JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ TORRADO EM CASA

Grãos crus de café

O som ainda está gravado na minha mente.

No final da tarde, quando o sol já estava frio, era normal escutar as batidas dos chocalhos dos bodes, cabras e cabritos, sendo “chiqueirados” para o pequeno curral improvisado. Os bodes continuavam ruminando algo comido fora do chiqueiro, enquanto os cabritos saltavam como se estivessem a comemorar alguma coisa.

Mas, os ouvidos captavam outros sons. É o tic-toc no pilão. Meu Avô pila os grãos do café que minha Avó acabara de torrar, após deixá-lo esfriar numa arupemba sobre o girau.

Um quilo de grãos de café cru, virava um quilo e trezentas gramas com o acréscimo da mangirioba.

Tic-toc!

Outras vezes, toc-toc!

Terminada aquela tarefa, o pilão era limpo e lavado. O cheiro e o gosto do café não podiam ficar. O pilão seria usado outras vezes, fazendo xerém para os pintos, ou tirando as cascas do arroz.

Café fumegante torrado no alguidá

Naqueles anos 50 e 60, já existia o moinho manual, mas nem todas as famílias podiam comprar. Era alto o valor, em que pese sua utilidade. Moía carne, moía pimenta e, às vezes moía também o café que alguns compravam já no ponto de moer. Na roça, esse luxo não chegara.

O pilão, esse sim, era usado todo dia. Para pilar várias coisas. Era como se “fosse da família”. Imagine. Um pedaço de pau com um buraco, sendo parte de uma família – apenas pela utilidade, claro.

Para alguns, o pilão era uma obra de arte que precisava ser encomendada, de acordo com as necessidades (e posses) dos usuários.

Pilão sendo usado na “pila” do café

O dia ainda não estava claro de todo. Mas, o galo cantou. E, na roça, quando o galo canta, as cabras e bodes começam a fazer barulho, não há como ficar deitado ou voltar a dormir. É hora de levantar.

Vovó, fazia tempo, estava acordada “apreparando” o café torrado no dia anterior. Café fresquinho – como ela própria falava – mas o dito cujo era quente e forte.

A mesa posta. Cuscuz (que também chamamos de “pão de milho”), tapioca, batata doce cozida, leite de cabra fervido, queijo de coalho de leite de cabra e uma “pratada” de macaxeira colhida no dia anterior. Era o café – e que nenhum idiota viajado, se metesse a chama-lo de “breakfast, petit-déjeuner ou desayuno”.

A Avó já fizera a sua etapa. Agora escolhia o feijão que, cozido, alimentaria a filharada, e os demais trabalhadores. A mistura ou o tempero do feijão era sempre: quiabo, maxixe, abóbora e, quando possível, algum osso da canela do boi, que meu Avô adorava por conta do tatano, que fazia questão de escorrer dentro do prato.

Café no bule mantém tradição sertaneja

O café torrado e pilado em casa era uma tradição entre nós. Os grãos, comprados crus, recebiam uma parcela de uma semente (mangirioba) que nunca vi em outro lugar. Era uma vagem pequena, semelhante a vagem da ervilha que, além de nós, que a colocávamos para aumentar a quantidade do café, era também preferida pelos caprinos. Por isso meu Avô nunca cortava. Pelo contrário. Plantava.

Esperta, minha Avó acrescentava a rapadura que, segundo ela, amenizava o amargo natural do café.

Ainda hoje, na roça ou em qualquer lugar, o café é uma forma de fazer amigos – mas, o café torrado em casa tem outro valor: “esse café foi torrado em casa, que minha comadre me enviou”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O FAROL!

“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Jangada improvisada de Dico

Hoje tentarei lhes contar uma pequena estória de Dico, cidadão cearense nascido em Pacajus, mais propriamente no povoado de Guaiúba. Raimundo na pia batismal, que a família transformou em “Dico” tão logo saiu do “gatinho” para o caminhar forte e seguro.

Entre o ver a luz da maternidade dada pela mãe, até o criar cabelos nos peitos e nas partes pudentas, Dico conhecia mesmo era a enxada, a foice – que manuseava com maestria – o machado e o rachar lenha para o consumo diário na cozinha. Tinha extrema habilidade, também, no pescar curumatás, traíras e piaus no Açude Novo.

