MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A BROCA E A TINTA VERDE

Em 1974 Geraldo era um simpático funcionário da Manutenção na fábrica da General Motors em São José dos Campos, SP.

Rapaz habilidoso, dedicava-se de corpo e alma à sua especialização e trabalhava em horas extras quase todos os dias para prover um bom conforto à sua bonita e jovem esposa. Seu profissionalismo era exemplar.

Oriundo da mesma cidade mineira – Camanducaia, quase na divisa com o estado de São Paulo – o colega Vicente, também conhecido como “Mineirinho”, tornou-se um grande amigo de Geraldo, e, solteiro que era, em vários finais de semana quando as gurias espertas tinham outros compromissos, desfrutava de um bom churrasco, um chopinho, torresmo, pão de queijo e muita conversa sem proveito junto ao amigo em sua casa. E assim, com esses trens todos, a vida seguia em paz, uai.

São José dos Campos, SP

Vários meses depois Geraldo teve uma excelente oportunidade de trabalho na usina nuclear de Angra dos Reis em Resende, RJ – era a fase de “milagre econômico” brasileiro, época em que Lula fingia que trabalhava honestamente e Dilma Rousseff era apenas uma guerrilheira fajuta que só pensava na mandioca e, brilhante pensadora que era, teve aí suas primeiras ideias sobre a tecnologia de estocar vento. E para Resende lá se foi o nosso personagem.

Nos dois a três primeiros meses a esposa ficaria em São José para acertar a venda da casa e nesse período, por razões práticas, Geraldo enviava quinzenalmente o dinheiro para sua amável esposa através de seu amigo Mineirinho, com recomendações para que se certificasse de que nada estaria faltando à sua jovem consorte.

Acontece que faltava, sim, se vosmecê me entende.

E assim o atencioso Mineirinho atendeu de forma cabal, com admirável competência e maestria, as necessidades explícitas e implícitas da gentil esposa de seu ex-colega.

Claro, não tardou para que o excesso de cuidados do amigo chegasse aos seus ouvidos.

Em uma inesperada sexta-feira um furibundo Geraldo, utilizando o crachá de um outro colega para entrar, irrompeu na fábrica armado com uma broca de meia polegada de diâmetro e doze de comprimento, afiada de acordo com os padrões da ABNT e da Anvisa, buscando seu desafeto com a fúria do cangaceiro Ciro Gomes para eletrocutá-lo com dita broca, ideia certamente não muito simpática ao Mineirinho que, avisado por colegas, disparou fábrica adentro buscando um canto qualquer para se esconder.

No aperreio da hora, já com as tripas descontroladamente alardeando sua participação no episódio, não achou nada melhor que uma área na seção de pintura que tinha pouca iluminação, onde vários tambores vazios de tinta estavam estocados. Não titubeou: abriu a tampa do primeiro e, sem pensar, pulou lá dentro.

Deu merda!

Era um dos poucos tambores que tinham tinta dentro. Verde.

A turma do “deixa disso, todo mundo leva um chifre de vez em quando, arranja outra mulher”, segurou o Geraldo enquanto outros correram para tirar o Mineirinho, agora pintado de verde, do tambor de tinta. Além do prejuízo material, teve que arcar com as despesas médicas para tirar a tinta do corpo e limpar a ambulância das manchas verdes, despesas essas não honradas pelo convênio de saúde.

O Mineirinho não voltou mais ao trabalho na G.M., por razões que fogem à minha compreensão.

Ignoro também como ficou o relacionamento do jovem casal após esse lamentável incidente.

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O CRACHÁ DA MARIA ISABEL

A jovem chefe do Laboratório Químico da empresa metalúrgica para a qual trabalhei por onze anos em São Paulo, Maria Isabel, além de extremamente competente nos seus afazeres, era uma graça de mulher.

Graça em todos os sentidos: físico, espiritual, moral, artístico, humorístico e bundístico.

Suas curvas eram perfeitas.

Aos finais de semana participava de um grupo teatral que majoritariamente apresentava peças de contestação política e social, quando se revelava uma primorosa atriz.

