JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“QUANDO TU IAS PARA OS CAJUS, EU JÁ VINHA COM AS CASTANHAS”: RAIMUNDA BURETAMA

Cajueiro “carregado” de cajus

A Natureza é pródiga. É algo divino, e, felizmente, nada tem a ver com a vontade dos homens. Assim, quando termina o inverno e se inicia a primavera, em meados de agosto e setembro, no sertão, na caatinga ou em qualquer parte do planeta, tem início a floração dos cajueiros. A árvore que, às vezes, por mais de um mês frutifica com a castanha e o caju. No Ceará, nunca atrasa. Ainda que não aconteça o inverno.

Durante anos, criança ainda, imaginava que o fruto do cajueiro era o caju. Depois, com os avós e pessoas mais antigas, fui cientificado que, o fruto do cajueiro não é o caju. É a castanha. Prova disso é que, se alguém semear um caju, o cajueiro nunca vai nascer. Mas, em local adequado, plante a castanha e o resultado virá.

Início da torração da castanha

A castanha tem início na fase embrionária. No Ceará, rotulamos esse embrião com o nome de “maturi”, que provavelmente tem origem indígena. O “maturi” nada mais é que a castanha verde, repito, em fase embrionária.

Durante dias, o “maturi” se desenvolve e dá sustentação ao caju, com várias espécies e coloração (amarela, róseo ou vermelha).

De forma artesanal, castanha e caju servem de alimento, muito rico em Vitamina C – nos anos da década de 50, um empreendedor desenvolveu a Fazenda Jandaia que, no Ceará, criou o suco de caju (da polpa) e “descobriu” mais uma utilidade do fruto e da polpa. Antes disso, indígenas já usavam o conjunto como fonte alimentícia. Uma mistura do suco, de forma não industrializada, com a castanha assada. A essa mistura deram o nome de “mocororó”. Durante anos, no período da safra de cajus e castanhas, o “mocororó” funcionou como único alimento de muitos.

Castanha assada sendo descascada

Floração iniciada, “maturis” desenvolvidos, cajus maduros e, claro, castanhas secas.

Mas, percebia-se a ausência de um dos componentes daqueles momentos especiais: a criançada. As férias escolares estavam distantes, e, 7 de setembro, Dia de Finados e 15 de novembro não tinham os “feriadões” criados, como atualmente, num país que precisava se desenvolver. A solução dos pais e/ou avós, era juntar as castanhas para assá-las nas férias escolares das crianças.

Finalmente chegava o mês de dezembro. Com ele, as férias escolares. A safra anual dos cajus terminara, mas as castanhas, os verdadeiros frutos do cajueiro foram juntadas para a festa da chegada.

Alguns, nas sombras das árvores, improvisavam o jogo do “quila” ou do “castelo” – a uma distância regulamentada era colocada isoladamente uma castanha pequena, de onde os jogadores tentavam acertá-la e derrubá-la. O prêmio: o amontoado de castanhas que se formava ao redor do alvo.

Afastado dali, algum adulto continuava assando as castanhas.

Quem nunca comeu, procure comer peixe salgado (no Maranhão, dá-se o nome de “peixe salpresado”) temperado com castanha de caju assada e socada no pilão.

Uma festa que justificava a fala de minha Avó: “Quando você ia para os cajus, eu já vinha com as castanhas”, assadas e descascadas.

Castanhas de caju assadas e descascadas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

REINÍCIO DAS AULAS: ESCOLAS PÚBLICAS NORMAIS E ESCOLAS CÍVICO-MILITARES

Crianças cantam o Hino Nacional nas escolas

O mês de fevereiro marca a volta às aulas nas escolas do ensino brasileiro. Em algumas escolas, por desleixo administrativo dos governantes, via de regra as reformas físicas dos prédios e salas de aulas (pintura da pior qualidade, instalação de ar refrigerados, troca de carteiras/cadeiras), essas providências acabam atrasando o reinício das aulas.

Com certeza, isso nunca ocorre com as escolas públicas cívico-militares. O regime de disciplina vivido pelas instituições militares, também é implantado nessas escolas de iniciação.

“O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), instituído pelo Decreto nº 10.004/2019, foi revogado em julho de 2023 pelo Decreto nº 11.611/2023, encerrando a política federal de implementação desse modelo www.gov.br. Atualmente, a responsabilidade sobre o modelo tornou-se descentralizada, com estados (como SP via LC 1.398/2024) adotando legislações próprias.”

