JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINO “MALINO” – AS BRINCADEIRAS DA ROÇA

Libélula, também conhecida como “Mané-Mago”!

Vou continuar na roça. Saí da roça, mas a roça nunca saiu de mim. Não quero sair, nem vou deixar que ela saia. Me faz bem e massageia o ego, relembrar os momentos da construção da minha vida vivida na roça.

– O papeiro é meu!

É. Era assim que eu gritava alto, para que os outros irmãos ouvissem, quando minha velha e falecida Mãe estava na cozinha preparando a papa ou o mingau da minha irmã mais nova – hoje também falecida.

– Tá certo. O papeiro é seu, mas vai ter que lavar depois!

Era assim que minha Mãe concedia a preferência pelo papeiro – e talvez fosse pela obrigação de ter que lavar, que nenhum outro irmão se aventurava a gritar “o papeiro é meu”.

E foi lavando aquele papeiro que, desde os 22 anos de idade aprendi a cozinhar tudo numa cozinha. E, acreditem, não sou nenhum Master Chef, mas não faço vergonha. Posso garantir que sou “especialista” em feijão. Por isso me interessei tanto pela “fava rajada” que, certa vez, como convidado, comi num encontro no Apipucos.

Mas, o assunto da roça é outro. É como a gente brincava – pelo menos eu – e como a gente se envolvia psicologicamente com as brincadeiras que, quase na sua totalidade, eram inventadas por nós mesmos.

Tudo começava com a preparação de uma garrafa. Tinha que ser branca e estar bem lavada por dentro e por fora. Uma rolha feita de sabugo de milho servia de lacre.

Tudo preparado e lá íamos nós, pegar “Mané-Mago” que, depois, na escola e estudando Ciências Naturais, aprendi que o nome científico era “Libélula”, também conhecida popularmente como tira-olhos ou libelinha em Portugal, e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado pertencente à subordem Anisoptera. É considerado um dos primeiros insetos a surgir na Terra. No meu Ceará é conhecida como “Mané-Mago”, independentemente de ser macho ou fêmea.

Eu jogava um “campeonato” comigo mesmo. Era campeão “aquele” que conseguisse pegar o “Mané-Mago” mais bonito e mais colorido. Passei a estranhar que eu mesmo era sempre o campeão.

O troféu era sempre uma mariola ou um pedaço de rapadura roubado na despensa da Avó. Ao vice-campeão, sempre eu também, era garantido um troféu muito estranho: uma pequena cuia de farinha seca misturada com açúcar. Isso tudo sem direito a coroa de louros!

Eis que, hoje, sei o significado de tudo aquilo: o amor pela roça e suas coisas que nos fazia crianças saudáveis.

Calango verde sempre teve a minha preferência nas brincadeiras

Outra brincadeira – ou entretenimento – habitual, era “pegar calango verde”. Bicho arisco que fugia rápido, ou se deixava pegar por entender que nenhuma criança o faria mal algum.

A “armadilha” era preparada com um palito de coqueiro. Verde e flexível, o palito tinha sua ponta mais fina transformada num laço que, seguro – para o calango não conseguir escapar, quando laçado – nos proporcionava alegria.

Para alguns, não sei precisar, mas essas coisas transformadas em brincadeiras infantis, nos aproximavam tanto da Natureza, quanto a maravilha que é “cagar no mato”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CABAÇA E O POTE

Cabaça para carregar água no sertão

Meizinha, suvaco, adijutoro, rapariga, disculhambação, cabra besta, gaiudo, gabolice, catá coquinho, vacuá e tantas outras falas são, não apenas o linguajar da roça vivido pelo matuto. Existe um universo muito grande envolvendo tudo isso.

Traduzir a coragem e a persistência – às vezes, até por ter consciência da impossibilidade de solução para apenas um problema – do matuto, aquele que realmente produz riqueza pela força do trabalho na agricultura e afins, é algo muito difícil.

Madrugar – acordar e levantar, quando o novo dia começa a clarear – não é apenas uma necessidade, é um hábito.

E escutar o galo cantar, a vaca mugir ou o berro dos cabritos é rotina. É o despertador da roça – para os abastados, na “fazenda”.

Era assim em Queimadas – povoado de Pacajus, no Ceará – quando o sol avermelhava o céu mostrando aquele colorido encorajador para Raimunda Buretama e os netos. Muitos netos. Nas férias escolares, mais de uma dúzia deles.