Em um longínquo dia do ano de 1989, perdido nas brumas do tempo, foi contratado um novo Diretor Executivo da Empresa. Homem sério, extremamente formal com procedimentos e aparências, teve como uma de suas primeiras decisões a determinação de que todos os funcionários deveriam portar crachás, convenientemente recheados com foto, nome, função, número de matrícula e alguns outros parangolangos dos quais não me recordo.

Como toda boa descendente de espanhóis (¿Hay gobierno? Soy contra!), Maria Isabel não nutria nenhuma simpatia por ordens, principalmente as de caráter burocrático como aquela em questão. Claro que lhe impuseram, mesmo a contragosto, um crachá devidamente plastificado e conforme as novas regras.

Usá-lo? Bem, isso era um assunto que merecia uma séria discussão e vossuncê não pode se esquecer que Maria Isabel era uma rebelde por natureza.

E assim uma semana depois uma ordem mais severa do novo Diretor surpreendeu a nossa querida Maria Isabel na entrada da portaria da fábrica. O diálogo entre Maria Isabel e o guarda de segurança foi um primor de entrevero dialético-filosófico que faria inveja ao bate-boca entre o decano Marco Aurélio e o meganha Alexandre Cabeça-de-Ovo:

– Dona Maria Isabel, a senhora precisa ter um crachá, sem o qual não vai poder entrar.

– Mas eu o tenho. Está aqui na minha bolsa.

– Na bolsa não serve. Tem que estar aparente.

– Mas todo mundo sabe quem eu sou; até o senhor, que me chamou pelo nome.

– Eu sei quem a senhora é, mas tem que botar o crachá em lugar bem visível, de acordo com o memorando do sr. Diretor.

– Essa ordem é flagrantemente besta, idiota, cretina e beócia, mas não se preocupe, vou cumpri-la e botar esse maldito crachá em um local bem visível.

E espetou o crachá na bunda.

O guarda ainda tentou argumentar:

– Tem que ser na parte da frente.

– Olha, o memorando diz que tem que ser em um lugar bem visível. Pois não há lugar mais visível, observado, notado e comentado em mim do que minha bunda!

Bem, contra fatos não há argumentos e daí em diante Maria Isabel passou a pendurar o crachá no coruscante rabo, para desgosto do sr. Diretor e gáudio dos olhos da rapaziada.

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A CUCA E O MANDOLATE

Em 1988 fui visitar o representante da nossa Empresa e alguns clientes na região de Caxias do Sul, formosa e hospitaleira cidade do Rio Grande do Sul. Nos quatro dias em que estive naquela linda região serrana gaúcha esbaldei-me com churrasco, pratos italianos e alemães, geleias, doces e todas essas maravilhosas comidas que fazem tão bem à nossa felicidade quanto o S.T.F. faz de mal ao Brasil.

Caxias do Sul, RS

No último dia, já de regresso a Porto Alegre para tomar meu avião para São Paulo, tomei conhecimento de que não havia provado duas especialidades daquela região: cuca e mandolate. Não havia nenhuma delas disponível, mas fui informado que na estrada de Caxias do Sul para Porto Alegre havia tendas que seguramente vendiam tais maravilhas.

Fui firme e animado.

Já na primeira bodega da estrada, para minha sorte, um cartaz anunciava que tinham cuca e mandolate. Parei imediatamente. Entrei. Uma linda potranca gaúcha, “dessas da venta brasina, com cheiro de lechiguana, que quando ergue uma pestana até a noite se ilumina” (como disse o saudoso Jayme Caetano Braun em seu poema ‘Bochincho’), chegou toda gentil e sorridente para me atender.

– Antes de tudo, disse eu, queria saber o que é uma cuca e de que é feita.

– Cuca? Cuca? Ora, cuca? Bem… uma cuca é uma cuca!

– Grato. E o que é mandolate?

– Mandolate? Já vi que tu não é daqui. Deixe-me ver… mandolate… como vou explicar pra ti? Ora, tchê, mandolate é mandolate!

A explicação da linda gauchinha não ajudou muito ou minha atenção não estava mais focada na etimologia. Encurtando o caso, comprei as duas delícias sem maiores discussões, provei, gostei e fui tomar meu avião em Porto Alegre.

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DORMINDO NA “FREEWAY” I-75

Anos atrás (êta língua a nossa!) meu amigo Cláudio D. estava aqui nos Estados Unidos estudando em Flint, Michigan, cidade situada ao norte de Detroit.

