JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SONHO INTERROMPIDO

O passeio na noite parisiense

Não sabíamos nosso destino inicial. Estávamos em Belleville, um bairro de Paris, onde a noite convida para a diversão, para a realização dos sonhos de quem ama. A felicidade do momento, era impagável – ela, vivendo outra vida conjugal e afazeres profissionais e domésticos, resolvera se autopremiar com aqueles momentos de dias diferentes.

Ela vestia um vestido longo para garantir a proteção contra a baixa temperatura. Calçava botas de couro, e um cachecol azul marinho lhe protegia o pescoço. Passos lentos e elegantes garantiam o caminhar de uma dama.

Eu, vestindo uma calça jeans, um sobretudo por cima de uma blusa italiana com fios de lã e um cachecol xadrez, ao tempo que, cortês e cavalheirescamente fazia tudo para que aqueles momentos furtivos valessem à pena. Ambos fugíamos da realidade que vivíamos distante dali.

Mãos entrelaçadas vestindo luvas, diziam bem o que seria o momento quando voltássemos ao aconchego da hospedagem – um simples, mas muito bom hotel.

Os ares noturnos tinham uma magia tipicamente francesa, pós outono e anúncio do inverno. Pairava uma magia que não existe em qualquer lugar, pois Belleville nos oferecia a magia musical de um saxofone tão regulado que imaginávamos muito distante. Era a magia contagiante que a cidade onde nascera Edith Piaf nos oferecia:

La Bohème

Je vous parle d’un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre, en ce temps-là,
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l’humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C’est là qu’on s’est connus:
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
On est heureux.
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu’un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d’y croire
Et quand quelque bistrot
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l’hiver.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie.

Souvent il m’arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d’un sein
Du galbe d’une hanche
Et ce n’est qu’au matin
Qu’on s’asseyait enfin
Devant un café-crème
Épuisés mais ravis
Fallait-il que l’on s’aime
Et qu’on aime la vie

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
On a vingt ans.
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l’air du temps.

Quand au hasard des jours,
Je m’en vais faire un tour
À mon ancienne adresse,
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d’un escalier
Je cherche l’atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts.

La bohème, la bohème
On était jeunes, on était fou.
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout…

“Édith Piaf

Édith Giovanna Gassion, conhecida como Édith Piaf (Paris, 19 de dezembro de 1915 — Grasse, 10 de outubro de 1963), foi uma consagrada cantora, compositora e atriz francesa. O seu ritmo musical era concentrado inicialmente em música de salão e as suas variedades, mas ficou reconhecida pelo seu talento com a música de estilo francês chanson. O seu canto dramático expressava claramente os momentos trágicos que permearam sua intensa história de vida.

A consagrada cantora nasceu como Édith Giovanna Gassion em Belleville, um distrito cheio de imigrantes em Paris. Uma lenda diz que ela nasceu na calçada da Rue de Belleville 72, mas a sua certidão de nascimento cita o Hospital Tenon, que faz parte de Belleville. Ela recebeu o nome de Édith em homenagem a uma enfermeira britânica da Primeira Guerra Mundial que foi executada por ajudar soldados franceses a escapar dos alemães. Piaf, um nome coloquial francês para um tipo de pardal, foi um apelido dado a ela 20 anos depois.

Édith Piaf está sepultada na mais célebre necrópole francesa, o cemitério do Père-Lachaise. O seu funeral foi acompanhado por uma multidão poucas vezes vista na capital francesa. Hoje, o seu túmulo é um dos mais visitados por turistas do mundo inteiro. Segundo a pesquisa da BBC: Le Plus Grand Français, Édith Piaf foi considerada a 10.ª maior personalidade francesa de todos os tempos. (Informações extraídas do Wikipédia)”

Na volta ao hotel, uma taça de vinho iniciava a realização de um sonho tão satisfatório para quem somava os desejos de um passado que só tinha relação com a juventude.

A subida para o aconchego……. e, poooorrrrrraaaa! Alguém tocou forte na minha rede e me acordou!

Puta que pariu!

Nem em sonho a gente pode ser feliz, passear em Paris e ouvir Édith Piaf?!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CHÃO TÁ RACHANDO! – VALEI-ME MEU JESUS CRISTIM!