– Levante meu fii, se avexe e vamos buscar água prumode fazê o café e o dicumê!

Caminhar 12 Km (6 na ida e 6 na volta) pelas veredas para apanhar uma cabaça d´água não era coisa que uma criança entrando na adolescência gostasse de fazer. Mas era preciso fazer. Tinha que acontecer.

Eram duas caminhadas, o que acabava significando 24 Km por dia – “apenas para buscar água” – para uma casa com nove moradores. O banho ficava para a segunda viagem ou no fim da tarde, com a possibilidade improvável da garupa do jumento do Avô, depois que esse voltava da roça e precisava banhar e “dar de beber” ao animal.

Cinco, seis e até sete anos fazendo isso. Chovesse ou fizesse sol.

E aqui fazemos uma pausa para uma indagação – será que a água tem importância para uma família dessas?

Será que a transposição do São Francisco significa alguma coisa para várias famílias que vivem esse dilema?

Pote de largo uso sertanejo

Na casa, com cenário antigo por longos e longos anos, o abrir as cortinas mostrava um pote sobre uma trempe, ou, uma forquilha com três braços. Coador de morim amarrado na boca, para evitar a passagem de gravetos ou de martelos na água de beber. Ferver a água, nunca. A água só fervia quando era colocada no fogo, na lata de fazer café com um pedaço de rapadura para dissolver e adoçar.

Nos raros invernos, uma terrina de cimento servia como cisterna da água da chuva aparada na calha feita do sabiá (mimosa caesalpiniaefolia), uma madeira de grande serventia e aproveitamento no interior. A água ali depositada servia para aplacar a sede dos caprinos, das galinhas e outros animais domésticos criados para o abate e consumo da família nos momentos difíceis.

Nos anos 50, 60 e meados de 70, nenhuma residência do interior do estado tinha água tratada e canalizada – e isso significava dizer que esgoto ninguém conhecia naquelas paragens.

Fazia-se as “necessidades” num buraco feito no chão e a “assepsia” era feita com sabugo de milho ou folha de marmeleiro.

Hoje, acreditamos, tudo é diferente. Já não se faz necessário caminhar mais 24 Km e a cabaça e o pote foram praticamente abolidos, embora as casas permaneçam quase sempre as mesmas: paredes de estuque, chão de barro batido, fogão à lenha; portas fechadas com tramelas, apesar da crescente e preocupante violência urbana.

E dá uma saudade danada relembrar a caminhada diária de 24 Km. Dá uma saudade danada do bom, da ingenuidade, da coisa boa e, principalmente, da convivência e da unidade familiar – coisa que a tecnologia exterminou, trazendo junto a evolução.

Felizmente ainda é comum, nos povoados do interior, a “roça familiar” – batata doce, macaxeira, feijão, maxixe, quiabo, tomate, coentro, cebolinha verde e, nas Queimadas os primos e filhos dos primos nunca deixaram de preservar as moitas de mofumbo, arbusto preparado para a reprodução dos capotes – galinha d´angola.

Ali a tecnologia também chegou. Felizmente não conseguiu acabar com a tradição e sequer foi motivo para impulsionar mais uma “Revolução dos bichos”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O TREM QUE NÃO APITAVA NA CURVA

“Maria Fumaça” na curva carregando oito vagões

A velha Estação estava repleta. Lembro bem que era um dia de sábado e a manhã ainda estava pela metade.

Era, também, o segundo dia das férias escolares, e aqueles familiares ávidos pelos abraços fraternos dos filhos e netos que estudavam na capital deixavam perceber o nervosismo pelas conversas em alto tom e os elogios que faziam ao sucessos dos rebentos. Emoções descontroladas.

Empregados das casas de fazendas conduziam animais prontos para levar os estudantes aos seus aposentos. Outros conduziam apenas animais preparados para transportar as malas de bagagem.

De forma repentina, parecendo milagre, a máquina “Maria Fumaça” apontou na última curva antes da parada na Estação Marechal Rondon – nome dado em homenagem ao bravo brasileiro que tentou implantar o serviço ferroviário no interior do Brasil.

A máquina “Maria Fumaça” nunca apitava ao surgir naquela última curva. Era uma característica, embora não fosse proibido apitar – mas, aquelas nuvens de fumaça, algumas vezes, até que conseguiam substituir os apitos de aviso da chegada do comboio ferroviário.