Casado, com um filho pequeno, levava a vida driblando as dificuldades econômicas com o que recebia de sua bolsa de estudos e constantes ajudas de sua família no Brasil.

Após um ano duro, economizou o suficiente para levar a família de férias até a Disney World em Orlando. Divertiram-se com seu menino, passearam e… gastaram todo o dinheiro, já que a Disney é uma irresistível máquina de chupar as verdinhas do bolso. Feitas as contas na hora de voltar, só sobrou o suficiente para abastecer o carro para a viagem de cerca de 2.000 km de volta, além de sanduiches e refrigerantes bem contados. Bem, sem choro, o negócio foi encarar a estrada, a famosa “Freeway I-75” e dormir no carro.

Após dirigir por mais de 12 horas, já de noite, Cláudio simplesmente não tinha mais condições de prosseguir e sua esposa não tinha a habilitação americana. O cansaço e a dor nas pernas eram tão fortes que resolveu parar no acostamento e tirar uma soneca. Nas “freeways” só se pode parar no acostamento por razões de emergência, e existem áreas de descanso a cada 60 a 80 milhas, onde parar é permitido e há toda uma estrutura para tal.

“Rest Area” (Área de Descanso) na I-75

Após alguns minutos um carro da polícia parou atrás. Desceu um policial e quis saber qual a emergência que motivou a parada. Travou-se o seguinte diálogo:

Policial: “Boa noite senhor, posso saber qual é a emergência que o obrigou a estacionar no acostamento?”

Cláudio: “Estou vindo de Orlando e moro em Flint, Michigan. O cansaço e a dor nas pernas não me permitem mais continuar dirigindo. Minha esposa não pode dirigir e se eu seguir ao volante há uma grande chance de causar um acidente. Meu dinheiro acabou e não tenho como pagar um hotel para passar a noite. Realmente, se eu continuar dirigindo nesta situação vou expor a minha família e outros motoristas a um grave risco.”

Policial: “Entendo. O senhor tem razão. Vamos fazer o seguinte: descanse, tire uma soneca, sinta-se bem de novo que eu vou ficar estacionado aqui atrás do senhor. Se eu não fizer isso, a cada 10, 15 minutos um outro policial vai parar aqui e questionar-lhe novamente e, com isso, o senhor não vai conseguir descansar.”

E assim foi feito. O policial estacionou atrás do carro do Cláudio e ficou esperando que ele tirasse sua soneca.

Depois de umas duas horas de sono meu amigo, já revigorado, levantou-se, abriu a porta do carro, espreguiçou e respirou o ar frio da madrugada.
O policial saiu de seu carro e lhe dirigiu as seguintes perguntas:

– O senhor já se sente bem?

– Sim, já estou bem e posso continuar, respondeu Cláudio.

– Que dia é hoje?

Cláudio pensou um pouco e respondeu corretamente.

– Ótimo. Já vi que o senhor está bem. Pode seguir com segurança. Boa viagem e um bom retorno para o senhor e sua família.

Sempre digo que a diferença entre um país desenvolvido e um ainda a caminho não é o tamanho de seus viadutos, a silhueta de suas mulheres ou a altura de seus prédios, mas a civilidade e a educação de seus cidadãos e de seu governo que, aliás, é um reflexo delas.

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O MARUJO INGLÊS

1969 foi um ano marcado por três importantes acontecimentos.

Em abril mudei-me para Vitória, Espírito Santo, contratado por uma pequena empresa de consultoria especializada em análise e cálculo de cargas de navios no porto de Tubarão (graduei-me em Engenharia Naval), pertencente à Companhia Vale do Rio Doce, à época uma empresa estatal. Em 26 de maio um evento histórico eletrizou o planeta: nasceu minha primeira filha Cristina; quase dois meses depois, em 20 de julho um outro fato, esse de importância secundária, foi comentado no mundo inteiro: o primeiro homem pisou na Lua.

Vitória tinha dois portos de carregamento de minério de ferro: o Porto de Vitória, na entrada da cidade de Vitória, e Tubarão, o maior porto exportador de minério de ferro do mundo à época.

