MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

VOO DE GALINHA

Por razões profissionais fui até o Rio de Janeiro em um belo dia nos idos de 1980 (aliás, é sempre bom lembrar que, por razões de passeio o máximo que me acontecia naquela época era ir de ônibus até Osasco). A curta viagem foi feita em um dos históricos Electra II da Ponte Aérea Rio-São Paulo.

Duas horas depois que desci no Aeroporto Santos Dumont uma chuva desabou com vontade. Como pontuado pelo magistral e sacudido escritor Luiz Berto, cada gota d’água era do tamanho de um bago de jaca.

Voltei ao aeroporto pelas 3 da tarde, após cumprir minhas obrigações, e meu voo de volta teve que esperar uns 20 minutos para a chuva diminuir de intensidade. Embarcamos, então.

O bravo Electra II foi para a cabeceira da pista, na direção da ponte Rio-Niterói, roncou os motores a toda, deu umas boas balançadas com o vento, e então reduziu os motores para a marcha lenta e voltou para o ponto de partida. Vixe, o que aconteceu?

O comandante avisou que havia muita água no solo e o avião precisava aliviar peso para conseguir decolar em uma pista tão curta. Como nos voos da ponte aérea pouquíssimos passageiros levavam bagagem, o jeito era tirar combustível ou passageiros. Um gordo do lado franziu a testa, preocupado.

Um caminhão tanque encostou no avião e passou a retirar o precioso líquido. Parece que não terminava nunca de esvaziar o tanque! Todos começaram a se preocupar, já que, como é sabido até pela Carmen Lúcia, aviões não voam sem combustível.

Bem, fomos para a decolagem de novo!

O avião tremeu com os seus motores a plena potência, engatou uma quinta, cantou os pneus e lá se foi. Pelos meus cálculos ele só conseguiu se levantar do chão nas últimas dezoito polegadas da pista. E, para piorar a situação, não subiu quase nada. Passou raspando o capô dos carros na ponte Rio-Niterói. Suspeito até que tenha quebrado a antena do rádio de uma Kombi que levava uma velhinha para visitar a neta em Niterói, além de quase provocar um infarto no motorista de um caminhão de lixo que passava pela ponte. Foi aterrissar no Aeroporto do Galeão, cinco minutos depois e alguns quilômetros à frente. Um autêntico vôo de galinha.

“¿Que pasó, Señor Sancho Panza?”

O comandante informou que o combustível nos tanques do avião só dava pra chegar até o Galeão, e ali então colocariam o que era necessário para chegar a São Paulo, sendo que a pista mais longa permitiria decolar com o peso completo. O gordo do lado voltou à cor normal e respirou aliviado.

Pois eu digo a vossuncê que o velho Electra II roncou e tremeu o mais que podia, tremeção essa sincronizada com a dos passageiros, liquefazendo o conteúdo intestinal de alguns, e demorou tanto para subir que dava a impressão que iria pela Via Dutra até São Paulo.

Poucas vezes se viu um voo com os passageiros tão calados!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

FERNDALE

Em uma semana do ano de 2001 que se perdeu nos caminhos do tempo, estava eu trabalhando em uma pequenina cidade no norte da California chamada Scotia, uma comunidade que pertencia à companhia Pacific Lumber, madeireira que atuava na área e era proprietária de grandes extensões de florestas. Atualmente aquela empresa encontra-se com as atividades paradas devido a processos legais resultantes da atuação de grupos conservacionistas, depois que descobriram uma lagartixa do gênero LGBTPQPVX++ e uma mariposa cor de rosa morando naquela região da floresta.

Quando terminei meu projeto pouco antes da uma da tarde da sexta-feira fui tomar meu avião no aeroporto de Eureka-Acarta, que serve a região, apesar de não ficar nem em Eureka nem em Acarta e nem no meio dessas duas cidades. O trajeto até o aeroporto me tomaria cerca de 30 minutos.

Meu avião só sairia às 5:30 da tarde, o que me concedia umas quatro horas para ficar monitorando o crescimento da unha do meu dedão do pé direito.

Por sugestão do pessoal da Pacific Lumber resolvi visitar Ferndale, no meio do caminho e encostada no litoral, cidadezinha histórica, com uma arquitetura vitoriana. Ferndale não tinha mais que 1.500 habitantes, uma grande parcela dos quais era de pescadores e aposentados – creio que alguns ainda remanescentes da época da fundação da cidade em 1852. A culinária local, como não podia deixar de ser, era baseada em peixes e frutos do mar, minha preferência gastronômica depois da carne de sol de Caicó. Nada melhor para fechar a semana com chave de ouro como uma lapada dessas maravilhas na barriga.

O pequeno restaurante, com cerca de 6 mesas, estava praticamente vazio, já que os velhotes locais certamente haviam almoçado às 11 horas e, a essa altura do horário, deveriam estar roncando em suas camas e babando nos travesseiros.