Leito de antigo açude meses após a seca devastadora

“João Buretama” era meu Avô materno. Nascido lá para as bandas do povoado que hoje é conhecido como “Chácara dos Ventos”, a alguns minutos da serra em Uruburetama – daí a corruptela linguística “Buretama” – no ano que está tão distante que poucos lembram.

Conheceu minha Avó materna no ajuntamento dos empregados para trabalharem numa “farinhada” que duraria mais de dois meses e era propriedade dos Albano, donos de quase tudo nas Queimadas, povoado de Pacajus, onde nasci.

João Buretama não conhecia o sertão. Filho de pescador, era mais afeito ao mar, de onde a família tirava o sustento – “tudo com as Graças Divinas” de São Pedro.

Quando atingiu a maioridade, teve conhecimento que, para as bandas do Sul, em relação a Uruburetama, os Albano estavam oferecendo “trabalho”. Coisa rara nos dias atuais. Viajou quase dois dias para vencer um percurso que, nos dias atuais, não viajaria mais de sessenta minutos.

Desceu da boléia do “Pau-de-Arara” no então povoado Chorozinho e, depois de uma boa caminhada, finalmente chegou na casa dos Albano.

Joaquim Albano, o patrão, olhou para João de cima para baixo e definiu:

– “Baixinho e forte. Vai trabalhar na prensa”.

A prensa era onde os fortes espremiam a mandioca para retirar o líquido e a massa da farinha. O líquido retirado, posto à parte, vai secar e se transformar na goma.

A mandioca vinha do catitu. O catitu era “operado” por Raimunda, de quem já falei inúmeras vezes aqui. Era minha Avó, querida e inesquecível.

Pois, João Buretama e Raimunda, tão logo acabou a farinhada dos Albano, receberam suas pagas e, sem muita conversa foram morar juntos e “amigados”. Foi de onde nasceu minha Mãe, Jordina, antes do nascimento de Maria, minha tia.

João Buretama e Raimunda, agora, também Buretama.

Raimunda já era conhecida dos Albano, pois descendia dos índios Pacajus e morava nas Queimadas fazia tempo. Albano chamou João e ofereceu os elementos necessários para ser “meieiro” de aves e animais (vacas, jumentos e cabras e bodes), sem esquecer de oferecer, também, terra para plantio de feijão, milho e mandioca.

Tudo aceito e acordado, João Buretama plantou raiz. Virou morador e meieiro dos Albano, além de garantir o emprego na prensa durante a realização das farinhadas a cada ano.

Enxada e foice nas mãos, João Buretama brocou o mato e limpou a terra onde plantaria as sementes que tivesse. Café em grãos, sal, açúcar teria que comprar, além do fumo para os cachimbos, querosene para as lamparinas e outros itens do suprimento da casa.

Eis que chega a seca de 1957. A pior de todas elas desde que o mundo é mundo e as pessoas não plantavam nada que servisse para comer.

João Buretama pegou a enxada, enfiou no cabo uma cabaça com água e foi tentar limpar o espaço onde plantaria alguma coisa. Maxixe que fosse. Não demorou muito e voltou para casa numa carreira só, afuleimado e gritando para Raimunda:

– “Mulé, o chão tá rachando. Valei-me meu Jesus Cristim!”

Sol do meio-dia no sertão cearense

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINOS ACREDITEM: ERA PEIXE DE MAIS

Lá vem chuva!

As cadeiras e tamboretes, arrumados em forma de arena de teatro, “tanto brilhavam quanto cheiravam, aquele cheiro de pureza, de Fé e de esperança”, algo que toma forma e sai do abstrato pela necessidade de se tornar real pela necessidade.

A extensa área fora varrida por Dona Doca com uma vassoura de vassourinhas, agora era iluminada pelo candeeiro dependurado por João numa das pontas de caibro do telhado.

A comunidade próxima e vizinha se reuniria para a primeira noite da novena no meado do mês de fevereiro, até o início de março em louvor a São José, o Padroeiro estadual – São José senta na mesma mesa e mora no mesmo condomínio de São Pedro, o Guardião das Chuvas.

Estranha as ausências das mariposas, das andorinhas famintas e até das formigas, que, cedo da noite se recolheram para seus lares, levando o mantimento que garantiria sustento por alguns dias e talvez meses.

A Natureza é sábia. Calou as cigarras, e até as corujas se recolheram.

Todos presentes. As orações da novena começaram.

