JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A estação deserta após viagem

A viagem da volta ao final das férias, sempre vai ser muito diferente e menos emocionante que a viagem da chegada para viver o período de férias. Férias escolares, explique-se.

Na chegada, há lágrimas. Lágrimas de alegria.

Na viagem da volta, também há lágrimas. Lágrimas de tristeza, de despedida.

A chegada é feita com flores de boas-vindas. A viagem da volta leva sempre malas abarrotadas de tristezas e da saudade que começa a bater naquele instante.

A estação vive festa para a viagem de chegada.

A estação cresce impulsionada pelo fermento da alegria. Na viagem da volta, a estação se entristece, se apequena, diminui.

A viagem será sempre uma viagem.

* * *

A espera

A espera do encontro poético

Esperei, conforme combinamos.

Escolhi um dos melhores locais para esperar-te, conforme tens demonstrado nas nossas (mais tuas que minhas) comunicações.

Esperar é ter a certeza da tua presença.

É como a rima de um soneto, e de uma poesia, cuja ausência gera um descontrole – e o encontro e a poesia não se completam.

Esperei, conforme combinamos.

Escolhi um lugar onde as flores estavam vicejantes, bonitas, tanto quanto tu e a tua presença.

Enquanto esperava, e, sentindo a tua ausência, colhi flores que tinham o teu perfume – talvez por isso a tua demora me fez entristecer..

Esperei, conforme combinamos.

Não combinamos tua demora, tampouco tua ausência.

Escolhi um bom banco, onde havia as flores mais lindas e perfumadas. Os lampiões desenhavam o entorno de uma neblina fraca. Pouco sabiam que eu estava te esperando, conforme combinamos.

A neblina virou chuva. Os lampiões acendiam e apagavam sinalizando que não virias, e fui embora.

Molhado.

Triste.

Cabisbaixo, mas consciente que te esperarei. Se combinarmos.

* * *

A semente semeada

Semear sementes é dar chances à vida

“Porque, assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Soberano, o Senhor, fará nascer a justiça e o louvor
diante de todas as nações.”

O que você semear, nascerá.

E o fruto, doce ou azedo, chegará até você.

Alguém que caminhou pelo deserto, passou sede e sofreu fisicamente, pelas mãos divinas alcançou a “Terra prometida” – e é chegada a hora de semear a boa semente. Essa nascerá e servirá de alimento para muitos.

O bezerro de ouro edificado com o vosso sangue e a vossa adoração, perecerá.

O despertar será renovado – porque de Deus, ninguém zombará.

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