Por que isso?

Para que isso?

Não conheço um único pai (ou mãe, que seja cabeça da família) que não queira o sucesso do (a) filho (a).

Mas, por que os pais, principalmente das regiões Norte e Nordeste, envolvidos até o último fio de cabelo com os programas sociais de alinhamento esquerdista, são contra as escolas (e a matrícula dos filhos) cívico-militares?

Disciplina e organização na escola cívico-militar

Há um grande engano dos pais que, em matriculando filhos nas escolas cívico-militares, esses seguirão o caminho da formação militar – o que muitos detestam.

Eis que surge outra pergunta:

Qual escola brasileira, federal, estadual ou particular prepara e profissionaliza melhor que o ITA (Instituto Militar da Aeronáutica) ou o IME (Instituto Militar de Engenharia) – sem a obrigatoriedade de que o concludente se torne um militar?

Respondo eu mesmo: nenhuma!

Dupla de alunos na escola pública

O que se conclui é que, entre os pais, existe uma conivência com a subserviência e com as políticas desenvolvidas pelo governo de esquerda que, não neguemos, investe na má formação da criança e do adolescente, apostando, que na vida adulta formou mais um esquerdista e dependente dos nefastos programas sociais.

Para o pai esquerdista que depende dos projetos sociais, cantar o Hino Nacional do Brasil, é uma desonra. É uma submissão ao equivocado rótulo de “extrema direita”!

Com os meus botões e de livre pensar, tenho certeza que o esquerdismo e seus projetos nada mais são que uma estrada aberta para o consumo de drogas e práticas ilícitas.

Alunos de escola particular na rotina das agressões físicas

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Eis que, atualmente em fase de conclusão, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Projetos Agropecuários) desenvolve um estudo para a utilização da “cannabis” – mas, explicitamente com objetivos e fins medicinais.

Os esquerdopatas vêem esses estudos conclusivos com outros olhos – e isso os leva a acreditar que esse estudo está intrinsecamente ligado à liberação da maconha pelas instituições legislativas.

Mas, reconheçamos, a liberação jamais significará uma autorização para o livre consumo com intenções e interesses da prática de crimes.

Pelo sim ou pelo não, as aulas começaram no início de mais um ano letivo que, nas escolas públicas municipais, estaduais e universidades estaduais e federais, os professores e estudantes continuarão descolorindo o cabelo, cobrindo o corpo com tatuagens que não dizem nada e, pasmem, com a garantia universitária de que, traficante e criminoso se combate é com uma simples pedra – à moda Davi contra Golias.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O JUAZEIRO DAS QUEIMADAS

O juazeiro e sua sombra magnífica

Por ali, e pode-se afirmar com segurança, ninguém tinha conhecimento de quem plantara aquele juazeiro. Havia quem apostasse que, muitos anos atrás, antes mesmo de Queimadas ser considerado um povoado, algum animal silvestre poderia ter trazido a semente que, brotando produziu a árvore de frutos comestíveis e úteis na medicina informal.

O que se sabe – e algumas pessoas mais idosas viveram para contar e garantir a veracidade – é que, aquela sombra maravilhosa foi o primeiro e único “mercado onde se reuniam e reúnem” pessoas que ali vão para vender e comprar seus mantimentos alimentícios.

Um toco de cajueiro serviu de apoio para muitos cortarem suas porções de carnes de bodes e bois ou vacas; servia, também, para o corte de camurupins e até para escamar curumatás e traíras. Nunca alguém teve a coragem de limpar aquele toco – moscas, formigas e até ratos faziam banquetes dos minúsculos pedaços de alguma carne.

As feiras, ou encontros, aconteciam sempre aos domingos, ao clarear do sol. Criadores traziam suas criações (porcos e bodes) para abater ali mesmo. Muitas vezes, antes mesmo da missa dominical na Igreja São José, donas de casa já se postavam por ali esperando o abate dos animais – compravam do porco a cabeça e o fato e pechinchavam nos miúdos para completar o “sarrabui”.

A balança sempre foi um improviso. Os homens mereciam (ainda) confiança e até compravam para pagar depois. As carnes eram levadas em “fieiras” de folhas de carnaúba, colocada na parte traseira dos cambitos.