Cresceu, namorou e “mexeu com o que não devia, antes do tempo” – e isso acabou lhe custando um casamento antes do dia e da hora marcada. Na roça, nos tempos em que os filhos obedeciam aos pais, era assim. Ajoelhou, tinha que rezar.

Certo dia Francisca passou mal. Chamaram a Dodoca rezadeira, e essa quase deixou o pé de arruda em esqueleto, de tantos tirar galhos com folhas – a arruda murchou de tanta reza, mas Francisca não melhorou. Dico foi aconselhado par levar Francisca para a cidade, onde certamente conseguiria resolver aquele problema intempestivo na vida deles.

Numa primeira visita a solução pareceu distante. Seria necessária uma estadia mais prolongada na capital, o que acabou proporcionando a mudança definitiva do casal – com os filhos – para encontrar a facilidade do atendimento médico.

Sem profissão, trabalhador da agricultura na Guaiúba, Dico mudou com família e tralhas para a capital. O dinheiro economizado durante dias, serviria para custear o tratamento e, caso necessário, a compra de medicamentos.

A solução imaginada por Dico para alimentar a família, foi a pesca. Inteligente, Dico improvisou uma jangada e foi ao mar. Foi pescar o dicumê da família.

O homem não conhecia nada do mar – que vira poucas vezes – e acreditou que tudo seria resolvido em poucas horas. Tudo parecia fácil na maré vazante. E, sozinho, Dico foi pescar. A poucos metros da arrebentação, se deixou levar. Não se deu conta que logo estaria distante da orla marítima. Se deixou levar.

Farol que orientou Dico

Dico tinha um sonho: queria pescar o maior “pirarucu” que alguém tivesse pescado algum dia.

As horas foram passando. A noite chegou e nada de Dico conseguir pescar o “pirarucu”, coisa que, inicialmente parecia fácil. Mas não era.

Longe da costa, sem uma lamparina – que não levara por achar que voltaria cedo com o maior pirarucu já pescado – as dificuldades só aumentavam. Nada de peixe. A preocupação, agora, era com a volta para casa.

A escuridão foi – finalmente – importante para que Dico, já desesperado, avistasse um farol que, pela distância sugeria a proximidade da orla marítima.

As luzes do farol acabaram ajudando Dico. Foi avistado por uma equipe de socorristas que, com muito trabalho lhe prestou ajuda e ajudou no resgate.

Um dos socorristas, atônito, perguntou:

– Ei siô, que bom que o encontramos. Fique tranquilo, vamos leva-lo para a orla. Conseguiu pescar muitos peixes?

Agradecido pelo socorro, Dico respondeu:

– Não. Não consegui pescar o meu “pirarucu”!

No que o socorrista, entre incrédulo e ansioso, acrescentou:

– É! “Pirarucu” o senhor jamais pescaria!

Sem entender, Dico perguntou:

– Por que?

Pirarucu, o gigante dos rios amazônicos

Ao que o socorrista respondeu:

– Senhor, vamos pra casa. O senhor queria pescar “pirarucu” no mar?

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EU GOSTO DE VER O PÔR DO SOL E DE CONTAR ESTRELAS

Pequeno Príncipe e a raposa olhando o pôr do sol

“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol”. (Antoine du Saint-Exupèry)

Jamais serei poeta.

Nada tenho contra esses privilegiados. Louvo-os!

Eu não sei fazer rima. Nem versos. Nem poesia.

Mas, a vida me ensinou a contar estrelas.

Já contei milhares delas.

Para cada uma, dei um nome – já tenho mais que um Cruzeiro do Sul.

Converso com elas. As estrelas.

Com algumas, até já convivi.

Com a limpidez do céu da noite, quando estou triste pego um caderninho e rabisco uma poesia……. minto!

Conto estrelas, quando estou triste.

Até a insônia me permite contar estrelas que vejo e cumprimento como fazem os beija-flores em voos rasantes de reconhecimento.

Conto estrelas, quando estou triste.

Em vários momentos, a insônia me entristece – por isso, conto estrelas.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa gostam de ver o pôr do sol, todo fim de tarde, a insônia me impõe a tristeza – por isso, conto estrelas.

Também!

