FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

O verbo esperançar, recentemente reavivado em nossos meios de comunicação, nos relembra a necessidade de efetivar algumas pensações cotidianas, favorecendo novos comportamentos e iniciativas em prol de uma sociedade mundial que está a carecer de inúmeras superações, inclusive as das guerras travadas por lideranças asininas que ainda não sabem o que seja debater pacificamente seus problemas mais complexos.

Perguntado outro dia por um pai de adolescente rebeldemente ansioso por soluções imediatas, muitas delas sem pé-nem-cabeça, disse-lhe que iria expor pensares de quem muito intelectualmente estimo numa crônica dominical do Jornal da Besta Fubana. Eis alguns pensares de um cabra luso para lá de muito arretado de ótimo, por quem tenho uma admiração da gota, José Saramago (1922-2010), que assim pensava sem goga alguma: “Aonde vai o escritor, vai o cidadão”. E ele não se contentava em ser apenas eleitor e consumidor, sempre intervindo na vida pública, manifestando opiniões sobre temas conjunturais que mereciam seus louvores ou protestos.

Para o jovem filho do Zito, um pré-vestibulando ansioso e meio, eis alguns pensares do notável luso José de Sousa Saramago, Prêmio Nobel 1998:

“A amnésia é ruim para as pessoas e também para as sociedades. Temos de saber quem somos para viver com consciência de estar vivos. Continuamos perguntando e procurando.”
“Eu não acredito que se escreva por necessidade. Necessidade é comer e beber. Alguns levam tão longe o seu papel de escritores que dizem: se não escrever, morro. As pessoas têm a tentação de tornar as coisas mais interessantes, mais românticas. Criou-se a ideia do artista torturado, que finalmente não é um ser deste mundo. Um pouco raro, muito raro. Como se o artista e o escritor fossem uma espécie de deus condenado a criar.”

“O que eu digo é que tenho, como cidadão, um compromisso com meu tempo, com meu país, com as circunstâncias do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra.”

“A verdade é que vivemos numa sala de espelhos na qual tudo se reflete em tudo e é, por sua vez, reflexo de si mesmo,”

“A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina são o que formam o corpo desse esqueleto.”

“A pergunta fundamental das humanidades é o que é o ser humano, enquanto, para círculos empresariais e tecnocráticos que se ocupam da utilidade imediata, a pergunta é para que servem os seres humanos.”

“A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.”

“A gente não pode ser tratada como os resíduos da fabricação e atirada fora como tal. O sistema é que está em falência e o socialismo – que a meu ver não o era – também está em falência.”

“Em nenhum momento da História, em nenhum lugar do planeta as religiões serviram para que os seres humanos se aproximassem uns dos outros.”

“Enquanto formos incapazes de reconhecer a igualdade profunda de todos os seres humanos, não sairemos da desastrosa situação em que nos encontramos.”

“Eu não posso dizer em consciência que sou ateu, ninguém pode dizer, porque o ateu autêntico seria alguém que viveria numa sociedade onde nunca teria existido uma ideia de Deus, uma ideia de transcendência e, portanto, nem mesmo a palavra ‘ateu’ existiria nesse idioma.”

“Não há nenhuma dúvida de que a Terra acabará explodindo. Mas isso não é para amanhã. Porém precisamos é de um bom susto. Quem sabe assim acordamos para a ação redentora.”

As reflexões acima refletem o perfil de um talento luso pensante. E que resulta numa questão por demais irrespondível:

De quantos Saramagos o mundo necessitaria para desenvolver-se fraternalmente? Só depende nós!!!

2 pensou em “SARAMAGOTAS PARA REFLEXÕES

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