Carregamento de navio em Tubarão

No Porto de Vitória atracavam pequenos navios (até cerca de 8.000 toneladas de carga), enquanto que em Tubarão eram carregados navios grandes, de até 200.000 toneladas ou mais. A capacidade de carregamento de Tubarão era de cerca de 4.000 toneladas por hora em cada um dos dois carregadores, (talvez seja maior atualmente) contra cerca de 500 toneladas por hora no porto da cidade. Hoje, se não me falha o bestunto, o porto de Tubarão tem cinco carregadores.

Um belo dia, no final de 1969, em um verão abrasador, chegou um navio da distante Inglaterra, mergulhada em pleno inverno, para carregar minério. Normalmente seria destinado ao Porto de Vitória por ser um navio pequeno, de cerca de 6.000 toneladas. Acontece que aquele porto estava inoperante naqueles dias devido a obras e então o navio foi direcionado para Tubarão.

Até aí tudo bem. O navio atracou no começo da noite e o primeiro-oficial (o segundo em comando do navio) foi liberado para seus dois dias de folga. Não deu outra. Saiu do cais direto para Carapebús, a região perto de Vitória onde as gurias espertas davam plantão para aliviar os marinheiros das tensões oriundas da longa travessia oceânica.

Acontece que, devido à grande capacidade de carga de Tubarão, o navio inglês, para surpresa do Comandante, teve a previsão de completar todo o processo de seu carregamento em cerca de 3 a 4 horas, ao invés dos 2 a 3 dias que normalmente teria no Porto de Vitória. Isso significava que teria que zarpar naquela mesma noite. O Comandante, surpreendido com a situação, pediu aos agentes do navio que localizassem e buscassem rapidamente o primeiro-oficial para iniciarem a viagem de volta à Inglaterra.

Problema fácil de resolver. Os agentes sabiam perfeitamente onde o bravo súdito de Sua Majestade se encontraria: em Carapebús, claro, nos braços de alguma quenga. Acionada a Polícia Marítima, foram atrás do primeiro-oficial, prontamente o localizaram e o arrancaram do Jardim do Eden, completamente bêbado e aliviado de suas tensões e de seu dinheiro.

O Comandante, um gentleman inglês, vexado com o comportamento de seu primeiro-oficial, ordenou que o jogassem ali mesmo em cima do convés do navio para curtir a bebedeira.

A essa altura do campeonato, perto da meia noite, o carregamento estava completo, mas um pequeno descuido do operador do gigantesco carregador fez com que umas duzentas toneladas de minério a mais de carga extra fossem parar no porão do navio, algo aceitável em um navio de grande porte, mas não em um pequeno. Isso fez com que ele afundasse umas 4 polegadas a mais, o que não permitiria que ele entrasse no Rio Tamisa, na Inglaterra, que tinha limites muito rigorosos: um navio com 4 polegadas a mais de calado arrastaria sua quilha no leito do rio, podendo encalhar, e isso era inadmissível pelas autoridades inglesas. Após as devidas discussões, a Vale resolveu mandar vir uma grua do porto de Vitória para retirar as 200 toneladas extras do navio.

E o primeiro-oficial continuava roncando que nem um porco em um canto do convés.

A grua chegou por volta das 2 da madrugada e começou a retirar o excesso de carga. Um nevoeiro frio e uma garoa cobriam a região. Uma meia hora depois o nosso primeiro oficial acordou, esfregou a cara, sentiu o frio e a garoa e viu a grua descarregando minério do navio. Ora, como no Brasil só se carrega minério e na Inglaterra só se descarrega, além da presença do frio e da neblina, achou que já tinha chegado em seu país.
Não pensou duas vezes. Levantou-se ainda cambaleando, pegou suas coisas e foi saindo do navio.

O Comandante o interceptou:

– Aonde você pensa que vai?

– Vou ver minha mãe.

– Sua mãe não mora nesta zona, seu filho de uma puta. Eu sei a mãe de quem você quer ver.

E, ajudado por outros marujos a bordo, pespegou-lhe uns pescoções e o despachou para dentro da embarcação.

Até hoje, quando relembro o acontecido, tenho a leve impressão de que o primeiro oficial não havia entendido nada do que se passou!

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FELIX P. E O DIPOLO ELÉTRICO

Tempos difíceis aqueles de estudante pobre.

