JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Mãe “protegendo” os filhos com medo do Bicho papão

É sabido mundo à fora que, faz tempo, o Estado do Ceará ganhou em todas as Unescos que existam ou existiram, o “apelido” de “Ceará moleque”!

Merecidamente, frise-se.

E parte disso se deve ao desenrolo para apelidar as pessoas, homens ou mulheres. Até os cachorros tinham apelidos: Totó, Bibi, Pintado…. etc.

Lá pelos anos 40, 50 e 60, os pais que iam registrar filhos ou filhas, sabiam que, José, João, Maria, Anunciada, Conceição eram aceitos sem resmungo pelo funcionário do cartório.

Quando o pai aparecia com um nome como Klinsman, Anna Carolyne ou coisa parecida, o funcionário dizia que aqueles nomes eram difíceis até para serem aceitos nas escolas. Mas tudo era porque ele não sabia escrever aqueles nomes corretamente.

E hoje, sabemos, nenhum pai registra mais o filho com o nome de Antônio. Prefere Anthony. Antônio, seria facilmente apelidado de “Toínho, ou Toím”! José, seria apelidado de “Zeca” e Madalena passaria a ser conhecida como “Madá”!

Eram comuns, na Fortaleza dos anos 50 e 60, o “Cabeça de nós todos”, o “Pé de bater banha”, a “Maria pouca roupa” (para as meninas que não usavam calcinha), o “Boca de fossa” para os que tinham mau hálito.

A verve não tinha limites. Existia na rua onde morei, o famoso “Deixa que eu chuto”, apelido de um jovem que tinha como defeito físico, uma perna menor que a outra. Na rua ao lado, aquele jovem era apelidado de “29-30”!

Não foram apenas as brincadeiras de rua que a tecnologia do celular e os “playgrounds” dos shoppings acabaram. O asfaltamento irresponsável das ruas e travessas que, além de impedir a penetração da água da chuva para o lençol freático, corre em trombas, asfalto acima e asfalto abaixo causando inundações e catástrofes. A tecnologia tirou, também, o convívio entre crianças e adolescentes nas ruas dos bairros. E aquilo, a vivência, facilitava o “botar apelidos”.

Sabemos nós das gerações antigas, que o “Velho babau” ou o “Bicho papão” nunca existiram. Mas não podíamos ver um pedinte com roupas esfarrapadas e com um saco nas costas, que o apelidávamos de “Bicho papão”!

Era comum, naquelas décadas, para induzir o filho ou a filha beber uma colherada do medicamento natural intragável (óleo de rícino), a mãe ameaçar chamar o bicho papão.

Os nomes registrados com o estrangeirismo acabaram com a coisa gostosa do apelido.

Não existem mais os “Braço de radiola” (para quem tivesse uma disfunção num dos braços), e nunca mais se viu o “Barriga de lama”, para quem tinha a barriga grande.

Toím, Biné, Zequinha, Mariazinha, Sula, Mané, Chiquinha e outros tantos desapareceram literalmente.

No interior, poucos sabiam os nomes das pessoas. Nomeavam mais pelos apelidos ou ligação com o pai ou a mãe. Tipo: Lázaro. Esse nunca era conhecido pelo nome. Era fácil encontrar o “Lalá de Zé de Dora”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *