MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

BALTIMORE

Vossuncê já desceu no aeroporto de Baltimore, no estado americano de Maryland, e foi alugar um carro? Se não, e pretende ir, prepare-se para enfrentar um dos piores serviços de atendimento aos passageiros que chegam àquele aeroporto. Os ônibus (gratuitos) têm uma frequência digna de terceiro mundo. Às vezes chegam 3 deles juntos e às vezes demoram meia hora para aparecer. Diferentemente da maioria dos outros aeroportos americanos onde cada locadora tem seus próprios “shuttles” para levarem seus clientes até a garagem dos veículos alugados, em Baltimore apenas um ônibus faz esse trajeto, sendo todas as locadoras concentradas em um único local longe do aeroporto – algo como uns 5 quilômetros da saída do aeroporto.

Em um belo dia do ano de 2015 que já se perdeu nas brumas do tempo, quando voltava eu de meus afazeres profissionais em uma fábrica da região, tinha acabado de devolver o carro alugado e estava esperando o ônibus para regressar ao aeroporto. Na mesma situação, um grupo de 8 homens e uma jovem e linda mulher – aliás, a juventude concede naturalmente uma beleza à maioria das mulheres, exceção feita a algumas deputadas esquisitas do nosso Brasil. Distintíssima, perfumosa e elegante, a beldade posava como uma deusa junto a um magote de machos que a observavam gulosamente com recônditos desejos. Dir-se-ia (eita língua a nossa!) que suas curvas deveriam ter sido desenhadas pelas próprias mãos do Criador.

Chegou o ônibus. Todos entraram pela porta da frente, menos ela. Claro, uma musa de tão elevada extração não se dignaria a entrar junto com os simples, feios e mal cheirosos mortais. Entrou sozinha pela porta do meio.

Sua altivez e nariz empinado não permitiram que nenhum dos marmanjos praticasse o cavalheiresco gesto de tomar sua mala e colocá-la no bagageiro, a uns 40 centímetros acima do piso do veículo. Ela mesma resolveu fazê-lo.

Acontece bem acontecido é que a divina musa não teve força suficiente nos braços para levantar sua mala. Para isso, contou com a ajuda de sua formosíssima perna para levantar o pesado objeto, e…

Não deu muito certo.

¿Que pasó, señor Sancho Panza?

O que se assucedeu bem assucedido é que um até então ignorado acúmulo de gases, provenientes da digestão de hamburger com bacon, ovo e coca-cola, se viu comprimido pelo brusco gesto de levantar a perna, conseguiu vencer a resistência natural imposta pelo esfíncter anal e ganhou estrepitosamente os ares circundantes, anunciando a imediata contaminação do ambiente por agressivos odores de mercaptanas.

Não sei de quem tive mais dó: se da queda do status de divindade a uma reles mortal ou dos que tiveram suas glândulas olfativas violentadas pela sacudida mistura de perfume francês com peido americano.

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A MALETA DE CHUMBO

No longínquo ano de 1973 estava em andamento a construção da nova fábrica da Detroit Diesel no terreno da General Motors em São José dos Campos, fábrica que depois serviria para a produção dos motores a gasolina para o Chevette e o Monza.

Uma das minhas atribuições era a supervisão da montagem do Parque de Tanques de Combustíveis para o armazenamento dos produtos de petróleo (óleo diesel, lubrificantes, gasolina, etc.) para a nova fábrica. Construídos os gigantescos tanques de armazenamento, e antes da pintura final, era mandatória a inspeção das soldas das chapas de aço. Essa inspeção é feita por radiografia.

Uma empresa especializada nesse tipo de inspeção foi contratada e, com seus equipamentos de radiografia, se deslocou até o local da obra para realizar seu trabalho. No caso, o equipamento para isso utilizava Raios Gama, bem mais indicado para aquele tipo de serviço.

A fonte radioativa para a emissão dos Raios Gama consta de uma determinada quantidade de um isótopo radioativo. Essa massa de radioisótopo é encapsulada e lacrada dentro de um pequeno envoltório metálico denominado torpedo devido a sua forma, ou fonte selada, simplesmente. O torpedo se destina a impedir que o material radioativo entre em contato com qualquer superfície, objeto ou pessoa, diminuindo os riscos de uma eventual contaminação radioativa.

No caso em questão a fonte utilizada foi uma ampola do material radioativo Irídio-192, suficiente para inspecionar chapas de aço de 10 a 40 mm de espessura (para espessuras maiores de aço são utilizadas ampolas com Cobalto-60).

Serviço terminado, é hora de levar seus equipamentos de volta. A fonte de Irídio-192 estava protegida dentro de uma maleta de chumbo, metal que é apropriado para a proteção contra a radiação.

A questão bem questionada aconteceu quando o técnico estava saindo com seus equipamentos. Os guardas da portaria, seguindo a recomendação dos manuais da G.M., resolveram abrir a maleta de chumbo para checar o que havia dentro. Claro, o técnico da empresa não permitiu, explicando para os guardas as razões técnicas porque não fazer isso. Impasse. Os guardas não queriam saber nem o que era Irídio, quanto mais um tal de Irídio-192. E, além do mais, ficaram aperreados ao saberem que havia um torpedo dentro da maleta. O chefe da guarda, o sr. Gustavo B., me telefonou então para tomar uma decisão.

Fui claro e direto ao assunto:

– Senhor Gustavo, se o senhor e seus guardas quiserem ficar brochas pelo resto da vida, podem abrir a maleta. A decisão é de vocês. Se quiserem preservar suas libidos, esqueçam a maleta.

O técnico foi imediatamente instruído a desaparecer das imediações com sua maleta de chumbo.

No dia seguinte dois guardas arretados e sacudidos vieram me procurar:

– Engenheiro, nós não estávamos nem perto da maleta. Podemos ficar tranquilos?

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HONESTIDADE

Em Setembro de 2017 o furacão “Irma” atingiu o estado americano da Flórida, exatamente à época em que eu estava de mudança para esse estado.

Lembro-me de que havia filas de caminhonetes e vans se dirigindo para a Flórida carregados de mantimentos, água, cobertores, remédios, canoas, etc., para ajudar as pessoas que foram ou seriam atingidas pelos estragos causados pelo vento e pelas águas que inundavam a região. Entre os materiais e objetos que estavam sendo transportados incluiam-se geradores de emergência, já que uma das primeiras consequências de um furacão é a interrupção do fornecimento de energia elétrica. Um “site” na internet publicava os pedidos de empréstimos de geradores de emergência e explicavam os motivos: idosos isolados, pessoas simples que não tinha veículos para fugirem das águas, alimentos se estragando, gente doente que precisava ligar aparelhos médicos, e assim por diante. E, dentro da possibilidade dos que queriam ajudar, quase todos eram atendidos. Os geradores eram emprestados e, ao final da tormenta, os donos iriam lá buscá-los de volta.

Acontece que um grupelho de três cidadãos brasileiros resolveu aplicar um golpe: pediam emprestado tais geradores e – pasmem vocês – os alugavam para os necessitados. Isso mesmo, tomavam emprestado os geradores e os alugavam aos que deles precisavam.

O esquema foi descoberto em poucos dias. A Polícia prendeu os três e, após o devido tempo na cadeia, foram deportados.

Isso significa que todos os brasileiros são desonestos?

Seguramente não, mas aqueles três são.

Por outro lado, em 7 de maio de 2014 um casal achou em São Paulo uma bolsa com 20 mil reais em dinheiro (R$ 3.000 em moedas e R$ 17.000 em notas). O homem, Rejaniel Silva Santos, 36 anos, um maranhense, morava com sua companheira embaixo de um viaduto na Radial Leste. Chamaram a Polícia Militar e entregaram a bolsa. Os soldados localizaram o dono e devolveram o dinheiro.

Moradores de rua na Zona Leste de São Paulo sem dúvida estão em uma situação humana muitíssimo mais vulnerável que três homens que foram para os Estados Unidos.

Isso significa que todos os brasileiros são honestos?

Não necessariamente, mas aquele casal é, indubitavelmente.

Porque estou contando esses fatos?

Há, em nossa pátria, um grupo enorme de pessoas para as quais a honestidade e a honra não têm nenhum valor. Um facínora, chefe de uma quadrilha de cafajestes, merece e será Presidente da República e os ladrões que vão assumir o governo junto com ele serão dignos de toda a honra ao serem tratados por “Excelência”, de se deslocarem em carros blindados com batedores à frente, comerem do bom e do melhor, viajarem em jatinhos exclusivos, engordarem seus saldos bancários, tudo isso por conta da outra parte.