Terminado o segundo ano de Engenharia em novembro de 1964 eu tinha fechado todas as matérias. O Natal se aproximava, o dinheiro estava a dezessete léguas de distância e a única opção em descolar uma carona para Bauru, SP, onde moravam meus pais, ficava restrita ao colega Felix P., o único da patota que tinha carro, um portentoso fusquinha alemão 1959, e morava em Lins, uns 100 quilômetros adiante de Bauru.

Fusca 1959

A dúvida, não tão duvidenta, era simples: ou eu arranjava dinheiro para a passagem de ônibus ou esperava meu querido amigo Felix P. prestar o exame oral de Física II, o que aconteceria uma semana antes do Natal. Arranjar o dinheiro da passagem para ir mais cedo era praticamente impossível. Minhas habilidades de datilógrafo eram o que me faziam ganhar alguns trocados, mas os colegas que necessitavam tais habilidades já estavam de férias. A única esperança era aguardar meu colega Felix P. prestar seu exame oral. Se tudo desse certo eu ainda passaria o Natal com meus pais.

A espera de quase um mês sem dinheiro e, portanto, sem nada de interessante para fazer, era algo que seguramente aborreceria até Deus, Aquele que tem um saco de filó e toda eternidade pela frente.

Eis que finalmente chega o grande dia. Meu colega Felix P. estava em frente à imensa lousa da sala, dividida em 4 setores, cada qual ocupado por um apavorado estudante que não conseguiu notas suficientes nos exames finais e teria sua última chance no exame oral. E, para desespero da galera, o inquisidor de plantão era uma fera na pele do formidável professor C., o terror da disciplina. Lá na plateia, já com a mala preparada, eu e mais dois pobres miseráveis torcendo para que nosso querido Felix P. resolvesse logo a parada.

Chega o grande mestre:

– Sr. Felix P., demonstre na lousa e discuta a equação de um dipolo elétrico em um campo uniforme.

E foi cuidar dos três outros condenados.

Meu colega Felix P., sem nenhuma inspiração, respirou fundo, pegou o giz e começou a rabiscar:

Não, não tinha nada que ver. Apagou.

Lembrou-se, num lampejo, de uma equação da trigonometria e tentou impressionar o seu espírito protetor para ver se ele o ajudaria na matéria:

Não adiantou nada. Seu anjo protetor certamente estava dormindo ou ocupado ajudando um outro devoto. Não era por aí. Passou o apagador.

Deveria ser uma fórmula simples, nada complexa. Quem sabe Einstein poderia ajudar:

Porra nenhuma!

Os ossos de Einstein se remexeram em seu túmulo ao saber que seu antigo proprietário era solicitado a resolver uma tarefa de tão baixa extração. Nada! As tripas reagiram, mas o cérebro não deu nenhum sinal positivo. Daquele mato não sairia nenhum coelho. O suor começou a brotar na testa da cabeça vazia de meu amigo.

Nisso retorna o tonitruante professor C.:

– E então, Sr. Felix P., como fica a equação de nosso dipolo?

– Professor, pra ser sincero, se o senhor me disser o que é um dipolo eu deduzo qualquer equação que o senhor queira.

Meu estimado colega teria que voltar a estudar a matéria no ano seguinte.

Para minha alegria, nossa viagem para Bauru e Lins a bordo do poderoso e magnifico fusca alemão 1959 começou poucos minutos depois.

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A SERPENTE DO POÇO DE SANTANA

Meu avô paterno, Manuel Julião, um dos primeiros habitantes de Laginhas, Rio Grande do Norte, capital intelectual, cultural, artística, política, industrial e militar do Seridó e suporte econômico de seu principal distrito, Caicó, partiu prematuramente deste mundo no final de 1976 aos 102 anos de idade. Quando completou 100 anos foi homenageado com uma apresentação da Banda de Caicó, que se deslocou até Laginhas para celebrar sua flamejante juventude.

Laginhas, Rio Grande do Norte, e o Poço de Santana, perto de Caicó

Ficando cego aos 90 anos, seu passatempo era contar histórias para os piás da região, cujas idades variavam de 8 a 80 anos. O velho Manuel Julião jurava por Santa Rita do Tapirapecó, sua protetora espiritual, que suas histórias não eram balelas, mas verdades verdadeiras e inquestionáveis.

