JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Ana Cristina Cruz Cesar nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 2/6/1952. Poeta, crítica literária, professora e tradutora, considerada um dos principais nomes da “geração mimeógrafo”, movimento literário da poesia marginal na década de 1970, pela valorização do cotidiano, da liberdade estética e da resistência política.

Filha de Maria Luiza Cesar e Waldo Aranha Cesar, fundador da editora Paz Terra. Foi licenciada em Letras pela PUC-RJ-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1975; cursou o mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja dissertação resultou na publicação do livro Literatura não é documento, publicado em 1980, Uma de suas professoras, Heloisa Buarque de Holanda, incluiu-a em sua antologia 26 Poetas hoje, seleção de talentosos representantes daquela geração.

Foi uma poeta precoce. Aos 6 anos ditava poemas para sua mãe e chegou a escrever um poema com 5 estrofes, que foi publicado no boletim escolar dirigido aos professores do Colégio Bennetti. Deu-lhe o título “Uma poesia de criança”. Em seguida seu talento precoce foi reconhecido pela escritora Lúcia Benedett, que em 1959 publicou o artigo “Poetisas de vestidos curtos” na Tribuna da Imprensa, afirmando: “Ao entregar ao público os versos de Ana Cristina, sinto a mesma natural reação de alguém que vê nascer uma flor num canteiro cultivado. Ana Cristina começou a fazer poemas antes de saber ler e escrever. O mecanismo de escrita ainda não está para ela suficientemente adestrado para correr em socorro de sua inspiração poética”.

Em 1960, manifestou o gosto pela escrita, comprovado no bilhete destinado ao Papai Noel. No bilhete ela pede: “três cadernetas e um bloco grande com pauta”, e continua: “Papai Noel, em todos os meus presentes quero um cartão escrito com a letra do Sr., hein?”. Em 1969 viveu durante um ano na Inglaterra através de intercâmbio escolar e, ao retornar passou a escrever e publicar em revistas e jornais alternativos e seguiu publicando edições independentes. Mais tarde voltou à Inglaterra para fazer um mestrado em tradução e lá escreveu o livro de poemas Luvas de pelica.

Enquanto isso, colaborava com críticas jornalísticas em revistas e revistas brasileiras e internacionais. Sua obra apresenta uma linha fina entre o ficcional e o autobiográfico através de um estilo informal e aparente improviso. Perguntada se sua poesia era racional: “É muito construída, muito penosa”. Segundo o prof. Michel Riaudel, da Universidade Sorbonne e autor do e-book A nebulosa marginal e Ana Cristina Cesar, “ela brinca com as expectativas do seu tempo e simula intimidade, mas mina a linearidade narrativa com cortes, colagens e jogos de palavras. Utilizando uma linguagem com expressões e falas cotidianas, cria textos densos e reflexivos”. Foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty, em 1970.

Sua morte prematura aos 31 anos com o suicídio, contribuiu para alimentar o mistério sobre sua vida. Publicou apenas um livro de poesias distribuído no circuito comercial, em 1982: A teus pés. O poeta Armando Freitas Filho, seu amigo e apresentador da obra, caracteriza sua obra poética com “um tom coloquial, a experiência imediata e cotidiana, captada através de uma escrita sem aura, instantânea, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas da literatura em geral e das vanguardas estabelecidas e dogmáticas”.

Seu interesse pela palavra ficou registrado nos livros publicados e em muitos dos cadernos que estão em seu arquivo aos cuidados do IMS-Instituto Moreira Salles. São estudos, resenhas, poemas, rasuras e mais poemas. Num deles, que data de 1961, aos 9 anos ela já se considerando “autora”, deixa o aviso ao leitor: “Poesias – Só leia se estiver com o coração puro e doce”. Ler com o coração: pressuposto requerido para entender o ritmo ora denso, ora fluido em sua literatura

A poeta precoce faleceu em 29/10/1983, aos 31 anos, Segundo Elizama Almeida, da Coordenadoria de Literatura do IMS, “Se julgamos prematura sua morte, vemos por outro lado que seu início na vida literária, felizmente, também o foi. Com incrível desenvoltura revelada não só nos livros publicados até aquele ano como nos inéditos post-mortem, a autora de A teus pés ainda hoje nos deixa na mesma suspensão em que ficou antes de ir, por vontade própria, ao encontro da “Dama branca”, que, como escreveu Manuel Bandeira, lhe sorriu em todos os desenganos”

Um comentário em “AS BRASILEIRAS: Ana Cristina Cesar

  1. A literatura de a Ana Cristina César nos deixa suspensos e paralisados até hoje. Basta ver o número de comentários em sua breve biografia ora apresentada

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