SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CONVICÇÃO – Giuseppe Artidoro Ghiaroni

Por saberes que nunca serás minha
permites que entre nós, timidamente,
vacile a intimidade reticente
que haveria entre súdito e rainha.

Não que saibas. Serias adivinha
se soubesses que te amo loucamente.
Já me tomas até por confidente
por saberes que nunca serás minha.

E não que eu pense mal de ti, pois vivo
a imaginar-te um cisne pensativo
sob a vivacidade de andorinha.

Mas, quando ris olhando-me de frente,
parece-me que ris unicamente
por saberes que nunca serás minha!

Giuseppe Artidoro Ghiaroni, Paraíba do Sul-RJ, (1919-2008)

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS MEIZINHAS E AS ERVAS QUE NOS CURAVAM

Cheguei ao Maranhão, morando sempre na capital, São Luís em 1987. Nunca brinquei carnaval, já estava satisfeito com o carnaval do Rio de Janeiro, onde morei por vinte anos.

No Maranhão, o bumba-boi me fascinou e conquistou. Me habituei a ir até aos muitos ensaios, sem preferência de sotaque (sotaque, aqui, significa a linha cultural e o ritmo a serem seguidas e apresentadas).

Dito isso, preferi curtir o carnaval em casa: lendo, dormindo e acordando. Acho que ganhei!

Na tarde de quarta-feira, 18, mudei de atitude e fui ao Shopping tomar um café, e espairecer. Café expresso, que gosto muito, acompanhado com uns pães de queijo, que também aprecio.

No playground do shopping (vejam: quatro palavras, duas de origem inglesa no nosso dia-a-dia de brasileiros), para saborear o café, estrategicamente sentado observei que, num espaço cheio de umas bolinhas plásticas, um menino sofreu um pequeno acidente, e logo surgiu um trauma. A mãe (ou Babá) ficou atarentada e aparentemente sem saber o que fazer. Pegou o celular e falou com alguém. Depois de desligar o telefone, saiu apressada para garantir o atendimento à criança.

Passada aquela cena, continuei saboreando o café com os pães de queijo – e foi aí que me vieram à mente cenas da infância, e quando sofria algum acidente. Se o trauma provocasse sangramento, eu mesmo punha areia sobre o machucado e continuava brincando. Na capital, minha mãe me socorria com o nosso maravilhoso merthiolate.

Ardia, o merthiolate?

Puta que pariu! Como ardia! Era pior que sofrer o acidente.

Mas, a cena que me veio à mente, não foi estando na capital. Era no interior, na casa da minha milagrosa Avó!

Se o trauma provocasse apenas um “dedo desmentido”, a solução era o emplastro de mastruz (ou mastruço), que curava em menos de 24 horas. O leite de jasmim ou pó de café também eram usados.

Mastruz a erva milagrosa

“Mastruz (Mastruço) Dysphania ambrosioides – é uma espécie de planta com flor pertencente à família Amaranthaceae. É popularmente conhecida como erva-de-santa-maria, mentruz, mastruz, mastruço, chá-do-méxico, erva-formigueira, lombrigueira ou quenopódio. É uma planta de porte herbáceo que possui ampla distribuição pelo Brasil e outros países da América Latina. A espécie possui diversas propriedades biológicas muito utilizadas na medicina popular para tratamento de humanos, destacando-se as atividades vermicida, anti-inflamatória e cicatrizante.”

Das Queimadas – povoado pertencente a Pacajus (município cearense onde nasci) – até a margem da BR por onde passavam os ônibus que levavam à Fortaleza, precisávamos caminhar cerca de 20 léguas, numa estrada de areia fofa que nos obrigava a retirar os calçados. Precisávamos lavar os pés, quando atingíssemos a margem da BR.

Melhor não sacrificar ninguém com essa caminhada (entendia e decidia minha anafabeta Avó), o que a obrigava a recorrer, sempre, às “meizinhas”. Meizinhas, nada mais era que providências e curativos inventados e seguidos entre nós: e que nos curava de tudo.

As meizinhas curavam até soluço. A melhor meizinha para curar soluço, lembro bem, era provocar um “susto” ao acometido.

Plano de Saúde era coisa do mundo da lua. Cirurgia, ninguém conhecia. E, muitas vezes, a melhor meizinha para certas doenças, era a morte. O falecido gosaria da eternidade divina.

Melhor lugar que muitos foram, e, de tão satisfeitos, nunca voltaram.