Uma de suas histórias era relativa à serpente que habitava o Poço de Santana, perto de Caicó que, segundo a lenda, nunca seca.

Pois meu fidedigno avô Manuel Julião afirmava solenemente que um cabra arretado de Mossoró, passando perto do local, resolveu dar um mergulho no famoso Poço de Santana para se refrescar. Amarrou seu jumento, ficou em trajes sumários e pendurou seu relógio suíço Lanco de 25 rubis, Incabloc e pulseira de couro de crocodilo (note vosmecê a precisão da narrativa) no galho de um arbusto que estava perto. Relógio de última geração, pois que era automático e somente o balanço do braço era suficiente para dar corda naquela maravilha mecânica.

Relógio Lanco Automático de 25 rubis

A terrível serpente apareceu ameaçadoramente. Nosso amigo, apavorado com a visão daquele monstro, vestiu-se o mais rapidamente possível, montou no jegue e se mandou. Esqueceu-se do relógio. Lembrou-se dele quando já ia longe umas três léguas. Voltou ao local, mas não mais o encontrou.

Sete anos depois (claro, algum beradeiro desavisado pode afirmar que sete é conta de mentiroso) o nosso viajante estava de novo nas redondezas e se lembrou do Poço de Santana. Com um calor de dar brotoeja em picolé, resolveu voltar ao local para refrescar-se n’água. Assim que se preparava para mergulhar ouviu um “tic-tac” em um pé de jurema. Curioso, foi ver do que se tratava. E aí viu seu relógio Lanco automático de 25 rubis, Incabloc e pulseira de couro de crocodilo, enroscado em um dos galhos. Aquele arbusto havia crescido e agora já era uma arvorezinha. O vento balançava o galho e o relógio, com isso, tinha sua máquina alimentada.

O mais interessante é que, após tantos anos, o relógio estava marcando a hora certa, somente com um minuto e meio de atraso! Os suíços são fantásticos na fabricação de seus relógios!

Ninguém em sã consciência pode ter motivos para duvidar da veracidade das histórias de meu avô.

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UM BURRO NA FLORESTA AMAZÔNICA

Nos anos 80 trabalhei em uma empresa que produzia peças sinterizadas, que são peças produzidas a partir de pós metálicos.

Um dos principais produtos da empresa eram peças de bronze, uma liga composta basicamente de cerca de 90% de cobre e 10% de estanho (essas porcentagens variam). Os lingotes de cobre eram importados do Chile e o estanho era produzido a partir do minério cassiterita, encontrado (à época) principalmente na mina de Pitinga, a cerca de 300 Km de Manaus, em plena selva amazônica.

Um grande amigo dos donos de nossa empresa decidiu iniciar um negócio próprio na região, ligado às atividades da mineração e necessitava urgentemente de um burro para ajudar no transporte de materiais. Pediu ajuda a um dos nossos diretores. Discutido o assunto, ficou decidido que se enviaria um burro (verdadeiro, de quatro patas, não um militante do PCdoB) para atender ao pedido do amigo.

Um burro forte e vigoroso foi enviado então de Manaus para Pitinga – de avião, claro, pois que não havia estradas naquele oceano de mato.

Contratado o avião, um monomotor, havia que prepará-lo para levar o burro a bordo. Tiraram as poltronas, só ficando a do piloto, prepararam cordas para segurar o animal dentro da aeronave, anestesiaram o bicho e o acomodaram da melhor forma possível.

Claro, como a anestesia poderia perder seu efeito no meio do voo, o piloto estava munido de uma seringa já preparada com mais anestesia para injetar no animal em caso de tal acontecimento se suceder, tendo sido treinado por um veterinário para saber em qual parte do corpo injetá-la. A traseira do burro ficou do lado do piloto para facilitar a aplicação.

No meio da viagem, em plena floresta, o nosso quadrúpede acordou e tudo sugeria que não ficou nem um pouco feliz em se ver amarrado com a bunda exposta e à disposição do piloto, uma situação constrangedora que claramente ofendia seu orgulho e a sua alta dignidade de burro. Começou a espernear.