Atendeu-me uma senhorinha portuguesa típica: redondinha, baixinha, pernas peludas e um projeto mal acabado de bigode – parecia um bujãozinho de gás. Atendeu-me em inglês. Muito simpática e sorridente, mostrou-me o cardápio e, ao vê-lo, meus olhos brilharam: o primeiro prato da lista era o famoso “bacalhau a Gomes de Sá”. Era esse mesmo que eu queria.

Nossa amável portuguesinha dirigiu-se ao cozinheiro em voz alta, agora em português, e o seguinte diálogo foi ouvido por este escrivinhador que fuxica com vossuncê:

– Manuel, o freguês aí quer um bacalhau à Gomes de Sá.

– Diabos, esse prato é demorado e daqui a pouco já quero ir embora. Tente empurrar-lhe uma pescada branca que já está praticamente pronta, disse o cozinheiro.

E lá veio meu bujãozinho de gás, voltando a falar em inglês comigo.

– Senhor, temos uma especialidade da casa para hoje: uma pescada branca deliciosa, que até tem o preço menor que o do bacalhau.

E aí, agora, falando em português, deixei claro minha opção:

– Senhora, entendo que o Sr. Manuel deseja ir logo para casa, mas eu quero mesmo é meu bacalhau.

A tiazinha engoliu em seco e arregalou os olhos:

– O senhor fala português?

A partir daí foi só alegria. Quando souberam que eu era brasileiro vieram o cozinheiro, a dona do restaurante (que era a esposa do cozinheiro) e mais um rapaz. Todos tinham parentes no Brasil e me encheram de perguntas. O almoço foi uma festa. Presentearam-me com um copo de vinho português e, como sobremesa, um “pastel de nata”.

Até hoje aquele almoço e a simpatia dos portugueses me povoam a lembrança.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

GUIMBA

Em meados da década de 1950 eu estudava em regime interno na Escola Agrícola Gustavo Dutra em São Vicente, perto de Cuiabá. As instalações da Escola, então pertencente ao Ministério da Agricultura, eram cercadas por uma vila onde estavam as casas dos funcionários e professores, além de alguns agregados: os donos de duas pequenas bodegas, sitiantes, etc. Em volta, só mata, lar de onças, pacas, quatis, tatus e veados, todos estes últimos pertencentes somente à família “Cervidae”.

Um dos professores tinha em sua casa uma penca de cachorros, que o ajudavam em suas caçadas pelas redondezas. Um dos cachorrinhos, um simpático vira-lata chamado Guimba, foi adotado como mascote pelos alunos: nasceu com um pequeno defeito em uma patinha da frente, o que o impedia de levar uma vida canina normal, pois mancava e assim não conseguia acompanhar a matilha nas caçadas promovidas pelo professor. Além disso, era bem menor que seus irmãos e primos.

Apesar do seu pequeno tamanho e deficiência, Guimba era metido a valente. Encarava cachorros maiores na disputa pelas cadelas no cio, apesar de nunca ter tido sucesso em suas investidas.

Um belo dia uma onça matou uma leitoa pertencente a um dos moradores da vila. Quando uma onça ataca um animal doméstico é porque, estando velha, não consegue mais caçar animais na natureza. Tendo sucesso na captura de um animal doméstico vai repetir o comportamento. Tem, portanto, de ser eliminada, pois aprende que é bem mais fácil garantir sua comida dessa maneira. Três dias depois, em um final de semana, atacou e matou uma novilha.

Vários homens, liderados pelo professor-caçador e acompanhados por um magote de alunos, seguiram o rastro de sangue deixado pela onça e, com a ajuda dos cachorros, localizaram o animal e o cercou contra um barranco, quando já estava devorando a novilha. Foram disparados vários tiros. A onça, mortalmente ferida, ainda conseguia manter afastados os cachorros que a cercavam, desfechando a esmo patadas ameaçadoras aos que se aproximavam.

Ah, e o Guimba?

Manquitolando, mas correndo o mais que podia, eis que aparece repentinamente o Super-Guimba, até então ignorante sobre o que estava acontecendo. Pequeno que era, enfiou-se pelo meio das pernas das pessoas e dos cachorros. Assim que as ultrapassou viu-se cara a cara com a onça. Foi aí que se deu conta de que o gatinho era muito maior e mais feroz do que certamente imaginara. Guimba aplicou o freio ABS com todas as forças nas quatro patas, uma freada digna de um Boeing da Gol aterrissando no aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, mas ainda parou ao alcance da onça. Uma das patadas dela raspou sua costela. Guimba não gastou mais que meio segundo em mudar o rumo em 180 graus, engatou uma quinta e, cantando os pneus, disparou de volta à casa.

Pois eu garanto a vossuncê que, mesmo com suas patinhas desbalanceadas, Guimba quebrou o recorde sul-americano de velocidade canina, até hoje não batido, conforme atesta o “Esporte Espetacular” da Rede Globo.

Quando o professor chegou de volta o Guimba estava encolhido embaixo da cama, tremendo como vara verde. Desde então parou de enfrentar os outros cachorros e perseguir as cadelas no cio. Não existia na Escola nenhum psicólogo disponível para atender aos humanos ou aos canídeos, e assim Guimba ficou sem assistência profissional para superar seu trauma.

Quando saí da Escola em 1959 o Guimba ainda era casto, e deve ter deixado este mundo sem ter conhecido os doces embalos amorosos de nenhuma cadelinha.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

DEMISSÃO NA FERRAMENTARIA

A vida e a responsabilidade profissional nem sempre têm seu lado bonito ou divertido. Nossas decisões sempre são baseadas no que imaginamos ser a realidade dos fatos. Mas, na verdade, nunca sabemos o que se passa no coração das pessoas.

Em plena crise econômica da década de 1980, coroada com o tremendo erro que foi o Plano Cruzado do governo José Sarney, a economia brasileira entrou em colapso.

A empresa para a qual eu trabalhava em São Paulo resolveu demitir 10% de sua força de trabalho. Não havia outra opção. Entre as áreas sob responsabilidade direta de meu colega J. L. estava a Ferramentaria, com uma equipe de 10 excelentes profissionais. Já tinha havido um corte de pessoal anteriormente, e os 10 homens que ainda estavam trabalhando eram os melhores que restaram.

Bem, ordens são ordens, e meu amigo teve que demitir um deles – os 10% requeridos –, mas… quem?

Pediu minha opinião, já que eu era bem mais experiente que ele, para estabelecer um critério. Olhando a ficha de cada um, percebi que nove eram casados e um era solteiro e, portanto, foi este o escolhido para sair, já que, pelo menos, não tinha uma família para sustentar.

Pedro era seu nome. Um rapaz bem apessoado, mineiro, simpático, com seus 26 anos de idade, muito educado, trabalhador exemplar e tão competente como seus outros nove colegas. Era o mais jovem dos dez. Nada havia que desabonasse a sua reputação pessoal ou profissional.

Pedro foi chamado à sala de reuniões e o avisamos de sua dispensa. Foram explicadas as razões e também lhe foi entregue uma carta de recomendação com excelentes elogios ao seu desempenho profissional, o que certamente lhe ajudaria a encontrar uma boa colocação em futuro próximo.

Evidentemente ficou triste com a demissão, mas reconheceu a justeza do critério e deixou claro que não levaria nenhuma mágoa do tempo em que trabalhou na empresa. Entretanto, Pedro fez uma pergunta que nos deixou embaraçados:

– Vocês sabem porque sou solteiro?

– Não, mas seguramente essa foi uma opção pessoal exclusiva sua.

– Não é bem assim. Em verdade, não foram nem são poucas as moças que me desejam como marido. Não sou mulherengo, sou honesto e trabalhador, não bebo, não fumo, nunca usei drogas, não jogo, tenho um bom físico, uma boa saúde e uma excelente reputação como ser humano. Mas há algo que talvez vocês não saibam: meu pai é um alcoólatra, tem um comportamento deplorável, não gosta de trabalhar, e também ninguém lhe dá emprego devido ao seu mau caráter. Vivia pelas ruas e quando chegava bêbado em casa muitas vezes batia na minha mãe. Já foi preso duas vezes por violência doméstica. Minha mãe era costureira e com seu trabalho sustentou e conseguiu dar educação aos dois filhos, minha irmã e eu. Há pouco mais de um ano, em uma noite que voltou muito bêbado da rua, deu tanta pancada em minha mãe que ela teve alguns de seus dedos quebrados e com isso não pode mais costurar. Esse foi o motivo da sua segunda prisão, e está na cadeia até hoje. Minha irmã conseguiu terminar o curso técnico de desenho industrial e foi trabalhar numa construtora na região do ABC paulista. Um dia estava dentro do elevador de carga de um prédio em construção e o cabo do elevador se quebrou com o peso excessivo, despencando do sexto andar do prédio. Caiu junto com a carga e hoje vive em uma cadeira de rodas. Não me casei porque nunca restou tempo nem dinheiro para mim. Sou o único sustento delas. Sou mais casado que alguns de meus colegas. Entendo o critério de vocês e respeito sinceramente a decisão de me escolherem para a degola. Agradeço muito a carta de apresentação. Que Deus os abençoe.

Saiu da sala com a cabeça baixa e os olhos marejados.

Nunca mais tive notícias de Pedro.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

VISITANDO O PENICÃO

Se mal lhe pergunte bem perguntado a vossuncê que presta atenção em meus fuxicos esculhambosos, já se sentiu acima do seu chefe no serviço? E acima do chefe do chefe? Pois bem, isso às vezes acontece, nem que seja por um instante.