E quem é a outra parte?

Os trouxas, os idiotas, os palhaços, os trabalhadores, os idosos, os aposentados com salário mínimo – enfim, todos nós que não nos encaixamos no primeiro grupo – ou seja, todos nós que dormimos embaixo dos viadutos da honra e do valor humano na cidade grande.

Será que somos realmente a maioria? Será que teremos a coragem de devolver uma bolsa com 20 mil reais?

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O PEDIDO DE AUMENTO

A General Motors começou suas atividades fabris no Brasil em 1925, quando montou sua primeira linha de montagem no Bairro do Ipiranga, em São Paulo, no distante ano de 1925.

Iniciando seu trabalho como mecânico, um dos primeiros funcionários da G.M. foi o sr. Adalberto B., que começou sua brilhante carreira naquelas instalações. Com dinamismo, dedicação e uma inteligência sem par, galgou os mais diversos postos na organização, chegando à posição de Diretor Geral da fábrica de São José dos Campos. Quando se aposentou, no final da década de 1970, foi considerado o mais antigo funcionário da G.M. no mundo, com mais de 52 anos de dedicação à empresa. Recebeu como prêmio uma turnê por todas as fábricas da G.M. no mundo. Nunca se esqueceu de suas origens humildes.

Sem dúvida, o sr. Adalberto B. era um dirigente querido e respeitado pelos funcionários. Tinha o hábito de sempre descer ao chão de fábrica e conversar com os operários, relembrando fatos de quando era um deles na fábrica do Ipiranga. Dava dicas aos mecânicos de manutenção, aos montadores, aos engenheiros e a quantos encontrasse com disposição de conversar com ele. Com isso, praticava a política de “portas abertas”, nunca se furtando a conversar pessoalmente com quaisquer funcionários, independentemente da posição hierárquica de cada um.

Um dos operadores de máquina estava profundamente aperreado com os gastos de sua família, e cada vez mais o seu salário não conseguia alcançar o nível das suas contas. Um dia encheu-se de coragem e, todo sacudido, resolveu abordar o sr. Adalberto em uma de suas caminhadas pela fábrica para solicitar um aumento de salário.

– Senhor Adalberto, o senhor me desculpe, mas necessito urgentemente de um aumento de salário.

O sr. Adalberto pôs as mãos em seu ombro e afetuosamente respondeu:

– Está desculpado, meu filho.

Proporcionou-lhe um amistoso sorriso e seguiu sua caminhada por entre os motores.

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LÓGICA INFANTIL

Uma das características maravilhosas da infância é a inocência – e, com isso, elas provocam perguntas irrespondíveis. As crianças não são limitadas às fronteiras da linguagem que nós, os adultos bestificados, muitas vezes nos erigimos a nós mesmos.

Isso aconteceu com minha primeira sobrinha Sandra, filha de meu irmão, nos idos de 1970.

Antes de tudo é preciso caracterizar um pouco a postura comportamental de meu pai, avô da Sandrinha. O senhor Miguel Bezerra tinha como sua marca registrada a ausência de qualquer sorriso ou postura adequada a brincadeiras. Na verdade, entre todas as inúmeras fotos de meu pai nunca consegui encontrar uma em que ele estivesse sorrindo. Talvez para evitar que meus filhos atravessassem a vida sem saber o que é um sorriso paterno, instintivamente me arreganho todo quando estou com eles e com meus netos.

Pois bem, uma das homéricas broncas que recebi de meu pai foi quando ele ouviu minha primeira filha, ainda pequena, me chamar de “você”. Isso, no seu julgamento, era considerado terrível falta de uma boa educação – no caso, além disso, de uma falta de respeito imperdoável – onde já se viu chamar o pai de “você”?

Esse mesmo julgamento era estendido ao meu irmão e, no caso, à sua primeira filha.

O que se assucedeu bem assucedido é que, em uma visita de final de ano ao senhor Miguel feita pelos seus dois filhos, meu irmão e eu, acompanhados de esposas e filhas – as duas existentes até então – minha querida sobrinha Sandra, então com seus três anos de idade, sentou-se no colo do avô e começou a questionar inocentemente alguns ítens existentes no armazém da anatomia humana:

– Vovô, você tem xoxotinha?