Mutamba ou mutambo afrodisíaco e antidiarréico

Mutamba (Mutambo) – (Guazuma ulmifolia), da família Malvaceae, é uma árvore nativa da América Latina usada na medicina popular para tratar problemas digestivos (diarreia, cólicas), quedas de cabelo, diabetes e como adstringente, anti-inflamatório e antioxidante, sendo usada em chás e loções capilares, mas seu uso deve ter orientação profissional. A Guazuma ulmifolia é espécie arbórea pioneira, integrante da familía Malvaceae, conhecida no Pará como embira e mutamba-verdadeira, no Rio Grande do Sul como embiru, na Bahia como periquiteira (daí a certeza de ser afrodisíaca), no Mato Grosso como envireira e pau-de-bicho e em São Paulo como araticum-bravo, cabeça-de-negro e guaxima-torcida, é uma árvore que ocorre nativamente do México ao Brasil. Ela é encontrada em todos os estados brasileiros nos domínios fitogeográficos: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga em vegetações de área antrópica, floresta de terra firme, Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila e Floresta Ombrófila Mista. A planta possui diversos usos, incluindo como forragem animal e em preparos para alimentação humana e medicina tradicional.”

Tadalafila, ninguém conhecia. Ainda mais naqueles cerrados onde até o diabo perdera as botas (tirou-as para caminhar no areal e esqueceu nunca se soube onde).

Mas, alguém sempre teve a meizinha certa para alguns casos. Minha Avó. A figura era mestra nessas coisas.

Quando meu Avô estava cansado e sem “coragem” (aqui tem o sentido de “sem tesão”, mesmo. Vontade de nhanhar), minha Avó preparava uma gemada de ovo de galinha caipira com o chá da folha da mutamba. Era tiro e queda. Vovó saía pela casa pedindo socorro e procurando o cachimbo para ir fumar na latada fronteiriça da casa.

Cravo-da-India – O cravo é uma especiaria originária da Indonésia, muito apreciado na culinária e muito presente nas masalas, a parte consumida é chamada de botão floral, que é usada como tempero e chá. Possui aroma intenso e sabor marcante e uma especiaria muito versátil para preparos doces e salgados. O seu uso em sobremesas remonta de um antigo hábito, está relacionado ao poder repelente para impedir a invasão de formigas. Seus benefícios são associados a bons estímulos digestivos e a uma marcante propriedade bactericida e fungicida. Analgésico: O óleo de cravo contém um composto chamado eugenol, que tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias. Por esse motivo, o cravo-da-índia é frequentemente usado para aliviar dores de dente e gengivas. Bactericida: O cravo pode ajudar a combater bactérias nocivas quando aplicado topicamente, como na limpeza de feridas ou em tratamentos naturais para infecções cutâneas. Fungicida: O cravo também possui propriedades antifúngicas, pode ser usado no tratamento de infecções fúngicas, como pé de atleta ou micoses de unha.

Cravo-da-índia – Muito usado na medicina popular e na culinária

Nas férias escolares, quando íamos para a casa da Vovó levávamos nossos produtos de assepsia pessoal. Sabonete e creme dental Eucalol. Colgate ainda não existia, muito menos o Kolynos. Mas, lembro bem, já existia o sabonete Phebo. Apesar disso, banhos no açude tinham o auxílio do sabão Pavão. O dentifrício, quando acabava, usávamos a raspa do juazeiro ou folhas de melão São Caetano.

Mas, como o assunto é “meizinhas”, nas aflições com dentes estragados que doíam, Vovó fazia uma gororoba com cravo-da-índia, embebia num pedaço de algodão e punha na “panela” do dente. Era como se fosse uma anestesia.

E… por que, dor de dente em criança ataca sempre durante a noite?

DEU NO JORNAL

MISSÃO IMPOSSÍVEL

Para o senador Marcos Rogério (PL-RO), “a esquerda segue usando a sua milícia digital para tentar manipular a população. Tá na hora de acabar com a máquina de mentiras do PT”, conclama.

* * *

Não adianta, sinhô senador.

Tentar acabar com a “máquina de mentiras” do PT é igual dar conselho a doido:

Pura perda de tempo.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO JORNAL

BOLSA FAMÍLIA

O Bolsa Família completou duas décadas em meio a um paradoxo gritante: em vez de acesso à ascensão social, virou uma rede de dependência crônica que expõe o fiasco das políticas assistencialistas.

Lançado em 2003 para “erradicar a miséria”, o programa prometia transferência de renda e porta de saída para a pobreza. Era mentira. Estudos independentes revelam que 20% das crianças e adolescentes atendidos em 2005, hoje, adultos, ainda dependem do benefício.