Explico:

Nos idos de 1970 trabalhei como Engenheiro Sênior na General Motors em São José dos Campos, SP.

Uma de minhas atribuições era a parte hidráulica da nova estação de tratamento de esgoto da fábrica, carinhosamente conhecida como “Penicão”, que trataria os efluentes da fábrica antes de lançá-los no Rio Paraíba, o qual passava ao fundo do terreno da empresa.

Ora, a administração da GM era muito influenciada por uma penca de burocratas da Seção de Procedimentos e Métodos, uma leve amostra do que seria o Brasil de hoje, país onde políticos vagabundos que não trabalham nos dizem como devemos trabalhar.

Toda o terreno da fábrica era cercado, e as normas diziam que qualquer abertura nas cercas deveria ter um portão, uma guarita e um guarda para controlar quem entrava e quem saía. Até aí tudo bem. Como a estação de tratamento ficava fora do perímetro até então cercado, lá foi feita uma abertura e foram colocados, como manda o figurino, um portão e uma guarita habitada por um guarda para anotar o número do crachá e o nome de todo mundo que por ali passasse.

Como essa travessia era feita várias vezes ao dia pelo pessoal da obra, entre os quais este escrivinhador que fala a vosmecê, as anotações do guarda representavam pura perda de tempo, uma atividade totalmente sem propósito, uma vez que os relatórios de entrada e saída das pessoas eram jogados fora no dia seguinte, por absoluta falta de utilidade.

Veio então uma ideia prática do grupo: porque não fazer uma lista oficial das pessoas autorizadas a cruzar a “fronteira”, sendo que elas simplesmente mostrariam o crachá e pronto? Bingo!

Assim foi feito. A pedido nosso o Sr. J. M., o pirocão maior, fez um memorando ao sr. C. M., chefe da Segurança, com a lista dessas pessoas.

Estavam, pois, fixados na guarita, o memorando do Sr. J. M. e, separadamente, a lista dos funcionários autorizados a atravessar a fronteira sem “carimbar o passaporte”.

Tudo estava funcionando muito bem até o dia que o próprio Sr. J. M. resolveu visitar a obra do Penicão para verificar o seu andamento. E lá chegou nosso chefe maior em frente à guarita. Claro, como manda-chuva que era, não costumava andar com o crachá espetado na camisa e nem dar satisfações à ignara plebe, muito menos ao guarda que o impediu de passar sem o controle burocrático porque seu próprio nome não constava da lista e também crachá não tinha.

O diálogo que se seguiu mostra bem a situação:

Guarda: “Qual o seu nome?”

J. M.: “J. M., senhor. Sou o Superintendente Geral.”

Guarda: “Seu nome não está na lista, portanto o senhor não pode passar sem mostrar o crachá, ter seu nome anotado aqui neste relatório ou ser acompanhado por um funcionário autorizado.”

J. M.: “Claro que meu nome não está na lista, já que sou eu quem assinou o memorando que definiu a lista. Se eu tenho poder para dar a autorização é claro que tenho o poder de entrar na hora que eu quiser.”

Guarda: “Não quero saber se o senhor tem ou não tem poder de autorizar, mas o memorando diz que somente as pessoas da lista podem entrar e o seu nome não está nela. Portanto, não posso permitir a sua passagem, a menos que algum dos integrantes da lista o considere seu convidado e o acompanhe.”

E não adiantou querer dar uma de Lewandovski. Êita gosto gostoso da moléstia! Essa foi a única ocasião na minha carreira profissional em que dei autorização para o chefe do chefe fazer algo.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

DIAS DE CÃO

Em um dia 27, sexta-feira de manhã de um mês de 31 dias num ano da década de 1970 que já se perdeu no passado, minha secretária na G.M. em São José dos Campos recebeu uma ligação do gerente do Bamerindus, querendo falar comigo com urgência. O Bamerindus era o Banco pelo qual recebíamos nossos salários, bem como as devoluções do Imposto de Renda – vosmecê se lembra-se do Fundo 157? – e pagávamos as nossas contas de luz e água.

Claro, para um cabra que estava iniciando sua família, com filhos ainda miudos, contando cada centavo gasto, a vida não estava nada fácil. A inflação da época também comia solta qualquer sobra de dinheiro. Eu estava pulando o portão da cerca para economizar a dobradiça da cancela.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que algum cheque voador pré-datado havia escorregado pela cidade, algo que já tinha precedente. Gerentes de banco só ligam para Clientes quando precisam cobrir o rombo na conta. As tripas deram um nó arretado, uma vez que ainda era sexta-feira e o salário só cairia na próxima segunda-feira no final do dia para poder ser sacado na terça. Fiz de conta que estava pelo meio da fábrica, inalcançável.

Juntei meus talões de cheque e conferi todos os números pelo menos três vezes. Tudo indicava que meu saldo era realmente de 6 Cruzeiros, o dinheiro de plantão no Brasil daquele tempo, algo que dava para comprar algo como seis pães na padaria.