Todos juntos pedindo ao Padroeiro um tiquinho de chuva.

Terminadas as orações e as cantigas religiosas da ladainha, todos se servem do café, dos bolos de carimã, dos bolos feitos na palha da bananeira, dos biscoitos e do cuscuz.

As despedias e desejos de boa noite.

A chuva e a sangria

Após o café, os que vieram de mais distante retomaram suas montarias e voltaram para suas casas. Alguns com lanternas para espantar os bichos que poderiam estar deitados no caminho – seguindo em fila indiana até encontrar a primeira bifurcação.

A despedida: “noooiiite”!

Quando a claridade do novo dia chegava, João estranhou que o galo não cantou e cabras e bodes continuavam em silêncio – sem movimento que garantia o barulho dos chocalhos no chiqueiro.

Vento forte. Vento frio invadiu a casa e João e Dona Doca tiveram que levantar. O barulho da chuva no telhado acordou ambos. A tramela mal colocada da janela permitiu que o vento forte a abrisse.

Chuva. Muita chuva.

João teve que sair às pressas para recolocar as terrinas e potes grandes nas biqueiras para aparar a água.

Chuva durante toda a manhã. No final do dia, mais chuva.

Durante quatro dias, muita chuva. As primeiras notícias do enchimento do açude. Dois dias depois, a notícia dando conta do sangramento do açude.

Meninos, a alegria voltou. As orações da novena foram ouvidas. Muita chuva.

Meninos, era muito peixe!

Peixe demais!

Peixe capturado sem rede pela sangria

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SÓ UM PÔQUIM DE CHUVA

Acauã ave agourenta

A calçada alta com as bordas feitas de tijolos brancos desgastados com o subir e descer da gente. Arestas abauladas pelo sentar e pelo tempo, naquele momento se tornava confortável e parceira na tristeza normal do fim de dia e chegada da lugubridade da noite. João cuidava em preparar os candeeiros para amainar a noite.

“Vem-vem!……..”

Sem que ninguém estivesse para chegar, o vem-vem cantava em tiriça, entristecendo mais ainda aquele fim de dia, que ficava mais triste ainda com a chegada das mariposas perseguidas pelas andorinhas.

Uma ode poética num verso que nada dizia além da desesperança. Sim, por quê, longe dali, na grande capoeira duas, três, quatro e agora cinco vacas haviam morrido de sede, virando carniça e fazendo o banquete dos urubus. A natureza se fazia perversa, ainda que de forma passageira.

Mais escuro que claro, o silêncio do vem-vem parecia uma autorização para os sussurros lúgubres da coruja que sobrevoavam a área. Aquele “cantar”, diziam alguns, era o prenúncio da chegada da morte para alguém. Era, pelo assim dizer sertanejo, um “agôuro”!

João concluíra a tarefa da preparação dos candeeiros. Agora, segurando na mão firme e envelhecida de Raimunda – os dois – dobrava os joelhos e rezava o que mais parecia uma cantiga que oração:

“Pai celestial de todos nós. Minhas vaquinhas estão morrendo de sede. Onte morreu uma, onteonte morrer duas e mais uma novilha, e hoje perdemos ôtra”. Ajude nós, Sinhô de todos. Nem temos mais o que cumê, faiz três dias.”

Acauã – Gravação de Luiz Gonzaga e letra de Zé Dantas

“Acauã, acauã vive cantando
Durante o tempo do verão
No silêncio das tardes agourando
Chamando a seca pro sertão
Chamando a seca pro sertão
Acauã,
Acauã,
Teu canto é penoso e faz medo
Te cala acauã,
Que é pra chuva voltar cedo
Que é pra chuva voltar cedo
Toda noite no sertão
Canta o João Corta-Pau
A coruja, mãe da lua
A peitica e o bacurau
Na alegria do inverno
Canta sapo, gia e rã
Mas na tristeza da seca
Só se ouve acauã
Só se ouve acauã
Acauã, Acauã…”

Muito mais que o sono, o cansaço e a ansiedade pela chegada da chuva, adormeceram João minutos após a oração conjunta com Raimunda. Candeeiros acesos. Cessado o canto da coruja. Mariposas que conseguiram se salvar da gula das andorinhas, fugiram e se aquietaram. Com o fato seguinte, concluo mesmo que se esconderam ou se abrigaram.