O Brasil assiste o oposto da prometida ascensão social dos mais pobres: inchaço persistente refletindo o fracasso em atacar as raízes da pobreza.

Não precisa ser gênio: o governo mantém os pobres presos ao Bolsa Família para lhes cobrar “gratidão’ por meio do voto, a cada eleição.

Com a economia estagnada, o Brasil do PT perpetua o assistencialismo em vez de fomentar empregos dignos e educação transformadora.

O Bolsa Família virou “o maior programa de compra de votos do mundo”, como certa vez definiu o então senador Jarbas Vasconcelos (MDB-PE).

* * *

Uma nota para reflexão dominical dos leitores fubânicos.

Quem quiser comentar, fique à vontade.

Um magnífico dia para todos vocês!!!

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cruz Cesar nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 2/6/1952. Poeta, crítica literária, professora e tradutora, considerada um dos principais nomes da “geração mimeógrafo”, movimento literário da poesia marginal na década de 1970, pela valorização do cotidiano, da liberdade estética e da resistência política.

Filha de Maria Luiza Cesar e Waldo Aranha Cesar, fundador da editora Paz Terra. Foi licenciada em Letras pela PUC-RJ-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1975; cursou o mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja dissertação resultou na publicação do livro Literatura não é documento, publicado em 1980, Uma de suas professoras, Heloisa Buarque de Holanda, incluiu-a em sua antologia 26 Poetas hoje, seleção de talentosos representantes daquela geração.

Foi uma poeta precoce. Aos 6 anos ditava poemas para sua mãe e chegou a escrever um poema com 5 estrofes, que foi publicado no boletim escolar dirigido aos professores do Colégio Bennetti. Deu-lhe o título “Uma poesia de criança”. Em seguida seu talento precoce foi reconhecido pela escritora Lúcia Benedett, que em 1959 publicou o artigo “Poetisas de vestidos curtos” na Tribuna da Imprensa, afirmando: “Ao entregar ao público os versos de Ana Cristina, sinto a mesma natural reação de alguém que vê nascer uma flor num canteiro cultivado. Ana Cristina começou a fazer poemas antes de saber ler e escrever. O mecanismo de escrita ainda não está para ela suficientemente adestrado para correr em socorro de sua inspiração poética”.

Em 1960, manifestou o gosto pela escrita, comprovado no bilhete destinado ao Papai Noel. No bilhete ela pede: “três cadernetas e um bloco grande com pauta”, e continua: “Papai Noel, em todos os meus presentes quero um cartão escrito com a letra do Sr., hein?”. Em 1969 viveu durante um ano na Inglaterra através de intercâmbio escolar e, ao retornar passou a escrever e publicar em revistas e jornais alternativos e seguiu publicando edições independentes. Mais tarde voltou à Inglaterra para fazer um mestrado em tradução e lá escreveu o livro de poemas Luvas de pelica.

Enquanto isso, colaborava com críticas jornalísticas em revistas e revistas brasileiras e internacionais. Sua obra apresenta uma linha fina entre o ficcional e o autobiográfico através de um estilo informal e aparente improviso. Perguntada se sua poesia era racional: “É muito construída, muito penosa”. Segundo o prof. Michel Riaudel, da Universidade Sorbonne e autor do e-book A nebulosa marginal e Ana Cristina Cesar, “ela brinca com as expectativas do seu tempo e simula intimidade, mas mina a linearidade narrativa com cortes, colagens e jogos de palavras. Utilizando uma linguagem com expressões e falas cotidianas, cria textos densos e reflexivos”. Foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty, em 1970.

Sua morte prematura aos 31 anos com o suicídio, contribuiu para alimentar o mistério sobre sua vida. Publicou apenas um livro de poesias distribuído no circuito comercial, em 1982: A teus pés. O poeta Armando Freitas Filho, seu amigo e apresentador da obra, caracteriza sua obra poética com “um tom coloquial, a experiência imediata e cotidiana, captada através de uma escrita sem aura, instantânea, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas da literatura em geral e das vanguardas estabelecidas e dogmáticas”.