Às 2 da tarde o gerente ligou de novo. Precisava falar comigo urgentemente.

Escondi-me entre as máquinas da fábrica e instruí minha secretária a dizer que estava em uma reunião muitíssimo importante – ou qualquer outra desculpa que todas as secretárias comumente dão (aliás, no Brasil, assim que um sujeito é promovido a Sub-Assessor do Assistente do Vice a primeira coisa que faz é contratar uma secretária para atender o telefone e dizer que o chefe está em reunião).

Não havia celulares na década de 1970, para minha sorte. A essa altura minha cabeça rodava para descobrir onde estava o erro, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão.

O dia terminou.

Deixei o trabalho por volta das 19 horas. Cheguei em casa escoiceando as paredes. Fui logo avisado que o gerente do Bamerindus havia por lá passado às 17 horas, dizendo que estava desde a manhã me procurando, era importante, e deixou seu cartão de visitas com um pedido para que eu ligasse sem falta logo cedo na segunda-feira. Vixe, pensei, dei o maior rombo lá na baixa da égua!

Passei uns dias de cão. Nem pão fui comprar com medo de ser derrubado no chão e castrado por algum zeloso funcionário do Banco devidamente armado com uma tesoura, posto de tocaia na esquina. Nada de sair de casa, matutando e sofrendo. As crianças ficaram sem o passeio de fim de semana e quase me denunciaram ao Conselho Tutelar por sofrimento indevido, provocado pela opressão paterna.

Apesar de minhas fervorosas orações, o deus Cronos não conseguiu abolir a segunda-feira, e ela finalmente chegou. Antes de ir para o trabalho fui ao Banco para encarar a fera. Assim que me apresentei à recepcionista ela arregalou os olhos:

– Ora, ora, o senhor é então o sr. Magnovaldo? Sabe, estivemos à sua procura toda a sexta-feira. O gerente precisa muito falar consigo.

E lá veio o gerente todo sacudido e que, para minha surpresa, estava com um sorriso que mal cabia na cara, me convidando a sentar e mandando uma mocinha servir-me um café, incumbência que ela cumpriu com maestria.

– Sr. Magnovaldo, estive tentando encontrar-lhe desde sexta-feira. Chegou seu cheque para aplicação no Fundo 157, um valor respeitável (dava quase 2 salários meus), e queremos que o senhor aplique esse valor no nosso Fundo Bamerindus 157, já que estamos em uma campanha para arrecadar o valor de 5 milhões de cruzeiros até o fim deste mês. Isso para nós é uma meta muito importante. Se o senhor aplicar conosco, vamos dar-lhe como agradecimento e recompensa um cheque especial com um limite de 3 salários seus, imediatamente.

Senti-me parecido como cachorro de pobre morador de rua – quando alguém quer fazer um carinho ele foge, pensando que vai levar pancada.

Pois eu digo a vosmecê que senti no fundo dos meus intestinos como eu era o perfeito exemplo do idiota! Tive vontade de morder o cotovelo.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

UM VEADO NA MINHA VIDA

Vosmecê já se viu frente a frente com uma onça? Sim? E com duas? E não desmantelou as tripas?

Pois bem, no sertão de Mato Grosso, nos idos dos anos 1950, meu pai trabalhava em uma empreiteira construtora de estradas de rodagem. À época o trecho em construção pertencia ao que é hoje a BR-364 nas imediações de São Vicente, a uns 90 quilômetros de Cuiabá.

Vivíamos em acampamentos de casas pré-montadas de madeira, que eram mudadas a cada 6 meses, acompanhando o ritmo da construção da estrada.

Meu pai, Miguel Bezerra, então responsável pelo almoxarifado, era encarregado de levar suprimentos para a linha de frente: ferramentas, brocas, ferragens, etc. Quando o material era volumoso uma pequena camionete era o meio de transporte. Quando eram de pequenas dimensões os materiais eram acomodados em um cesto dianteiro de uma bicicleta alemã Goricke, que era um orgulho do velho.

Um belo dia, perdido nas brumas do tempo, o sr. Miguel teve que levar algumas bananas de dinamite para a tarefa de explodir umas grandes pedras na linha de frente. À vista de minha alegria em poder acompanhar e ver os trabalhos de construção, resolveu levar-me junto. E lá estava eu, um moleque sacudido, montado na garupa da Goricke e segurando inocentemente uma caixa com um pacote de bananas de dinamite, com meu pai pedalando por uns três quilômetros pela trilha já aberta pelos tratores.

O pacote de dinamites foi entregue sem problemas, e era a hora de voltar. Já havíamos percorrido a metade do caminho de volta quando um cheiro de carniça avisou que havia onça por perto. Logo em seguida vimos dois lindos animais a uns 30 metros de distância, calmamente devorando um veado recém abatido. Eram duas onças bem arretadas que interromperam a refeição para seguir-nos com os olhos.