O comerciante que ficasse por último (era um acerto entre pessoas adultas e de respeito) fazia a varredura e a limpeza de tudo, espantando gatos e cachorros em preparação para os eventos vespertino e noturno.

Nas tardes e noites de sábados, cantorias e pelejas entre cordelistas. No mês de maio, tudo mudava. Era o mês de Maria e o mês das novenas organizadas pelas mulheres. Cada família levava seus assentos e os mais abastados se encarregavam de levar o candeeiro, as lamparinas e até as velas que acendiam até o fim. Tempos de muita Fé – muitos acreditavam que São José “mandaria” chuvas para garantir as safras de milho, feijão e principalmente mandioca.

As tardes e entrada pela boquinha da noite, sediavam as danças. Forró pé-de-serra, onde rapazes e cabrochas batiam virilhas naquele esfrega-esfrega no som produzido pelas sanfonas.

Certa vez, houve até um movimento para que o Padre Adail passasse a celebrar uma missa, pelo menos uma vez no mês, naquela frondosa sombra do juazeiro. Padre Adail pediu permissão para a Arquidiocese e, pelo que se sabe, até os dias de hoje a permissão não foi autorizada. Mas, novenas, podiam. Aqueles encontros para o novenário não passava de uma fervorosa demonstração de Fé cristã.

Mas, quando se quer, tudo se alcança.

Pelo menos uma vez no Mês de agosto ou setembro, de quatro em quatro anos, aquela frondosa sombra do juazeiro das Queimadas servia de ponto de encontro para as promessas politiqueiras dos candidatos a prefeitos.

Coisas do Brasil que estamos construindo desde 22 de abril de 1.500.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NA PONTA DO LÁPIS

Apontando o lápis e fazendo contas

Nhanhar é bom (eu sempre gostei!). E nunca gostei de preservativo. Melhor “evitar” as consequências de outra forma. Nas horas de extrema necessidade mental, até a velha e quase esquecida masturbação, resolve.

Meu pai não conhecia e jamais fez uso dessas práticas modernas que muitos usam. Com minha mãe, gerou seis filhos (cinco machos e uma fêmea). As consequências, na prática, vieram depois.

Pois, nesse período do ano, depois de gastos extras (ainda não existia o décimo-terceiro – hoje existe até o décimo-quarto) com a enganação do Papai Noel descendo pela chaminé com uma sacola de presentes, vinha a preocupação obrigatória da compra do material escolar. E, não era apenas o material didático. Muitos precisavam comprar todo ano o fardamento escolar e os calçados – os meninos cresciam e os tamanhos do vestuário mudavam.

Hoje é diferente. O Governo dá tudo e nada pede em troca, pois Ele se contenta apenas com os votos no mês de outubro. Se o estudante aprende ou não, Ele entende que não lhe diz respeito. Mas diz. Ou, pelo menos deveria dizer.

Eis que surge uma pergunta: Se o Governo dá tudo (com exceção do bom ensino), por que os alunos não aprendem nada? E, nas escolas particulares, além do pagamento das mensalidades, os pais precisam fornecer papel higiênico e outros que tais. Mesmo o(s) filho(s) sequer entre num dos banheiros.

Países do primeiro mundo já estão voltando com as castanhas, quando o brasileiro ainda está indo apanhar os cajus. Aqueles países caíram na real e entenderam que o uso da tecnologia avançada para os alunos iniciantes, retira deles o “raciocínio” prejudicando a cognição do que é ensinado.

No Brasil, quanto menos o estudante raciocinar e aprender, melhor. Desde que ele alcance a idade estabelecida para votar.

Concluindo: os seis filhos do meu pai (Chico, Didi, Zé Alfredo, João, Jandira e Jorge) estudaram em escolas públicas, no tempo que ainda não se falava em Paulo Freyre (e damos graças à Deus) e o pai comprava tudo, somando na ponta do lápis.

Disciplina e aprendizado eram obrigatórios. Cantávamos o Hino Nacional, comemorávamos o Dia do Professor, o Dia da Árvore, o Dia do Estudante e, obrigatoriamente, desfilávamos em meio aos militares no dia 7 de Setembro.

