JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Chafariz em Porangabussu

A seca ficara humanamente insuportável. Era o ano de 1950. A solução mais facilmente encontrada, foi o êxodo. Os avós (João e Raimunda Buretama) decidiram ficar, pois já sabiam que “tudo passa”, mas, sempre de acordo com a vontade de Deus.

Nós, três dos sete filhos, sem destino nem objetivo e horizonte resolvemos procurar água noutro lugar. Não dava mais para continuar comendo iguanas que, de tão sem alimentação ficaram cinzentos, cassacos (mucuras) e, às vezes, até cobras.

Caminhão fretado no crédito confiado por um amigo. Poucas tralhas, cachorro solto em meio a pequena bagagem e, junto apenas a esperança de encontrar um lugar onde pudéssemos sonhar acordados.

Em meio às dificuldades chegamos ao Pirambu – outro Piranbu, muito diferente do atual. Construímos um barraco sem paredes, tudo de palha. Montamos trempes (três pedras para apoiar a panela que viera na bagagem – para cozinhar, apenas feijão e sal) e fizemos fogo. Feijão com nada, mas com sal, foi a primeira refeição no novo lar – o barraco tinha apenas a cobertura, feita de palhas de coqueiro cortadas na orla marítima. Foi um tempo difícil.

Papai fizera amizades que ajudaram a conquistar um emprego. Era o início da certeza de que “tudo passa”. O barraco ficou para trás e fomos “morar” numa casa sem portas e sem janelas – estava em construção e pertencia a um amigo do papai. Era, convenhamos, um avanço.

Dias e meses se passaram. Um ano, dois anos e as melhorias batendo à porta. Mais uma mudança, agora para uma casa alugada no Porangabussu. Era o ano de 1954, lembro bem e tenho certeza.

A seca enfrentada no interior deixara sequelas. Ainda não tínhamos estrutura, mas lutávamos para enfrentar a vida. A matrícula nas escolas, a compra de objetos para atender as necessidades domésticas.

Eis que surgiu a primeira novidade. Era Prefeito de Fortaleza, Paulo Cabral de Araújo, aliado de Assis Chateaubriand. Foi eleito Acrísio Moreira da Rocha. O Governador era Paulo Sarasate.

Os bairros da capital também enfrentavam os problemas causados pela seca, refletidos no agronegócio – eis que surgiu a ideia da construção de chafarizes para facilitar o abastecimento e o consumo da população castigada pelas intempéries.

A água era o “pão”. Havia a necessidade do “circo”. Muitos não reuniam condições financeiras para adquirir um televisor. O “circo” foi dado com a colocação de televisores públicos instalados nos chafarizes.

Eis que o advento da televisão, agora de domínio público (hoje já existe a televisão paga – e isso “eu” não considero progresso, porque a publicidade veiculada já paga tudo) começou a reunir pessoas, na maioria das vezes no horário noturno, após mais um dia de trabalho.

Veio o “Seu Repórter Esso”. Na TV Tupy. Era o ano de 1952, em São Paulo, quando Ruy Rezende e Dalmácio Jordão com suas vozes poderosas nos apresentavam (e ao Brasil, como um todo) o noticioso televisivo. Essa dupla foi substituída depois pelos lendários Heron Domingues, Luiz Jatobá, Kalil Filho e Gontijo Teodoro – esse último, viria a ser meu professor na Universidade no Rio de Janeiro.

Instalada em definitivo e recebendo o apoio do público, a televisão contratou profissionais que estabeleceram uma grade voltada para a diversão e o entretenimento. Chegaram as novelas, com destaque para o “Meu trágico destino”, escrita por J. Silvestre antes de assumir e se consagrar com âncora dos programas vespertinos.

Aquelas novelas mudaram a cultura brasileira. Antes, o cinema e os teatros viviam superlotados, mas a televisão com sua programação “roubou” a parte do público que, financeiramente, não tinha acesso ao teatro.

Vieram depois, “A cabana do pai Tomás”, o sucesso consagrador que foi “Beto Rockfeller” nos revelando atores e atrizes como Lima Duarte, Luís Gustavo, Irene Ravache, Plínio Marcos, Bete Mendes, Débora Duarte e tantos outros que, por anos nos divertiram.

Surgiram depois a TV Globo, a TV Record, a TV Manchete e a concorrência diversionista foi definitivamente instalada.

Mas, como nada dura para sempre, os governos municipais resolveram que a água precisava ser paga pelo consumidor. Acabaram com os chafarizes públicos e levaram junto os aparelhos de televisão ainda em preto-e-branco.

O chafariz atual já sem o serviço da água gratuita

O tempo caminhava célere. Mas as dificuldades cresceram no mesmo percentual. As concepções políticas mudaram com o suicídio de Getúlio Vargas. Surgiram Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Miguel Arraes e tantos outros.

Não ouso afirmar que, o Brasil cresceu. Mas, sei e comprovo, que nunca mais levei aquela banquinho para sentar diante da televisão preto-e-branco mostrada pela extinta TV Tupy.

Hoje, a água tem consumo pago, embora ninguém garanta que ela é convenientemente tratada para o consumo humano.

Sem pretender parecer saudoso ou masoquista, lembro em lágrimas, a mudança sobre aquele caminhão fretado a um amigo da família que nos conduziu ao barraco sem paredes erguido na orla marítima do Pirambu.

2 pensou em “NO AR O SEU “REPÓRTER ESSO”!

  1. Parabéns pelo emocionante texto, “NO AR O SEU “REPÓRTER ESSO”, querido escritor José Ramos!
    Adorei a narrativa sobre a chegada da televisão e o foco sobre as primeiras novelas e canais televisivos.
    Comovente relembrar a seca do nordeste e o necessário êxodo dos nordestinos, em busca da sobrevivência.
    Um mergulho no passado, que nos faz comparar o conforto de hoje com a precariedade da vida de décadas atrás, quando o progresso era uma utopia.

    Grande abraço, querido amigo! Muita saúde e paz!

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