A máquina encostava na Estação. De praxe, soltava aquela nuvem de fumaça e aquele vapor importante na propulsão do trem e os seis vagões arrefeciam. O trem parava. Algumas poucas portas que eram travadas durante o percurso (para evitar possíveis acidentes provocados pelas peraltices infantis) se abriam e alguns pais atônitos e movidos pela saudade se apressavam em ajudar os filhos no desembarque.

Avós e pais esperam filhos passageiros do trem

A partir daquele momento de desembarque, o sábado se tornava diferente, alegre, infantil.

Na casa grande sem senzala do povoado, Joaquim Albano tomara todas as providências antes de partir para a Estação acompanhado de dona Clarice para esperar os netos Carlos Augusto e Rafael – os dois estudavam no Colégio Militar com sede na capital.

Os meeiros e compadres Duda e Nonoca foram convidados, com ares de intimação, para ajudar nos preparativos da festa da chegada dos netos.

Cedinho ainda, tão logo chegara à casa grande, Duda recebeu ordens para abater aqueles dois porcos que, de tão grandes, sequer conseguiam se levantar para comer. Um bezerro que vivia entristecido pelos currais, também fora abatido. Nonoca foi encarregada de abater dez galinhas – cinco para preparar ao molho pardo (preferência de Carlos Augusto) e as outras cinco sem o molho (preferência de Rafael).

Malas desfeitas em meio aos muitos abraços e bênçãos. Conversas, afagos, elogios e as perguntas pela saúde e pelo crescimento no Colégio.

O banho e, em seguida, uma rápida espiada no horizonte da fazenda da Casa Grande que os olhos alcançavam. O chamado para o almoço – o lugar de Joaquim, continuava vazio. Clarice levanta, vai à procura dele, pois os netos e alguns poucos privilegiados com o convite estão famintos.

Clarice encontrou Joaquim deitado na cama. Não deitara por acaso. Necessidade. Desfalecimento. A morte chegara de repente, trazendo o infarto provocado pela demasiada alegria da reunião familiar.

– “Acudam”! Gritou Clarice, em desespero!

Os poucos empregados da casa acorreram, mas, infelizmente, não puderam mais fazer nada que não fosse cair em lamentações.

Todos deduziram que a alegria também pode matar.

O tempo passou. As férias que se prenunciavam boas, repentinamente se transformaram nos dias mais tristes para aqueles que viviam na Casa Grande – que jamais foi uma senzala.

A vida continuava para os que ficaram. Carlos Augusto e Rafael precisavam retornar ao Colégio. O movimento que envolvia a viagem de retorno para a Estação e da viagem até a capital foi diferente.

De hábito, além das lágrimas da partida, o apito choroso e demorado da “Maria Fumaça”, que nunca apitava na chegada, mas mostrava o quanto era triste a partida. Da máquina ou do homem.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ TORRADO EM CASA

Grãos crus de café

O som ainda está gravado na minha mente.

No final da tarde, quando o sol já estava frio, era normal escutar as batidas dos chocalhos dos bodes, cabras e cabritos, sendo “chiqueirados” para o pequeno curral improvisado. Os bodes continuavam ruminando algo comido fora do chiqueiro, enquanto os cabritos saltavam como se estivessem a comemorar alguma coisa.

Mas, os ouvidos captavam outros sons. É o tic-toc no pilão. Meu Avô pila os grãos do café que minha Avó acabara de torrar, após deixá-lo esfriar numa arupemba sobre o girau.

Um quilo de grãos de café cru, virava um quilo e trezentas gramas com o acréscimo da mangirioba.

Tic-toc!

Outras vezes, toc-toc!

Terminada aquela tarefa, o pilão era limpo e lavado. O cheiro e o gosto do café não podiam ficar. O pilão seria usado outras vezes, fazendo xerém para os pintos, ou tirando as cascas do arroz.

Café fumegante torrado no alguidá

Naqueles anos 50 e 60, já existia o moinho manual, mas nem todas as famílias podiam comprar. Era alto o valor, em que pese sua utilidade. Moía carne, moía pimenta e, às vezes moía também o café que alguns compravam já no ponto de moer. Na roça, esse luxo não chegara.

O pilão, esse sim, era usado todo dia. Para pilar várias coisas. Era como se “fosse da família”. Imagine. Um pedaço de pau com um buraco, sendo parte de uma família – apenas pela utilidade, claro.

Para alguns, o pilão era uma obra de arte que precisava ser encomendada, de acordo com as necessidades (e posses) dos usuários.

