O espanador estava ali, jogado a um canto, empoeirado. Cumprira sua missão diária de espanar o pó, a poeira, o sujo. Ninguém sequer olhava para ele. Antes, enquanto penas do pavão bonito, a ave imodesta julgava-se a maior e tratava mal as outras aves, por não serem tão belas quanto. Não imaginava, em seus desvarios, que também a beleza pode ser passageira, que a boniteza das cores pode ser efêmera se não tratada com a dignidade e com o respeito que merecem seus pares.
Depreciou o galo, por não ter toda a sua boniteza colorida. Achava que o capote, em seu branco e preto nada colorido, só agradava a meia dúzia de outros capotes que lhe cercavam e lhe dedicavam amizade. Fazia-se belo para o mundo esquecendo sua origem humilde e tratava com arrogância quem dele discordasse. Pobre pavão. Hoje é apenas um espanador, sujo, que se limita a tentar limpar a sujeira por ele mesmo deixada.
O capote, em preto e branco, continua no terreiro, alegrando os companheiros do sem-cor. E o galo canta todas as manhãs.
Impostos em excesso e mal aplicados em serviços, além de corrupção, servem para perpetuar a pobreza
Quem se der ao trabalho de pesquisar a história das administrações do governo central brasileiro nos últimos 70 anos constatará que pessoas, empresas e proprietários de ativos diversos foram submetidos o tempo todo a leis, decretos, regulamentos e decisões judiciais destinados a confiscar cada vez mais rendas e propriedades em ambiente de instabilidade e insegurança jurídica. Ameaças de aumento de tributos, depósitos compulsórios e outras formas inventadas pelo Estado para avançar sobre o dinheiro, bens, propriedades e direitos da população e do sistema produtivo sempre foram uma constante, tendo como agravante da prática de confisco de renda e propriedades o fato de o país ter passado a maior parte dessas sete últimas décadas sob o efeito de um imposto invisível e sem lei: a inflação. De saída, vale recordar que a inflação é essencialmente um produto governamental, um imposto sem lei, pelo qual a sociedade e os agentes privados perdem parte de sua renda e posses.
O governo dispõe de mecanismos de transferência de renda do setor privado para os cofres públicos a fim de sustentar seus gastos, mesmo em tempo de inflação. Um exemplo simples de como o governo lucra com a inflação está no sistema de contração de dívida pública por meio da venda de títulos do Tesouro Nacional. Quando alguém compra um título público e recebe, por exemplo, 14% de juros ante inflação de 5% no ano, o governo cobra de 14% a 22,5% de Imposto de Renda sobre o ganho total do investidor, a depender do prazo do título. Assim, a essa taxa de juros de 14% num título com prazo de um ano, o rendimento líquido após descontado o Imposto de Renda de 20% sobre o rendimento bruto fica em 11,2%, o que dá um rendimento real de 6,2% no ano após descontada a inflação de 5%.
Mas as armadilhas pelas quais o governo toma dinheiro da sociedade (pessoas e empresas) são várias e cheias de becos escuros que dificultam o entendimento de como o sistema funciona. Imagine-se o caso de um trabalhador assalariado: ele entrega parte de seu ganho ao governo quando recebe seu salário; paga impostos sobre aplicações financeiras feitas com parte de seu ganho que tenha poupado; paga impostos sobre compra de imóveis e bens de consumo durável. No caso de imóveis, ele paga tributos todos os anos pelo simples fato de os possuir (caso do IPTU e do ITR); quando ele vende tais bens, novos impostos são pagos. Se doar aos filhos em vida, incidem impostos sobre a doação; quando ele morre, os herdeiros pagam tributos sobre a herança para ter o direito de possuí-la. Por fim, todos os bens de consumo, inclusive os produtos sem os quais o ser humano não sobrevive, são tributados ao serem produzidos; há impostos sobre o transporte e, quando são vendidos, o consumidor paga mais tributos embutidos no preço final.