Ah, meu querido leitor que presta atenção aos meus desmantelos desmantelados, prá que?

O vovô fechou a cara e se preparou para revidar tamanha afronta, mas, à vista da suprema autoridade do olhar inocente de uma criança de três anos, resolveu apenas responder secamente, todo embaraçado e mais emputescamente descontrolado que um ministro do STF em Nova York:

– Não!

– Então, já que você não tem xoxotinha, você tem pintinho?

Rapaz, o furdunço que se seguiu é inenarrável. Meu irmão só não foi eletrocutado, enforcado e esquartejado porque fugiu a tempo.

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A LEI DA OFERTA E DA DEMANDA

Quando me mudei para São Paulo para estudar Engenharia eram bastante comuns expressões, anedotas e estórias abordando a rivalidade entre os paulistas e os cariocas. Ouvia todas elas atentamente sem tomar partido, já que não sou nem paulista nem carioca e nem os tenho como origem da família. Aliás, não consigo ver diferença alguma entre os brasileiros, exceto os sotaques regionais. Achava graça de muitas dessas piadas e constrangia-me com outras.

Uma das estórias era relativa à diferença entre um paulista – prolixo como ninguém – e um carioca, este último um cabra arretado que conseguia resumir em uma única frase toda uma complexa situação. Os dois estavam conversando sobre o acontecido a um amigo comum, o Francisco:

Paulista: “Você se lembra do Francisco? Pois é, veja a triste situação que o destino lhe preparou: semana passada flagrou a mulher toda sacudida na cama com o vizinho. Avançou sobre o Ricardão, mas levou uma traulitada no queixo tão forte que teve dois dentes quebrados. Saiu de casa desesperado, pegou o carro para procurar o Pronto Socorro, dirigiu doidão, derrapou, entrou na contramão e bateu no costado da ponte do Rio Pinheiros, quase destruindo o seu próprio veículo, além de amassar um outro que vinha calmamente na pista correta. Veio a Polícia e constatou que a sua carteira de motorista e o licenciamento do carro estavam vencidos. Foi multado e seguramente teria que reembolsar a Prefeitura pelo conserto da ponte. Constatou que o seguro não ia reembolsar nenhum prejuizo porque a apólice não havia sido paga. O policial, muito gentil e condoído pela sua situação, o levou até o Bradesco ali pertinho para sacar um dinheiro e pagar o dano causado ao outro motorista, quando verificou então que a mulher havia sacado todo o dinheiro da conta conjunta. Voltou ao local do acidente para encarar a dura realidade. Achou que tinha chegado ao fundo do poço e tentou se matar. Pulou da ponte, mas caiu exatamente em cima de uma barcaça que fazia a limpeza do rio, ficando estatelado no montão de lixo que foi tirado do rio e estava no convés da barcaça, quebrando duas costelas no choque. Rapaz, que coisa triste, né?”

Carioca: “Putz, o Chico sifu!”

Um certo dia no final do ano de 1973, este humilde escrivinhador, que conta tantas baboseiras a vossuncê, havia terminado de fazer um curso de extensão universitária sobre Economia para Engenheiros, quando então foi iniciado em vários conceitos econômicos.

Visitando meu pai, portador apenas do conhecimento técnico-científico que o curso primário lhe proporcionou, mostrei-lhe, todo orgulhoso e cheio de empáfia, como agora era conhecedor de leis econômicas que orientavam as decisões dos poucos que as entendiam. Falei-lhe, particularmente, da Lei da Oferta e da Demanda, que é conhecida no mundo inteiro. Expliquei-lhe detalhadamente todos os conceitos econômicos e estatísticos que estavam embasando a tão famosa lei. Fiz uma breve descrição da obra de Adam Smith, autor da célebre obra A riqueza das Nações – “O consumo é o objetivo e o desígnio único de qualquer produção”, provavelmente sendo o primeiro a se referir à correlação entre o consumo e a demanda. Mostrei-lhe ainda um gráfico sobre o assunto.

O senhor Miguel Bezerra, bocejando, olhou-me com aquele olhar de quem nada entende de assuntos acadêmicos, mas é doutor na escola da vida, e disparou seu torpedo de sabedoria:

– Meu filho, a única lei econômica que presta é a que diz que você não pode gastar mais do que ganha. Tudo isso aí que você está falando tão bonitamente vale tanto quanto o peido de um sapo.