Vem-vem – o poeta

Todo fim de tarde, quando muitos estavam vendo o pôr do sol – um verso poético que se repete em várias partes do mundo, com a mesma rima – olhando para onde o sol nasceu ao amanhecer, vejo aquela árvore com galhos secos e desfolhados, sem rima, mas poeticamente recebe a esperança no cântico do vem-vem.

Para entender cada verso e toda a rima daquela poesia, é preciso estar triste.

Vem-vem canta a minúscula ave, enchendo de esperança a tristeza de quem espera a chegada de alguém. Que, às vezes, não vem.

Como o céu nublado no fim de tarde que não permite ver mais um pôr do sol, ou a chuva que não permite olhar (e contar) estrelas, o vem-vem canta sem saber que alguém não vem.

Mas amanhã e depois, em muitos fins de tarde, o vem-vem vai fazer poesia.

Cantando!

Mãos fazendo a poesia da debulha do milho

A terra recebe a semente semeada. A terra ajuda a semente semeada a nascer e a crescer, dia após dia. Verso após verso – com a rima da chuva, faz o milagre poético da colheita. As etapas, são versos rimados em poesias conclusas. Em sementes.

A colheita é a poesia da multiplicação da semente.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa precisam do céu sem nuvens para que continuem vendo a cada fim de tarde o pôr do sol; e a insônia continue acontecendo para que aconteça a contagem das estrelas, a poesia da semente só terá rima em todos os versos, com o debulhar do milho.

Na debulha, mãos envelhecidas e calejadas transformam o semear, o nascer e o colher do milho em poesia.

Não.

Eu não sou poeta.

Eu não sei rimar.

Mas, a vida me ensinou a ver o pôr do sol, a contar estrelas e a debulhar o milho.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POR QUEM OS SINOS TOCAM?

Os sinos da Igreja

Tivemos a época do pombo-correio. Faz tempo isso!

Tivemos a época da comunicação por tambores (lembrem como, na revista de quadrinhos, Tarzan mandava mensagens e como essas mensagens eram divulgadas; lembrem, também, a forma de comunicação do Fantasma para Lothar e até para chamar Capeto, o cão de estimação).

Era assim, sim!

Foi assim!

Hoje, muita coisa mudou e foi substituída pela tecnologia. Nem sempre eficiente ou absorvida por todos.

A correspondência dos Correios já foi feita por pessoas montando cavalos; as contas dos impostos já chegaram nos lombos de animais.

Hoje, basta “baixar” os aplicativos no telefone celular e tudo se resolve.

Garrafas de leite e um saco com pães eram deixados no batente da porta de entrada. Ninguém se atrevia a mexer. Era isso que os pais ensinavam e os filhos, obedientes, aprendiam.

Os jornais também eram colocados por debaixo da porta.

Mas, nunca será tarde nem ofensivo para relembrarmos, nas casas das famílias de maiores posses, como a patroa chamava a empregada: usando um pequeno sino. Ou, como o entregador de leite avisava que estava no portão: por meio de um sino; ou como alguém chamava o atendimento, ao chegar numa residência: tocando o sino afixado ao portão.

Mas, o que mais nos comove e traz boas lembranças, era o sino usado para anunciar o início de mais uma aula nos colégios. Mais alegres ainda, ficávamos, quando o sino tocava para o final das aulas do dia. Tempos bons que não voltam mais.

Nos dias atuais, os sinos estão sumindo até das torres das igrejas. Sino virou relíquia, depois de ser usado por anos e anos.

Alguém lembra o Pregoeiro que vendia “chegadinha” (uma casca doce de trigo torrada que servia também para receber o sorvete) e como ele anunciava o produto vendido de porta em porta em muitos bairros de cidades brasileiras?

Hoje, por quem os sinos tocam?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ÚLTIMO BONDE

A última viagem do bonde

Londres, Paris, Rio de Janeiro ou São Luís, o desenho do destino será sempre o mesmo. Antes, anos que marcaram séculos, um dos mais tradicionais e poéticos meios de transporte.

Hoje, o romantismo da saudade. A falta que faz em algumas cidades. Outras, mantiveram as viagens dependuradas nas soleiras e a figura central do Motorneiro.