A necessidade de a população conhecer a realidade tributária em seus detalhes é essencial para a população entender a lógica do sistema econômico e de governo e, por consequência, desenvolver a consciência de política e cidadania. Não se trata de usar o conhecimento para revolta, mas de saber que, somente na atividade de tomar parte da renda de toda a sociedade e suas instituições em forma de tributos, o governo leva mais de um terço da renda nacional; logo, a educação tributária cumpre o papel de despertar a consciência da população para cobrar das estruturas de Estado e dos governantes uma postura moral na gestão dos recursos retirados da sociedade em impostos, além de exigir austeridade, eficiência e produtividade.
Nos tempos atuais, o Brasil perdeu (se é que algum dia teve) a capacidade de não reeleger, de se indignar e de exigir punição aos que dilapidam o dinheiro público pela ineficiência e pela corrupção. Pelo contrário, a regularidade com que os brasileiros vêm reelegendo políticos provadamente corruptos, muitos deles já condenados pela Justiça, é um comportamento preocupante e que contribui para impedir o crescimento econômico e a melhoria das condições de vida da população. Outro problema que está se tornando endêmico são os altíssimos salários, vantagens, benefícios e mordomias de certas categorias de burocratas nos três poderes, cujos valores são aprovados pelos próprios beneficiários, piorando ainda mais o quadro de corrupção e inchaço da máquina estatal, sempre voraz em comer grande parcela da carga tributária efetivamente arrecadada.
Baixo crescimento econômico, altos índices de pobreza, indicadores sociais ruins, alta carga tributária, déficits públicos, elevado endividamento do governo, atraso tecnológico, precariedade dos serviços públicos, deficiência da infraestrutura física e perspectivas ruins de aumento da renda per capita nas próximas décadas formam uma realidade que não é produzida pelo acaso. Pelo contrário, trata-se de resultado do que o Brasil – sociedade e governo – vem fazendo com suas instituições e sua realidade econômica. Em ano eleitoral, o país corre o risco de acabar repetindo o que sempre foi a política brasileira: mudam-se os nomes dos eleitos e alternam-se os partidos, mas as marcas do atraso reveladas pelos indicadores sociais ruins e o empobrecimento moral estampado na corrupção repetem seu curso normal a cada mudança de governo.
Pelé chora nos ombros do goleiro Gylmar após a vitória brasileira na final da Copa do Mundo de 1958
Na tarde deste domingo, Espanha e Argentina entram em campo para decidir a Copa do Mundo. Os brasileiros se dividirão entre a torcida por (ou contra) alguma das duas seleções, por motivos os mais variados; a neutralidade com expectativa de um bom futebol e uma partida emocionante, como foi a final anterior, de 2022, entre França e Argentina; ou mesmo a indiferença, já que a seleção brasileira ficou pelo caminho, eliminada pela Noruega nas oitavas-de-final. A derrota já foi bastante dissecada, com análises para todos os gostos, mas uma frase em específico tem sido bastante ouvida, e já o era antes mesmo de uma Copa na qual o Brasil não figurava entre os grandes favoritos: “não somos mais o país do futebol”.
Se o veredito é correto ou não, é algo a se discutir, até porque o Brasil continua produzindo jogadores de qualidade, destaques em alguns dos mais importantes times do mundo. Mas ele demonstra uma frustração do brasileiro, e que vai além de simples ausência de conquistas em Copas do Mundo: o sentimento de que a época em que o Brasil era mundialmente reconhecido pela qualidade ímpar do seu futebol ficou no passado. Não se trata de um simples gosto pela vitória, mas da sensação agradável de saber que o time brasileiro era um dos melhores do mundo, sempre admirado e temido, ganhando ou perdendo – não à toa a seleção de 1982 é ainda hoje vista como uma das melhores do mundo a não ter erguido o troféu de campeão, elogiada pela beleza de seu jogo.
A excelência em qualquer ramo tem a capacidade de nos alegrar e orgulhar. Uma Copa do Mundo, um Oscar, um Nobel (que ainda nos falta), uma medalha de ouro olímpica – e em 2026 o Brasil conquistou sua primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno, o ouro de Lucas Pinheiro Braathen no esqui alpino – são atestados de que o Brasil e os brasileiros são capazes de fazer coisas grandiosas. Quando o maior jogador de futebol de todos os tempos faleceu, foi dito que o legado de Pelé não foi apenas o tricampeonato mundial, mas também o fato de a primeira conquista, em 1958, ter causado uma reviravolta na autoestima do brasileiro, traumatizado com o Maracanazo de 1950 e diagnosticado com o que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-latas”.