A noite quente que traz aquele calor conhecido na roça, agora começava a se transformar. Uma neblina e em seguida uma chuva mais forte e cada vez mais forte fazendo barulho nas telhas, acordou João.

– Chuva meu Deus! “Aubrigado” por atender minha oraçãozinha mais cheia de Fé que de conhecimento”!

Agora mais intensa, a chuva continuava caindo. A forte ventania começou a preocupar João que, longe dali, escutava os chocalhos das vacas em movimento procurando abrigo. A ressequida sombra do juazeiro não protegeria todas.

A claridade do dia seguinte chegou. João levantou, tomou café acompanhado de farinha seca e foi pastorear as vacas, na esperança que elas tivessem se protegido durante a chuva. Algumas sobreviveram, outras tantas se afogaram nos lagos formados pelo excesso de chuvas nas capoeiras. Mas, havia a alegria do futuro garantido pela chuva.

Contrito e agora só, João mais uma vez dobrava os joelhos em oração. Não era oração. Era uma cantiga do vasto cancioneiro sertanejo:

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A METAMORFOSE DA LIBERDADE

Seis etapas da metamorfose do início ao fim

Na noite anterior o noticiário divulgado por alguns veículos garantia que, a previsão pluviométrica para o dia seguinte era: tempo bom, sem chuvas, temperatura moderada variando entre 22 e 25 graus.

Entretanto, com o privilégio de sentir a Natureza e seus itens, alguns insetos sabiam com antecedência o que seria o dia seguinte: propício para completar a metamorfose e alçar voos em passeios de plena liberdade. Liberdade de completar o ciclo da transformação e, mais ainda, de exercer a liberdade determinada pela Natureza.

O vento moderado estava favorável. Não havia risco de interrupção ou enfrentamento de tempestade, logo no primeiro dia de vida e de liberdade em voos. A sombra das árvores ajudaria para que tudo se completasse em favor da beleza propiciada pela transformação.

Uma lagarta multicolorida. Na sequência, um casulo com todas condições biológicas dos primeiros dias. Quantos dias?

Os biólogos continuam céleres nas pesquisas para encontrar a resposta. O foco e a resiliência, com certeza encontrarão uma resposta convincente.

Na terceira fase a lagarta multicolorida de antes transmuda e recebe carapaça protetora produzindo asas ainda inibidas que não garantiriam o voo.

As fases seguintes, sem experimentos, consumarão a formação do necessário, parecendo versos que formarão a “poesia da metamorfose e da liberdade” – asas para que te quero.

Voe!

Viva a liberdade divina da transformação.

Coragem!

Tudo vai dar certo – a Natureza garante!

As lagartas em voos sem regressão

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DEVASTAÇÃO – ACABANDO O QUE ERA DOCE

A insanidade dos que destroem o próprio lar

Afinal, o que querem as ONGs?

Por que, de um momento para outro, resolveram lutar pela existência e estabilidade (além de muito dinheiro que conseguem dos governantes) no solo brasileiro, preferencialmente da região amazônica?

Por que essas ONGs não “tentam salvar” o Saara ou o Atacama?

Essas ONGs são todas compostas por “estrangeiros”?

Estudei Ciências Naturais no Curso Primário. Ao chegar no Curso Ginasial, ainda que fosse o mesmo assunto, Ciências Naturais recebia o nome de Botânica. Conheci, ali, ainda que superficialmente, itens da fauna e da flora. Pela primeira vez ouvi falar na Papua Guiné, onde, dizem, teria começado tudo. Ou, começado a terminar quase tudo.

Nos dias atuais, esquecemos as referências passadas e, além do tal “carbono” dominar todos os assuntos, falamos mais de biomas, etc., etc.

Por que isso?

Alguém que ler este reles texto, terá liberdade para dizer que, “Zé, o mundo mudou, e, com ele, os valores que se assomaram às descobertas”. Mas, não terá o meu “de acordo”.

Continuarei insistindo que o mundo não mudou. As pessoas, sim. E isso, para mim, jamais será a mesma coisa. Num passado nem tão distante, mundo à fora, sem excluir o Brasil, a quantidade de idiotas e imbecis era menos da décima porcentagem. Nelson Rodrigues tinha razão quando vaticinou: “o mundo será dominado pelos idiotas”.

Qual o mal que uma abelha faz para a humanidade?