Até onde se sabe, em Londres, uma das primeiras ruas do Centro nobre a receber a circulação os bondes, foi a Pentonville Road, onde os primeiros testes aconteceram em 1883. Antes, haviam sido “puxados a cavalo”. Testados e aprovados, os bondes elétricos de Londres circularam de 1901 até 1952, quando foram extintos. Voltaram a circular a partir do ano 2000 e distribuem tradição e eficácia até hoje.

Em Paris, a Rue de Rivoli, próxima ao Louvre foi a premiada com a beleza desse meio de transporte.

Mas, os Arcos da Lapa, na área central do Rio de Janeiro continuam levando passageiros e turistas curiosos para Santa Teresa, onde hoje, infelizmente, vive o domínio dos traficantes de drogas.

Via de bondes montada sobre os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro

Eufrásio era o nome dele. Figura esguia, descendente de família portuguesa. Em Lisboa aprendeu com o avô a se intrometer com o transporte público e a condução de bondes. Garantia que o avô dirigira um bonde puxado por duas parelhas de bons cavalos.

Em São Luís, foi morador do bairro Anil, por anos servido por bondes, inclusive bondes puxados a cavalos.

Bom conversador, relembrava as épocas áureas de Lisboa, onde dizia pretender voltar – ainda que fosse para ser enterrado.

Mas, voltando à Londres. Ali na terra da Rainha Elizabeth, Eufrásio seria Motorman, Tram driver ou ainda Streetcar operator/driver, designação distante da poesia que impregnamos na saudade.

Nas proximidades do Louvre, Seu Eufrásio não passaria de um Wattman ou Conducteur de tramway a desfilar pelas ruas centrais da Cidade Luz.

E, se algum dia retornasse à Lisboa, voltaria a ser conhecido como Guarda-freio ou Condutor de elétrico. Mas, distante algumas horas de Lisboa, no bairro do Anil, em São Luís, jamais passaria do simples Seu Eufrásio.

Seu Eufrásio vestido com “roupa de gala”

Entretanto, o destino das pessoas é desenhado e escrito ainda no ventre materno. Tudo que fará e viverá já está decidido. Assim, um misto de homenagem com decepção que seria guardada até a volta ao barro – e nunca para Lisboa – estava reservado para Seu Eufrásio.

A homenagem: conduzir o último bonde em circulação em São Luís, não para Lisboa, mas para o “cemitério” localizado no campus da UEMA, onde jaz. E de lá nunca mais sairá.

A decepção: nunca mais teria a chance de olhar as palmeiras onde ainda ecoam os cânticos dos sabiás na Praça Gonçalves Dias, um dos trajetos oficiais garantidos dos bondes.

O último bonde “depositado” como ferro velho no campus da UEMA

Hoje, diferentemente de Londres, Paris e Lisboa, São Luís que está inserida de forma mentirosa no combate à poluição e teve representante na COP30 dispensou esse transporte “despoluidor” e sepultou definitivamente o sonho do Seu Eufrásio, de um dia retornar em triunfo a Lisboa.

O emaranhado de trilhos que se estendiam do Anil e levavam ao Centro Histórico com passagens pela Praça Gonçalves Dias, já não nos permitem escutar o cântico dos sabiás.

Os trilhos estão soterrados pelo modernismo do asfalto, o sabiá parou de cantar, o último bonde está sendo destruído pela ferrugem e Seu Eufrásio, só Deus sabe onde está.

Os trilhos por onde passaram vidas, são hoje apenas lembranças

OBSERVAÇÃO: Fotos meramente ilustrativas – nada de reais.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS MEIZINHAS E AS ERVAS QUE NOS CURAVAM

Cheguei ao Maranhão, morando sempre na capital, São Luís em 1987. Nunca brinquei carnaval, já estava satisfeito com o carnaval do Rio de Janeiro, onde morei por vinte anos.

No Maranhão, o bumba-boi me fascinou e conquistou. Me habituei a ir até aos muitos ensaios, sem preferência de sotaque (sotaque, aqui, significa a linha cultural e o ritmo a serem seguidas e apresentadas).

Dito isso, preferi curtir o carnaval em casa: lendo, dormindo e acordando. Acho que ganhei!

Na tarde de quarta-feira, 18, mudei de atitude e fui ao Shopping tomar um café, e espairecer. Café expresso, que gosto muito, acompanhado com uns pães de queijo, que também aprecio.