O piloto pegou a seringa e se preparou para utilizá-la, mas pilotar um avião e aplicar ao mesmo tempo uma injeção em um animal era uma situação que obviamente não constava do treinamento para se conseguir brevê de piloto. Os movimentos desordenados do equino atingiram a sua mão antes que pudesse aplicar a injeção, fazendo a seringa ir parar em um local inalcançável. E, para piorar a situação, o futuro operário burrinho protestava de forma cada vez mais eloquente contra essa forma de opressão do capitalismo selvagem.

O piloto não teve dúvida. Soltou as amarras, abriu a porta do avião, fez uma manobra brusca para o lado, deu um empurrão com o pé e nosso querido burro se viu flutuando em pleno ar sobre a imensa floresta, sendo presumido que sua trajetória seguiu fielmente as leis da física.

Não se teve mais notícia dele. O avião chegou a Pitinga sem sua preciosa carga.

Hoje, passado tanto tempo, ainda tenho curiosidade em saber qual foi a “causa mortis” do nosso burro: se teve um ataque cardíaco com o susto em se ver sem chão, se ficou enganchado em alguma árvore ou se quebrou a coluna vertebral com a violência da queda. Leigo no assunto que sou, vou seguir a teoria da eminente cientista brasileira Anitta, indicada ao Prêmio Nobel de Tatuagem Furical, que estipula que, assim que chegou ao solo, o burro foi imediatamente devorado pelas girafas que infestam a floresta amazônica.

Fico até hoje imaginando um índio caminhando na mata, praticando sua nobre missão de ensinar seus curumins a usar arco e flecha, olhar para o céu e ver um burro caindo em sua direção.

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O ENGENHEIRO E O AUMENTO DE SALÁRIO

Nos idos de 1970 um dos Diretores da GM em São José dos Campos era Mr. Murray (a nacionalidade era americana, mas o nome é fictício). Um sujeito tão pão-duro que se dizia que pulava a cerca de sua casa para economizar o portão.

Pois bem, um de nossos colegas Engenheiros, recém casado e já com filho para sustentar, passava por um perrengue daqueles que incomodavam mais que dor de dente nos testículos. Sempre sobrava mais mês no fim do salário.

Cada vez mais aperreado, resolveu apelar diretamente para Mr. Murray. Arranjou uma boa desculpa relativa à construção da nova fábrica do Chevette e marcou uma hora com a secretária de Mr. Murray, a encantadora, divina e calipígia Gláucia.

Se Gláucia era bonita? Pois eu lhe asseguro a vossuncê que em todo o Vale do Paraiba, num raio de 1.700 léguas, nenhuma mulher lhe peitava com tanta boniteza!

O escritório de Mr. Murray ficava em uma das esquinas do prédio, com uma linda vista para os jardins da fábrica. Vale aqui lembrar que a jardinagem da área fora projetada por um renomado paisagista paulistano.

No dia seguinte, pontualmente no horário marcado, ali estava nosso colega. Dissertou por 8 minutos sobre a questão técnica e em seguida foi direto ao ponto:

– Mr. Murray, a minha situação financeira está insustentável e falta pouco para minha recém constituída família passar necessidades. Minha esposa começa a sugerir que sou um fracasso. Tenho dedicado todas as minhas forças e diligência à Empresa, isso é reconhecido. Preciso urgente de um aumento de 10%.

Mr. Murray não se fez de rogado em atendê-lo, mas não dava sinais de amolecimento coronário. Usou a tática, comum entre os chefes, de encher-lhe o loló de cisco. Falou da virtude espiritual em perseverar sempre e se aprimorar no trabalho, nunca se entregar às lamúrias, encarar a vida de frente e ter absoluta confiança no futuro, principalmente sendo uma pessoa tão jovem e competente.

Isso, evidentemente, não resolvia o problema. Nosso colega voltou a insistir no aumento.

Mr. Murray então pôs a mão no ombro de nosso jovem Engenheiro e, levando-o à imensa janela envidraçada, mostrou-lhe a bela paisagem que se descortinava aos olhos. Suas sábias palavras foram:

– Veja, meu filho, como a natureza é bela e como a obra do Criador e de sua criatura, o homem, é admirável. Trabalhando aqui você tem o privilégio de estar cercado por um dos mais agradáveis lugares para exercer sua nobre profissão de Engenheiro, totalmente diferente de estar suando em um ambiente sujo de uma fundição em Osasco, por exemplo. Você é um abençoado! Essa vista vale mais de 5% no seu salário. Tome-a, ela é toda sua!