Nos dias atuais, vira e mexe, conseguimos ver nas poucas árvores do perímetro urbano parasitas que nasceram a partir das sementes mal digeridas pelos pássaros que, literalmente expulsos pela devastação das florestas, procuram e acham abrigos para crescer e se multiplicar. As fezes, com a umidade, nascem, formando um visual nada agradável.

Também vemos, vez por outra, casas-ninhos de João-de-Barro construídos em engenharia magnífica em postes de iluminação elétrica ou em outros locais onde eles (os pássaros) se adequem.

E, por que isso?

Por enquanto, apenas pequenas aves tentam conseguir viver fora da floresta devastada. Mas, o que acontecerá, quando tivermos que dividir nossos espaços domésticos com jacarés, cobras, javalis e outros integrantes da fauna, considerados ferozes?

Em resumo: por enquanto estamos apenas sob ameaças. Mas, quase que diariamente, ao tomar o café matinal, tenho recebido a visita de abelhas – provavelmente por conta do cheiro que o açúcar orgânico (é o que uso, mais caro, mas o valor adicional me poupará de gastar mais com medicamentos) – ainda sem ferrão.

Isso significa para mim, que, em breve, além da “jandaíra”, espécie mais conhecida desde o meu sertão, poderemos ter a visita da “arapuá”, uma espécie difícil de ser domesticada para produção de mel. É violenta e a picada incomoda tanto quanto a picada do marimbondo.

E o mel que consumimos para fins medicinais, quem produzirá?

Mel de abelha tem importante percentual positivo na economia

EM TEMPO: Desejo aos amigos leitores e seguidores neste JBF, o mais venturoso Rèveillon, que 2024 traga saúde, Paz, prosperidade e entendimento, principalmente entre os familiares.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

É NATAL

 Natal de luz – que ilumine nossas mentes

“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz
Onde houver ódio, que eu leve o amor
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Onde houver discórdia, que eu leve união
Onde houver dúvida, que eu leve a fé

Onde houver erro, que eu leve a verdade
Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Onde houver tristeza, que eu leve alegria
Onde houver trevas, que eu leve a luz

Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive
Para a vida eterna

Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive
Para a vida eterna”

Nesta penúltima coluna do ano, em contrição, dobro mais uma vez os joelhos, junto as mãos, e me dirijo ao meu único Senhor, para pedir a graça da Paz, da saúde, da humildade e do arrependimento de todos que, ainda que distantes materialmente, fizeram e fazem parte da minha existência, e do meu crescimento como ser humano.

Senhor,

Concedei-lhes um Feliz Natal, que vá além da mesa farta transbordante, que seja repleta de humildade e agradecimento pelos dias de vida concedidos.

Que reine a Paz,

Que reine a iniciativa do perdão,

Que todos tenham oportunidades para o cumprimento das missões.

Que nada consiga separar as famílias – quaisquer que sejam os objetivos ideológicos.

Que o pão esteja sempre disponível à divisão e multiplicação.

Que a saúde seja tão farta quanto a ceia natalina que hoje está servida.

Que seja feita, Senhor, a tua vontade!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ZÉ – O MENINO QUE FAZIA SACOS

“A saudade mata a gente – João de Barro

Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E na rede nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
Mas agora, meu bem, vou me embora
Vou me embora e nem sei se vou voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar

A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente”

Os dias correm ligeiros. Provavelmente açoitados pelos ventos produzidos pelos moinhos que Don Quixote tanto procurou. Passam rápidos. Tão rápidos que, às vezes, nem percebemos. Mas sabemos que estão passando.

Pois, pelos idos e levados pelos ventos, dias dos anos 50 e 60 passaram tão rápido que, hoje, tendo vivido pela graça de Deus e, quase sendo levado por ventos mais fortes, minhas raízes, tão profundas quanto as raízes dos ipês, resistiram às ventanias. Quase ciclones.

Zé é o meu nome. Zé, filho de um homem e de uma mulher, nascido de parto normal, “aparado” por parteira sem nenhum preparo (minha Avó), que mereceu o privilégio divino de ainda estar vivo.

Zé nunca foi diferente dos meninos daqueles anos. Entretanto, muito diferente dos meninos dos dias atuais.

