O projeto a ser enviado ao Congresso pelo Tribunal Superior Eleitoral para “regulamentar” redes sociais, tal como foi anunciado, pode nivelar o Brasil a países autoritários, de reduzido apreço por liberdades, como Rússia, China ou Irã.
Democracias em geral não relativizam o exercício da liberdade, sem prejuízo a punições de crimes previstos, como calúnia.
Críticos da teocracia iraniana são presos, e na Rússia de Putin cidadãos podem ser enquadrados por “crime contra a segurança nacional”.
Coreia do Norte e Turcomenistão baniram todas as redes. Em nenhum desses países a iniciativa de restringir as redes coube ao Judiciário.
Na China, até o acesso a sites estrangeiros é restrito e monitorado e a norma é criar versões “nacionais”, sob controle estatal.
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Um tribunal superior, que cuida de um assunto específico, eleições, enviando projeto de lei pro Congresso Nacional.
Pode isso, Arnaldo???!!!
A gente só acredita porque tá escrito.
E porque estamos no Brasil !!!!!
Vivemos num país presidido por um ladrão descondenado, em conluio com uma sigla maléfica que tem sede na Praça dos Três Poderes, frente a frente com o palácio do petralha.
É phoda!!!
É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!
A cachorra Xolinha, mascote do JBF, ficou de tabaca arrombada quando soube do projeto ditatorial que legaliza a censura
Vinicius de Moraes escreveu um belo poema, inesquecível, gravou-se em minha cabeça, em minha alma: “O Dia da Criação”, beleza esse pedaço:
“Impossível fugir a essa dura realidade Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas Todos os maridos estão funcionando regularmente Todas as mulheres estão atentas Porque hoje é sábado.”
Permiti-me e tive a audácia em pegar o gancho, escrevi esse pastiche dentro da ideia do poeta:
O sol se alevanta no horizonte imponente e deslumbrante, próprio de Majestade; como cenário a praia de Maceió paramentada de belos e altivos coqueiros. O Astro Rei surge acima do mar como fosse o nascimento de uma sangrenta criança, tingindo o céu e as nuvens de tons laranja. O fulgor de uma bela manhã penetra pelas brechas das janelas, por baixo das portas clareando quartos escuros, acordando os amantes que novamente se chegam às carícias, se beijam, se amam e voltam a dormir. Porque hoje é sábado.
Homens, meninos, velhos e mulheres, caminham pelo calçadão da orla respirando ar puro na cintilante manhã. Exercitando o corpo, mantendo a forma. Cruzam com amigos, misturam-se com os boêmios e os bêbados retardatários que vararam a madrugada e pegam o sol com a mão. Porque hoje é sábado.
As barracas de praia se alumbram recebendo a manhã e ainda abrigam os últimos boêmios da madrugada que repetem a penúltima saideira. Porque hoje é sábado.
A madame vestida de malha preta apertada, caminha elegante pela praia, desfilando com o cachorrinho de estimação, se achando uma ninfa cheia de charme. Porque hoje é sábado.
Na luminosa manhã, jangadeiros singram o mar azul turquesa esverdeado e tranquilo; alguns vão à pesca, outros levam turistas aos arrecifes com pitorescas piscinas naturais de águas cristalinas e levemente raiadas pelo Sol. Porque hoje é sábado.
Os bares, as barracas de praias de repente ficam atulhadas de homens, mulheres, casais, em volta das mesas ao ar livre, embaixo dos coqueiros. Bebem cerveja, cachaça e uísque, curtindo o mar e jogando conversa. Porque hoje é sábado.
Num barraco da Chã da Jaqueira, Severino, desempregado, sem teto e com fome, junto com mulher e cinco filhos se regalam deliciando uma galinha assada, roubada do quintal de uma casa de grã-fino. Porque hoje é sábado.
A Barraca Pedra Virada se enche de música e alegria, diverte os intelectuais, artistas, desocupados e cachaceiros. Porque hoje é sábado.
O figurão importante, depois de alguns uísques, solta a franga, desmunheca e alisa seus companheiros de mesa. Porque hoje é sábado.
Os adoradores do pôr-do-sol, com lata de cerveja numa mão e delicioso acarajé na outra, se deslumbram com sol alaranjando as nuvens e o mar, descendo lá para o fim do mundo para noite chegar. Porque hoje é sábado.
Nos motéis lotados, formam-se filas de carros esperando vaga de um apartamento para uma noite de amor. Porque hoje é sábado.
Na noite escura da praia da Avenida da Paz, Taís, morena bonita e empregada doméstica, abre as pernas ao sedutor e alegre, negro Biu, ambulante, poeta de cordel e cantor. Porque hoje é sábado.
A “Nova Rica”, mulher do brabo e velho político, avisa ao marido que vai ao shopping. Senta-se soberba no banco traseiro do carro de luxo, comprado com dinheiro do povo. Durante o percurso muda o itinerário e no melhor motel da cidade se abufela com o bem mais jovem motorista. Porque hoje é sábado.