Hoje fico lembrando do Chico (Oliveira Ramos) que, durante anos, manteve 6 filhos estudando no Maristas – e ali, nada era gratuito. Precisava calcular tudo na ponta do lápis.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A OSTRA

“Ostra é o nome comum usado para designar um número de grupos diferentes de moluscos que crescem, em sua maioria, em águas marinhas ou salobras. As ostras verdadeiras pertencem à ordem Ostreoida, família Ostreidae. As ostras têm um corpo mole, protegido dentro de uma concha altamente calcificada, fechada por fortes músculos adutores. As brânquias filtram o plâncton da água.

A ostra tem uma forma curiosa de se defender. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre o invasor impedindo-o de se reproduzir. Depois de cerca de três anos esse material vira uma pérola. Sua forma depende do formato do invasor e sua cor varia de acordo com a saúde da ostra.” (Informações científicas extraídas do Wikipédia)

Ostra limpa criada em ambiente adequado

A lua, uma das forças determinantes da Natureza, ao aparecer grande e luminosa nos céus, deixava que os experientes homens (e mulheres) que lidam com o mar – pescadores e afins – deduzissem que o amanhecer e o resto do dia seria complicado: a famosa Maré de Sizígia, fenômeno marítimo que produz ondas de até 12 metros.

Até os mais experientes pescadores e marisqueiros enfrentam dificuldades nesses dias excepcionais. Os pescadores sofrem mais, com suas embarcações, artesanais, na maioria das vezes.

O pescado vem, em algumas oportunidades em troca de vidas humanas. O consumidor do pescado reclama o alto preço, sem saber o que aquilo custou.

Ostra aberta com sua maravilhosa beleza – sal e limão ajudam fazer a festa

Mas, se por um lado a maré anormal prejudica os pescadores, por outro lado, beneficia os marisqueiros e as marisqueiras.

A maré volta com muita força após a rebentação. Em muitos lugares da orla marítima, tem o poder de “lavar” as encostas e facilitar, principalmente a vida dos catadores de ostras, sarnambis e tariobas – o sururu depende mais dos mangues, assim como os siris e os caranguejos.

Atualmente, com a orientação e o apoio logístico da EMBRAPA, ostras estão sendo produzidas em cativeiro, ainda que em pequena escala e em caráter experimental. Mas, é um bom começo.

A demora no crescimento da ostra é o que dificulta, pelo alto custo do investimento e a burocracia brasileira – isso sem contar a poluição das águas e a necessidade do alto investimento para a despoluição.

Há, entretanto, quem ouse apostar no crescimento do setor, haja vista a produção de bons pratos pela culinária brasileira, principalmente nos estados da Bahia, Ceará e Maranhão.

No Maranhão, poucos restaurantes trabalham com essa culinária e não existe, ainda, uma variação de oferta. São poucos os restaurantes que oferecem o prato.

Mas, o consumo é alto (e tem compensado a “pesca” pelos marisqueiros) na orla marítima, onde a ostra é vendida sem fiscalização de qualidade: os ambulantes vendem, em muitos casos, com atendimento artesanal e precário.

Ostra gratinada muito vendida e procurada no Maranhão

Claro que estamos falando da ostra pescada, ou tirada pelos marisqueiros no Brasil, e com alta tendência de produção em cativeiro quando houver compensação do investimento necessário para a produção (e/ou exportação) em larga escala.

Em pesquisa efetuada, descobrimos que, em outros países e mares despoluídos já existe produção em larga escala. E, segundo respostas, tem compensado o investimento.

Existe, também, já, produção em larga escala para produção de pérolas, com variedade de tamanho e de tons de coloração. Pérolas negras, por exemplo, que alcançam alto valor comercial.

Pérola encontrada em ostra brasileira

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PÔR DO SOL E AS UVAS VERDES

Gosto de subir ao ponto mais alto para ver o sol se por

Uuuuffffaaaa!

Estou chegando. Tem sido cansativo, mas, a Fé divina me move, acalenta e recompensa.

Jovem adolescente, inebriado pelas vantagens que aparecem nessa etapa da vida, namorei e me apaixonei. Embeveci e fiquei aberto como um flor com o néctar que atrai as abelhas.

Nessa etapa da vida, mal percebemos o quanto somos sensíveis e abertos para todas as coisas. Para o amor, por exemplo. Para tudo que imaginamos nos fazer bem. E, o amor faz bem em qualquer fase da vida.

Foi quando ganhei o primeiro presente material. Um livro. Longe dali, no Liceu o livro chegou no momento exato que, na sala de aulas, o professor nos ensinava a “interpretar textos lidos” – aprendizado aquele que hoje faz falta aos jovens que fingem estudar orientados por professores que fingem ensinar.