Foi criado, desde cedo, a aprender que pai e mãe, quando menos a gente espera, voltam ao barro – lugar de onde vieram. Diferente de como os pais/mães atuais criam os filhos. Facilitam tudo, dizendo que é para o (a) filho(a) não passar as provações que eles, pais, passaram. Roubam dos filhos o direito às conquistas. Não aprendem o valor da vitória, e vivem pensando que viver é algo que o smartphone ensina nos aplicativos.

Eis que, aos 12 anos, Zé não era diferente dos daqueles anos. Também lia gibis, ia aos cinemas, e, colecionava figurinhas de artistas e jogadores de futebol.

O pai de Zé, Alfredo, entendia que não tinha o direito de roubar do filho o direito de ganhar seus mil réis, comprar suas revistas e figurinhas com o dinheiro ganho com o suor do rosto. Com o trabalho, mesmo que formal. Só assim daria valor às suas coisas.

Foi quando Zé, alertado pelo dono da bodega da esquina, passou a fabricar sacos de papel com folhas da revista O Cruzeiro – separava apenas a página da charge do O amigo da onça, de Péricles. A princípio Zé fabricava os sacos onde o bodegueiro colocava arroz, feijão, café em grãos, milho.

Eis que um anjo chamou a atenção de Zé com o bater das asas, dizendo:

– “Zé, melhore a qualidade dos sacos. Use um material melhor e vá vende-los na praia, na chegada das jangadas. A recompensa será melhor”.

O anjo nem precisou repetir. Nas férias escolares, Zé acordava cedo, saía procurando construções de casas, edifícios que usassem cimento. Cimento “Portland”. Às vezes, na ânsia de ficar com o saco, Zé até se propunha a ajudar o Servente de Pedreiro. Não queria ajudar. Queria mesmo era os sacos.

O cimento era envolto em três camadas de papel. Papel bom. Resistente. Zé separava tudo e levava para casa a parte que usaria para fabricar os sacos.

Saco de papel de cimento para acondicionar peixes

Feitos os sacos, sempre numa boa quantidade, Zé, às vezes “pegava bochecha” nos ônibus e, na hora que imaginava que as jangadas estavam retornando ao Mucuripe, fazia esforço hercúleo para estar presente. Com o passar dos dias, Zé foi aprendendo mais e mais. Passou a levar, além dos sacos de papel de cimento, molhes de coentro e cebolinha. Passou a levar também tomates.

As jangadas estão voltando da pescaria

Zé fez isso por muito tempo – sempre nas férias escolares. Tinha clientes que entendiam sua necessidade. Faziam tudo para ajudá-lo. Até passaram a procura-lo pela alcunha de “Zé do Saco”, ou, “Menino do saco e do cheiro verde”.

Quando a claridade do dia estava indo embora com a promessa de voltar no dia seguinte, Zé caminhava cerca de 15 Km, da Praia do Mucuripe até a Rua São Paulo, na Praça José de Alencar, no Centro; ou na Praça dos Voluntários. Ali, durante anos funcionou também a venda de peixes frescos.

Nos dias atuais, pessoas continuam comprando peixes na praia

Zé, nos dias atuais, gosta de comer peixes. No tempo da venda de sacos, era um sonho quase impossível. Sonhar em comer biquara, cavala, pargo, xaréu – e dávamos graças, quando Alfredo levava pirarucu salgado ou camurupim para casa. A farofa com baião-de-dois era garantida. A gente acabava de encher a barriga com água de pote.

Eis que, hoje, quase tudo mudou. Fortaleza que, naqueles idos tinha apenas as praias de Iracema, Náutico, Meireles e Mucuripe – onde alguns ganhavam dinheiro alugando calções de banho e o próprio banho com água “da boa” – hoje ostenta e oferece aos turistas uma bela Avenida Beira-Mar, com hotéis e bares de luxo e da moda. Para 2024 já tem a garantia de sediar a COP24. Antes, a própria Praia do Futuro nada mais era que uma praia, no futuro.

Biquara a preferência cearense

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“SAI UM PINGADO – COM PÃO E MANTEIGA!”

Café pingado servido no copo com pão e manteiga

Deitar cedo para dormir – por volta das 21/22 horas – para acordar cedo, também. Andar alguns quilômetros de ônibus ou de bicicleta para, em seguida, pegar o trem com destino à Central do Brasil.

É essa a rotina do trabalhador que mora na periferia do Rio de Janeiro. Quase sempre tendo como destino final o “Centro”. As linhas do trem podem ser Central-Santa Cruz, Central-Nova Iguaçu ou Central-Belford Roxo.