No playground do shopping (vejam: quatro palavras, duas de origem inglesa no nosso dia-a-dia de brasileiros), para saborear o café, estrategicamente sentado observei que, num espaço cheio de umas bolinhas plásticas, um menino sofreu um pequeno acidente, e logo surgiu um trauma. A mãe (ou Babá) ficou atarentada e aparentemente sem saber o que fazer. Pegou o celular e falou com alguém. Depois de desligar o telefone, saiu apressada para garantir o atendimento à criança.

Passada aquela cena, continuei saboreando o café com os pães de queijo – e foi aí que me vieram à mente cenas da infância, e quando sofria algum acidente. Se o trauma provocasse sangramento, eu mesmo punha areia sobre o machucado e continuava brincando. Na capital, minha mãe me socorria com o nosso maravilhoso merthiolate.

Ardia, o merthiolate?

Puta que pariu! Como ardia! Era pior que sofrer o acidente.

Mas, a cena que me veio à mente, não foi estando na capital. Era no interior, na casa da minha milagrosa Avó!

Se o trauma provocasse apenas um “dedo desmentido”, a solução era o emplastro de mastruz (ou mastruço), que curava em menos de 24 horas. O leite de jasmim ou pó de café também eram usados.

Mastruz a erva milagrosa

“Mastruz (Mastruço) Dysphania ambrosioides – é uma espécie de planta com flor pertencente à família Amaranthaceae. É popularmente conhecida como erva-de-santa-maria, mentruz, mastruz, mastruço, chá-do-méxico, erva-formigueira, lombrigueira ou quenopódio. É uma planta de porte herbáceo que possui ampla distribuição pelo Brasil e outros países da América Latina. A espécie possui diversas propriedades biológicas muito utilizadas na medicina popular para tratamento de humanos, destacando-se as atividades vermicida, anti-inflamatória e cicatrizante.”

Das Queimadas – povoado pertencente a Pacajus (município cearense onde nasci) – até a margem da BR por onde passavam os ônibus que levavam à Fortaleza, precisávamos caminhar cerca de 20 léguas, numa estrada de areia fofa que nos obrigava a retirar os calçados. Precisávamos lavar os pés, quando atingíssemos a margem da BR.

Melhor não sacrificar ninguém com essa caminhada (entendia e decidia minha anafabeta Avó), o que a obrigava a recorrer, sempre, às “meizinhas”. Meizinhas, nada mais era que providências e curativos inventados e seguidos entre nós: e que nos curava de tudo.

As meizinhas curavam até soluço. A melhor meizinha para curar soluço, lembro bem, era provocar um “susto” ao acometido.

Plano de Saúde era coisa do mundo da lua. Cirurgia, ninguém conhecia. E, muitas vezes, a melhor meizinha para certas doenças, era a morte. O falecido gosaria da eternidade divina.

Melhor lugar que muitos foram, e, de tão satisfeitos, nunca voltaram.

Mutamba ou mutambo afrodisíaco e antidiarréico

Mutamba (Mutambo) – (Guazuma ulmifolia), da família Malvaceae, é uma árvore nativa da América Latina usada na medicina popular para tratar problemas digestivos (diarreia, cólicas), quedas de cabelo, diabetes e como adstringente, anti-inflamatório e antioxidante, sendo usada em chás e loções capilares, mas seu uso deve ter orientação profissional. A Guazuma ulmifolia é espécie arbórea pioneira, integrante da familía Malvaceae, conhecida no Pará como embira e mutamba-verdadeira, no Rio Grande do Sul como embiru, na Bahia como periquiteira (daí a certeza de ser afrodisíaca), no Mato Grosso como envireira e pau-de-bicho e em São Paulo como araticum-bravo, cabeça-de-negro e guaxima-torcida, é uma árvore que ocorre nativamente do México ao Brasil. Ela é encontrada em todos os estados brasileiros nos domínios fitogeográficos: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga em vegetações de área antrópica, floresta de terra firme, Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila e Floresta Ombrófila Mista. A planta possui diversos usos, incluindo como forragem animal e em preparos para alimentação humana e medicina tradicional.”