O presente veio de quem, como uma abelha que adoça nossas vidas, estava me conquistando. Ela era a abelha e eu o néctar da flor viçosa ávida pela êxtase que desconhecia, mas desejava sentir. Um livro. O Pequeno Príncipe. A instabilidade me fez sentir o próprio – e tudo se aproximava da fase leve da vida. Ela deixava momentaneamente de ser a abelha e se transformava numa raposa. Como no livro. Como na parábola. Como em qualquer pôr do sol dos envoltos e apaixonados.

Uuuufffffaaa!

Chegamos, juntos e caminhando e olhando na mesma direção – como deve ser sempre o amor: “caminhar e olhar na mesma direção para ver, juntos, o mesmo pôr do sol”.

O pôr do sol visto pelos apaixonados

Hoje, muito além daquela fase, aprendi que sempre gostei de ver o pôr do sol. Subir ao ponto mais alto da montanha da vida e, juntos, olhar o sol se pondo com todos as odes e letras de um poema. Talvez eu sempre tenha vivido apaixonado por mim mesmo.

No fundo, no fundo, acho que os que amam, amam também a si próprios. Amam a si, amam a família, amam a vida e são apaixonados pelas coisas divinas e da Natureza. São felizes!

Eu sou feliz!

Vivo, amo, divido até o que não tenho com a minha eterna raposa. Continuo dividindo o pôr do sol, visto do lugar mais alto da montanha.

As uvas não estavam verdes – elas eram verdes

Na subida da montanha, juntos, eu e a raposa, encontramos uma plantação. Nunca entendi que uva matasse a fome – e, eu e ela não estávamos famintos. Estávamos enamorados e procurávamos ver o pôr do sol. Continuamos a subida. Olhamos o poético pôr do sol, e voltamos.

Vimos o vinhedo. As uvas ainda estavam lá, no mesmo lugar.

Descobrimos que elas “não estavam verdes” quando subimos. Na descida percebemos que elas “eram verdes” – como todos os apaixonados e com objetivos (o nosso era caminhar, juntos, para ver o pôr do sol) definidos, só então entendemos que o amor empana as necessidades da vida.

Descemos até que alcançamos o lugar inicial da subida. Nos dividimos – e, ainda hoje estamos divididos.

Sós, gostamos de olhar e contar estrelas

Só. Estou só. Preferi assim – e não há arrependimento. Aprendi muito.

Momentaneamente me flagro no sopé da montanha. Me imagino subindo, encontrando as mesmas trilhas. Faço isso – agora só! – e encontro mais dificuldades. Talvez sejam os prêmios do aprendizado e da vida. As uvas, então, eram verdes. Alguém as comeu.

Chego ao topo, onde gostava de ver o pôr do sol. O sol já se pôs. Se escondeu ou deu um até amanhã, quando poderá ser visto por pessoas juntas.

Eu entendo. Aceito. Me contento em olhar e contar estrelas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ABAT-JOURS E LENÇÓIS

Cama em desalinho e abat-jour apagado

Ar controlado.
Condicionado,
Abat-jour quase apagado.

Lençóis desalinhados – corações disparados
Intimidades e corpos preparados.

Bocas amassadas, beijadas.
Mãos trêmulas, entrelaçadas
Genitálias intumescidas,
Eretas e umedecidas.

Ar controlado,
Condicionado,
Abat-jours quase aceso
Lençóis desalinhados – molhados
Corações acalmados, realizados.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

FULÔ DE CAJUEIRO

Floração do cajueiro

Queimadas, Pacajus, 1953: caminho de areia solta entre a BR-116 e as terras dos Albano e dos Nogueira. Meados de setembro, pico da fartura dos cajus frutos (aprendi, cedo, que o “fruto” é a castanha) que naquelas paragens salvou o ronco das barrigas de muitos.

No trecho do caminho de terra solta, a casa de Antônio Luciano, marido da minha tia Maria, irmã caçula da minha mãe.

Mais que de repente o cachorro late, como se fora uma campainha, avisando que tem estranho na porteira da cerca.

– Sinhá Maria, posso apanhar uns cajus?!

Tia Maria solta o alguidá de barro que estava lavando no jirau, e diz:

– Pudê, pode, minha fia – mais dêxe as castanhas, visse!