Assunto encerrado! Meu pai, nascido potiguar, era espiritualmente mais carioca que paulista.

Bem, fiquei calado, baixei as orelhas, pus o rabo no meio das pernas e fui brincar com meu filho recém-nascido.

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UM ENCONTRO NA AVENIDA SÃO JOÃO

Existem tempos e encontros que são inesquecíveis. Ás vezes por serem maravilhosos e outras por serem um tiro de bazuca em nossa auto-estima.

Explico.

No início do ano de 1963 a vida se apresentava como uma tortura para nós, meu irmão Moacyr e eu, com tantas dificuldades financeiras e a dureza em se adaptar à vida na capital paulista. Vindos de pequenas cidades do interior do Brasil, pobres, sem dinheiro – estranho, mas parece que todos os pobres, exceto aquele descondenado, andam sem dinheiro – e ainda tontos com a dura realidade de que éramos apenas dois capiaus perdidos naquela imensa cidade, buscávamos um no outro um pouco da companhia humana que faz com que as pessoas se sintam gente no meio da solidão daquele mundão de concreto.

Assim, aos domingos nos encontrávamos e comíamos um cachorro quente com salada de batatas e um Crush que eram oferecidos a um preço bem baratinho na “Salada Paulista”, na Avenida Ipiranga – era a promoção da casa para atrair clientes em um dia de pouco movimento como o domingo.

Após lamber os últimos resquícios da salada e espremer a garrafa de Crush para ver se saía mais algum líquido de dentro, fazíamos o nosso passeio dominical: andar pela Avenida São João até o famoso prédio do Banco do Estado de São Paulo e voltar até a Avenida Ipiranga para tomarmos o ônibus de volta para a Cidade Universitária.

Em uma dessas ocasiões, já na volta do passeio, subindo a Av. São João e desfiando as pérolas do colar das nossas mágoas, eis que senão quando uma arretada morena lindíssima, esfuziante e sacudida, veio em direção ao meu irmão com um sorriso que iluminava o mundo, abrindo os braços e acelerando o passo correndo para abraçá-lo. Moacyr ficou paralisado. Mas o olhar da morena era brilhante e seu andar era tão certeiro em sua direção que isso derrubou todas as suas defesas antiaéreas. A sua face se iluminou, seus braços se abriram para receber o abraço da morena, o coração disparou e tudo indicava que esse seria o momento mais feliz de sua vida. Pensou que um milagre acontecia bem à sua frente.

Foi aí que deu merda.

Uma cotovelada no seu pescoço e um vigoroso E.A.V.C. (sigla tupiniquim para “Entusiasmante Atochativo Via Colateral”) quase o derrubou.

Um galalau de quase dois metros de altura, físico excepcionalmente bem curtido, e postado exatamente atrás do Moacyr, foi o responsável por tirá-lo do caminho aos tropeções. A morena estava se dirigindo ao Rambo e não ao meu irmão.

Agarrou a morena pelos braços e foram embora juntos com a maior felicidade.

Putz, podia pelo menos ter pedido desculpas!

A fossa, associada à dureza daqueles tempos, ficou mais funda que os poços do pré-sal da Petrobrás.

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NEVE NO TELHADO

Crônica dedicada aos meus colegas engenheiros fubânicos, cabras tão rebeldes quanto eu

A tecnologia americana é fantástica, e os engenheiros uns craques de cálculo! Será?

Os Estados Unidos foram agraciados com alguns dos melhores cérebros do mundo, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Albert Einstein é, seguramente, o melhor exemplo. Por outro lado, o “pai da astronáutica americana”, Wernher von Braun (Herr Wernher Magnus Maximilian Freiherr von Braun), o grande cérebro atrás do desenvolvimento das chamadas “bombas voadoras V-1 e V-2”, junto com outros engenheiros e cientistas alemães, foi levado rapidinho para os Estados Unidos, contra toda a burocracia americana, que impediria esses alemães de botarem o pé naquele país. Hoje sabemos que um punhado de gênios estrangeiros foi essencial para a criação e desenvolvimento da tecnologia espacial norte americana.
Lembro-me quando a União Soviética lançou o primeiro satélite artificial, o Sputnik (em 4 de outubro de 1957) e o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin (em 12 de abril de 1961). Logo em seguida o presidente John Kennedy deu uma bronca homérica nos diretores da NASA (fundada em 29 de julho de 1958 pelo presidente Eisenhower), indagando porque os russos estavam na frente da corrida espacial. Resposta dos diretores: “Os alemães deles são melhores do que os nossos!”