Tadalafila, ninguém conhecia. Ainda mais naqueles cerrados onde até o diabo perdera as botas (tirou-as para caminhar no areal e esqueceu nunca se soube onde).

Mas, alguém sempre teve a meizinha certa para alguns casos. Minha Avó. A figura era mestra nessas coisas.

Quando meu Avô estava cansado e sem “coragem” (aqui tem o sentido de “sem tesão”, mesmo. Vontade de nhanhar), minha Avó preparava uma gemada de ovo de galinha caipira com o chá da folha da mutamba. Era tiro e queda. Vovó saía pela casa pedindo socorro e procurando o cachimbo para ir fumar na latada fronteiriça da casa.

Cravo-da-India – O cravo é uma especiaria originária da Indonésia, muito apreciado na culinária e muito presente nas masalas, a parte consumida é chamada de botão floral, que é usada como tempero e chá. Possui aroma intenso e sabor marcante e uma especiaria muito versátil para preparos doces e salgados. O seu uso em sobremesas remonta de um antigo hábito, está relacionado ao poder repelente para impedir a invasão de formigas. Seus benefícios são associados a bons estímulos digestivos e a uma marcante propriedade bactericida e fungicida. Analgésico: O óleo de cravo contém um composto chamado eugenol, que tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias. Por esse motivo, o cravo-da-índia é frequentemente usado para aliviar dores de dente e gengivas. Bactericida: O cravo pode ajudar a combater bactérias nocivas quando aplicado topicamente, como na limpeza de feridas ou em tratamentos naturais para infecções cutâneas. Fungicida: O cravo também possui propriedades antifúngicas, pode ser usado no tratamento de infecções fúngicas, como pé de atleta ou micoses de unha.

Cravo-da-índia – Muito usado na medicina popular e na culinária

Nas férias escolares, quando íamos para a casa da Vovó levávamos nossos produtos de assepsia pessoal. Sabonete e creme dental Eucalol. Colgate ainda não existia, muito menos o Kolynos. Mas, lembro bem, já existia o sabonete Phebo. Apesar disso, banhos no açude tinham o auxílio do sabão Pavão. O dentifrício, quando acabava, usávamos a raspa do juazeiro ou folhas de melão São Caetano.

Mas, como o assunto é “meizinhas”, nas aflições com dentes estragados que doíam, Vovó fazia uma gororoba com cravo-da-índia, embebia num pedaço de algodão e punha na “panela” do dente. Era como se fosse uma anestesia.

E… por que, dor de dente em criança ataca sempre durante a noite?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“QUANDO TU IAS PARA OS CAJUS, EU JÁ VINHA COM AS CASTANHAS”: RAIMUNDA BURETAMA

Cajueiro “carregado” de cajus

A Natureza é pródiga. É algo divino, e, felizmente, nada tem a ver com a vontade dos homens. Assim, quando termina o inverno e se inicia a primavera, em meados de agosto e setembro, no sertão, na caatinga ou em qualquer parte do planeta, tem início a floração dos cajueiros. A árvore que, às vezes, por mais de um mês frutifica com a castanha e o caju. No Ceará, nunca atrasa. Ainda que não aconteça o inverno.

Durante anos, criança ainda, imaginava que o fruto do cajueiro era o caju. Depois, com os avós e pessoas mais antigas, fui cientificado que, o fruto do cajueiro não é o caju. É a castanha. Prova disso é que, se alguém semear um caju, o cajueiro nunca vai nascer. Mas, em local adequado, plante a castanha e o resultado virá.

Início da torração da castanha

A castanha tem início na fase embrionária. No Ceará, rotulamos esse embrião com o nome de “maturi”, que provavelmente tem origem indígena. O “maturi” nada mais é que a castanha verde, repito, em fase embrionária.

Durante dias, o “maturi” se desenvolve e dá sustentação ao caju, com várias espécies e coloração (amarela, róseo ou vermelha).

De forma artesanal, castanha e caju servem de alimento, muito rico em Vitamina C – nos anos da década de 50, um empreendedor desenvolveu a Fazenda Jandaia que, no Ceará, criou o suco de caju (da polpa) e “descobriu” mais uma utilidade do fruto e da polpa. Antes disso, indígenas já usavam o conjunto como fonte alimentícia. Uma mistura do suco, de forma não industrializada, com a castanha assada. A essa mistura deram o nome de “mocororó”. Durante anos, no período da safra de cajus e castanhas, o “mocororó” funcionou como único alimento de muitos.

