega André C., já experiente na vida americana. Estávamos na rodovia Interstate 75 (“I-75”), perto de Flint, ao norte de Detroit, sede da G.M.

Não havia GPS naquela época, e uma bobeada de meu amigo André fez com que passássemos da saída que deveríamos pegar para chegar a uma determinada fábrica fornecedora da G.M.

– Sem problema, disse André. Vamos fazer um retorno logo ali adiante e pegar a saída correta. Fica frio, deixa comigo.

A questão é que nas freeways americanas há retornos pelo meio das estradas, mas que somente podem ser usadas por veículos oficiais: Polícia, Bombeiros, Ambulâncias, etc. Esse retorno é claramente proibido aos veículos normais e há placas indicativas de tal manobra.

Na aproximação do próximo retorno entre as pistas, André reduziu a velocidade, olhou atentamente para um lado e outro, viu que não havia ninguém por perto e cruzou pelo retorno proibido. Tentou tirar vantagem da situação, como todo bom brasileiro. Assim que fez seu movimento ilegal deu de cara com um carro da Polícia que já estava do outro lado esperando por algum cliente.

André alegou como desculpa que não conhecia bem o idioma e o código de trânsito americano e, portanto, não sabia que era proibido fazer tal manobra. Bem, nos Estados Unidos não se deve discutir com policiais. Fomos parar na frente de um Juiz para que ele decidisse o que fazer.

A mesma desculpa foi alegada ao Juiz, que a aceitou, mas obrigou André a comprar por 1 dólar o livrinho com o código de trânsito, escrito em inglês e espanhol, deu a ele 48 horas para estudá-lo entendê-lo e também mandou o policial avisar a todos os outros que se nosso colega fosse pego com mais uma infração ele não poderia mais alegar desconhecimento do código.

Há cinco anos atrás, quando me mudei para a Florida, um brasileiro foi flagrado na “I-95”, que passa perto de casa, em excesso de velocidade. Deu como desculpa que pensava que a placa que identificava a freeway era a placa que informava o limite de velocidade. Não convenceu ninguém. Levou uma bela multa e um magote de pontos perdidos na carteira.

Há alguns poucos dias atrás um brasileiro de 28 anos foi pego pela Polícia na região de Boston dirigindo bêbado e em excesso de velocidade. Não tinha carteira de motorista (só a brasileira, e mesmo assim vencida), não parou com a sinalização da Polícia, e só foi barrado quando quatro viaturas o cercaram. Deu como desculpa que não falava inglês e estava indo a uma farmácia. Segundo o noticiário, precisou de um tradutor de idiomas, providenciado por um dos policiais. A desculpa não colou. Foi algemado, preso, será julgado e seguramente extraditado depois de cumprir uma pena de, pelo menos, dois anos, e ter pago uma multa bem arretada.

No dia 15 de fevereiro, escutei o ilustríssimo, digníssimo, sapientíssimo, excelentíssimo, brilhantíssimo e cafajestíssimo senhor ministro da Justiça e Segurança Pública brasileiro, Ricardo Lewandowsky, dizer como desculpa, que a fuga de dois bandidos da prisão de segurança máxima de Mossoró era devida, simplesmente – ao Carnaval. E, para piorar, insinuou que o arquiteto que projetou a cadeia era um incompetente por não tê-la feito corretamente… imagino que à prova de fugas. Isso sem falar que uma parede de alvenaria estrutural possa ser violada com um alicate e sem fazer nenhum ruido.

Eu, pobre brasileiro bestalhão que escreve estas mal traçadas linhas, não sabia que até presos de uma cadeia de segurança máxima tinham direito à saidinha de carnaval ou que os funcionários cadeiosos poderiam se relaxar durante o trabalho em dias festivos. Isso sem falar no fato de que a cadeia de Mossoró tem uma lotação abaixo de sua capacidade e tem quase três agentes penitenciários para cada preso.

Apesar de que tenho um Q.I. de ostra quando comparado ao do ilustre ministro, ainda vou dormir com a sensação de que meu amigo Benjamim é quem tem razão. O polaco é mais um dos incompetentes na cama.