Linhas urbanas servidas por ônibus podem levar a Caxias ou Campo Grande e Santa Cruz, ou ainda, Nova Iguaçu, e também a Belford Roxo. Num determinado trecho, a via única é a Avenida Brasil com aderências em Bangu, Guadalupe ou na bifurcação com a Rodovia Washington Luiz.

Mas há quem, por residir em Niterói e bairros periféricos a essa cidade, utilize a travessia por lancha no itinerário Niterói-Rio até a Praça XV, ou, simplesmente utilize a Ponte Rio-Niterói, o que obrigará, também, a usar a Avenida Brasil a partir do Caju.

Quem trabalha no Rio de Janeiro, quase sempre faz a primeira refeição na própria cidade, e preferencialmente, próximo do local de trabalho. Essa primeira alimentação (“breakfeast”) é uma tradição “carioca”. Uma verdadeira deturpação do que possa ser um “café da manhã”.

Uma “carioquice”, por assim dizer.

– Sai um “pingado” com pão e manteiga! Esquenta na chapa, faz favor!

É assim que alguém pede o simples café com pão e manteiga (margarina), sem esquecer de “comprar a ficha” antes, ou pagar antecipado.

Mas, há também quem disponha de mais tempo para “forrar o estômago” ou porque terá outro compromisso no horário do almoço. Assim, terá que “pegar algo” mais caprichado para garantir o tranco até o final do dia.

Aí a pedida será um sanduíche de pernil suíno, passado na chapa quente e caprichado com cebola e tomate. Para “ajudar”, uma cervejinha Caracu ou Malzbier preta. É “café da manhã” se aproximando de um almoço.

Carioca ou não, quem trabalha no Rio de Janeiro não vive somente no “tranco”, tampouco na “malandragem” como imaginam muitos que visitam a Cidade Maravilhosa apenas para férias ou lazer turístico.

Para esses, a sexta-feira está grafada na agenda de qualquer um, como o início do lazer do fim de semana. Chopp com bolinhos de bacalhau – que ninguém é de ferro! – cervejinha gelada com direito a atendimento de Menina Verão, ou até “outras paradas”.

Quem assumiu compromisso para algumas “horas extras” no trabalho, precisará se alimentar de forma mais leve, e, ao mesmo tempo, melhor.

A solução que muitos procuram, veio de Portugal, mas já ganhou tons e atrativos brasileiros ou alemães. É o famoso Caldo Verde! Não há quem prove e não vire escravo.

Mas, se em vez do Rio de Janeiro você estiver em São Luís (MA) ou em Belém (PA), ainda que não esteja se dirigindo ao trabalho, o “breakfeast” será outro. Mais regional, mais “pesado”, e que, com certeza, se adaptará mais ao consumidor local.

Falamos do açaí, para os paraenses que frequentam o Ver-o-Peso; ou da juçara, para os maranhenses, que frequentam a Feira da Praia Grande (Casa das Tulhas) ou o Mercado Central.

Em Belém (PA) ou em São Luís (MA), nem pense em se servir de açaí ou juçara sem o tradicional camarão seco salgado. Em Belém, usa-se a “tapioquinha”; em São Luís, usa-se a “farinha de puba”.

Juçara com farinha de puba e camarão salgado

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MEU FIO, O DISINGANO DA VISTA É FURAR OS ZÓIOS

Milho verde que valia mais que um furada nos zóios

Ali para as bandas da Guaiuba, povoado motivo de eterna litigância entre os municípios de Pacajus e Pacatuba, estado do Ceará, “morava” um homem que não tinha endereço (casa, lar, residência, esconderijo, tampouco código de endereçamento postal). Era muito conhecido pela alcunha de Zé do Saco, apetrecho que, para quem o conhecia, era considerado como seu endereço e identificação mais certos.

Zé do Saco não tinha também telefone celular, e-mail, twitter e muito menos zap-zap. Mas, era mais fácil de ser encontrado que o Governador do Estado, o Papa, e muito mais acessível que Barak Obama. Tinha uma vantagem “indescartável” (existe, essa palavra?): sabia o nome de todos os serviçais que trabalham como executores das barbaridades cometidas pelos “doentes mentais” islâmicos.