Castanha assada sendo descascada

Floração iniciada, “maturis” desenvolvidos, cajus maduros e, claro, castanhas secas.

Mas, percebia-se a ausência de um dos componentes daqueles momentos especiais: a criançada. As férias escolares estavam distantes, e, 7 de setembro, Dia de Finados e 15 de novembro não tinham os “feriadões” criados, como atualmente, num país que precisava se desenvolver. A solução dos pais e/ou avós, era juntar as castanhas para assá-las nas férias escolares das crianças.

Finalmente chegava o mês de dezembro. Com ele, as férias escolares. A safra anual dos cajus terminara, mas as castanhas, os verdadeiros frutos do cajueiro foram juntadas para a festa da chegada.

Alguns, nas sombras das árvores, improvisavam o jogo do “quila” ou do “castelo” – a uma distância regulamentada era colocada isoladamente uma castanha pequena, de onde os jogadores tentavam acertá-la e derrubá-la. O prêmio: o amontoado de castanhas que se formava ao redor do alvo.

Afastado dali, algum adulto continuava assando as castanhas.

Quem nunca comeu, procure comer peixe salgado (no Maranhão, dá-se o nome de “peixe salpresado”) temperado com castanha de caju assada e socada no pilão.

Uma festa que justificava a fala de minha Avó: “Quando você ia para os cajus, eu já vinha com as castanhas”, assadas e descascadas.

Castanhas de caju assadas e descascadas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

REINÍCIO DAS AULAS: ESCOLAS PÚBLICAS NORMAIS E ESCOLAS CÍVICO-MILITARES

Crianças cantam o Hino Nacional nas escolas

O mês de fevereiro marca a volta às aulas nas escolas do ensino brasileiro. Em algumas escolas, por desleixo administrativo dos governantes, via de regra as reformas físicas dos prédios e salas de aulas (pintura da pior qualidade, instalação de ar refrigerados, troca de carteiras/cadeiras), essas providências acabam atrasando o reinício das aulas.

Com certeza, isso nunca ocorre com as escolas públicas cívico-militares. O regime de disciplina vivido pelas instituições militares, também é implantado nessas escolas de iniciação.

“O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), instituído pelo Decreto nº 10.004/2019, foi revogado em julho de 2023 pelo Decreto nº 11.611/2023, encerrando a política federal de implementação desse modelo www.gov.br. Atualmente, a responsabilidade sobre o modelo tornou-se descentralizada, com estados (como SP via LC 1.398/2024) adotando legislações próprias.”

Por que isso?

Para que isso?

Não conheço um único pai (ou mãe, que seja cabeça da família) que não queira o sucesso do (a) filho (a).

Mas, por que os pais, principalmente das regiões Norte e Nordeste, envolvidos até o último fio de cabelo com os programas sociais de alinhamento esquerdista, são contra as escolas (e a matrícula dos filhos) cívico-militares?

Disciplina e organização na escola cívico-militar

Há um grande engano dos pais que, em matriculando filhos nas escolas cívico-militares, esses seguirão o caminho da formação militar – o que muitos detestam.

Eis que surge outra pergunta:

Qual escola brasileira, federal, estadual ou particular prepara e profissionaliza melhor que o ITA (Instituto Militar da Aeronáutica) ou o IME (Instituto Militar de Engenharia) – sem a obrigatoriedade de que o concludente se torne um militar?

Respondo eu mesmo: nenhuma!

Dupla de alunos na escola pública

O que se conclui é que, entre os pais, existe uma conivência com a subserviência e com as políticas desenvolvidas pelo governo de esquerda que, não neguemos, investe na má formação da criança e do adolescente, apostando, que na vida adulta formou mais um esquerdista e dependente dos nefastos programas sociais.

Para o pai esquerdista que depende dos projetos sociais, cantar o Hino Nacional do Brasil, é uma desonra. É uma submissão ao equivocado rótulo de “extrema direita”!

Com os meus botões e de livre pensar, tenho certeza que o esquerdismo e seus projetos nada mais são que uma estrada aberta para o consumo de drogas e práticas ilícitas.