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A FACADA E O DELEGADO

Até hoje sei de gente – e algumas dessas gentes – que coloca em dúvida se a facada que o Adélio Bispo desferiu em Bolsonaro foi real ou apenas uma armação para que ele tivesse mais votos e assim vencesse a eleição daquele ano. Não vou entrar no mérito nem nos motivos que levaram àquele acontecimento, nem razões pelas quais tal ato foi motivado.

Mas uma coisa tenho certeza: uma facada que mandou para o mundo das almas um sujeito chamado Dantas, se não me falha o bestunto, foi realmente desferida na véspera do Natal do ano de 1973. Nenhum advogado, partido político ou facção criminosa foram envolvidos.

Explico.

A casa vizinha da dos meus pais, na Rua Professor Coutinho (à época tinha outro nome), era o santo lar de um casal exemplar – quero dizer, nem tanto. O homem, conforme o depoimento de meus pais, era um verdadeiro Eros, o Deus do amor da mitologia grega. Chamá-lo-emos (eita saudade do Temer) de Raimundo, à falta de seu nome verdadeiro. Traçava todo mundo que usasse saia e não fosse padre. E nessa sacudida atividade calhou que caiu em seus braços uma jovem esposa de um cabra mais sacudido ainda, que não aceitou carregar no largo frontispício aquele tradicional enfeite de bode. Tampouco queria saber de advogados, divórcio ou litígios judiciais de qualquer natureza. Resolveu que justiça de verdade era feita com as próprias mãos, sem audiência de custódia, saidinha de Natal, ressocialização, direitos dos manos e outras idiotices tão em voga hoje em dia.

Na mesma noite em que soube ser portador de uma exuberante galhada, agarrou sua peixeira de sangrar porco e apareceu inopinadamente na casa do deus grego, presenteando-o com uma dúzia de facadas bem administradas. Nem houve tempo de se negociar algum acordo com São Pedro para postergar seu comparecimento ao julgamento do Senhor.

Chegou o Delegado e ficou a par do ocorrido. Alguém descreveu toda a história.

O próprio Delegado deu a sentença:

– Esse cabra Raimundo agiu como um macho de verdade. O caso está encerrado. Enterrem esse vagabundo do Dantas logo de manhãzinha prá que a catinga não se espalhe pela redondeza.

E assim a Justiça foi servida!

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VELHICE

Ah, a velhice! Segundo alguns desavisados, a velhice é a “Idade do Ouro”, e o sentimento dela existe apenas em nossa cabeça – o espírito é o que importa. Influenciado por essa ideia, eu, por exemplo, à medida que os anos vão passando, me sinto cada vez mais jovem – e cada dia mais mentiroso.

Sábio entendedor das coisas velhicentas era meu amigo Azzalini, colega de trabalho nos idos de 1990. Quando completou 60 anos, um belo churrasco foi oferecido aos parentes e amigos para celebrar a data. Eu, na faixa dos quarenta, perguntei a ele como se sentia ficando velho. Após alguns minutos dedicados a extrair com um palito a carniça dos dentes, e também induzido pela lerdeza que segue o mastigamento e a engolição de uma bela picanha, juntamente com a bebeção de umas boas lapadas de cerveja, respondeu-me com uma citação até hoje relembrada:

– Velhice depende somente do espírito. Há algo de bom quando você fica velho. Por exemplo, há pelo menos três coisas valiosas que aumentam conforme a idade avança: primeira, você teve a oportunidade de aprender e a praticar muitas lições que a vida ensinou; segunda, você não fica recebendo mais nenhum telefonema de um cabra chato que fica lhe aporrinhando tentando vender um seguro de vida; e terceira, você se lixa para a opinião dos outros.

E, para ilustrar bem a primeira vantagem, que demandava maior esclarecimento, contou-me a história do galo velho e do franguinho novo.

Consta que um galo “cinquentão”, único macho no galinheiro, já não dava toda a assistência necessária às quarenta galinhas de seu harém. O dono do pedaço resolveu então comprar um galo novo para tão prazerosa, mas extenuante, tarefa. Eis que senão quando um belo dia um frangote de seus “vinte anos”, se viu jogado no galinheiro. Assim que notou que estava rodeado de tantas e tão apetitosas fêmeas, com um único galo velho como concorrente, estufou o peito, ouriçou as penas e ia partir para o avanço sobre a galinhada, quando foi interrompido pelo galo velho:

– Veja, meu jovem, quero dar-lhe um conselho do alto de minha experiência.