Pilão sendo usado na “pila” do café

O dia ainda não estava claro de todo. Mas, o galo cantou. E, na roça, quando o galo canta, as cabras e bodes começam a fazer barulho, não há como ficar deitado ou voltar a dormir. É hora de levantar.

Vovó, fazia tempo, estava acordada “apreparando” o café torrado no dia anterior. Café fresquinho – como ela própria falava – mas o dito cujo era quente e forte.

A mesa posta. Cuscuz (que também chamamos de “pão de milho”), tapioca, batata doce cozida, leite de cabra fervido, queijo de coalho de leite de cabra e uma “pratada” de macaxeira colhida no dia anterior. Era o café – e que nenhum idiota viajado, se metesse a chama-lo de “breakfast, petit-déjeuner ou desayuno”.

A Avó já fizera a sua etapa. Agora escolhia o feijão que, cozido, alimentaria a filharada, e os demais trabalhadores. A mistura ou o tempero do feijão era sempre: quiabo, maxixe, abóbora e, quando possível, algum osso da canela do boi, que meu Avô adorava por conta do tatano, que fazia questão de escorrer dentro do prato.

Café no bule mantém tradição sertaneja

O café torrado e pilado em casa era uma tradição entre nós. Os grãos, comprados crus, recebiam uma parcela de uma semente (mangirioba) que nunca vi em outro lugar. Era uma vagem pequena, semelhante a vagem da ervilha que, além de nós, que a colocávamos para aumentar a quantidade do café, era também preferida pelos caprinos. Por isso meu Avô nunca cortava. Pelo contrário. Plantava.

Esperta, minha Avó acrescentava a rapadura que, segundo ela, amenizava o amargo natural do café.

Ainda hoje, na roça ou em qualquer lugar, o café é uma forma de fazer amigos – mas, o café torrado em casa tem outro valor: “esse café foi torrado em casa, que minha comadre me enviou”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O FAROL!

“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Jangada improvisada de Dico

Hoje tentarei lhes contar uma pequena estória de Dico, cidadão cearense nascido em Pacajus, mais propriamente no povoado de Guaiúba. Raimundo na pia batismal, que a família transformou em “Dico” tão logo saiu do “gatinho” para o caminhar forte e seguro.

Entre o ver a luz da maternidade dada pela mãe, até o criar cabelos nos peitos e nas partes pudentas, Dico conhecia mesmo era a enxada, a foice – que manuseava com maestria – o machado e o rachar lenha para o consumo diário na cozinha. Tinha extrema habilidade, também, no pescar curumatás, traíras e piaus no Açude Novo.

Cresceu, namorou e “mexeu com o que não devia, antes do tempo” – e isso acabou lhe custando um casamento antes do dia e da hora marcada. Na roça, nos tempos em que os filhos obedeciam aos pais, era assim. Ajoelhou, tinha que rezar.

Certo dia Francisca passou mal. Chamaram a Dodoca rezadeira, e essa quase deixou o pé de arruda em esqueleto, de tantos tirar galhos com folhas – a arruda murchou de tanta reza, mas Francisca não melhorou. Dico foi aconselhado par levar Francisca para a cidade, onde certamente conseguiria resolver aquele problema intempestivo na vida deles.

Numa primeira visita a solução pareceu distante. Seria necessária uma estadia mais prolongada na capital, o que acabou proporcionando a mudança definitiva do casal – com os filhos – para encontrar a facilidade do atendimento médico.

Sem profissão, trabalhador da agricultura na Guaiúba, Dico mudou com família e tralhas para a capital. O dinheiro economizado durante dias, serviria para custear o tratamento e, caso necessário, a compra de medicamentos.

A solução imaginada por Dico para alimentar a família, foi a pesca. Inteligente, Dico improvisou uma jangada e foi ao mar. Foi pescar o dicumê da família.

O homem não conhecia nada do mar – que vira poucas vezes – e acreditou que tudo seria resolvido em poucas horas. Tudo parecia fácil na maré vazante. E, sozinho, Dico foi pescar. A poucos metros da arrebentação, se deixou levar. Não se deu conta que logo estaria distante da orla marítima. Se deixou levar.

Farol que orientou Dico

Dico tinha um sonho: queria pescar o maior “pirarucu” que alguém tivesse pescado algum dia.