Como qualquer “chef” de restaurante sabe, onças não têm hábitos muito refinados à mesa da refeição, já que não leem cardápios em francês, e poderiam interromper rapidamente o prato principal para avançar sobre a sobremesa – no caso, nós dois, pai e filho.

Normalmente os homens andavam armados naquele ambiente, exatamente para o caso de se defenderem de animais ou de aproveitarem a ocasião para caçar algum outro e levá-lo para reforçar o menu doméstico. Mas naquela particular situação o sr. Miguel não portava nenhuma arma. O único objeto que a tal se assemelhava era meu estilingue, algo que, naquela circunstância, tinha menos valor do que a honestidade do Geddel Vieira Lima.

O que mais me impressionou foi a sua calma. Disse-me com a maior tranquilidade:

– Menino, fique quietinho aí, não se mexa, não fale e não olhe para as onças.

E precisava pedir para eu ficar quieto?

Continuou a pedalar normalmente. Fomos acompanhados pelos olhares onçais por mais uns 20 metros, quando, em uma providencial e sábia decisão, elas concluíram que a carne do veado deveria ser mais saborosa, além de já estar servida e pronta para o consumo, enquanto que, no nosso caso, as onças iriam ter que comer seu almoço ainda empacotado com roupas e sapatos, o que certamente lhes ocasionaria algum problema gástrico e incômodos na hora de palitar os dentes. Além disso, creio que o aspecto da pele áspera e queimada de um bravo sertanejo nordestino – meu pai era catalogado como da cor parda na carteira de identidade – era seguramente menos atraente que o couro claro e macio do veadinho.

Como vossuncê vai facilmente concordar com este escrivinhador fuxiqueiro, fiquei devendo a preservação da minha vida a um veado lá em Mato Grosso!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

CUIABÁ E OS PACUS

Terminei o ginasial em 1959 na Escola Agrícola de São Vicente, perto de Cuiabá, para cursar o Colegial em Pinheiral, RJ. Só voltei à Cuiabá exatos vinte anos depois, em 1979, já casado e com uma renca de filhos.

Com um mês de férias pela frente, empacotamos as coisas, incluindo os quatro filhos ainda miudos, enfiamos todos numa gloriosa Chevrolet Caravan e fomos visitar os locais onde passei grande parte de minha adolescência e, claro, os amigos e parentes que por lá estavam.

Paramos por alguns dias em Lins, SP, e Campo Grande, MS, onde alguns parentes foram devidamente aporrinhados com a nossa estadia.

No sétimo dia de viagem deixamos Campo Grande bem cedo com destino a Cuiabá. No meu tempo a estrada só era asfaltada na saída de Campo Grande e na entrada de Cuiabá, sendo que o trajeto demorava de dois a cinco dias, dependendo das chuvas, da buraqueira e das obras rodoviárias que estavam em andamento ao longo dos 700 km da estrada. Pelas minhas expectativas iríamos dormir em Rondonópolis para alcançar Cuiabá no dia seguinte pela manhã.

Para minha surpresa, a estrada agora estava perfeitamente asfaltada e sinalizada, e a lembrança da aventura que era dirigir por ela vinte anos antes havia ficado apenas na memória.

Quando alcançamos Rondonópolis o sol ainda estava alto no céu, e decidimos continuar diretamente até Cuiabá, pois ainda chegaríamos antes do anoitecer. Essa decisão nos permitiria já detonar um pacu, frito, assado ou cozido, naquele mesmo dia.

Neste último trecho da viagem comecei a explicar a meus filhos como eram preparados os pacus, um peixe tradicional em Mato Grosso. Mostrei como um pescador cuiabano digno de reputação pescatória, com dois talhos de faca, puxar fora os espinhos do peixe, sobrando as ventrechas limpas e prontas para serem temperadas, cozidas e devoradas. Consegui fazê-los imaginar aquele peixão assado com pirão, ou frito com mandioca, ou então cozido e servido com banana-da-terra, temperados com ervas e puxados a um molho apimentado, cousas que só um cuiabano arretado da gema sabe fazer.

Com a fome que estávamos, a imaginação trabalhando a todo vapor, as bocas se enchendo d’água, cada minuto durava uma eternidade para passar.

O único problema potencial era convencer o casal de primos onde ficaríamos hospedados a preparar tal iguaria. Mas prometi resolver a questão. Quando alcançamos os arredores de Cuiabá parei em uma cabine para telefonar e avisar, como quem não quer nada, que já estávamos entrando na cidade. Verinha, a prima de minha mulher, atendeu, mostrou grande alegria e avisou:

– Já que vocês vão chegar daqui a pouco, vou preparar um jantar especial, algo que vocês certamente vão adorar!