No enorme hospital, a bonita enfermeira tem uma noite de amor proibido, com seu médico chefe e casado há trinta anos. Porque hoje é sábado.
Há um casamento, um defloramento e um acasalamento. Porque hoje é sábado.
Os homens em seus leitos de amor estão funcionando a pleno vapor. Alguns pelo vigor, outros com ajuda do doutor. Porque hoje é sábado.
Os boêmios se embriagam e se liberam. Os bares estão cheios de homens borrachos. As jovens de programa trabalham atendendo aos ansiosos clientes, e os namorados se beijam e se amam. Porque hoje é sábado.
Aproprio-me da ideia poética de Vinicius com descaramento. Porque hoje é sábado.
E finalmente há a expectativa do domingo. Porque hoje é sábado.
Nunca escondi a minha admiração pelo escritor português Fernando Pessoa, um legítimo poeta-aguilhão, que jamais se deixou mumificar nas torres de marfim de um intelectualismo sensaborão, contemplador do próprio umbigo, saudosista por excelência, desvinculado das dores dos seus derredores e do mundo. Suas intervenções na realidade cultural, social, econômica e política do seu tempo, cáusticas algumas, recheadas de humor triturante outras tantas, são minuciosamente analisadas, hoje, por cientistas sociais das mais variadas especialidades e graus acadêmicos. O que bem vem a demonstrar a contemporaneidade dos seus escritos em prosa e verso, ardorosos defensores de amanhãs menos miméticos da humanidade. No Recife, um talento pessoano merece amplos aplausos: José Paulo Cavalcanti Filho, integrante da Academia Brasileira de Letras.
Em setembro de 1928, num artigo publicado no Notícias Populares, Pessoa busca alertar seus patrícios acerca do provincianismo lusitano, considerado por ele “o mal superior português”. Um mal que também aflige outros países, “que se consideram civilizantes com orgulho e erro”. E alguns estados de alguns países latino-americanos de língua portuguesa, que se imaginam eternos líderes regionais, desapercebidos ingenuamente da chegada veloz de novos tempos e outros horizontes. Inclusive de tentativas fascistóides golpistas patrocinadas por manés aloprados, financiados por portadores de bons trocados.
Segundo o poeta luso, a síndrome provinciana se caracteriza por três sintomas: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e a incapacidade de ironia, na esfera superior.
O poeta explicando o primeiro dos sintomas, afirma que um parisiense não admira Paris, ele gosta de Paris. Não se pode admirar aquilo do qual se faz parte. “Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranoico com o delírio das grandezas”. Em São Paulo, segundo lá se fala, aos cardosenses – moradores do município de Cardoso – são atribuídos o uso e abuso de inúmeras práticas auto-ufanosas, algumas até grotescas, ainda que aplaudidíssimas pelos da corte de lá, os bajuladores de sempre.
Para o segundo sintoma, Fernando Pessoa é taxativo: “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção”. Traduzindo: quem já é civilizado, não necessita arrotar grandezas ridiculosas, vangloriando-se disso e daquilo, tal e qual um pavão de rabo muito lindo e pés nada charmosos. E por ser civilizado, comporta-se como os demais das outras áreas, sempre prescrevendo futuros, jamais desejando vê-los reproduzir coisas pretéritas, ultrapassadas e sem mais utilidade comunitária.
No sintoma terceiro, a incapacidade de ironia, Fernando Pessoa diz que aí reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Na definição do notável lusitano, por ironia “entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário”. Não muito recentemente, para se dar um exemplo, um presidente brasileiro disse que ia dar um banho no sertão do Nordeste. E um outro exemplo notável foi dado por Swift, considerado o maior de todos os ironistas. Durante uma fome cruel na Irlanda, ele propôs como solução, uma sátira brutal à Inglaterra: alimentar todos pela utilização de crianças de menos de sete anos. Com a maior seriedade possível, sem possibilitar ver, nas entrelinhas, a ironia mortal. Espera-se, com esta explicação, que ninguém pense, por aqui, que a proposta é verdadeira. Nem esculhambe a mãe de ninguém, por nada saber sobre o assunto.
Um exercício de primeira necessidade, eu recomendaria aos nordestinos mais civilizados, mormente os pernambucanos pensantes que estão numa luta feroz pelo soerguimento da imagem empreendedora do Leão do Norte, atualmente ameaçado de ficar castrado, banguela e sem rabo: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre a artificialidade do apenas progresso e sobre os arrotos grandiloquentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamúrias choramingueiras, sem nada de proveitoso.
No mais é continuar caminhando, buscando reerguer-se a cada amanhecer com a disposição de apanhar cada vez menos de manés e sacripantas, jamais abandonando a convicção do compositor Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.