As horas foram passando. A noite chegou e nada de Dico conseguir pescar o “pirarucu”, coisa que, inicialmente parecia fácil. Mas não era.

Longe da costa, sem uma lamparina – que não levara por achar que voltaria cedo com o maior pirarucu já pescado – as dificuldades só aumentavam. Nada de peixe. A preocupação, agora, era com a volta para casa.

A escuridão foi – finalmente – importante para que Dico, já desesperado, avistasse um farol que, pela distância sugeria a proximidade da orla marítima.

As luzes do farol acabaram ajudando Dico. Foi avistado por uma equipe de socorristas que, com muito trabalho lhe prestou ajuda e ajudou no resgate.

Um dos socorristas, atônito, perguntou:

– Ei siô, que bom que o encontramos. Fique tranquilo, vamos leva-lo para a orla. Conseguiu pescar muitos peixes?

Agradecido pelo socorro, Dico respondeu:

– Não. Não consegui pescar o meu “pirarucu”!

No que o socorrista, entre incrédulo e ansioso, acrescentou:

– É! “Pirarucu” o senhor jamais pescaria!

Sem entender, Dico perguntou:

– Por que?

Pirarucu, o gigante dos rios amazônicos

Ao que o socorrista respondeu:

– Senhor, vamos pra casa. O senhor queria pescar “pirarucu” no mar?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EU GOSTO DE VER O PÔR DO SOL E DE CONTAR ESTRELAS

Pequeno Príncipe e a raposa olhando o pôr do sol

“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol”. (Antoine du Saint-Exupèry)

Jamais serei poeta.

Nada tenho contra esses privilegiados. Louvo-os!

Eu não sei fazer rima. Nem versos. Nem poesia.

Mas, a vida me ensinou a contar estrelas.

Já contei milhares delas.

Para cada uma, dei um nome – já tenho mais que um Cruzeiro do Sul.

Converso com elas. As estrelas.

Com algumas, até já convivi.

Com a limpidez do céu da noite, quando estou triste pego um caderninho e rabisco uma poesia……. minto!

Conto estrelas, quando estou triste.

Até a insônia me permite contar estrelas que vejo e cumprimento como fazem os beija-flores em voos rasantes de reconhecimento.

Conto estrelas, quando estou triste.

Em vários momentos, a insônia me entristece – por isso, conto estrelas.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa gostam de ver o pôr do sol, todo fim de tarde, a insônia me impõe a tristeza – por isso, conto estrelas.

Também!

Vem-vem – o poeta

Todo fim de tarde, quando muitos estavam vendo o pôr do sol – um verso poético que se repete em várias partes do mundo, com a mesma rima – olhando para onde o sol nasceu ao amanhecer, vejo aquela árvore com galhos secos e desfolhados, sem rima, mas poeticamente recebe a esperança no cântico do vem-vem.

Para entender cada verso e toda a rima daquela poesia, é preciso estar triste.

Vem-vem canta a minúscula ave, enchendo de esperança a tristeza de quem espera a chegada de alguém. Que, às vezes, não vem.

Como o céu nublado no fim de tarde que não permite ver mais um pôr do sol, ou a chuva que não permite olhar (e contar) estrelas, o vem-vem canta sem saber que alguém não vem.

Mas amanhã e depois, em muitos fins de tarde, o vem-vem vai fazer poesia.

Cantando!

Mãos fazendo a poesia da debulha do milho

A terra recebe a semente semeada. A terra ajuda a semente semeada a nascer e a crescer, dia após dia. Verso após verso – com a rima da chuva, faz o milagre poético da colheita. As etapas, são versos rimados em poesias conclusas. Em sementes.

A colheita é a poesia da multiplicação da semente.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa precisam do céu sem nuvens para que continuem vendo a cada fim de tarde o pôr do sol; e a insônia continue acontecendo para que aconteça a contagem das estrelas, a poesia da semente só terá rima em todos os versos, com o debulhar do milho.

Na debulha, mãos envelhecidas e calejadas transformam o semear, o nascer e o colher do milho em poesia.

Não.

Eu não sou poeta.

Eu não sei rimar.

Mas, a vida me ensinou a ver o pôr do sol, a contar estrelas e a debulhar o milho.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POR QUEM OS SINOS TOCAM?

Os sinos da Igreja

Tivemos a época do pombo-correio. Faz tempo isso!