O caso é que hoje sabemos que a vida americana é extremamente baseada em “standards”, ou seja, está toda padronizada. Você não precisa pensar nada, alguém já pensou por você. Sua missão é seguir o que os verdadeiros cérebros já determinaram, consultar as tabelas e pronto. Assim, se você vai construir uma casa térrea, por exemplo, a parede externa deve ter 10 polegadas de espessura, a interna 6, o telhado deve ter uma inclinação de 30 graus, o cano de entrada d’água 1 polegada, e assim por diante.

Essas padronizações não são de hoje.

Em 1975, quando da construção da nova fábrica da Detroit Diesel no terreno da General Motors em São José dos Campos, SP, recebemos o projeto básico elaborado pela Engenharia da G.M. em Detroit. O que chamou a atenção, logo no início, foi a exagerada estrutura do telhado da fábrica. Pela nossa avaliação a estrutura de vigas de aço que suportariam o telhado da fábrica poderia ser grandemente reduzida em seu custo se utilizássemos vigas de 4 polegadas ao invés de 8, como nos desenhos americanos.

Questionamos então Mr. Tom C., o engenheiro chefe do projeto. A economia chegaria a quase um milhão de dólares. Mas Mr. Tom bateu o pé: tinha que ser assim mesmo, conforme definido pelos engenheiros americanos. Pedimos então para vermos os cálculos. No lugar deles veio uma explicação meio idiota: o padrão americano considerava que o telhado da fábrica deveria suportar 3 pés (quase 1 metro) de neve. Argumentamos que no Brasil não neva, a não ser por alguns dias no extremo sul, e mesmo assim a camada nunca passa de uns poucos centímetros. E particularmente em São José dos Campos nunca houve história de ocorrência de neve.

Convencido dessa realidade, Mr. Tom, totalmente embaraçado, resolveu então levar em conta apenas 1 pé (30,5 cm) de neve e determinou uma nova dimensão menor para as vigas.

Tornamos a questionar. Foi então que descobrimos que 1 pé de neve era o número mínimo que constava de sua tabela, e que deveria ser aplicada aos telhados dos estados da região sul dos Estados Unidos. A questão estava definida e pronto, sem mais discussões.

Em outras palavras, o engenheiro Tom sabia muito bem como ler as tabelas que existiam em seu manual, mas a dura realidade era que ele não tinha a menor idéia como calcular a espessura das vigas de aço… mas era o chefe da Engenharia.

Siga o padrão, não discuta e pronto! É assim que tem que ser!

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

AS PETÚNIAS E O PÔNEI

É muito estranho, para nós brasileiros, o conceito que os americanos têm da convivência com os vizinhos. Nem todos, claro, mas pelo menos os de alguns.

Em Flint, Michigan, nos Estados Unidos, vivia tranquilamente, na década de 1970, Mr. T. Carson e sua amável família: esposa e um casal de crianças. Nos primeiros meses de 1973 estava eu na região, frequentando um curso sobre Qualidade no General Motors Institute (hoje Kettler University). Nosso personagem trabalhava para a General Motors, e foi por ocasião do convite que me fez para a festa de aniversário de seu filho pequeno que presenciei a fuxicação que agora fuxico bem fuxicadamente com vossuncê.

A casa de Mr. Carson era vizinha da Igreja Batista que ele próprio frequentava. Nenhuma cerca física separava as duas propriedades, como é o padrão da grande maioria das casas americanas – hoje, com o incentivo à ladroagem promovido por alguns governos estaduais esquerdistas, as casas já estão mais cercadas do que antes. São os Estados Unidos copiando o Brasil.

Tanto sua casa quanto a igreja tinham um grande jardim gramado, tendo a igreja uma bonita e bem cuidada plantação de flores, incluindo aí umas belas petúnias, junto à entrada principal.

O que se assucedeu foi que Mr. Carson alugou um pônei para divertir a gurizada festejadora e dito pônei, sem informações geográficas precisas sobre as fronteiras entre a casa e a igreja, resolveu provar o gosto das petúnias do templo divino, apreciando tanto a novidade que exagerou um pouco na quantidade de petúnias desapropriadas do pastor.