– Ande logo com seu conselho, tiozão, que tenho muito trabalho prá fazer.

– Quero fazer uma proposta para ajudá-lo. Sua chegada é providencial. Já estou velho mesmo, na hora de me aposentar de toda essa trabalheira galinhística, e você é muito bem-vindo. Mas quero que você entre no galinheiro como um herói admirado, e não apenas como um galo qualquer. Porque então não apostamos uma corrida em volta da casa – que, claro, você vencerá – e assim você já entra como um campeão? Garanto que as galinhas vão ficar muito mais sacudidas!

– Você deve estar com alguma treta.

– Nada disso. Aliás, para garantir sua vitória, você inicia a corrida uns dez metros na minha frente. É claro que se você não ganhar, isso vai dar um recado à galinhada que você é um fracote que não serve para honrar seu esporão de galo (mexeu com os brios do frangote).

E assim, ajustados, prepararam-se para a corrida. O jovem galinho se posicionou uns dez metros na frente, cuidando para que o cinquentão cumprisse sua palavra de ficar atrás. O cachorro ficou como o juiz da disputa. As galinhas se juntaram todas para testemunhar a corrida. A cabra iria torcer pelo galo novo e o bode pelo galo velho.

Foi dada a partida.

Claro, o galinho novo saiu disparado na frente, com o galo velho correndo atrás dele.

Quando passaram pelos fundos da casa ouviu-se um tiro vindo da cozinha. Foi só pena do frangote que voou. O jovem galo se encantou na hora, direto para o mundo espiritual galinhoso, sem sequer receber a extrema-unção do perú. Atrás da fumaça da espingarda o dono da casa comentou com a esposa:

– Vamos ficar com o galo velho mesmo. Esse aí já é o quarto galo pederasta que compramos nesta semana. Hoje em dia parece que os galos novos resolveram sair do armário. Esses baitolas frescos só servem mesmo para a panela.

Mesmo compreendendo os argumentos de meu amigo Azzalini, eu acho que a velhice é uma merda.

MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

DEMONSTRAÇÃO DE JUDÔ

Em um ano da década de 1970 que passa longe de minha memória, meu grande amigo e colega da General Motors em São José dos Campos, Marcelo I., apelidado de “Pixoxó”, resolveu ter aulas de judô. Era baixinho, barrigudinho, nervosinho e tinha uma voz bem esganiçada. Aliás, não tenho nenhuma idéia do que venha a ser um “pixoxó”, mas se você olhasse para sua figura veria que ele se parecia, indubitavelmente, com um “pixoxó”.

Em um determinado dia, todo sacudido, convidou-me a também ter aulas de judô, já que haveria um desconto no preço se os dois participassem. E, assim, lá fui eu acompanhando o Pixoxó para, antes de fechar o negócio, ver uma demonstração das potencialidades de tão badalada arte marcial.

Para demonstrar o poder da técnica de judô, o instrutor, um japa enorme que devia pesar mais de três quartos de flaviodino, colocou uma faca de plástico na mão do Pixoxó e pediu que ele simulasse que iria esfaqueá-lo.

Pixoxó avançou para dar uma de Adélio Bispo quando o instrutor, em um movimento rápido e que desafiava todas as leis da mecânica quântica e da relatividade, catou o Pixoxó pelo sovaco, deu-lhe um catiripapo no braço, um bonifácio na perna, e o derrubou em cima do tatame, de barriga para cima. Complementando o golpe, travou o braço cuja mão segurava a faca e em uma fração de segundo sentou-se em cima da barriga do Pixoxó, deixando-o mais indefeso do que aquela velhinha cadeirante presa no 8 de Janeiro.