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor

Cajueiro velho amigo
Meu amor jurou em vão
Jurou se casar comigo
Se eu lhe desse o coração

Cajueiro não fulora
Também sente a minha dor
O meu bem me deu um fora
E com outro se casou

Cajueiro baixa a calha
Deixa o meu gato passar
Vou embora pra bem longe
Vou morar no Ceará”

Abdias do Forró

Era um dia de sábado. O sol já tava frio – e nós até já tinha bebido o café da tarde. Beiju de farinha no acompanhamento, com nata de leite passada. Pouco sal.

Vovó pegou a vassourinha e começou a varrer o enorme terreiro que Vovô havia brocado, limpando tudo. Agora, era a vez da Vovó fazê a limpeza. Na boquinha da noite, prumode não deixar cheiro de fumaça, Vovô ia fazê a coivara. Tinha que tá tudo limpinho. A gente ia recebê visitas. Vinha gente de longe.

Adispois de fazê a coivara, Vovô ia cuidar de acendê dois lampiões prumode luminá o local. A gente ia recebê visita. Vinha gente de longe.

Naqueles tempos a gente chamava de “cantoria”. Ninguém sabia o nome de nada. Repente, desafio, arenga de violeiros, galope à beira-mar, frege, fala de cordel. Tudo para nós era “cantoria”.

Na cozinha, Vovó fazia bules e mais bules de café. Adoçava com açúcar preto (mascavo). O café deixava sobre uma chapa de ferro colocada nas bocas do fogão a lenha. Fogo baixo. Prumode o café num esfriá nem esquentá demais.

Não tão longe dali, aproveitando a escuridão que dava boas vindas, as cigarras iniciavam sua ópera. Mais parecia mesmo, a “Ópera de Verdi”!

Pessoas convidadas para a “cantoria” começavam a chegar. Alguns deixavam suas montarias ao largo da área – sem esquecer de verificar se havia milho no saco atrelado à boca do animal.

– Noite!

Diziam os que chegavam.

– Noooiiite!

Respondiam os que haviam chegado antes, e os de casa. Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”

De repente, parecendo que havia sido combinado, as cigarras interromperam a ópera. As andorinhas pararam de ziguezaguear e a luz vinda dos dois lampiões brilharam mais. Os cantadores chegaram. A “cantonia” ia começar.

Antes do frege, Tia Maria, beata assumida que fazia parte da Congregação das Marianas, levantou e pediu licença:

– Gente, vamos ficar de pé, todos, e fazer a oração que Deus nos ensinou em agradecimento por estarmos todos juntos e com saúde: “Pai nosso que estás no céu…..”!

Sentados. Todos escutaram o agradecimento dos cantadores pelo convite feito pelos donos da casa e a boa receptividade demonstrada com a chegada deles.

E, como sempre fazem no cumprimento obrigatório da modas sertanejas e das cantorias:

“A alegria do filho correndo e gargalhando…
A paz de meditar nas obras de Deus…
O prazer do cuscuz, do café, da rede macia…
E a honra de trabalhar ao lado de poetas como Zé.”

“Ter cuscuz no meu prato pra comer,
Beber meia garrafa de café,
São as coisas que eu gosto de fazer.”

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”

Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LIMPANDO A CHAMINÉ

A chaminé está “pronta” para o Natal

Hoje, percebo e entendo que as coisas nunca foram fáceis para famílias pobres. Nunca foram fáceis, asseguro.

Dezembro chegava, e, aparentemente, tudo estava ligado à celebração natalina – no nosso caso de crianças, repercutia bem o sucesso na escola – a “reprovação” na escola era um mau sinal. Ouvíamos em chantagem, que Papai Noel não trazia presentes de Natal para quem não fosse “aprovado” na escola. Cheirava sim, a chantagem. Mas era assim.

Nossa casa tinha piso de tijolos de cerâmica, mas, sem o modernismo atual. Apenas a sala era forrada com tacos – que eu e alguns irmãos tínhamos a obrigação de encerar aos sábados. Só depois dessa “obrigação” estávamos liberados para a pelada com os amigos na rua. Era uma tarefa doméstica nossa.

O quarto era calçado com tijolos. Prevenida, minha mãe punha uma bacia grande debaixo de cada rede, para evitar que o “mijo” noturno alagasse o ambiente.