Alguém dirá que melhor que vencer uma, ou três, ou cinco Copas do Mundo é estar entre os melhores do planeta em indicadores sociais, em produção científica, em tecnologia, em padrão de vida, em IDH. E é verdade. Mas não podemos criar uma falsa dicotomia, como se tivéssemos de escolher entre conquistas esportivas e desenvolvimento socioeconômico. Podemos perseguir ambos. As vitórias esportivas e outros reconhecimentos internacionais são importantes porque nos inspiram e mostram aonde podemos chegar, também em outras áreas – desde que o país lhes dê importância. Uma coisa é ser o “país do futebol” por ser excelente com a bola nos pés, e outra é ser o “país do futebol” porque ele se tornou a única prioridade nacional.
Nossa frustração com a derrota de duas semanas atrás e com a ideia mais ampla de que o nome “Brasil” já não é sinônimo de grande futebol é uma demonstração implícita de que somos atraídos pela excelência, individualmente e coletivamente, embora nem sempre nos demos conta disso. Reconhecer essa nossa vocação é o primeiro passo para trabalhar em busca dela – esforçando-nos para ser pessoas melhores, revendo nossas prioridades, criando as condições para que os talentos aflorem nas mais diversas áreas, prestigiando o que merece ser prestigiado e repudiando o que merece ser repudiado. Só assim teremos muitas outras razões de orgulho e inspiração.
A viagem da volta ao final das férias, sempre vai ser muito diferente e menos emocionante que a viagem da chegada para viver o período de férias. Férias escolares, explique-se.
Na chegada, há lágrimas. Lágrimas de alegria.
Na viagem da volta, também há lágrimas. Lágrimas de tristeza, de despedida.
A chegada é feita com flores de boas-vindas. A viagem da volta leva sempre malas abarrotadas de tristezas e da saudade que começa a bater naquele instante.
A estação vive festa para a viagem de chegada.
A estação cresce impulsionada pelo fermento da alegria. Na viagem da volta, a estação se entristece, se apequena, diminui.
A viagem será sempre uma viagem.
* * *
A espera
A espera do encontro poético
Esperei, conforme combinamos.
Escolhi um dos melhores locais para esperar-te, conforme tens demonstrado nas nossas (mais tuas que minhas) comunicações.
Esperar é ter a certeza da tua presença.
É como a rima de um soneto, e de uma poesia, cuja ausência gera um descontrole – e o encontro e a poesia não se completam.
Esperei, conforme combinamos.
Escolhi um lugar onde as flores estavam vicejantes, bonitas, tanto quanto tu e a tua presença.
Enquanto esperava, e, sentindo a tua ausência, colhi flores que tinham o teu perfume – talvez por isso a tua demora me fez entristecer..
Esperei, conforme combinamos.
Não combinamos tua demora, tampouco tua ausência.
Escolhi um bom banco, onde havia as flores mais lindas e perfumadas. Os lampiões desenhavam o entorno de uma neblina fraca. Pouco sabiam que eu estava te esperando, conforme combinamos.
A neblina virou chuva. Os lampiões acendiam e apagavam sinalizando que não virias, e fui embora.
Molhado.
Triste.
Cabisbaixo, mas consciente que te esperarei. Se combinarmos.
* * *
A semente semeada
Semear sementes é dar chances à vida
“Porque, assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Soberano, o Senhor, fará nascer a justiça e o louvor diante de todas as nações.”
O que você semear, nascerá.
E o fruto, doce ou azedo, chegará até você.
Alguém que caminhou pelo deserto, passou sede e sofreu fisicamente, pelas mãos divinas alcançou a “Terra prometida” – e é chegada a hora de semear a boa semente. Essa nascerá e servirá de alimento para muitos.
O bezerro de ouro edificado com o vosso sangue e a vossa adoração, perecerá.
O despertar será renovado – porque de Deus, ninguém zombará.