Muitas vezes, Zé do Saco era encontrado com o “saco cheio” de nada, e quase nunca, com o saco cheio de muita coisa. Vagava, e provavelmente por conta disso, divagava.

Havia sempre um engraçadinho para bulir com Zé do Saco, quando passava por ele, cabisbaixo, em alguma vereda em direção ao não fazer nada, onde todos os dias batia ponto, tomava café, e dando meia volta, caminhava para a labuta diária do ócio.

Heráclito, jovem galanteador e metido a bonitão, um dia cruzou com Zé do Saco e atirou:

– Tá contando as ações da Petrobras, Zé?

– Só os “fiotes”. As véias pararo de parir, siô!

A Guaiuba parou. Literalmente parou, ainda que não existisse lá nenhuma rodovia federal para ser interditada por protestos, quando alguém descobriu do lado de dentro de uma cerca de arame farpado de um roçado dos Nogueira, o corpo jazido do Coronel Mamede Santos, com uma faca peixeira de 12 polegadas cravada no meio do peito, mais chegando para o lado esquerdo.

Altamente especializada, com formação internacional e treinamento prático e emocional garantidos nas agências dos EUA, da Alemanha, França, Espanha e até da nossa competentíssima Polícia Federal, sem esquecer, evidentemente, os Serviços de Inteligência da Polícia Militar do Estado e da Guarda Municipal de Pacatuba, a guarnição policial não precisou muito para “desvendar por completo” aquele latrocínio.

E nem foi preciso gastar combustível custeado pelo Município, pois o latrocida estava dormindo a poucos 30 metros dali, com o saco cheio do produto do roubo (vento). As algemas tilintaram, e minutos depois, Zé do Saco adentrava na Delegacia Municipal de Guaiuba, sem nenhuma toalha de marca cobrindo as algemas. Também não havia sequer um “lambe-lambe” para registrar o furo jornalístico.

Se não aconteceu sequer julgamento – e ninguém era besta de achar que era necessário, pois só um bostinha daqueles, sem eira nem beira, podia ter a petulância de matar um homem de bem, feito o Coronel Mamede.

Entretanto, alguns dias após o acontecido e por obrigação constitucional e para que a Justiça determinasse a equanimidade da partilha de bens do falecido, a perícia médica encontrou nos exames cadavéricos uma resposta: a ferida contusa não foi tão profunda, o que evidenciava que não fora feita por ser humano.

Os peritos voltaram ao local do acontecido, e examinando bastante o local, encontraram marcas de sangue no arame farpado da cerca que, depois de feito o exame de DNA, ficou constatado que era sangue da vítima. Poucos metros dali encontraram pedaços de uma jiboia em adiantado estado de putrefação. Tiveram a perspicácia de examinar os cascos do cavalo que conduzia Mamede Santos, encontrando também marcas de sangue. E a conclusão de que não era sangue humano, levou à seguinte conclusão: o cavalo, trotando na estrada de areia, só observou uma jiboia quando já estava muito próximo dela.

Assustou-se e jogou a montaria (Coronel Mamede Santos) sobre a cerca de arame farpado. Ao ir ao chão, o Coronel caiu sobre a faca peixeira que tinha o hábito de conduzir no cós das calças, enrolada apenas em papéis velhos. A faca, sem nenhuma mão humana, cravou-lhe o coração.

Apesar do laudo pericial ter sido enviado à Justiça, eximindo de culpa o até então criminoso Zé do Saco, para que mexer num caso tão estarrecedor que já tinha sido concluído, com o perverso latrocida preso e pagando pelo crime contra a sociedade?

Segundos, minutos, horas, dias, meses e anos depois foi descoberto que Zé do Saco tem mais de “seis miões” (entenda-se: milhos grandes, de bons e comestíveis caroços e sem agrotóxicos) de mais alguns “fiotes” guardados num cofre forte de um banco num paraíso fiscal e em nome de um laranja.

MORAL DA HISTÓRIA: Não existe nenhuma dificuldade para ser encontrado o criminoso e descoberto o crime de um “Coroné”, ainda que ele não tenha sido cometido por um Zé do Saco qualquer.

Mas é sempre muito difícil encontrar o dono e o responsável pelos “bilhões” depositados como “fiotes” nalgum banco do exterior.

Vovó tinha mesmo razão, quando nos dizia: “meu fio, o disingano da vista é furar os zóios”!