Dito reverendo, mesmo sendo o orientador espiritual da família Carson, tão logo percebeu a sanha mastigatória do cavalinho não titubeou: chamou a polícia, que rapidamente acudiu ao chamado e, produzindo um boletim de ocorrência, convocou Mr. Carson a comparecer à Delegacia e, dessa maneira, permitir ao pastor iniciar um processo de reparação de danos contra sua ovelha.

Isso é o que considero um exemplo exemplar de solidariedade e compreensão humanas.

Até parece um antigo vizinho que tive em São Paulo, proprietário de uma oficina mecânica na mesma rua, que orientava seus clientes a estacionarem onde pudessem, incluindo aí a entrada da garagem de minha casa – e ainda ficava bicudo quando recebia minha reclamação.

Não fiquei sabendo do desfecho dessa história, mas o modo com que alguns americanos tratam essas questões ficam bulindo com meus conceitos de boa vizinhança até hoje.

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O REPRESENTANTE COMERCIAL BAIANO

A maravilhosa praia do Trancoso, Bahia

A Bahia, ah, a Bahia! Terra linda, cheia de praias maravilhosas, comida boa, povo alegre e hospitaleiro.

Trabalhar duro, na Bahia… bem, isso é outra conversa. Ou, pelo menos, é uma filosofia não totalmente adotada por alguns que vivem naquela abençoada terra. Como, por exemplo, o Representante Comercial da empresa para a qual eu trabalhava na década de 1990, o arretado e baianíssimo sr. Nestor M., muito simpático, falador, exímio contador de anedotas, brincalhão e apaixonado pelo Carnaval de Salvador.

Em 1996, com a saída do nosso Diretor Comercial, o Presidente da empresa me solicitou a ocupar inteirinamente aquele cargo e implementasse critérios técnicos para previsão das vendas de uma extensa e determinada linha de produtos de venda ao público, até então totalmente embasadas no brasileiríssimo e conhecido conceito científico de “eu acho que no próximo mês vamos vender tanto”.

A primeira coisa que implantei, com a ajuda de uma Consultoria de mercado, foi uma análise estatística do desempenho de cada uma das nove regiões em que dividíamos o território nacional: Grande São Paulo, Estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Região Sul, Região Nordeste, e assim por diante. Como estávamos em uma época de inflação desenfreada, a maior parte das vendas estava concentrada na última semana do mês, quando a ameaça de um aumento excessivo dos preços gerava uma corrida na colocação dos pedidos de compra para evitar os aumentos da primeira semana do mês seguinte.

Para minimizar isso, resolvemos adotar metas semanais de venda e não mais previsões mensais.

E assim, após uma reunião com todos os nove Representantes Comerciais, decidimos que as metas semanais já iriam vigorar na primeira semana do mês seguinte, todas com embasamento estatístico e unanimente aprovadas por todos e cada um, como diria um conhecido político do nosso país.

Fui acompanhando diariamente os bons resultados da nova filosofia.

Na quinta-feira tentei entrar em contato com o Nestor. Nada de atender o telefone. Várias ligações foram feitas, sem sucesso. Na sexta-feira tentamos alcançá-lo de novo. Nenhuma resposta. Passamos duas mensagens por fax, todas sem resposta. Nenhum dos funcionários da representação em Salvador sequer davam sinal de vida. Deus do céu, algo terrível deve ter acontecido.

Na segunda-feira bem de madrugada, segundo o conceito baiano (9 horas da manhã), Nestor atendeu, todo lampeiro e sacudido. Aleluia!

– Nestor, seu cabra desmantelado, estamos tentando entrar em contato consigo desde quinta-feira. Até para sua casa ligamos. Estamos todos preocupados. Que aconteceu?

– Não aconteceu nada de ruim meu rei! Aliás, pelo contrário, foi uma semana maravilhosa. Na quarta-feira fizemos uma boa venda e, com isso, já alcançamos a meta semanal que o senhor nos determinou. Portanto, dei folga a todos os funcionários pelo resto da semana e também aproveitei para visitar uns amigos muito queridos que vivem em Trancoso, onde passei quatro dias fantásticos.

Desnecessário dizer que nas três semanas seguintes as metas semanais não foram alcançadas, mas isso não carece de nenhuma importância.

A Bahia, ah, a Bahia!