Papai Noel vai entrar pela chaminé

A “preparação” para a infalível visita do Papai Noel começava além dos bons resultados na escola. Atingia a expectativa do pagamento do mês de novembro (não existia o décimo-terceiro, e o pagamento do mês de dezembro só acontecia no princípio de janeiro. Depois do Natal.).

Como não tínhamos “chaminé”, ajudávamos na limpeza e pintura da casa. A tinta usada nos dias atuais, também não existia. Usávamos “cal”, que substituía a fase anterior à pintura. Começava ali a “união” da família na busca de um Feliz Natal.

O bom velhinho com dificuldades para entrar

Até hoje não consegui descobrir o que a nossa Mãe nos servia em forma de chá, para que dormíssemos, e não víssemos a entrada triunfal do Papai Noel pela chaminé. Há quem afirme que era “chá da ansiedade”, ou, em algumas vezes, o chá do “vai dormir menino” temperado com o açúcar da autoridade materna.

As mães dos dias de hoje são diametralmente diferentes. Não mandam “pn” nos filhos. Ao contrário – paparicam, plantando a semente da desobediência, da falta de respeito com todos na vida adulta.

As antigas mães tinham tanta autoridade diante dos filhos, que, só recorriam aos pais em última instância: “deixa teu Pai chegar, que vou contar tudo, tim-tim por tim-tim!”

Quando o Pai tomava conhecimento da desobediência, “anotava” na caderneta mental e descontava no pedido para Papai Noel.

A entrada triunfal do Papai Noel

O sono chegava via imposição, ou não. Mas chegava.

Criança que tinha o hábito – durante as férias escolares – de acordar e levantar por volta das 09:00h, quando a claridade entrava pelas frestas das portas ou janelas, já estava levantado e, antes mesmo da assepsia das primeiras horas do dia, começava a desembrulhar os pacotes que o bom velhinho trouxera, entrando pela chaminé.

Ninguém reclamava por não ter ganho um telefone celular!

As meninas, reclamavam sim, por não terem ganho uma boneca que “andava”, e os meninos acordavam os demais da casa com o barulho provocado pelo velocípede novo.

Êxtase!

Os pais não cabiam em si, de tanta felicidade proporcionada aos filhos. Éramos uma família alegre, unida, diferente.

Paulo Freyre, felizmente, não havia chegado nas escolas com a implantação da Teoria da Libertação. Felizmente!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO – E NA JANELA

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?

Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”.

Mt 6,26-29

Lírios da Paz no campo

O mundo está moderno. Pessoas estão a caminho e, deduz-se, vão demorar chegar para um encontro. Outras, faz tanto tempo que chegaram, estão ávidas para ir embora – deixando o encontro para Pasárgada. Mas, é bom lembrar que, lá, nem todos são amigos do Rei.

Elvira, “Vivi”, filha primogênita e única daquele casal que herdou fortuna dos pais e dos avós. Fazendeiros ricos que continuaram investindo no agronegócio no interior goiano. Investiram, duplicaram a riqueza e empregaram centenas de pessoas. Boa gente, melhor dizendo.

Além do alto investimento na bovinocultura e ovinocultura, o casal investiu, também, na floricultura. Os resultados imediatos satisfizeram e, nesse campo, o investimento foi maior, quando problemas familiares surgiram.

Vivi, filha do casal, sentia incômodos e deficiência visual. Diagnosticada, adquirira doença visual rara, de nome “presbiopia”, provavelmente fruto de sequelas de uma toxoplasmose.

O patamar financeiro dos pais de nada servia para resolver o problema de Vivi. Os pais se dedicaram inteiramente à filha. Nada lhe faltava.

Vivi não ficou cega. Teve acuidade visual diminuída em noventa por cento, o que lhe causava profunda tristeza e irritação. O amor e a dedicação dos pais aliviavam os problemas.

A rotina doméstica mudou intempestivamente. O pai, que se acostumou a resolver quase todos os problemas ao lado da esposa, passou a resolvê-los só. A mãe precisou dividir as tarefas diárias, dedicando a maioria delas à Vivi.

A parte da manhã era rotina um passeio no campo, onde os “lírios da paz” – todos brancos! – eram cultivados. Vivi acompanhava a mãe, que aproveitava para colher ramalhetes de lírios que colocava num vaso na janela. Todo dia os lírios eram trocados, e a janela, sempre aberta, permitia que o vento perfumasse levemente os aposentos de Vivi.