O resultado de tal brusco movimento foi uma nano explosão atômica, plagiando a eminente cientista Marina Silva, reconhecida em todo o mundo como uma autoridade inquestionável sobre o meio ambiente. A expulsão dos gases emitidos pelo Pixoxó foram tão violentos, ruidosos e danosos ao meio ambiente que, naquele ano, houve um acréscimo considerável do desmatamento da floresta amazônica e na frequência de queimadas no Pantanal matogrossense. Aproximadamente dois bilhões e meio de nojentéculas fedorentas inundaram o ambiente da academia de judô, emitindo uma catinga treze vezes maior que a emanada pelos ocupantes da Praça dos Três Poderes em Brasília.

Na esteira da violenta emissão gasosa veio o acompanhamento de parte da matéria prima que produzia tais gases. Desastre completo. Até parecia que estávamos presenciando as falas e comentários políticos dos jornalistas da Globo nos dias de hoje.

Meu amigo Pixoxó largou tudo, correu ao banheiro, arranjou-se como pode e deu por encerrada a demonstração das potencialidades de tão formidável arte marcial.

Fiquei imaginando que o judô vencia os adversários não só pelos rápidos e precisos movimentos mecânicos dos braços e pernas, mas também por ser uma arma de defesa químico-biológica-olfativa.

Desistimos ambos do judô. Resolvi ficar quieto no meu canto, mas meu amigo preferiu tomar aulas de Jiu-Jitsu, que ele considerou menos agressivo, para aprimorar seus conhecimentos de auto-defesa.

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DIA DO PENDURA (OU DA PINDURA)

No dia 11 do mês de agosto, é comemorado no Brasil o Dia do Advogado. A escolha dessa data remete ao dia em que foram instituídas, no ano de 1827, as duas primeiras faculdades de Direito do Brasil, a saber: a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco – que foi transferida para a cidade de Recife em 1854.

A grande celebração estudantil daquela data, pelo menos em São Paulo, é o “Dia da Pindura” – que deveria ser chamado de “Dia do Pendura” – , quando os estudantes de Direito vão comer em algum restaurante e mandam “pendurar” a conta, que será paga assim que o Brasil virar uma democracia.

Tal safadeza, iniciada na década de 1930 pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, foi logo copiado por safardanas de diversas outras faculdades, tornando-se uma praga para os restaurantes. Alguns não atendem jovens nesse dia, ou somente lhes servem macarrão barato e refrescos. Alguns donos de restaurante chamavam a Polícia quando não recebiam o pagamento pela refeição, mas assim que os jovens chegavam à Delegacia o Delegado fazia o B.O. e os soltava em seguida – afinal, os Delegados também já tinham sido estudantes de Direito um dia e eram simpáticos à nobre e sacudida causa.

Na Escola Politécnica da USP uma variante dessa tradição, menos danosa aos usos e costumes da sociedade, era posta em prática: havia a “Semana do Politécnico”, comemorada na Semana da Pátria – a Escola foi oficialmente fundada em 24 de Agosto de 1893, e implementada em 1º. de Setembro, como resultado da consolidação da Lei Estadual nº 191. Tal semana, também chamada de “Semana do Saco Cheio”, é uma temporada de descanso para os professores e estudantes, e era aproveitada pelo Grêmio Politécnico para solicitar aos restaurantes, cinemas, teatros, parques de diversão, etc., comidas, bebidas, ou entradas gratuitas para os estudantes. Na verdade, era uma semana inteira de “pindura”.

Acontece que um desses brindes atendidos foi uma entrada gratuita para o Cine Eldorado, perto da Praça da República, seguramente o cinema mais sofisticado e caro de São Paulo na década de 1960.

O ingresso constou de um ingresso normal com um carimbo do Cine Eldorado no verso, com os dizeres: “Válido para quatro pessoas” e a assinatura de um dos donos.

O único problema era que nós éramos em cinco, todos duros, que não tinham dinheiro para comprar um ingresso normal para o Cine Eldorado para assistir “A Noviça Rebelde”, o sucesso daquele ano de 1965.

Nisso meu colega Kazunobu Wagatsuma, queridamente conhecido como Kazuo, um japa afeito às safadezas da vida, mais mentiroso que aquele descondenado, mas com uma impecável cara de japonês sério, sossegou nossos espíritos:

– Deixem comigo. Vamos entrar todos os cinco.

