Arquivo diários:15 de agosto de 2026
LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA
A PALAVRA DO EDITOR
UM PEQUENO DESMANTELO 2
CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA
O ROUBO DO OPALA VERMELHO
Emílio é engenheiro, trabalhador e inteligente, homem realizado e casado com Sandra, advogada, procuradora do Estado. Formam um belo casal de bem com a vida, se amam, fizeram três bonitos filhos.
Só existe um probleminha: Sandra padece de um mal incurável, é desligada, distraída. O que já perdeu de óculos e celulares, dava para montar uma loja.
Há algum tempo, quando os carros eram coloridos, Sandra deu uma batida em seu carro, distração. Enquanto consertava, pegou um emprestado na loja de carros usados de seu irmão. Ele cedeu um Opala Vermelho, velho. Sandra chegou em casa com o carro emprestado. Na quarta-feira de manhã Sandra foi fazer a feira no supermercado, precisava abastecer a casa na praia de Barra de São Miguel na semana santa.
Depois de todas as compras possíveis no supermercado, cheia de pacotes nos carrinhos, ficou a procura de seu carro no estacionamento, nunca lembrava onde estacionava. Até que viu ao longe um Opala vermelho. A porta estava meio emperrada para abrir, mas conseguiu, colocou as compras no banco traseiro, deu o arranque e foi para casa.
Na hora do almoço, Emílio combinou para ela ir à Barra na frente, as crianças estavam ansiosas. Ele só desocupava no dia seguinte, tinha muito trabalho em casa. Era melhor ela viajar no seu carro, um belo Toyota. Ele ficava com o Opala emprestado.
Na quinta-feira, logo após o almoço, Emílio com dificuldade deu a partida no Opala, em direção à Barra, satisfeito da vida, dentro de uma velha bermuda e uma camisa leve, mais velha ainda. Esqueceu o celular, até que achou uma boa, não ser incomodado para resolver problemas, os sócios que se virassem, queria curtir o feriadão sem problemas, sem aporrinhação. Amava sua casa, sua praia, sua mulher, sua família.
Quando passou pelo Posto Policial de Marechal Deodoro, um guarda mandou parar. Ele prontamente obedeceu, mostrou as carteiras e os documentos do carro que estavam no porta-luvas. O guarda examinou, olhou nos olhos de Emílio.
– Por favor queira saltar, esse carro é roubado.
Emílio ficou surpreso e incrédulo olhando para o guarda, dirigiu-se para o interior do Posto. Tentou se explicar, dizendo ser engenheiro, que o carro era do cunhado, tinha emprestado à sua esposa. Muita explicação dá para desconfiar. O policial pediu a carteira de engenheiro. Ele não usava, ficava em casa guardada. O policial pelas roupas que Emílio vestia, desconfiou, era suspeito. Mandou aguardar, chamou o Detran, o Departamento de Furto, ele que esclarecesse os fatos a esses senhores. Sem o celular, não dava para Emílio se comunicar, achou que resolveria a bronca.
Ficou à espera do Detran, enquanto xingava o cunhado por ter emprestado um carro roubado. Quase duas horas depois, apareceu o pessoal do Detran. Emílio prestou os esclarecimentos, mas não teve muito crédito. Os policiais pediram para recolher o carro e que ele o acompanhasse até o Detran. Emílio foi dirigindo o Opala com um policial ao lado, e atrás, escoltando, um carro da Polícia.
No Detran teve que se explicar de novo a outros policiais, que o acharam também suspeito, mandaram aguardar, estavam se comunicando com o proprietário do carro. Emílio estava fulo de raiva do cunhado, sem poder comunicar-se com ninguém; suspeito, os policiais não deixaram telefonar. Um policial, disse ter certeza que ele pertencia a uma quadrilha de puxadores de carro, que atuava em Arapiraca.
Esperou até chegar o proprietário do Opala vermelho, um cidadão magro cheirando a cachaça, feliz por ter encontrado seu santo carro.
O proprietário foi a fonte salvadora, esclareceu o acontecido: ele estacionou o seu Opala no supermercado, quando Sandra viu um Opala vermelho, pensou ser o dela. Sua chave abriu a porta e deu a partida, foi embora levando o carro alheio. O Opala dela ainda está estacionado no supermercado, ele viu.
Tudo esclarecido, desculpas pedidas de ambas as partes, Emílio partiu num táxi ansioso para Barra, estava anoitecendo. Queria chegar logo, irado com a distração de Sandra. Ninguém iria acreditar. Ao chegar na Barra Sandra brincava com as crianças na calçada quando o táxi parou em frente a sua casa. Sandra não notou a fisionomia do marido, na maior alegria perguntou.