Tivemos a época da comunicação por tambores (lembrem como, na revista de quadrinhos, Tarzan mandava mensagens e como essas mensagens eram divulgadas; lembrem, também, a forma de comunicação do Fantasma para Lothar e até para chamar Capeto, o cão de estimação).

Era assim, sim!

Foi assim!

Hoje, muita coisa mudou e foi substituída pela tecnologia. Nem sempre eficiente ou absorvida por todos.

A correspondência dos Correios já foi feita por pessoas montando cavalos; as contas dos impostos já chegaram nos lombos de animais.

Hoje, basta “baixar” os aplicativos no telefone celular e tudo se resolve.

Garrafas de leite e um saco com pães eram deixados no batente da porta de entrada. Ninguém se atrevia a mexer. Era isso que os pais ensinavam e os filhos, obedientes, aprendiam.

Os jornais também eram colocados por debaixo da porta.

Mas, nunca será tarde nem ofensivo para relembrarmos, nas casas das famílias de maiores posses, como a patroa chamava a empregada: usando um pequeno sino. Ou, como o entregador de leite avisava que estava no portão: por meio de um sino; ou como alguém chamava o atendimento, ao chegar numa residência: tocando o sino afixado ao portão.

Mas, o que mais nos comove e traz boas lembranças, era o sino usado para anunciar o início de mais uma aula nos colégios. Mais alegres ainda, ficávamos, quando o sino tocava para o final das aulas do dia. Tempos bons que não voltam mais.

Nos dias atuais, os sinos estão sumindo até das torres das igrejas. Sino virou relíquia, depois de ser usado por anos e anos.

Alguém lembra o Pregoeiro que vendia “chegadinha” (uma casca doce de trigo torrada que servia também para receber o sorvete) e como ele anunciava o produto vendido de porta em porta em muitos bairros de cidades brasileiras?

Hoje, por quem os sinos tocam?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ÚLTIMO BONDE

A última viagem do bonde

Londres, Paris, Rio de Janeiro ou São Luís, o desenho do destino será sempre o mesmo. Antes, anos que marcaram séculos, um dos mais tradicionais e poéticos meios de transporte.

Hoje, o romantismo da saudade. A falta que faz em algumas cidades. Outras, mantiveram as viagens dependuradas nas soleiras e a figura central do Motorneiro.

Até onde se sabe, em Londres, uma das primeiras ruas do Centro nobre a receber a circulação os bondes, foi a Pentonville Road, onde os primeiros testes aconteceram em 1883. Antes, haviam sido “puxados a cavalo”. Testados e aprovados, os bondes elétricos de Londres circularam de 1901 até 1952, quando foram extintos. Voltaram a circular a partir do ano 2000 e distribuem tradição e eficácia até hoje.

Em Paris, a Rue de Rivoli, próxima ao Louvre foi a premiada com a beleza desse meio de transporte.

Mas, os Arcos da Lapa, na área central do Rio de Janeiro continuam levando passageiros e turistas curiosos para Santa Teresa, onde hoje, infelizmente, vive o domínio dos traficantes de drogas.

Via de bondes montada sobre os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro

Eufrásio era o nome dele. Figura esguia, descendente de família portuguesa. Em Lisboa aprendeu com o avô a se intrometer com o transporte público e a condução de bondes. Garantia que o avô dirigira um bonde puxado por duas parelhas de bons cavalos.

Em São Luís, foi morador do bairro Anil, por anos servido por bondes, inclusive bondes puxados a cavalos.

Bom conversador, relembrava as épocas áureas de Lisboa, onde dizia pretender voltar – ainda que fosse para ser enterrado.

Mas, voltando à Londres. Ali na terra da Rainha Elizabeth, Eufrásio seria Motorman, Tram driver ou ainda Streetcar operator/driver, designação distante da poesia que impregnamos na saudade.

Nas proximidades do Louvre, Seu Eufrásio não passaria de um Wattman ou Conducteur de tramway a desfilar pelas ruas centrais da Cidade Luz.

E, se algum dia retornasse à Lisboa, voltaria a ser conhecido como Guarda-freio ou Condutor de elétrico. Mas, distante algumas horas de Lisboa, no bairro do Anil, em São Luís, jamais passaria do simples Seu Eufrásio.

Seu Eufrásio vestido com “roupa de gala”

Entretanto, o destino das pessoas é desenhado e escrito ainda no ventre materno. Tudo que fará e viverá já está decidido. Assim, um misto de homenagem com decepção que seria guardada até a volta ao barro – e nunca para Lisboa – estava reservado para Seu Eufrásio.