E foi isso que se assucedeu.

Nós, os outros quatro, entramos junto com o Kazuo, que mostrou o ingresso com o carimbo “Válido para quatro pessoas”, e afirmou ao moço que recolhia os ingressos:

– São esses quatro aí!

O porteiro viu os quatro, murmurou “Sim, senhor, tudo bem!”, mas a pulga da dúvida mordeu sua orelha.

Enquanto coçava a cabeça para entender o que estava acontecendo, todos nós já estávamos perdidos no meio das confortáveis poltronas do cine Eldorado.

E, diga-se de passagem, a Julie Andrews estava divina, como certamente confirmaria meu bom compadre Ciço Tavares, proprietário de um cabedal prenhe de conhecimentos cinematográficos.

MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

QUEM SOU EU?

Posso perguntar a vossuncê, que lê minhas patacoadas, se já passou por momentos psicológicos existenciais sobre sua própria personalidade? Como, por exemplo, “quem sou?”, “o que quero da vida?”, “qual o caminho que devo seguir para ser feliz”?, e outras questões hiperbólicas cujas respostas parabólicas nunca são totalmente convincentes ou não servem para nada?

Pois eu já.

Explico.

Em 1965, cursando o terceiro ano de Engenharia, dividia com dois outros colegas o apartamento E-611 no CRUSP – Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.

Uma de minhas mais agradáveis companhias, nas horas vagas do final de tarde, era uma japinha estudante de Geografia, Toshiko H., conhecida por “Chiquinha”. Como até hoje as coisas de geografia me chamam a atenção, e as coisas matemáticas atraiam a atenção da Chiquinha, essas características faziam com que tivéssemos mútuo interesse em nossas conversas – e, porque não negar, Chiquinha era uma menina muito simpática e atraente. Mas, além disso, nada especialmente sacudido acontecia em nossos papos vespertinos.

Em um domingo de manhã no começo do mês de Abril, totalmente esbodegado da sobrecarga de estudo e trabalhos escolares, estava eu largado sobre a cama, recuperando energia para ver se conseguia levantar-me e encarar mais um dia, quando um rangido da porta avisou que alguém estava entrando, já que sabidamente meu cérebro havia sinalizado que meus dois colegas estavam fora.

Bem, pensei, deve ser um dois colegas entrando.

Silêncio. Aliás, silêncio incomodante, porque, mesmo deitado de bruços, já sentia a presença de alguém observante que me observava observadamente.

Devagarinho virei-me, abri os olhos e deparei-me com dois japas: um, normal, era parecido com a Chiquinha, o que me fez suspeitar que era seu irmão. E era.

O outro, cabelo tipo rabinho de cavalo, com uma cara de membro da Yakuza (ou Gokudō, como também é conhecida), a máfia japonesa. Enorme, parecia que havia recém conquistado a medalha de ouro de sumô na Olimpíada de Mundurucú.

O primeiro adiantou-se e me perguntou:

– Você, por acaso, é o Magnovaldo?

Tal qual uma zebra acossada por dois leões e ante a severidade com que me foi formulada a questão, respondi:

– Não sei ainda! Tanto posso ser como também posso não ser!

– É sim, não venha com esse papo. Quero deixar claro que nossa família nunca vai aprovar nenhum eventual namoro entre você, um “Gaijin”, e minha irmã Toshiko. E, se insistir, vai levar uns catiripapos do nosso primo aqui – e apontou para o brutamontes lutador de sumô que ocupava ameaçadoramente o meu horizonte visual.

O grandalhão não disse nada. Franziu a testa, deu uma inclinada na minha direção com os braços cruzados, estufou a barriga, em seguida sugou tal quantidade de ar que não sobrou oxigênio no quarto, e afastou-se, junto com seu primo, andando de costas até a porta sem deixar de me encarar, por onde desapareceu.

Interessante é que, a partir daquele dia, Chiquinha não mais me dirigiu nenhuma palavra. Quando me via, desviava o olhar, baixava a cabeça e seguia seu caminho sem olhar para mim.

Nada como um E.A.V.C. – “Entusiasmante Acochambrativo Via Colateral” para reorganizar a auto-estima e as amizades.