– Porquê chegou a essa hora? Não sabe o que perdeu, a praia hoje estava maravilhosa!!!
HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE
A FORÇA DO TEMPO
CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA
MARTELO SEM VERGONHA
O martelo e o malhete. Destinações bem diferentes
Sou neto de um Juiz de Direito, mas não o conheci. O Dr. Pacífico dos Santos, era advogado, jornalista e professor. Tem até nome de rua no bairro do Paissandu, de tão ilustre que era.
Ouvi meu pai representar no Teatro, cenas de júri. Mas nunca me animei para ser advogado. As Catilinárias, uma das dificuldades que me emparedavam. Ainda hoje trepido na base ao me lembrar do latim: Catilinam Orationes Quattuor, os célebres discursos de Marco Túlio Cícero, cônsul romano. Devia ser um barato!
Anos mais tarde, escrevi biografias e editei vários livros para advogados. Com eles aprendi muito e cheguei à conclusão de que se trata de uma profissão difícil e ingrata. E ser juiz, mais ainda!
Quando se ouve numa sessão a pancada do malhete – que muitos chamam de martelo do juiz – sabe-se que a partir daquele momento se exige ordem e respeito. Reina a autoridade e a necessidade de silêncio. Para anunciar o final da reunião, o juiz usa, novamente, o malhete, anunciando a decisão do Conselho de Justiça.
Bater o martelo não é como se entende nos dias de hoje: o fechamento de qualquer contrato, o final de um processo, coisas assim.
O Juiz bateu o martelo! Não; não bate. Juiz bate o malhete! Poucos sabem disso e até advogados pronunciam a decisão judicial citando o martelo e não o malhete, contribuindo para a avacalhação do Direito e virando o texto pelo avesso.
Assim, essa história de “bater o martelo” no fechamento de uma negociação não é “legal”. É gíria. “Tá legal?” Aliás, decisão legal é aquela que transitou em julgado.
Com o tempo, até as elites foram se acostumando com expressões chulas, erradas. E haja sufoco para suportá-las!
Menciono aqui algumas palavras e frases vulgares, que desmerecem a ciência do Direito, principalmente algumas pronunciadas por advogados, durante prosas descontraídas, deixando para trás belos brocardos em latim.
Vamos a algumas referências colhidas em processos que andei folheando nos meus tempos de Repórter Policial:
Lambança jurídica; falcatrua sexual; elemento vivaldino; camarada inoperante; deletério e metido a justiceiro; jurisprudência viciada; bode “explanatório”; martelada do juiz; engembração da verdade; desaforado meliante.
Em tempos outros, corriam frouxas as “traduções” mais esdrúxulas, circulantes entre a meninada que morava nas proximidades do Largo da Paz:
Dura Lex sed Lex – (No cabelo só Gumex)
Alea jacta est (o baralho tá na mesa)
O Processo vai ficar para as calendas gregas.
Esta, na expressão popular, significa adiamento para o dia de São Nunca.
O termo “calendas” referia-se ao primeiro do mês no calendário, mas os gregos não possuíam esse termo. Logo, marcar um compromisso para as “calendas gregas” era marcar um dia inexistente.
Outra vulgaridade oriunda da avacalhação do Direito: “Vou senta-lhe a marreta”, coisa semelhante a se dizer que alguém vai perder a questão jurídica. Geralmente é o solicitador da causa que se vangloria, antes do trânsito em juízo. Equivalente a: vou “meter-lhe o pau.”
Têmis, a deusa grega da Justiça. Praça dos Três Poderes, Brasília
Nos anos 1970, ao visitar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, acompanhando um modesto amigo pernambucano, vimos a estátua que tem olhos vendados e a espada no colo. De imediato ele exclamou:
“Pra que uma criatura cega com uma espada? Seria melhor o martelo do Juiz!”
Mal sabia ele que dali a algumas décadas, aquela estátua da deusa Têmis, seria um símbolo enganoso do que é a Justiça Superior brasileira.
A estátua fincada em frente ao Supremo Tribunal Federal (agora tão ”levado da breca”) representa: Têmis, a deusa grega da Justiça. Foi esculpida por Alfredo Ceschiatti, brasileiro nascido em Minas Gerais, a partir de um bloco monolítico de 3,3 metros de altura.
A venda nos olhos representa a imparcialidade; a espada, a força da Justiça. Mas, curiosamente, ela não segura a tradicional balança. Creio que não foi esquecida pelo escultor. Ele, certamente, já previa que ela viria a ser avacalhada, diante do desrespeito dos poderosos atuais.
Boa hora para se dizer, como no vulgo: faltou, na peça, não o malhete de juiz, mas outra peça justiceira: o martelo sem vergonha.
PENINHA - DICA MUSICAL