A homenagem: conduzir o último bonde em circulação em São Luís, não para Lisboa, mas para o “cemitério” localizado no campus da UEMA, onde jaz. E de lá nunca mais sairá.

A decepção: nunca mais teria a chance de olhar as palmeiras onde ainda ecoam os cânticos dos sabiás na Praça Gonçalves Dias, um dos trajetos oficiais garantidos dos bondes.

O último bonde “depositado” como ferro velho no campus da UEMA

Hoje, diferentemente de Londres, Paris e Lisboa, São Luís que está inserida de forma mentirosa no combate à poluição e teve representante na COP30 dispensou esse transporte “despoluidor” e sepultou definitivamente o sonho do Seu Eufrásio, de um dia retornar em triunfo a Lisboa.

O emaranhado de trilhos que se estendiam do Anil e levavam ao Centro Histórico com passagens pela Praça Gonçalves Dias, já não nos permitem escutar o cântico dos sabiás.

Os trilhos estão soterrados pelo modernismo do asfalto, o sabiá parou de cantar, o último bonde está sendo destruído pela ferrugem e Seu Eufrásio, só Deus sabe onde está.

Os trilhos por onde passaram vidas, são hoje apenas lembranças

OBSERVAÇÃO: Fotos meramente ilustrativas – nada de reais.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS MEIZINHAS E AS ERVAS QUE NOS CURAVAM

Cheguei ao Maranhão, morando sempre na capital, São Luís em 1987. Nunca brinquei carnaval, já estava satisfeito com o carnaval do Rio de Janeiro, onde morei por vinte anos.

No Maranhão, o bumba-boi me fascinou e conquistou. Me habituei a ir até aos muitos ensaios, sem preferência de sotaque (sotaque, aqui, significa a linha cultural e o ritmo a serem seguidas e apresentadas).

Dito isso, preferi curtir o carnaval em casa: lendo, dormindo e acordando. Acho que ganhei!

Na tarde de quarta-feira, 18, mudei de atitude e fui ao Shopping tomar um café, e espairecer. Café expresso, que gosto muito, acompanhado com uns pães de queijo, que também aprecio.

No playground do shopping (vejam: quatro palavras, duas de origem inglesa no nosso dia-a-dia de brasileiros), para saborear o café, estrategicamente sentado observei que, num espaço cheio de umas bolinhas plásticas, um menino sofreu um pequeno acidente, e logo surgiu um trauma. A mãe (ou Babá) ficou atarentada e aparentemente sem saber o que fazer. Pegou o celular e falou com alguém. Depois de desligar o telefone, saiu apressada para garantir o atendimento à criança.

Passada aquela cena, continuei saboreando o café com os pães de queijo – e foi aí que me vieram à mente cenas da infância, e quando sofria algum acidente. Se o trauma provocasse sangramento, eu mesmo punha areia sobre o machucado e continuava brincando. Na capital, minha mãe me socorria com o nosso maravilhoso merthiolate.

Ardia, o merthiolate?

Puta que pariu! Como ardia! Era pior que sofrer o acidente.

Mas, a cena que me veio à mente, não foi estando na capital. Era no interior, na casa da minha milagrosa Avó!

Se o trauma provocasse apenas um “dedo desmentido”, a solução era o emplastro de mastruz (ou mastruço), que curava em menos de 24 horas. O leite de jasmim ou pó de café também eram usados.

Mastruz a erva milagrosa

“Mastruz (Mastruço) Dysphania ambrosioides – é uma espécie de planta com flor pertencente à família Amaranthaceae. É popularmente conhecida como erva-de-santa-maria, mentruz, mastruz, mastruço, chá-do-méxico, erva-formigueira, lombrigueira ou quenopódio. É uma planta de porte herbáceo que possui ampla distribuição pelo Brasil e outros países da América Latina. A espécie possui diversas propriedades biológicas muito utilizadas na medicina popular para tratamento de humanos, destacando-se as atividades vermicida, anti-inflamatória e cicatrizante.”

Das Queimadas – povoado pertencente a Pacajus (município cearense onde nasci) – até a margem da BR por onde passavam os ônibus que levavam à Fortaleza, precisávamos caminhar cerca de 20 léguas, numa estrada de areia fofa que nos obrigava a retirar os calçados. Precisávamos lavar os pés, quando atingíssemos a margem da BR.