– Vamos filha! Vamos passear no campo e colher lírios!

– Vamos mãe. Já estou pronta. O que a senhora faz com os lírios que são substituídos?

– Tiro uma das pétalas e guardo. Depois, dou o destino necessário pata as pétalas que sobram. Rezo, e as jogo no córrego pedindo Paz!

– Deus tem sido bom e tem atendido seus pedidos?

As duas saem em direção ao campo. O vento trazia um perfume inconfundível, enquanto mãe e filha caminhavam em passos lentos, usufruindo a paz dos lírios no campo.

Por um momento, o comentário de Vivi (“que coisa mais linda mamãe, a beleza de cada lírio branco contrastando com o verde das folhas”) chamou a atenção da mãe, e lágrimas rolaram pelos seus olhos.

– Nem duvido que você esteja vendo tudo isso, filha!

– Deus é bom, mãe. Sinto, como se estivesse vendo!

E as duas se abraçaram fraternal e carinhosamente. A mãe aproveitou para colher os ramalhetes de lírios brancos. As duas, agora em passos mais lentos para aproveitar aquele momento de paz e felicidade, voltaram para casa.

Os lírios do vaso na janela foram trocados. A mãe arrancou suavemente uma pétala e guardou. Saiu da casa e foi até o córrego, onde “ofereceu” aos santos, os lírios brancos da paz.

No novo dia que chegou, após o café matinal, e antes da saída do pai para o trabalho na granja, Vivi pediu:

– Pai, compra um computador e me dá de presente!

Ainda que achasse aquele pedido estranho, o pai ouviu e nada respondeu. Os dias se passaram e o computador com teclado apropriado foi instalado no cômodo de Vivi.

Os dias de Vivi passaram a ser diferentes. Mais alegres. Parecendo até que algumas horas foram acrescentadas nas vinte e quatro normais. Apesar disso, os passeios no campo de lírios não diminuíram. Ao contrário. Ficaram mais divertidos e aquilo alegrava também a mãe de Vivi. Era visível a felicidade da filha, ainda que acometida de problema tão grave e de difícil solução.

Certo dia, operando o computador, Vivi falou em voz alta:

– Como é você? Perguntou Vivi, no exato momento que a mãe entrava no quarto com uma pequena bandeja nas mãos. O susto foi enorme.

– Com quem você está falando filha? Perguntou a mãe, aflita!

– Com um rapaz que conheci ontem no Facebook. Respondeu Vivi.

– Deus dos céus! (“Minhas preces quando jogo os ramalhetes de lírios no córrego estão sendo ouvidas por Deus”)

Além do teclado especial para deficiente visual, o pai de Vivi comprou, também, fones/microfones modernos, o que permitia que a filha mantivesse contatos com outras pessoas.

Aquele era um momento diferente. Frank, o nome do interlocutor e, agora, amigo de Vivi.

A casa recebeu novo astral. A preocupação com a “presbiopia”, contraída por Vivi diminuiu ante a possibilidade de recuperação total: graças ao amor.

Vivi nunca falou para Frank o seu problema visual. Os momentos de alegria com o relacionamento superaram qualquer necessidade de revelação. O amor poderia curar tudo.

Uma visita de Frank à casa de Vivi foi marcada. Chegado o dia, Vivi recebeu da mãe o comunicado que a visita havia chegado. As duas preferiram receber o visitante no cômodo onde Vivi permanecia sempre. A janela foi aberta. As cortinas foram amarradas e o ar puro que entrava fazia do cômodo um lugar prazeroso.

A mãe de Vivi convidou Frank para ir ao encontro da filha, no quarto. Os três estavam juntos. A mãe preferiu deixá-los a sós. Vivi, tão emocionada com o momento, permaneceu sentada e acessando o computador.

Frank se aproximou, cumprimentou Vivi. A jovem pediu para que Frank lesse uma postagem recente que fizera. Só então Frank percebeu a diferença especial do teclado, concluindo que Vivi era cega. Embora não fosse.

Lírios da Paz na janela

Vivi levantou, cumprimentou Frank e o convidou a ir até a janela, de onde poderiam olhar os lírios no campo.

Aquele horizonte branco que apareceu, visto da janela, por um momento foi visto pelos dois. Vivi, intempestivamente, viu o campo repleto de lírios da paz. Agora, também do amor.