Seu interesse pela palavra ficou registrado nos livros publicados e em muitos dos cadernos que estão em seu arquivo aos cuidados do IMS-Instituto Moreira Salles. São estudos, resenhas, poemas, rasuras e mais poemas. Num deles, que data de 1961, aos 9 anos ela já se considerando “autora”, deixa o aviso ao leitor: “Poesias – Só leia se estiver com o coração puro e doce”. Ler com o coração: pressuposto requerido para entender o ritmo ora denso, ora fluido em sua literatura

A poeta precoce faleceu em 29/10/1983, aos 31 anos, Segundo Elizama Almeida, da Coordenadoria de Literatura do IMS, “Se julgamos prematura sua morte, vemos por outro lado que seu início na vida literária, felizmente, também o foi. Com incrível desenvoltura revelada não só nos livros publicados até aquele ano como nos inéditos post-mortem, a autora de A teus pés ainda hoje nos deixa na mesma suspensão em que ficou antes de ir, por vontade própria, ao encontro da “Dama branca”, que, como escreveu Manuel Bandeira, lhe sorriu em todos os desenganos”

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ALVES FERREIRA – SÃO PAULO-SP

Olá!

Tatiana Lobo Coelho de Sampaio

Já ouviu esse nome?

Não, não é a influencer da moda ou as muitas que existem no universo inútil da internet …, mas, ao contrário influenciará muitas pessoas, em um sentido mais importante…e, muito mais útil.

Se não ouviu, saiba que é uma pessoa simples, dedicada e que desenvolveu pesquisa que trará de volta movimentos e vida normal aos prejudicados por lesões na coluna àqueles condenados a vida vegetativa, por motivos vários.

Sim, ela com esforço e dedicação durante 20 e tantos anos, com salário baixo e sem penduricalhos, gastando até de seus vencimentos para manter a pesquisa, obteve um resultado: conseguir pôr de pé, trazer a normalidade os tetraplégicos, quadriplégicos e outros tantos termos para definir os condenados a cadeira de rodas, muitas sem serem elétricas, ou até sem ela…jogados em uma cama.

Mas, esse é nosso país onde pesquisadores sérios são ignorados e, pouco valor têm…parece que a patente da polilaminina, nome dado ao produto de sua descoberta perdeu validade por falta de pagamento a algum órgão internacional.

Ela até pagou do próprio bolso, mas com certeza o comprometimento de sua renda impediu…ah, para onde vão os penduricalhos!

Então, logo teremos na imprensa ou prêmios internacionais alguém que será o pai ou mãe da “descoberta”…tal como Tesla e Edson…quem tem realmente mérito fica esquecido, em detrimento do verdadeiro pesquisador.

Pena, como gostaria de ver reconhecimento a uma pessoa desse naipe….mas, preferem sambar na avenida…

Inté!

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

HOMENAGEM AO POETA DAUDETH BANDEIRA

Conheci, pessoalmente, o poeta Daudeth Bandeira em Porto Velho, Rondônia, numa apresentação em dupla com Oliveira de Panelas, no SESC daquela capital.

Salvo engano, o ano era 1996.

Meu pai, Zé Vicente da Paraíba, falava muito nele e do seu talento na criação de poemas e canções e das andanças poéticas que ambos faziam, como consta neste recorte de jornal que está a seguir, do ano de 1975, em Aracaju-SE:

Poetas repentistas na redação de um jornal sergipano, em 1975. Da esquerda para a direita: Neve Branca, Zé Vicente da Paraíba, Pedro Bandeira, Palmeirinha da Bahia e Daudeth Bandeira.

Ao vir morar em João Pessoa, o reencontrei no Quiosque da Poesia, no bairro Oceania, onde poetas, declamadores, músicos e cantores de vários estilos, se encontravam aos sábados à tarde.

Fui ao seu aniversário de 80 anos, muitos poemas, músicas e fotos naquela noite em sua homenagem.

Oliveira de Panelas, este colunista e o poeta Daudeth Bandeira no SESC de Porto Velho, Rondônia, no ano de 1996.

Hoje, sétimo dia da sua partida, presto-lhe uma singela reverência, lembrando da sua pessoa e da sua obra para o Repente e para a música popular nordestina.

Siga em paz, poeta Daudeth!

Este colunista ao lado do poeta Daudeth Bandeira

* * *

Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!

Mote de Marciano Medeiros

O mastro da poesia
Amanheceu sem o pano
Parte o vate veterano
Da arte da cantoria
Findou-se a sua agonia
Em meio à humanidade
E o passo pra eternidade
Fez a flexão primeira
Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!

Sua “Nordestinação”
Defendida em Festivais
Entrará para os anais
Da história da canção.
Quem decantou o sertão,
O agreste e a cidade
Inspirará, na verdade,
Uma geração inteira.
Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!