Melhor não sacrificar ninguém com essa caminhada (entendia e decidia minha anafabeta Avó), o que a obrigava a recorrer, sempre, às “meizinhas”. Meizinhas, nada mais era que providências e curativos inventados e seguidos entre nós: e que nos curava de tudo.

As meizinhas curavam até soluço. A melhor meizinha para curar soluço, lembro bem, era provocar um “susto” ao acometido.

Plano de Saúde era coisa do mundo da lua. Cirurgia, ninguém conhecia. E, muitas vezes, a melhor meizinha para certas doenças, era a morte. O falecido gosaria da eternidade divina.

Melhor lugar que muitos foram, e, de tão satisfeitos, nunca voltaram.

Mutamba ou mutambo afrodisíaco e antidiarréico

Mutamba (Mutambo) – (Guazuma ulmifolia), da família Malvaceae, é uma árvore nativa da América Latina usada na medicina popular para tratar problemas digestivos (diarreia, cólicas), quedas de cabelo, diabetes e como adstringente, anti-inflamatório e antioxidante, sendo usada em chás e loções capilares, mas seu uso deve ter orientação profissional. A Guazuma ulmifolia é espécie arbórea pioneira, integrante da familía Malvaceae, conhecida no Pará como embira e mutamba-verdadeira, no Rio Grande do Sul como embiru, na Bahia como periquiteira (daí a certeza de ser afrodisíaca), no Mato Grosso como envireira e pau-de-bicho e em São Paulo como araticum-bravo, cabeça-de-negro e guaxima-torcida, é uma árvore que ocorre nativamente do México ao Brasil. Ela é encontrada em todos os estados brasileiros nos domínios fitogeográficos: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga em vegetações de área antrópica, floresta de terra firme, Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila e Floresta Ombrófila Mista. A planta possui diversos usos, incluindo como forragem animal e em preparos para alimentação humana e medicina tradicional.”

Tadalafila, ninguém conhecia. Ainda mais naqueles cerrados onde até o diabo perdera as botas (tirou-as para caminhar no areal e esqueceu nunca se soube onde).

Mas, alguém sempre teve a meizinha certa para alguns casos. Minha Avó. A figura era mestra nessas coisas.

Quando meu Avô estava cansado e sem “coragem” (aqui tem o sentido de “sem tesão”, mesmo. Vontade de nhanhar), minha Avó preparava uma gemada de ovo de galinha caipira com o chá da folha da mutamba. Era tiro e queda. Vovó saía pela casa pedindo socorro e procurando o cachimbo para ir fumar na latada fronteiriça da casa.

Cravo-da-India – O cravo é uma especiaria originária da Indonésia, muito apreciado na culinária e muito presente nas masalas, a parte consumida é chamada de botão floral, que é usada como tempero e chá. Possui aroma intenso e sabor marcante e uma especiaria muito versátil para preparos doces e salgados. O seu uso em sobremesas remonta de um antigo hábito, está relacionado ao poder repelente para impedir a invasão de formigas. Seus benefícios são associados a bons estímulos digestivos e a uma marcante propriedade bactericida e fungicida. Analgésico: O óleo de cravo contém um composto chamado eugenol, que tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias. Por esse motivo, o cravo-da-índia é frequentemente usado para aliviar dores de dente e gengivas. Bactericida: O cravo pode ajudar a combater bactérias nocivas quando aplicado topicamente, como na limpeza de feridas ou em tratamentos naturais para infecções cutâneas. Fungicida: O cravo também possui propriedades antifúngicas, pode ser usado no tratamento de infecções fúngicas, como pé de atleta ou micoses de unha.

Cravo-da-índia – Muito usado na medicina popular e na culinária

Nas férias escolares, quando íamos para a casa da Vovó levávamos nossos produtos de assepsia pessoal. Sabonete e creme dental Eucalol. Colgate ainda não existia, muito menos o Kolynos. Mas, lembro bem, já existia o sabonete Phebo. Apesar disso, banhos no açude tinham o auxílio do sabão Pavão. O dentifrício, quando acabava, usávamos a raspa do juazeiro ou folhas de melão São Caetano.

Mas, como o assunto é “meizinhas”, nas aflições com dentes estragados que doíam, Vovó fazia uma gororoba com cravo-da-índia, embebia num pedaço de algodão e punha na “panela” do dente. Era como se fosse uma anestesia.

E… por que, dor de dente em criança ataca sempre durante a noite?