Alunos de escola particular na rotina das agressões físicas

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Eis que, atualmente em fase de conclusão, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Projetos Agropecuários) desenvolve um estudo para a utilização da “cannabis” – mas, explicitamente com objetivos e fins medicinais.

Os esquerdopatas vêem esses estudos conclusivos com outros olhos – e isso os leva a acreditar que esse estudo está intrinsecamente ligado à liberação da maconha pelas instituições legislativas.

Mas, reconheçamos, a liberação jamais significará uma autorização para o livre consumo com intenções e interesses da prática de crimes.

Pelo sim ou pelo não, as aulas começaram no início de mais um ano letivo que, nas escolas públicas municipais, estaduais e universidades estaduais e federais, os professores e estudantes continuarão descolorindo o cabelo, cobrindo o corpo com tatuagens que não dizem nada e, pasmem, com a garantia universitária de que, traficante e criminoso se combate é com uma simples pedra – à moda Davi contra Golias.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O JUAZEIRO DAS QUEIMADAS

O juazeiro e sua sombra magnífica

Por ali, e pode-se afirmar com segurança, ninguém tinha conhecimento de quem plantara aquele juazeiro. Havia quem apostasse que, muitos anos atrás, antes mesmo de Queimadas ser considerado um povoado, algum animal silvestre poderia ter trazido a semente que, brotando produziu a árvore de frutos comestíveis e úteis na medicina informal.

O que se sabe – e algumas pessoas mais idosas viveram para contar e garantir a veracidade – é que, aquela sombra maravilhosa foi o primeiro e único “mercado onde se reuniam e reúnem” pessoas que ali vão para vender e comprar seus mantimentos alimentícios.

Um toco de cajueiro serviu de apoio para muitos cortarem suas porções de carnes de bodes e bois ou vacas; servia, também, para o corte de camurupins e até para escamar curumatás e traíras. Nunca alguém teve a coragem de limpar aquele toco – moscas, formigas e até ratos faziam banquetes dos minúsculos pedaços de alguma carne.

As feiras, ou encontros, aconteciam sempre aos domingos, ao clarear do sol. Criadores traziam suas criações (porcos e bodes) para abater ali mesmo. Muitas vezes, antes mesmo da missa dominical na Igreja São José, donas de casa já se postavam por ali esperando o abate dos animais – compravam do porco a cabeça e o fato e pechinchavam nos miúdos para completar o “sarrabui”.

A balança sempre foi um improviso. Os homens mereciam (ainda) confiança e até compravam para pagar depois. As carnes eram levadas em “fieiras” de folhas de carnaúba, colocada na parte traseira dos cambitos.

O comerciante que ficasse por último (era um acerto entre pessoas adultas e de respeito) fazia a varredura e a limpeza de tudo, espantando gatos e cachorros em preparação para os eventos vespertino e noturno.

Nas tardes e noites de sábados, cantorias e pelejas entre cordelistas. No mês de maio, tudo mudava. Era o mês de Maria e o mês das novenas organizadas pelas mulheres. Cada família levava seus assentos e os mais abastados se encarregavam de levar o candeeiro, as lamparinas e até as velas que acendiam até o fim. Tempos de muita Fé – muitos acreditavam que São José “mandaria” chuvas para garantir as safras de milho, feijão e principalmente mandioca.

As tardes e entrada pela boquinha da noite, sediavam as danças. Forró pé-de-serra, onde rapazes e cabrochas batiam virilhas naquele esfrega-esfrega no som produzido pelas sanfonas.

Certa vez, houve até um movimento para que o Padre Adail passasse a celebrar uma missa, pelo menos uma vez no mês, naquela frondosa sombra do juazeiro. Padre Adail pediu permissão para a Arquidiocese e, pelo que se sabe, até os dias de hoje a permissão não foi autorizada. Mas, novenas, podiam. Aqueles encontros para o novenário não passava de uma fervorosa demonstração de Fé cristã.

Mas, quando se quer, tudo se alcança.

Pelo menos uma vez no Mês de agosto ou setembro, de quatro em quatro anos, aquela frondosa sombra do juazeiro das Queimadas servia de ponto de encontro para as promessas politiqueiras dos candidatos a prefeitos.

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