– Não, que é isso, não precisa, muito trabalho, não queremos incomodar, podemos comer em um restaurante, etc.,  – palavras evidentemente mais falsas que promessas de político brasileiro.

E assim chegamos. Beijos, abraços cheios de saudade, “como as crianças cresceram”, “vocês não ficam velhos”, e outros salamaleques que fazem parte do figurino de todos os reencontros.

Todo mundo pro banho para tirar o cheiro de bode do sovaco!

Fui o último a sair do banho e, para meu desapontamento, não vi nenhuma movimentação na cozinha. Mas logo em seguida Verinha acalmou nossa fome:

– O jantar já vem vindo. Vocês vão adorar!

E veio: uma meia dúzia de pizzas pequenas e gordas.

Quando foi ponderado para a Verinha que estávamos sonhando com pacus com mandioca e banana-da-terra, veio a explicação:

– Sim, eu sei que o Magno adora esse peixe, preparado à moda cuiabana, mas isso é comida do povo aqui em Cuiabá e ele agora é um dotô formado com diploma e tudo, e pensei que ele não quisesse mais comer comida popular. Aqui perto de casa abriram uma pizzaria, a grande novidade, e ficamos sabendo que em São Paulo o chique é comer pizza no jantar, e como vocês moram lá certamente iriam gostar de comer uma comida mais refinada que um pacu com mandioca e banana-da-terra.

Ora, ora, justo comigo que sempre fui e serei um cabra da peste, vem esse papo arretado? Arre, égua!

Após as devidas explicações, no outro dia a mesa do almoço estava abarrotada de pacus cozidos, fritos e assados, do jeito que sonhei. Pois eu digo e confirmo a vossuncê que faltou espaço na pança.

Até hoje o gosto dos pacus cuiabanos desperta as minhas lombrigas adormecidas.

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

HIROSHI E O LABORATÓRIO METALÚRGICO

Hiroshi W. nasceu no Brasil de pais japoneses, que o educaram com todo o rigor e valores daquela linda terra do Oriente. Técnico especializado em metalurgia, trabalhava com dedicação total no Laboratório Metalúrgico da G.M. em São José dos Campos. Era extremamente respeitado por sua capacidade técnica e seriedade com que a desempenhava.

A maior questão envolvendo Hiroshi era que se deixava envolver em tal intensidade pelo serviço que se desligava do mundo à sua volta. Seu sotaque era especial, bem carregado, já que em sua casa só se falava japonês e, antes da G.M., só havia trabalhado em uma empresa japonesa na região.

Lembro-me quando fui apresentado ao Hiroshi. Para quebrar o gelo fiz a clássica pergunta:

– Hiroshi, como se diz ‘como vai você’ no Japão?

Prontamente veio a resposta:

– No Japão não se pergunta isso porque lá ninguém tem nada a ver com a vida dos outros!

Esse era o Hiroshi.

Um certo dia liga para ele um dos compradores, Fernando B., para saber do resultado da análise de uma amostra enviada por um Fornecedor.

– Hiroshi, o Fornecedor M. quer saber como ficou a análise metalúrgica de sua amostra enviada na semana passada. Você poderia, por favor, dar uma olhada?

E ficou aguardando ao telefone, deixando o Fornecedor esperando do outro lado da linha.

Hiroshi deixou o telefone sobre a sua mesa e foi atrás dos resultados. Na saída uma outra pessoa interrompeu sua caminhada e o lembrou de um outro assunto urgente. Hiroshi passou então a atendê-lo e se esqueceu do que ia originalmente fazer. E demorou um bom tempo para voltar à sua mesa.

Bem, passado tanto tempo esperando, Fernando B. pediu desculpas ao Fornecedor pela demora, desligou prometendo retornar a ligação e foi pessoalmente atrás do Hiroshi no Laboratório. Chegou lá quando Hiroshi estava voltando à sua mesa.

– Pô, Hiroshi, você se esqueceu aqui do Fernandinho?

Hiroshi imediatamente pegou o telefone deixado sobre a mesa, colocou-o na orelha e disparou sua voz carregada:

– Arô, arô, arô!

Só um pi pi pi do outro lado da linha.

Pôs o telefone no gancho, virou-se para o Fernando e disse com o maior desapontamento:

– Ih, o Fernandinho disrigô!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

O FORTE APACHE

Entre 1980 e 1985 trabalhei na divisão de componentes automotivos de uma grande empresa metalúrgica em São Bernardo do Campo, SP, que produzia peças de ferro fundido, desde anéis de pistão até blocos e cabeçotes de motores diesel de grande porte.

A empresa passava então por algumas dificuldades gerenciais, e um belo dia dessa quadra da vida pintou no pedaço um novo Pirulão Geral para por ordem na casa, o sr. Kleber F., um cabra baixinho, petulante, metido, desaforado, com tufos de pelos sujos de catoca saindo das ventas e mais arrogante que o Alexandre de Moraes. Tratava a todos de forma grosseira e sua mais marcante especialidade gerencial era botar defeitos no trabalho alheio.