Fábrica da GM em São José dos Campos

Nosso colega agradeceu, mas ponderou sabiamente que a visão do lindo panorama não poderia ser adicionada mensalmente ao saldo de sua conta bancária.

Mr. Murray cofiou o bigode, chamou a flamejante Gláucia e pediu que lhes servisse um cafezinho.

E lá veio, flutuando 2 polegadas acima do chão, a esvoaçante Gláucia com uma bandeja e duas xícaras de café. Deixou as duas xícaras na mesa, adoçou-as com açúcar e um sorriso mais doce ainda e saiu da sala deixando nos olhos do jovem Engenheiro aquela indelével imagem das curvas perfeitas de seu “derriére” (meu irmão, entendido dessas coisas, diz que bunda de mulher tem vida própria), e no ar aquele sutil perfume de uma fêmea desenhada pessoalmente pela mão do Criador.

Mr. Murray então, percebendo o derretimento do espírito combativo de nosso colega, disparou o torpedo final:

– Faça as contas, meu filho. A visão da Gláucia merece muito mais que 5% de seu salário e essa parte também não será tributada pelo Imposto de Renda. Agora você pode voltar ao seu trabalho, já que ganhou mais de 10% de seu pretendido aumento. Ah, e mais uma coisinha, não se esqueça de comemorar seu novo salário com sua adorável família.

Não foi dessa vez que nosso colega conseguiu botar suas contas em dia.

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O BRASIL FICA PERTO DO IRAQUE?

Em março de 2003 desembarquei no aeroporto de Detroit, Michigan, para um trabalho de uma semana em uma empresa fabricante de ferramentas que ficava em Troy, ao norte da grande e famosa cidade. Era um domingo e o então presidente George W. Bush tinha mandado bombardear Bagdá, a capital do Iraque, no dia anterior, limpando o terreno para a invasão terrestre.

Do aeroporto até o hotel usei uma perua do próprio Holiday Inn que buscava os hóspedes que chegavam. O motorista era um esfuziante jovem de seus 20 anos, atlético, cabelo escovinha, saradão, sonho suspiroso dos moços de Pelotas, todo orgulhoso da demonstração do poderio aéreo dos americanos, mostrado para toda a nação ao vivo na noite anterior: o céu riscado de foguetes, as brilhantes explosões, o povaréu correndo, os carros pegando fogo – parecia o fim do mundo retratado nos filmes de Hollywood. O nosso rapagão estava quase explodindo de tão cheio de gás patriótico:

– O senhor viu na televisão? Despejamos um buzilhão de foguetes sobre esses terroristas iraquianos. Somos os maiores, os melhores, os mais poderosos, a maior nação do planeta! Vamos reduzir o Iraque e seus camelos a pó para que Saddam Hussein nunca mais se meta conosco!

Minha reação foi fria. Afinal, eu não era americano e nem a guerra do Bush me interessava. Não esbocei nenhum som a não ser um “arran”.

Era visível que eu não me entusiasmava com seu eloquente discurso. Ficou então sério e perguntou:

– O senhor por acaso é iraquiano?

– Não, respondi. Sou brasileiro.

– Ah!

E após uns cinco minutos de um silêncio constrangedor perguntou:

– E o Brasil fica perto do Iraque?

Disse-lhe que não, o Brasil fica mais perto dos Estados Unidos que do Iraque. Nosso jovem americano me parecia mais ignorante que a Benedita da Silva.

E após outros minutos de silêncio, com a cara mais idiota que a do Marcelo Freixo, observou:

– Continuo sem saber onde fica o Brasil. Meu conhecimento de geografia é muito limitado. Só sei que o Canadá fica ao Norte, porque de lá é que vem o frio, o México fica no Sul, porque de lá é que vem os imigrantes ilegais, e Cuba fica perto de Miami, porque aquela cidade está infestada daqueles malditos cubanos.

Felizmente chegamos ao hotel e, muito a contragosto, encerramos a nossa erudita conversação.