No pátio da fundição havia uma estrutura carinhosamente chamada de “Forte Apache”, uma simples edificação de madeira utilizada para quebrar em pedaços menores as peças de grande tamanho que apresentaram defeitos de fundição e que deveriam ser fundidas novamente – as bocas dos fornos de fusão tinham um diâmetro menor que 1 metro e, portanto, peças muito grandes neles não entravam.

A estrutura era feita de toras e vigas de madeira montadas diretamente sobre o chão batido do pátio, com uma espécie de porta lateral, e as peças eram quebradas pela ação de uma pera de 3 toneladas, solta de uma altura de 20 metros, conforme esquema abaixo (a plataforma de cimento não existia no “Forte Apache” original). O chão de terra favorecia a segurança, pois ajudava a amortecer a enxurrada de estilhaços resultantes do impacto da quebra das peças de ferro fundido.

Na ocasião estava sendo feita uma reforma geral no “Forte Apache”, e o sr. Kleber foi lá inspecionar, constatando que havia uma plataforma de cimento de cerca de 2,5 x 2,5 metros a uns 15 metros de distância de onde o “Forte Apache” originalmente estava. Seu comportamento esculhamboso e menosprezento veio à tona:

– Porque vocês, seus idiotas, não montam essa estrutura em cima da plataforma de cimento em vez do piso de chão batido? Só mesmo alguém com cabeça de bagre pode desprezar um piso de cimento que já existe e fazer uma porcaria dessas em cima da terra. Vocês devem ser Engenheiros que compraram o diploma na Faculdade de Engenharia de São Benedito do Tumucumaque. Essa é a mentalidade atrasada dos funcionários aqui desta empresa e é por isso ela não vai pra frente!

O Engenheiro de Manutenção e responsável pelo serviço era Osvaldo R., um arretado profissional que estava na empresa havia uns 10 anos. Ficou quieto, baixou a cabeça e afirmou:

– Se o senhor quer que se monte o “Forte Apache” em cima da plataforma de cimento, assim o faremos imediatamente. O senhor é o chefe.

E o “Forte Apache” reformado foi montado em cima da plataforma de cimento.

Dois dias depois, quando o serviço terminou, o sr. Kleber foi avisado da conclusão dos trabalhos para vir inspecionar e verificar se estava a seu gosto. E lá veio o meigo, doce e refinado cavalheiro acompanhado de mais dois auxiliares recém admitidos por ele para funções nas áreas financeira e comercial.

Dentro do Forte Apache já estava posto um cabeçote de motor defeituoso pronto para ser quebrado pela pera de 3 toneladas. A pera já estava suspensa e pronta para cair sobre o cabeçote. Era só apertar um botão no guincho elétrico e um gancho a soltaria para seguir impreterivelmente as leis da Física que descrevem o movimento dos corpos em queda livre.

O que o sr. Kleber ignorava, mas não o Eng. Osvaldo e seu pessoal da Manutenção, é que a plataforma de cimento era apenas uma tampa que vedava uma antiga fossa séptica, desativada uns cinco anos antes quando ficou pronto o sistema de tratamento de efluentes da empresa.

O Eng. Osvaldo e os mecânicos de manutenção se afastaram convenientemente e ficaram só observando o espetáculo. Então o sr. Kleber apertou o botão que liberou a pera de seu gancho.

Pois eu lhe digo e afirmo bem afirmado a vossuncê é que, se há uma definição de “rebosteio” no mundo, essa foi a descrição do que se assucedeu.

A pera veio com tudo, caiu com estardalhaço sobre o cabeçote e ambos arrebentaram a frágil plataforma de cimento, mergulhando como um míssil balístico coreano na negra merda, curtida e fermentada pacificamente por cinco anos, que se aproveitou então de seu instante de liberdade e voou para todos os lados, respingando nas cabeças e nas roupas dos três infelizes desavisados que estavam por perto.

O sr. Kleber e seus dois auxiliares, quase vomitando, saíram imediatamente do local com uma expressão enojadamente contrariada e foram para suas casas tomar banho, trocarem de roupa e se desinfetarem. Não voltaram mais para a fábrica nesse dia.

A pera e o cabeçote, afundados na antiga fossa, foram contabilizados como perda de material e esse valor financeiro impactou negativamente o resultado de “Lucros e Perdas” no balanço mensal da empresa.

O Eng. Osvaldo e seus homens, após o expediente, foram desopilar o fígado numa bodega próxima com umas boas e generosas lapadas de cana, cerveja gelada, amendoim torrado e azeitonas, protocolarmente acompanhadas de gargalhadas e sonoros arrotos.

O sr. Kleber, para grande desolação dos funcionários, não demorou muito mais tempo na direção da fábrica.